NO LIMITE DO ATRITO
11 O Peso das Sombras
Notas iniciais
Capítulo 11: O Peso das Sombras
🏎️POV BELLA
A fumaça das queimadas e a umidade denso-cinzenta de São Paulo pareciam ter nos perseguido através do Oceano Pacífico até a ilha de Honshu. O Circuito de Suzuka nos recebia com o seu clássico formato em "8", o vento frio soprado da baía e um céu carregado de nuvens chumbo que prometiam tempestade a qualquer momento. Mas a maior tempestade daquela semana não vinha das frentes frias do Japão; ela havia sido gestada a milhares de quilômetros dali, nas mesas de um restaurante discreto nos Jardins e nos corredores sombrios do Paddock de Interlagos.
A bomba havia estourado na manhã de quarta-feira, antes mesmo de desembarcarmos no aeroporto de Chubu.
Eu estava sentada no sofá de couro do meu motorhome na garagem da Swan, encarando a tela do tablet com as mãos levemente trêmulas. Na tela, em alta definição e com letras garrafais em sites de fofoca internacionais e portais esportivos de grande circulação, estampavam-se as provas do nosso segredo.
A primeira foto, tirada por uma lente teleobjetiva através da janela de vidro de um restaurante sofisticado de São Paulo, mostrava Edward e eu à meia-luz. As flores de corte alto ao fundo, a mesa de madeira nobre e, no centro do enquadramento, os meus dedos entrelaçados nos dele. Edward ria de algo que eu dizia, com um olhar de devoção crua que nenhum fã de Fórmula 1 jamais testemunhara no rosto do "Príncipe de Prata" da Cullen Racing.
A segunda imagem era ainda mais comprometedora: uma captura no Paddock de Interlagos, gravada no corredor reservado atrás das garagens. A câmera flagrara o exato segundo em que ele me prensava suavemente contra a parede, sussurrando contra os meus lábios enquanto a minha mão repousava sobre a camiseta preta da sua equipe.
“O PACTO DE INTERLAGOS: Rivalidade inventada ou romance de bastidor? Como a Lince e o Herdeiro dos Cullen enganaram a FIA e seus patrocinadores.”
A manchete era como um soco no estômago.
— Você tem noção do desastre que isso representa para as nossas ações, Isabella?! — a voz de Charlie ecoou como um trovão dentro do ambiente fechado, fazendo a porta de correr chacoalhar nos trilhos.
Meu pai entrou no motorhome com uma xícara de café preto em uma mão e o relatório financeiro do conselho gestor na outra. O rosto dele, habitualmente calmo e focado, estava vermelho de pura tensão acumulada. Ele jogou o papelada sobre a mesa de centro, exatamente sobre as fotos impressas da mídia.
— A Shell e a Santander estão no telefone há três horas seguidas! — Charlie continuou, gesticulando com veemência. — O conselho da Swan está questionando se a sua agressividade na pista é real ou se tudo não passa de uma encenação combinada com o garoto dos Cullen! A rivalidade entre as nossas famílias construiu o valor de mercado dessa equipe. A lembrança do seu irmão... o sacrifício que fizemos para manter essa garagem aberta... tudo isso fica reduzido a fofoca de tabloide porque você não conseguiu manter o profissionalismo!
— Pai, chega! — levantei-me de golpe, sentindo a raiva e a culpa se chocarem no meu peito de forma sufocante. — Não tem encenação nenhuma na pista! Eu ganhei em Interlagos por quatro milésimos de segundo! Eu quase rasguei o carro no muro da subida dos boxes! Você acha mesmo que eu facilitaria para o Edward por causa de... por causa de um sentimento?!
— Não é o que eu acho, Bella, é o que o mundo está achando! — Charlie apontou para a porta. — Carlisle Cullen acabou de convocar uma reunião de emergência com os advogados da F1. O circo está pegando fogo. E se você perder o foco neste final de semana em Suzuka, se o seu rendimento cair um segundo sequer porque a sua cabeça está no piloto da Porsche... eu mesmo tiro você do cockpit antes de Abu Dhabi.
As palavras dele cortaram o ar com a precisão de uma lâmina. Charlie saiu, batendo a porta com força, deixando para trás apenas o eco do meu próprio pânico moral.
Apertei os olhos, sentindo as sêmolas de raiva brotarem no fundo da garganta. O medo de perder a minha identidade na pista, de ser lida não como a pilota brilhante que havia conquistado duas vitórias consecutivas, mas como a "namorada do herdeiro Cullen", começou a metastasear dentro de mim, transformando a paixão das semanas anteriores em uma paranoia cega.
Caminhei até o motorhome da Cullen Racing a passos rápidos, ignorando os flashes dos fotógrafos que se acotovelavam ao longo da grade de proteção do paddock. As pessoas cochichavam, apontavam os celulares e riam. Cada olhar parecia uma acusação de que a Lince havia sido domesticada.
Sem bater, empurrei a porta do escritório privado de Edward.
Ele estava lá dentro, sozinho, vestindo o macacão azul já puxado até a cintura, ajustando as sapatilhas de corrida. Quando me viu entrar, o rosto dele se iluminou com uma mistura instantânea de alívio e afeição.
— Bella... — ele deu um passo à frente, abrindo os braços para me acolher. — Eu tentei ligar para o seu celular. O Jasper está em pânico com os patrocinadores, mas eu já disse para o meu pai que não dou a mínima para...
— Fecha a porta, Edward — cortei-o com a voz fria como gelo, dando um passo para trás e evitando o toque dele.
Edward parou no meio do caminho, os braços caindo devagar ao lado do corpo. O sorriso dele desapareceu, dando lugar a uma franzida de testa preocupada.
— O que foi? O que aconteceu?
— O que aconteceu? — soltei uma risada sarcástica, cruzando os braços e me encostando na bancada de alumínio. — Olhe ao seu redor! Olhe para a porra do paddock inteiro rindo da minha cara! O meu pai acha que eu estou vendendo as corridas da Swan para você! A imprensa está dizendo que a minha vitória em São Paulo foi um presente do namorado... É isso que aconteceu!
— Bella, você sabe que isso é mentira da mídia — Edward falou, mantendo a voz pausada, tentando aproximar-se com cuidado, como se tratasse de um animal arredio. — Nós sabemos o que aconteceu na pista. Ninguém nos deu nada. Nós corremos como dois loucos em Interlagos. Não deixa a fofoca dos jornais entrar na sua cabeça...
— Não é só a fofoca, Edward! É a forma como você lidou com isso! — avancei um passo, a fúria e o pavor transbordando sem controle. — Aquelas flores... as rosas no meio do salão de imprensa... o restaurante em São Paulo onde você fez questão de sentar na janela principal! Você queria ser pego, não queria?!
Edward piscou, visivelmente chocado com a acusação. Os olhos verdes dele escureceram, a calmaria britânica dando os primeiros sinais de trincamento.
— O quê? Você está maluca? Eu levei você para jantar porque queria ter uma noite normal com a mulher que eu amo! Eu mandei as rosas porque eu prometi que ia fazer isso! Eu não montei uma armadilha, Bella!
— Mas pareceu! — gritei, a voz falhando ligeiramente pela comoção. — Para você é muito fácil, não é?! Você é o herdeiro de ouro! Se você namora a rival, você é o garanhão romântico que conquistou a pista! Mas para mim? Eu sou a garota que perdeu o foco! A garota que está trocando a memória do próprio irmão e o legado da equipe por um romance de bastidor com o garotinho bonito da Porsche!
A menção a Emmett fez o ar no quarto ficar denso e insuportável. Edward deu um passo para trás, como se tivesse levado um soco físico no peito. O semblante dele endureceu, a mandíbula travando com uma força impressionante.
— Não coloca o Emmett nisso, Bella... — ele disse, a voz descendo para um tom perigosamente baixo e ríspido. — Eu arrisquei a minha reputação, eu enfrentei o Carlisle, eu disse para o mundo que estou apaixonado por você sem medo de nenhum contrato de patrocínio. Eu não estou jogando. Eu dei o meu coração para você, e você está agindo como se eu estivesse tentando sabotar a sua carreira!
— Porque o seu amor está destruindo tudo o que eu levei a vida inteira para construir! — as palavras saíram da minha boca antes que o meu cérebro pudesse contê-las, impulsionadas pelo pavor visceral de ser engolida pela sombra da família Cullen. — A rivalidade vem primeiro, Edward! Ela sempre veio primeiro! Se nós não conseguimos pisar no paddock sem que a minha equipe desmorone e a minha autoridade como pilota seja destruída, então isso entre nós foi um erro absurdo!
O silêncio que se seguiu foi devastador.
Edward ficou imóvel, encarando-me fixamente. Não havia mais calor nos olhos dele, apenas uma dor profunda e uma decepção fria que fez o meu próprio peito sangrar por dentro.
— Um erro... — ele repetiu as palavras lentamente, degustando o amargor de cada sílaba. Ele soltou uma risada amarga, balançando a cabeça. — É assim que você chama o que nós vivemos? O nosso amor? Um erro de cálculo na telemetria da sua ambição?
— Nós somos rivais, Edward — forcei-me a dizer, sustentando o olhar dele enquanto as minhas entranhas se retorciam em agonia. — E se você não consegue entender que a minha prioridade é o campeonato e a honra da Swan, então nós não temos mais nada para conversar. Acabou. Esquece o namoro, esquece o pacto. De volta ao zero.
Edward deu um longo suspiro, ajeitando a gola da sua camiseta preta. Ele me encarou por mais três segundos — três segundos nos quais pareceu erguer novamente todas as muralhas de gelo que ele havia levado meses para derrubar.
— Como você quiser, Swan — ele falou, a voz fria, distante e impecavelmente polida, a mesma voz que ele usava para dar entrevistas protocolares à imprensa. — A corrida de Suzuka começa em duas horas. Se você quer rivalidade... pode ter certeza de que vai encontrar a pior versão de mim na pista. Agora, por favor, saia do meu motorhome.
Virei as costas e saí, sem olhar para trás.
Enquanto caminhava sob a névoa fria do Japão, sentindo as lágrimas queimarem o fundo dos meus olhos sob o capacete que eu em breve teria que vestir, a verdade crua me atingiu: nós tínhamos acabado de declarar guerra um ao outro. E quando duas forças incontroláveis se chocam no asfalto com o coração cheio de mágoa e ódio reprimido, o desastre deixa de ser uma possibilidade e se torna apenas uma questão de tempo.
🏎️ POV Edward
O som da porta do motorhome se fechando atrás de Bella não pareceu um impacto físico, mas sim o som de uma gaveta de necrotério sendo selada.
Fiquei parado no centro da sala, encarando a madeira escura da porta por longos segundos. O cheiro do perfume dela, aquela mistura inconfundível de morango silvestre e o calor da sua pele, ainda pairava no ar frio do Japão, impregnado no estofado do sofá e na minha própria pele. Mas ela tinha ido embora. E, com ela, todo o ar do meu peito parecia ter sido drenado para o vácuo de Suzuka.
Soltei o ar que nem sabia que estava segurando e passei as mãos pelo rosto com força, sentindo uma pontada aguda de dor na têmpora. Minhas pernas fraquejaram e me deixei cair na cadeira da bancada de telemetria. Um erro. As palavras dela ecoavam na minha mente como um alarme de sobregiro do motor, cortando cada fibra de orgulho que eu ainda tinha.
Apertei os punhos sobre a mesa com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. Eu havia me despido de toda a minha arrogância britânica, desafiado o meu pai, peitado patrocinadores mundiais e entregado o meu coração sem nenhuma garantia... para ser descartado como um ajuste incorreto na asa dianteira.
A porta do escritório se abriu devagar. Pelo reflexo do monitor desligado, vi as figuras de Jasper Hale e Carlisle Cullen entrarem.
Jasper trazia o capacete reserva na mão e o rádio da equipe já ajustado no pescoço. O rosto do meu estrategista estava tenso, carregado daquela gravidade de quem sabe que o mundo lá fora está ruindo. Já Carlisle vestia o jaquetão escuro da Cullen Racing, com a postura impecável de sempre, mas os seus olhos azuis traziam um peso diferente, o olhar de um pai que conhece exatamente o limite do filho.
— Ela acabou de sair pelo portão lateral do paddock — Jasper começou, a voz baixa, testando o terreno com cuidado. — A imprensa praticamente atropelou dois mecânicos da McLaren tentando tirar uma foto dela. Edward... faltam noventa minutos para o treino de aquecimento. O grid de Suzuka está em alerta amarelo por causa da névoa. Você precisa vestir a parte de cima do macacão e...
— Me deixa em paz, Jasper — murmurei, sem me virar para encará-los, a voz saindo mais rasgada e rouca do que eu pretendia.
— Edward — a voz firme e pausada de Carlisle cortou o ambiente. Meu pai deu três passos à frente, pousando uma das mãos pesadas sobre o meu ombro esquerdo. O toque dele era quente, paternal, desprovido da cobrança corporativa que eu esperava. — O Jasper está apenas preocupado com a sua segurança. Você está com a telemetria cardíaca alterada desde ontem à noite. O que aconteceu aqui dentro?
Fechei os olhos por um instante. A dor no meu peito era tão visceral que chegava a ser ridícula para um homem adulto de trinta anos que pilotava a mais de trezentos quilômetros por hora.
— Ela me largou — soltei de uma vez, a rir amargamente, um som sem nenhuma alegria que se perdeu pelo quarto. Virei a cadeira para encará-los. — Satisfeito, pai? Era isso que você e o conselho queriam, não era? O grande romance de bastidor acabou. A Lince achou que o meu amor era uma ameaça à carreira brilhante dela e jogou tudo no lixo.
Jasper respirou fundo, trocando um olhar rápido com Carlisle antes de se encostar na parede, cruzando os braços.
— Edward... a situação com os patrocinadores fugiu do controle em São Paulo — Jasper pontuou, tentando manter a neutralidade de um engenheiro de dados. — As fotos de vocês dois nos jornais deram margem para a imprensa questionar a integridade do campeonato. O Charlie Swan pressionou a Bella de uma forma brutal nesta manhã. Ele ameaçou tirar o assento dela se ela perdesse o foco. Ela é jovem, está liderando o mundial pela primeira vez e...
— Eu não dou a mínima para o Charlie Swan ou para os patrocinadores! — esbravejei, ficando de pé num impulso que fez a cadeira rodar para trás. Encarei os dois com o peito arfando, a fúria e o desespero lutando por espaço na minha voz. — Vocês não entendem?! Eu não estava jogando! Eu não dei aquelas rosas em Interlagos para aparecer nos tabloides! Eu não levei a Bella para jantar para desestabilizar a Swan! Eu fiz isso porque eu a amo! Eu sou completamente, irrevogavelmente apaixonado por aquela garota!
O silêncio que caiu no motorhome foi absoluto. Jasper piscou, surpreso pela intensidade crua da minha confissão, enquanto Carlisle permanecia em silêncio, observando cada fração da minha dor com um olhar dolorosamente humano.
— Eu passei a minha vida inteira sendo o piloto perfeito, o filho perfeito, o lorde britânico que não erra uma tangência de curva e não demonstra emoção — continuei, o tom de voz caindo para um sussurro embargado, a garganta queimando. — Mas quando eu estou com a Bella... quando eu olho para ela naquela pista ou quando ela está nos meus braços... eu sinto que finalmente estou vivo. E ela olhou na minha cara agora e disse que tudo o que vivemos foi um erro. Que a rivalidade vem primeiro.
Carlisle deu mais um passo na minha direção. O homem que construiu um império no automobilismo mundial não parecia mais o dono da equipe; era apenas o meu pai. Ele segurou o meu rosto com as duas mãos, me obrigando a olhar diretamente nos olhos dele.
— Ouça o que eu vou te dizer, meu filho — Carlisle falou, a voz mansa, mas impregnada de uma autoridade inabalável. — Eu sei o quanto a família Swan carrega de dor por causa do que aconteceu com o Emmett. Eu sei que o Charlie criou a Bella para ser um escudo de aço contra o mundo, para que nada e ninguém pudesse machucá-la de novo. Quando a imprensa ameaçou a reputação dela, ela não reagiu com o coração... ela reagiu com o medo.
Ele fez uma pausa, apertando levemente os meus ombros.
— Ela está assustada, Edward. Assustada com o peso do nome Swan, assustada com a imprensa e, acima de tudo, assustada com o tamanho do sentimento que você desperta nela. Amar alguém no nosso meio, onde o perigo é real e a cobrança é esmagadora, exige uma coragem que nem todo mundo tem no primeiro momento.
— Ela me mandou embora, pai — respondi, engolindo o nó na garganta, sentindo a minha alma sangrar. — Ela disse que se eu quisesse rivalidade, era o que eu teria na pista.
— Então dê a ela o que ela pediu na pista — Carlisle disse, o olhar dele brilhando com uma sabedoria antiga. — Mostre a ela o piloto extraordinário que você é. Mas não faça isso com ódio ou mágoa, Edward. A pista de Suzuka não tolera raiva cega. Se você entrar naquele carro com a cabeça cheia de vingança, você vai se destruir e vai destruir a garota que você ama.
Jasper se aproximou, estendendo a parte de cima do meu macacão azul e a balaclava.
— Ele tem razão, cara — Jasper falou, a voz agora carregada de uma empatia genuína de amigo. — Você e a Bella são os dois maiores talentos que este esporte já viu nas últimas décadas. Se o romance de vocês tem que pausar para que ela entenda o que realmente importa, que seja. Mas agora... vista esse macacão. A torcida japonesa está gritando o seu nome lá fora e a pista está esperando.
Encarei o tecido azul da Cullen Racing em minhas mãos. Respirei fundo, deixando a dor da rejeição se transformar em algo mais denso, em um combustível frio e concentrado. Carlisle tinha razão. Se Bella precisava do meu pior na pista para se lembrar de quem eu era, ela teria a corrida da vida dela.
Puxei o macacão pelos ombros, fechei o zíper até o pescoço e peguei o meu capacete sobre a bancada. A balaclava cobriu o meu rosto, escondendo a mágoa que ainda queimava nos meus lábios, deixando visíveis apenas os meus olhos verdes através da viseira.
— Diga à engenharia de pista para ajustar o aerofólio para pressão máxima no setor dois — ordenei a Jasper, a minha voz voltando a ser a lâmina afiada que o paddock conhecia. — Se a Bella quer guerra em Suzuka... eu vou dar a ela uma corrida que ela jamais vai esquecer.
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