NO GOD: But vampires yés
2 Cápitulo 2: Sol Negro
Notas iniciais
“O sol se tornará em trevas e a lua em sangue, antes que venha o grande e glorioso Dia do Senhor”. Atos 2:20.
Eu acabara de sair de um cochilo, graças a uma doce cotovelada no meio das costelas. A luz do sol fulminou os meus olhos e baixei o meu capelo para conseguir olhar o mar de adolescentes à minha frente que usavam aquela beca ridícula e quente, com sorrisos orgulhosos no rosto, como senão soubesse que não passávamos mais do que aperitivos para as criaturas da noite.
― Hoje temos a honra de apresentar a 40º turma de formandos do ensino fundamental. ― disse um senhor de baixa estatura, vestindo um palitó e calça social cor de caramelo e uma brega gravata listrada, branca e verde. ― Estamos muito confiantes com esses prodígios que cumpriram seus estudos em apenas 3 meses.
Eu revirei os olhos. O mundo mudou muito em sete anos desde o apocalipse. Primeiramente, o mundo que eu e vocês, que estão lendo, conhecíamos, se foi. Tudo funciona muito bem de dia, mesmo com o sol de trevas sob as nossas cabeças.
O sol de trevas deixava o mundo com uma eterna lente de instagram. As cores, a profundidade, nada era igual a como antes. Ele não esquentava, não nutria os humanos com vitamina D ou permitia que as plantas crescessem totalmente saudáveis. Já a noite era caótica, graças a lua de sangue, mas isso contarei em outra oportunidade.
― Por que você não pode ser uma boa pessoa, uma vez na vida? ― disse uma garota ao meu lado e dona da cotovelada que levei.
― Porque eu não sou, Sany. ― respondi com um sorriso.
Sany era uma garota doce, engraçada e tagarela. Ela estava se formando como eu, mas estava tão ansiosa com o ensino médio que não prestava atenção à uma palavra sequer do Senhor Portman. Na verdade, ela estava travando uma batalha contra seu capelo, pois ele sambava em sua cabeça por conta do emaranhado de tranças rastafaris que caiam até metade das suas costas.
― Já escolheu as aulas que você vai cursar? ― eu balancei a cabeça, dizendo que não e ela abriu a boca com uma feição de revolta. ― Daynian Philip Dilan! Nós podemos ser a salvação do mundo! Tente ser mais responsável.
Isso era o que realmente todos os adultos incompetentes do mundo diziam. Um dia após as criaturas da noite chegarem, metade da população mundial ( que restou) havia sido dizimada. Nem todos os séculos de filmes e séries sobre monstros foram capazes de nos preparem ou nos garantirem a sobrevivência diante deles.
Pouco a pouco, os adultos foram trabalhando para construir armadilhas e estruturas internas que garantissem a sobrevivência dos poucos humanos que restauram. Os jovens largaram faculdades e ensino médio para aprenderem sobre técnicas de combate, escrituras sagradas e manuseio de armas de todo tipo. A maioridade foi reduzida para quatorze anos e aqui estamos nós, a quadragésima turma, ou seja, as outras trinta e nove não tiveram muito êxito.
― Olha só! ― a menina negra desistiu de seu capelo e me mostrou uma papel enrolado que era, na verdade, o seu horário na única escola de ensino médio da cidade. ― Hollydale High , aí vamos nós.
― “Introdução a Wicca”? “Introdução a alquimia”? “História dos illuminatis 1”? ― fora dezenas de cursos e indagações de grupos de estudos ocultistas que não atrapalhassem ou se chocassem com as aulas obrigatórias. ― Sany, você quer ser...
― SIM! ― saiu mais eufórico do que ela pretendia. ― Depois de muito pensar, eu descobri que quero ser uma bruxa. Ai, Day, como posso dizer isso? Acho que tenho um crush em Satã.
Eu ergui as minhas sobrancelhas e olhei a pretensa feiticeira com olhar de pouco caso. Sany tem os pais mais super-protetores do mundo, imagino como eles reagiriam com uma filha feiticeira.
― Mas não teve nada extra-curricular que te interessou?
― Eu mal olhei na verdade... ― ela me deu uma segunda cotovelada. ― Cara! Para com isso!
― Pera ai! ― ela tomou o meu horário e ficou abismada por ver apenas matérias obrigatórias demarcadas. ― Nós só faremos Demonologia e Introdução às criaturas da noite, juntos.
― E as aulas de laboratório?
― Eu deixarei mais pra frente. Eu descobri que existe um grupo de estudo dos manuscritos de antiga Salém. Tem noção? Bruxas de verdade.
― Não se esqueça que o permitido pela lei é a Wicca. Bruxaria pesada te deixaria com um alvo nas costas para o governo. Ocultismo é perigoso para as criaturas da noite e não menos para nós.
― Fica tranquilo que não me tornarei “perigosa”, Sr Dilan.
Quando o Sr Portman terminou, nós tivemos que fingir empolgação e lançar nossos capelos para o ar. O que nenhum daqueles adolescentes perceberam é que aquele capelo era muito mais que o símbolo da queda do ensino fundamental. Ele representava o fim da nossa infância, adolescência e vida normal.
Agora não éramos mais crianças. Éramos homens e mulheres com a missão nos ombros de lutar pelos adultos covardes que se escondem atrás de suas barreiras de raios UV. Éramos o gado reprodutor com a missão de dar continuidade a humanidade.
Não éramos mais que pedaços de carne para os monstros e não éramos mais do que números para os humanos.
― Te vejo, hoje a noite, na escola?
― Infelizmente! ― ela me abraçou e foi comemorar com sua família. ― Aproveite a sua família, Sany.
Meu pai estava na fábrica de armas que funcionava no período diurno, portanto, não tinha ninguém sanguíneo meu, para comemorar essa desgraça. Eu encarei o sol de trevas que mais parecia um eclipse eterno e me lembrei daquele dia.
Eu estava jogado no chão, ainda atordoado com a explosão, aguardando socorro, aguardando meus pais aparecerem e tudo que via era o sol no céu. O tom amarelo ia desaparecendo e eu achei que era aquele fenômeno natural que a vista promove para que a mesma não seja machucada pelo excesso de luz, mas não.
Todos os adultos pararam de correr e fugir para encarar o sol. O maior astro do sistema solar enegrecia, diminuindo exponencialmente a sua luz e calor. Eu pude até jurar que cristais de gelo começavam a cobrir a grama e a superfície da pele das pessoas.
Eu fui sentindo a minha visão ficando turva, o estômago embrulhando, a pressão arterial descendo ladeira abaixo e a consciência se despedindo.
Daynian Philip Dilan, 14 anos
01 de Março de 2007.
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