Jacob Black entrou no imenso hall da mansão Cullen acompanhado por Harry. O piso de mármore refletia a luz suave dos lustres, e o ar tinha aquele perfume discreto de casas antigas e ricas.

À frente, o prefeito Edward Cullen se aproximou com um sorriso político ensaiado. Ao seu lado estava Isabella Cullen, elegante e serena, e Henry, o filho mais novo do casal, que cumprimentou Jacob com um aceno tímido.

E então ela apareceu.

Renesmee Cullen, com o mesmo olhar intenso que herdara do pai, mas uma postura própria, confiante. Seu vestido simples contrastava com o ambiente luxuoso, e os cabelos ruivos caíam sobre os ombros.

Os olhos de Jacob encontraram os dela. Foi um instante, mas o suficiente para que ambos percebessem algo — reconhecimento, curiosidade… ou talvez perigo.

Edward fez as apresentações.

— Senhor Black, esta é minha filha, Renesmee.

Jacob se aproximou e, mantendo a formalidade, inclinou levemente a cabeça.

— Senhorita Cullen. Já li muitas matérias suas.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Inclusive a denúncia sobre o despejo irregular das Indústrias Black?

Jacob não desviou o olhar.

— Li, sim. E achei que a senhorita fez o trabalho dela… assim como os meus advogados fizeram o trabalho deles.

Um leve sorriso surgiu nos lábios dela, como se apreciasse a honestidade.

— Então concordamos que foi apenas jornalismo.

— Apenas jornalismo. — repetiu ele, com a voz baixa e controlada.

Edward, percebendo a tensão e a faísca na conversa, interveio com o tom caloroso de anfitrião.

— Senhor Black, por que não nos acompanha até a sala de jantar? Podemos conversar melhor enquanto tomamos um lanche.

Renesmee ajeitou a bolsa no ombro.

— Vou ter que recusar. Tenho um compromisso.

— Claro. — disse Jacob, ainda a observando enquanto ela se afastava pelo corredor.

Edward fez um gesto para que Jacob o seguisse. Harry ficou um passo atrás, atento.

O som dos sapatos ecoou pelo corredor até que chegaram à ampla sala de jantar, onde uma mesa posta os aguardava.


A sala de jantar dos Cullen era ampla, com janelas altas que deixavam entrar a luz cinzenta do final de tarde. A mesa estava impecavelmente posta, mas o centro das atenções era a conversa que se desenrolava.

Um dos empregados serviu uma xícara de café diante de Jacob. O aroma forte subiu no ar enquanto Edward Cullen, sentado à cabeceira, falava com a calma de quem já havia ensaiado cada palavra.

— Senhor Black, a cidade está num ponto de virada. Precisamos de aliados sólidos e respeitáveis para garantir que a próxima gestão tenha apoio popular e empresarial.

Jacob, sem tocar no café ainda, manteve o olhar fixo no prefeito.

— E suponho que o senhor me considere… respeitável?

Edward esboçou um sorriso.

— Não só respeitável. Idôneo. Um homem que construiu um império e manteve sua imagem limpa. É exatamente esse tipo de nome que preciso ao meu lado.

Jacob tomou um gole do café antes de responder.

— E qual vantagem eu teria se der esse apoio?

Edward se inclinou ligeiramente para frente.

— Influência. Segurança para seus negócios. E a certeza de que, nos próximos anos, qualquer projeto que o senhor quiser tirar do papel não encontrará barreiras políticas.

Jacob desviou o olhar para Harry, que estava em pé, silencioso, atrás dele. Harry manteve a expressão neutra, mas um leve aceno confirmou que a proposta era estratégica. Jacob voltou-se para Edward.

— Está certo. Dou meu apoio à sua campanha. Harry ficará encarregado das prestações de contas.

O sorriso de Edward se alargou.

— Será como o senhor Black quiser. — Fez uma pausa, avaliando o momento. — Posso anunciar oficialmente nossa aliança no Baile de Outono de Seattle?

Jacob apoiou a xícara no pires.

— É claro. Estarei presente.

Edward estendeu a mão sobre a mesa. Jacob a apertou, firme, selando o acordo.



Seattle já estava coberta pelo manto úmido da noite. As luzes de néon refletiam nas poças da calçada quando Renesmee Cullen saiu do prédio do Seattle Daily Chronicle, o jornal onde trabalhava. Ela ajeitou o casaco, pronta para chamar um táxi, quando o celular vibrou em seu bolso.

— Alec? — atendeu, ainda caminhando.

A voz do namorado veio carregada de um nervosismo estranho.

— Nessie… preciso falar com você. Hoje.

— O que aconteceu? — ela franziu o cenho.

— Encontra comigo no Blue Lantern Bar. É sério.

O tom dele não deixava espaço para discussões. Renesmee suspirou, ergueu a mão e parou um táxi. A corrida foi silenciosa, apenas o som abafado da chuva batendo no vidro.

Quando entrou no Blue Lantern, o cheiro de álcool e fumaça de cigarro quase a fez recuar. Seus olhos logo encontraram Alec — não sozinho, como esperava, mas cercado de dois amigos, três mulheres e várias garrafas vazias sobre a mesa.

Ela ergueu uma sobrancelha e caminhou até ele.

— Pelo visto, o assunto era urgente…

Alec, com o olhar turvo, inclinou-se para frente.

— Você já sabe, não é? Que seu querido pai descartou os Volturi como se fossem lixo político.

Renesmee respirou fundo, controlando a irritação.

— Você está bêbado. E eu sempre deixei claro: a nossa relação não tem nada a ver com os negócios das nossas famílias.

Ele a encarou com um meio sorriso amargo.

— Então… quer dizer que você também está me descartando?

— Amanhã, quando estiver sóbrio, a gente conversa. — Ela se virou para ir embora.

Mas Alec levantou-se rapidamente, segurando seu braço antes que ela alcançasse a porta.

— Você não vai sozinha.

— Você não pode dirigir nesse estado.

Um dos amigos, já meio cambaleante, levantou a mão.

— Eu dirijo.

Renesmee hesitou. O instinto gritava para recusar, mas Alec já a empurrava suavemente em direção ao veículo estacionado do lado de fora. O ar frio da rua bateu em seu rosto.

Ela entrou no banco traseiro, o desconforto crescendo no peito. Alec entrou ao seu lado, jogando o braço sobre o encosto, enquanto o amigo assumia o volante e outro rapaz ocupava o banco do passageiro.

O motor roncou. O carro partiu, deixando para trás o brilho seguro das ruas iluminadas.


O carro cortava as ruas molhadas, afastando-se cada vez mais do centro iluminado de Seattle. Renesmee percebeu o desvio quando reconhecer as vitrines e cruzamentos tornou-se impossível.

— Alec… esse não é o caminho pra minha casa. — Sua voz estava firme, mas o coração já batia acelerado.

Ele apenas riu, inclinando-se para mais perto.

— Relaxa, Nessie. Estamos só dando uma volta. — E, sem aviso, tentou beijá-la.

Ela o empurrou com força.

— Para com isso! Eu falei pra parar o carro!

Os dois amigos na frente trocaram olhares e riram. O motorista virou para a esquerda, entrando em ruas estreitas e mal iluminadas, até que chegaram a uma área afastada do subúrbio — Georgetown, um bairro industrial quase deserto à noite. O carro parou em um beco úmido, cercado por paredes grafitadas e lixeiras.

Alec deslizou a mão pela perna dela, ignorando a resistência.

— Você vai gostar… só precisamos apimentar a relação.

O pânico tomou conta dela. Renesmee empurrou o peito dele e tentou destravar a porta, mas a trava parecia emperrada.

— Me deixa sair!

O rapaz no banco do passageiro virou-se e disse com um sorriso frio:

— Relaxa, princesa. Não complica.

Ela gritou, a voz ecoando pelo beco.

— SOCORRO!

Alec tentou abafar seu grito com a mão. Lá fora, o vento carregava o som distante de um motor potente que se aproximava.

O rugido grave da moto cortava o silêncio das ruas úmidas de Georgetown. Nightwolf acelerava pela faixa deserta, o vento frio batendo no visor do capacete. No fone interno, a voz de Henry ecoou com urgência:

— Nightwolf, outro assalto registrado na 7th Avenue, setor industrial.

Jacob apertou o punho no acelerador.

— Entendido. Estou a caminho.

Ele acabara de deixar para trás um beco onde três ladrões de loja estavam amarrados, a marca do lobo gravada na parede com spray branco. Mas, ao passar por um cruzamento estreito, um som diferente cortou o ar. Não era um disparo. Não era o motor de outro veículo.

Era um grito. Agudo. Desesperado.

Jacob freou bruscamente, a moto derrapando levemente no asfalto molhado. Seguiu o som até um beco lateral. Ali, sob a luz trêmula de um poste quebrado, um sedã preto estava estacionado. Pela janela, ele viu a cena — três homens dentro do carro, um deles prensando uma garota contra o banco.

O sangue de Jacob ferveu.

Em segundos, ele avançou. Com um golpe seco, quebrou o vidro traseiro com o cotovelo blindado, agarrando o primeiro agressor pela gola e o puxando para fora. O homem mal teve tempo de gritar antes de ser lançado contra a parede do beco.

O segundo tentou reagir, mas foi arrastado pela porta do passageiro, girado no ar e atirado contra uma pilha de caixotes.

Dentro do carro, Renesmee Cullen estava em choque, o vestido rasgado, a respiração descompassada. Ela olhava com os olhos arregalados para a figura de preto que, um a um, arrancava seus agressores de dentro do veículo.

Por último, Alec foi puxado pela gola, as pernas tentando se firmar no chão. Jacob o arremessou contra o capô do carro, o impacto reverberando no metal.

Tremendo, Renesmee empurrou a porta e saiu, tropeçando para fora do carro. Lágrimas escorriam pelo rosto, e ela mal conseguia processar o que via.

Diante dela, sob a chuva fina, estava a figura que até então só existia em matérias de jornal e sussurros de rua: um homem de preto da cabeça aos pés, máscara cobrindo o rosto, o símbolo do lobo prateado no peito.

Nightwolf.

Por um instante, o tempo pareceu parar. A lenda urbana era real… e olhando diretamente para ela.


O som metálico ecoou no beco quando Alec e os dois amigos se recomporam, fúria nos olhos.

— Quem diabos você pensa que é? — Alec rosnou, cuspindo no chão.

Um dos comparsas puxou uma barra de ferro do porta-malas. O outro imitou o gesto.

Nightwolf ficou imóvel, a respiração controlada, os músculos relaxados, como um predador prestes a atacar.

— Última chance de recuarem.

— Vai pro inferno! — Alec avançou primeiro, a barra de ferro girando no ar.

Jacob desviou com um passo lateral e um golpe rápido no cotovelo. O som seco do osso deslocando fez Alec soltar a arma com um grito estrangulado. Antes que ele caísse, Jacob o empurrou contra a parede.

O segundo homem veio por trás, mas Nightwolf girou, bloqueou o golpe e o derrubou com um chute no estômago que o fez voar para trás e cair sobre um amontoado de lixo.

O terceiro tentou correr, mas Jacob o alcançou, torceu-lhe o braço e o jogou no chão com força suficiente para arrancar o ar de seus pulmões.

Alec, segurando a mão quebrada, xingava entre dentes. Jacob o fitou de cima, o olhar frio por trás da máscara. Sem dizer nada, retirou um feixe de abraçadeiras da cintura e, em poucos segundos, prendeu os três lado a lado, caídos no chão molhado.

Em seguida, tirou um pequeno spray prateado e, no muro atrás deles, desenhou o símbolo do lobo — sua marca registrada.

Renesmee, ainda trêmula, assistia à cena. Quando Nightwolf se aproximou, ela recuou instintivamente, mas sua voz saiu firme, apesar do pânico:

— Eu… eu estou bem.

Ele a olhou por alguns segundos, reconhecendo o rosto.

— Renesmee Cullen…

Ela hesitou.

— Sim…

— A polícia vai chegar em três minutos. — A voz grave, quase um sussurro. — Não olhe para trás.

Sem mais uma palavra, Jacob se afastou, subiu na moto e, com o rugido do motor, desapareceu na noite, deixando apenas a marca do lobo e o eco distante da lenda.