NIGHTWOLF- Blood & Roses
3 Lenda Urbana
Jacob Black entrou no imenso hall da mansão Cullen acompanhado por Harry. O piso de mármore refletia a luz suave dos lustres, e o ar tinha aquele perfume discreto de casas antigas e ricas.
À frente, o prefeito Edward Cullen se aproximou com um sorriso político ensaiado. Ao seu lado estava Isabella Cullen, elegante e serena, e Henry, o filho mais novo do casal, que cumprimentou Jacob com um aceno tímido.
E então ela apareceu.
Renesmee Cullen, com o mesmo olhar intenso que herdara do pai, mas uma postura própria, confiante. Seu vestido simples contrastava com o ambiente luxuoso, e os cabelos ruivos caíam sobre os ombros.
Os olhos de Jacob encontraram os dela. Foi um instante, mas o suficiente para que ambos percebessem algo — reconhecimento, curiosidade… ou talvez perigo.
Edward fez as apresentações.
— Senhor Black, esta é minha filha, Renesmee.
Jacob se aproximou e, mantendo a formalidade, inclinou levemente a cabeça.
— Senhorita Cullen. Já li muitas matérias suas.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Inclusive a denúncia sobre o despejo irregular das Indústrias Black?
Jacob não desviou o olhar.
— Li, sim. E achei que a senhorita fez o trabalho dela… assim como os meus advogados fizeram o trabalho deles.
Um leve sorriso surgiu nos lábios dela, como se apreciasse a honestidade.
— Então concordamos que foi apenas jornalismo.
— Apenas jornalismo. — repetiu ele, com a voz baixa e controlada.
Edward, percebendo a tensão e a faísca na conversa, interveio com o tom caloroso de anfitrião.
— Senhor Black, por que não nos acompanha até a sala de jantar? Podemos conversar melhor enquanto tomamos um lanche.
Renesmee ajeitou a bolsa no ombro.
— Vou ter que recusar. Tenho um compromisso.
— Claro. — disse Jacob, ainda a observando enquanto ela se afastava pelo corredor.
Edward fez um gesto para que Jacob o seguisse. Harry ficou um passo atrás, atento.
O som dos sapatos ecoou pelo corredor até que chegaram à ampla sala de jantar, onde uma mesa posta os aguardava.
A sala de jantar dos Cullen era ampla, com janelas altas que deixavam entrar a luz cinzenta do final de tarde. A mesa estava impecavelmente posta, mas o centro das atenções era a conversa que se desenrolava.
Um dos empregados serviu uma xícara de café diante de Jacob. O aroma forte subiu no ar enquanto Edward Cullen, sentado à cabeceira, falava com a calma de quem já havia ensaiado cada palavra.
— Senhor Black, a cidade está num ponto de virada. Precisamos de aliados sólidos e respeitáveis para garantir que a próxima gestão tenha apoio popular e empresarial.
Jacob, sem tocar no café ainda, manteve o olhar fixo no prefeito.
— E suponho que o senhor me considere… respeitável?
Edward esboçou um sorriso.
— Não só respeitável. Idôneo. Um homem que construiu um império e manteve sua imagem limpa. É exatamente esse tipo de nome que preciso ao meu lado.
Jacob tomou um gole do café antes de responder.
— E qual vantagem eu teria se der esse apoio?
Edward se inclinou ligeiramente para frente.
— Influência. Segurança para seus negócios. E a certeza de que, nos próximos anos, qualquer projeto que o senhor quiser tirar do papel não encontrará barreiras políticas.
Jacob desviou o olhar para Harry, que estava em pé, silencioso, atrás dele. Harry manteve a expressão neutra, mas um leve aceno confirmou que a proposta era estratégica. Jacob voltou-se para Edward.
— Está certo. Dou meu apoio à sua campanha. Harry ficará encarregado das prestações de contas.
O sorriso de Edward se alargou.
— Será como o senhor Black quiser. — Fez uma pausa, avaliando o momento. — Posso anunciar oficialmente nossa aliança no Baile de Outono de Seattle?
Jacob apoiou a xícara no pires.
— É claro. Estarei presente.
Edward estendeu a mão sobre a mesa. Jacob a apertou, firme, selando o acordo.
Seattle já estava coberta pelo manto úmido da noite. As luzes de néon refletiam nas poças da calçada quando Renesmee Cullen saiu do prédio do Seattle Daily Chronicle, o jornal onde trabalhava. Ela ajeitou o casaco, pronta para chamar um táxi, quando o celular vibrou em seu bolso.
— Alec? — atendeu, ainda caminhando.
A voz do namorado veio carregada de um nervosismo estranho.
— Nessie… preciso falar com você. Hoje.
— O que aconteceu? — ela franziu o cenho.
— Encontra comigo no Blue Lantern Bar. É sério.
O tom dele não deixava espaço para discussões. Renesmee suspirou, ergueu a mão e parou um táxi. A corrida foi silenciosa, apenas o som abafado da chuva batendo no vidro.
Quando entrou no Blue Lantern, o cheiro de álcool e fumaça de cigarro quase a fez recuar. Seus olhos logo encontraram Alec — não sozinho, como esperava, mas cercado de dois amigos, três mulheres e várias garrafas vazias sobre a mesa.
Ela ergueu uma sobrancelha e caminhou até ele.
— Pelo visto, o assunto era urgente…
Alec, com o olhar turvo, inclinou-se para frente.
— Você já sabe, não é? Que seu querido pai descartou os Volturi como se fossem lixo político.
Renesmee respirou fundo, controlando a irritação.
— Você está bêbado. E eu sempre deixei claro: a nossa relação não tem nada a ver com os negócios das nossas famílias.
Ele a encarou com um meio sorriso amargo.
— Então… quer dizer que você também está me descartando?
— Amanhã, quando estiver sóbrio, a gente conversa. — Ela se virou para ir embora.
Mas Alec levantou-se rapidamente, segurando seu braço antes que ela alcançasse a porta.
— Você não vai sozinha.
— Você não pode dirigir nesse estado.
Um dos amigos, já meio cambaleante, levantou a mão.
— Eu dirijo.
Renesmee hesitou. O instinto gritava para recusar, mas Alec já a empurrava suavemente em direção ao veículo estacionado do lado de fora. O ar frio da rua bateu em seu rosto.
Ela entrou no banco traseiro, o desconforto crescendo no peito. Alec entrou ao seu lado, jogando o braço sobre o encosto, enquanto o amigo assumia o volante e outro rapaz ocupava o banco do passageiro.
O motor roncou. O carro partiu, deixando para trás o brilho seguro das ruas iluminadas.
O carro cortava as ruas molhadas, afastando-se cada vez mais do centro iluminado de Seattle. Renesmee percebeu o desvio quando reconhecer as vitrines e cruzamentos tornou-se impossível.
— Alec… esse não é o caminho pra minha casa. — Sua voz estava firme, mas o coração já batia acelerado.
Ele apenas riu, inclinando-se para mais perto.
— Relaxa, Nessie. Estamos só dando uma volta. — E, sem aviso, tentou beijá-la.
Ela o empurrou com força.
— Para com isso! Eu falei pra parar o carro!
Os dois amigos na frente trocaram olhares e riram. O motorista virou para a esquerda, entrando em ruas estreitas e mal iluminadas, até que chegaram a uma área afastada do subúrbio — Georgetown, um bairro industrial quase deserto à noite. O carro parou em um beco úmido, cercado por paredes grafitadas e lixeiras.
Alec deslizou a mão pela perna dela, ignorando a resistência.
— Você vai gostar… só precisamos apimentar a relação.
O pânico tomou conta dela. Renesmee empurrou o peito dele e tentou destravar a porta, mas a trava parecia emperrada.
— Me deixa sair!
O rapaz no banco do passageiro virou-se e disse com um sorriso frio:
— Relaxa, princesa. Não complica.
Ela gritou, a voz ecoando pelo beco.
— SOCORRO!
Alec tentou abafar seu grito com a mão. Lá fora, o vento carregava o som distante de um motor potente que se aproximava.
O rugido grave da moto cortava o silêncio das ruas úmidas de Georgetown. Nightwolf acelerava pela faixa deserta, o vento frio batendo no visor do capacete. No fone interno, a voz de Henry ecoou com urgência:
— Nightwolf, outro assalto registrado na 7th Avenue, setor industrial.
Jacob apertou o punho no acelerador.
— Entendido. Estou a caminho.
Ele acabara de deixar para trás um beco onde três ladrões de loja estavam amarrados, a marca do lobo gravada na parede com spray branco. Mas, ao passar por um cruzamento estreito, um som diferente cortou o ar. Não era um disparo. Não era o motor de outro veículo.
Era um grito. Agudo. Desesperado.
Jacob freou bruscamente, a moto derrapando levemente no asfalto molhado. Seguiu o som até um beco lateral. Ali, sob a luz trêmula de um poste quebrado, um sedã preto estava estacionado. Pela janela, ele viu a cena — três homens dentro do carro, um deles prensando uma garota contra o banco.
O sangue de Jacob ferveu.
Em segundos, ele avançou. Com um golpe seco, quebrou o vidro traseiro com o cotovelo blindado, agarrando o primeiro agressor pela gola e o puxando para fora. O homem mal teve tempo de gritar antes de ser lançado contra a parede do beco.
O segundo tentou reagir, mas foi arrastado pela porta do passageiro, girado no ar e atirado contra uma pilha de caixotes.
Dentro do carro, Renesmee Cullen estava em choque, o vestido rasgado, a respiração descompassada. Ela olhava com os olhos arregalados para a figura de preto que, um a um, arrancava seus agressores de dentro do veículo.
Por último, Alec foi puxado pela gola, as pernas tentando se firmar no chão. Jacob o arremessou contra o capô do carro, o impacto reverberando no metal.
Tremendo, Renesmee empurrou a porta e saiu, tropeçando para fora do carro. Lágrimas escorriam pelo rosto, e ela mal conseguia processar o que via.
Diante dela, sob a chuva fina, estava a figura que até então só existia em matérias de jornal e sussurros de rua: um homem de preto da cabeça aos pés, máscara cobrindo o rosto, o símbolo do lobo prateado no peito.
Nightwolf.
Por um instante, o tempo pareceu parar. A lenda urbana era real… e olhando diretamente para ela.
O som metálico ecoou no beco quando Alec e os dois amigos se recomporam, fúria nos olhos.
— Quem diabos você pensa que é? — Alec rosnou, cuspindo no chão.
Um dos comparsas puxou uma barra de ferro do porta-malas. O outro imitou o gesto.
Nightwolf ficou imóvel, a respiração controlada, os músculos relaxados, como um predador prestes a atacar.
— Última chance de recuarem.
— Vai pro inferno! — Alec avançou primeiro, a barra de ferro girando no ar.
Jacob desviou com um passo lateral e um golpe rápido no cotovelo. O som seco do osso deslocando fez Alec soltar a arma com um grito estrangulado. Antes que ele caísse, Jacob o empurrou contra a parede.
O segundo homem veio por trás, mas Nightwolf girou, bloqueou o golpe e o derrubou com um chute no estômago que o fez voar para trás e cair sobre um amontoado de lixo.
O terceiro tentou correr, mas Jacob o alcançou, torceu-lhe o braço e o jogou no chão com força suficiente para arrancar o ar de seus pulmões.
Alec, segurando a mão quebrada, xingava entre dentes. Jacob o fitou de cima, o olhar frio por trás da máscara. Sem dizer nada, retirou um feixe de abraçadeiras da cintura e, em poucos segundos, prendeu os três lado a lado, caídos no chão molhado.
Em seguida, tirou um pequeno spray prateado e, no muro atrás deles, desenhou o símbolo do lobo — sua marca registrada.
Renesmee, ainda trêmula, assistia à cena. Quando Nightwolf se aproximou, ela recuou instintivamente, mas sua voz saiu firme, apesar do pânico:
— Eu… eu estou bem.
Ele a olhou por alguns segundos, reconhecendo o rosto.
— Renesmee Cullen…
Ela hesitou.
— Sim…
— A polícia vai chegar em três minutos. — A voz grave, quase um sussurro. — Não olhe para trás.
Sem mais uma palavra, Jacob se afastou, subiu na moto e, com o rugido do motor, desapareceu na noite, deixando apenas a marca do lobo e o eco distante da lenda.
Fale com o autor