A porta principal da mansão se abriu pouco depois das oito da noite. O som do motor cessando na entrada fora seguido por passos firmes no hall. Jacob entrou retirando o paletó com um movimento automático, os ombros ainda tensos do dia que tivera. O olhar percorreu a sala rapidamente, atento por hábito, até encontrar Harry parado próximo à escada.

— Boa noite, senhor — cumprimentou ele.

— Boa noite, Harry — respondeu Jacob, passando a mão pelos cabelos. — Imagino que tenha sido um dia mais calmo aqui do que lá fora.

Harry permitiu-se um discreto sorriso.

— Depende do ponto de vista. O senhor tem visita.

Jacob ergueu o olhar, desconfiado.

— Visita?

Antes que pudesse perguntar mais, passos suaves ecoaram pelo corredor que levava à cozinha.

Renesmee surgiu.

Usava um avental claro sobre a roupa simples e os cabelos presos de maneira despreocupada. Havia um traço de farinha na lateral da mão e um brilho nos olhos que não passava despercebido.

Jacob ficou imóvel por um segundo.

— O que… — começou ele, mas a frase não se completou.

Ela aproximou-se com naturalidade.

— Boa noite, Jake.

O tom dela era doce, quase tímido.

Ele soltou o paletó sobre o encosto da cadeira mais próxima e deu dois passos firmes em sua direção. Sem hesitar, segurou-a pela cintura e a trouxe para perto.

O beijo não foi apressado. Foi lento, cuidadoso, como se precisasse confirmar que ela estava ali. Os lábios dele se moveram com ternura inesperada para um homem que passara o dia enfrentando decisões duras. Renesmee apoiou as mãos nos ombros dele, sentindo a tensão ceder sob o toque.

Quando se afastaram, ele manteve a testa encostada à dela por um instante.

— Eu realmente não esperava por isso — disse, a voz mais baixa do que o habitual.

— Por mim ou pelo avental? — perguntou ela, com um leve sorriso.

— Pelos dois.

Ela riu discretamente.

— Quis fazer uma surpresa. Imaginei que tivesse tido um dia difícil.

Harry, ainda à distância, esclareceu:

— A senhorita Cullen preparou o jantar, senhor.

Jacob ergueu as sobrancelhas.

— Preparou?

— Com supervisão técnica — acrescentou Harry, com humor contido.

Renesmee fingiu indignação.

— Não precisei de tanta supervisão assim.

Jacob passou o polegar pela bochecha dela, apagando a leve marca de farinha.

— Isso é… inesperado.

O tom dele já não carregava dureza alguma.

Harry recolheu o paletó discretamente.

— Deixarei vocês a sós. A mesa está pronta.

— Obrigado, Harry — disse Jacob.

Quando o mordomo se afastou, o silêncio entre os dois tornou-se íntimo. Jacob deslizou as mãos pelas costas dela, aproximando-a novamente.

— Eu devia ter tido um dia cansativo com mais frequência — murmurou ele.

— Não ouse usar isso como desculpa para se sobrecarregar — respondeu ela, ainda suave.

Ele inclinou-se e a beijou outra vez, desta vez com um pouco mais de intensidade, mas sem perder o cuidado. Os dedos dele seguraram a cintura dela com firmeza, como se precisasse reafirmar que estava ali, presente.

Renesmee correspondeu sem hesitação, sentindo o peso do dia dele dissolver-se naquele contato.

Quando finalmente se afastaram, Jacob repousou a testa na dela novamente.

— Obrigado — disse ele, simples.

— Ainda nem provou a comida — respondeu ela, com leveza.

— Não é pela comida.

Ela sustentou o olhar dele por um instante mais longo.

— Então vamos jantar antes que esfrie.

Jacob sorriu, algo raro e verdadeiro.

E, por alguns minutos, as sombras da cidade ficaram do lado de fora daquelas paredes.


A mesa estava posta com cuidado evidente. Velas baixas iluminavam discretamente o centro, e o aroma da massa recém-servida ainda preenchia o ambiente. Jacob sentou-se diante de Renesmee, o olhar demorando-se nela antes mesmo de tocar o prato.

Ele experimentou o primeiro garfo em silêncio.

Renesmee observava com expectativa contida.

— Então? — perguntou ela, com suavidade.

Jacob mastigou com calma, apoiou o talher e inclinou levemente a cabeça.

— Eu deveria contratar você para o setor de hospitalidade das Indústrias Black.

Ela riu.

— Isso é um elogio ou uma proposta formal?

— É um elogio — respondeu ele, firme. — Está muito bom.

Renesmee relaxou os ombros.

— Fico feliz.

O jantar seguiu em ritmo tranquilo por alguns minutos, até que ela apoiou o queixo na mão e o observou com curiosidade.

— O herói de Seattle está de folga hoje?

Jacob ergueu o olhar.

— O lobo nunca está completamente de folga.

— Isso não me tranquiliza.

Ele sustentou o olhar dela.

— Mas ele sempre está quando se trata de você.

O tom não era teatral. Era direto.

Ela baixou os olhos por um instante, tocando o copo com delicadeza.

— Eu prefiro quando você é apenas Jake.

— Eu também — respondeu ele.

Houve uma pausa confortável, até que Jacob limpou a boca com o guardanapo e recostou-se na cadeira.

— Preciso te contar algo — disse ele.

Renesmee ergueu o olhar imediatamente.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não — respondeu ele. — É trabalho. Tenho um evento em Nova York na próxima semana.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Nova York?

— Reunião com investidores.

Ela ponderou por um instante.

— Quantos dias exatamente?

— Dois — afirmou ele. — Podem se tornar três.

Renesmee absorveu a informação em silêncio breve.

— E você vai sozinho?

Jacob a observou com atenção.

— Posso não ir.

Ela franziu levemente o cenho.

— Como assim?

— Posso ir com você — completou ele. — Se aceitar.

O olhar dela suavizou-se.

— Está me convidando formalmente, senhor Black?

— Estou — respondeu ele, sério. — Acho que seria bom sairmos daqui por alguns dias. Antes que essa cidade decida nos dar outro susto.

Ela sorriu.

— Eu…

A frase não se completou.

A voz de Harry surgiu da entrada da sala.

— Senhor Black…

O tom não era o habitual. Havia tensão contida.

Jacob virou o rosto.

Harry permanecia ao lado da porta, postura rígida.

— Eu tentei impedir, mas ele insistiu.

Antes que Jacob perguntasse quem, passos rápidos ecoaram no corredor.

Noah Callahan surgiu na sala de jantar.

A expressão dele não carregava a habitual compostura. Os traços estavam tensos, os olhos inquietos.

— Eu preciso falar com você Black — disse ele, dirigindo-se diretamente a Jacob.

Renesmee ficou imóvel por um segundo, sentindo o estômago apertar. Instintivamente, estendeu a mão sob a mesa e segurou a de Jacob.

Ele sentiu o gesto.

Apertou os dedos dela com firmeza antes de erguer-se lentamente.

— Isso não é horário adequado para visitas — disse Jacob, a voz retomando o tom duro.

Noah ignorou o comentário.

— Isso não é uma visita comum...

Harry deu um passo à frente, mas Jacob levantou a mão discretamente, sinalizando que estava no controle.

Renesmee manteve-se sentada, mas o olhar não saía de Noah. Havia algo diferente nele. Uma urgência que não parecia teatral.

Jacob permaneceu em pé, postura imponente.

— O que quer Callahan?— perguntou, frio.

Noah respirou fundo.

— Não imagina.

A tensão na sala tornou-se quase tangível.

Renesmee apertou a mão de Jacob com mais força.

Ele olhou para ela por um breve instante.

— Está tudo bem — disse, baixo o suficiente para que apenas ela ouvisse.

Jacob não desviou o olhar de Noah.

— Acompanhe-me — disse, em tom controlado.

Sem esperar resposta, virou-se e caminhou pelo corredor até o escritório. Noah o seguiu com passos rápidos, a respiração pesada. A porta se fechou atrás deles com um som seco.

O ambiente ali era mais frio, mais direto. Sem velas, sem jantar, sem suavidade.

Noah foi o primeiro a falar.

— Você sabia exatamente o que estava fazendo.

Jacob permaneceu de pé por alguns segundos, depois contornou a mesa e sentou-se com calma deliberada na própria cadeira. Cruzou as mãos sobre o tampo de madeira escura.

— Eu sei muitas coisas — respondeu.

Noah deu dois passos à frente.

— Hoje à tarde recebi os investidores. Foi anunciado oficialmente. Falência. — A palavra saiu como um golpe. — Você acabou com a empresa da minha família.

Jacob inclinou levemente a cabeça.

— Acabei?

— Não finja. As ações despencaram em dois dias. Os fundos que nos apoiavam recuaram. Os contratos foram rescindidos. Isso não acontece por acaso.

Um leve sorriso, quase imperceptível, surgiu no canto da boca de Jacob.

— O mercado não tem piedade de estruturas frágeis.

— Você manipulou isso! — acusou Noah, a voz elevando-se.

Jacob permaneceu inabalável.

— Eu protegi meus interesses.

Noah deu um passo brusco em direção à mesa.

— Isso é vingança.

Jacob ergueu os olhos lentamente.

— Vingança seria algo mais pessoal.

O silêncio entre eles ficou pesado.

— Você acreditou que podia chantagear Renesmee — continuou Jacob, agora com voz mais dura — e sair impune?

Noah fechou os punhos.

— Não envolva ela nisso.

— Foi você quem envolveu.

Noah soltou uma risada amarga.

— Seu desgraçado.

Jacob não reagiu à ofensa. Apenas o observou com frieza calculada.

— Enquanto estava ocupado tentando intimidar uma jovem grávida, deveria ter prestado atenção nos números da própria empresa.

Noah empalideceu levemente.

Jacob inclinou-se para frente.

— A Callahan Holdings estava alavancada além do razoável. Dependia de dois contratos estratégicos com investidores estrangeiros. Eu adquiri silenciosamente participação nos fundos que garantiam esses contratos. Reavaliei o risco. Os investidores fizeram o resto.

— Você sabotou os contratos — sussurrou Noah.

— Eu reclassifiquei o risco no mercado — corrigiu Jacob. — E quando o mercado percebe fragilidade, ele reage.

Noah respirava com dificuldade.

— Você destruiu o que restava do nome da minha família.

— O nome da sua família já estava sob investigação — respondeu Jacob, frio. — Eu apenas acelerei o inevitável.

Noah deu um passo atrás, como se a sala tivesse ficado menor.

— Isso é abuso de poder.

— Não — disse Jacob, firme. — Isso é estratégia.

Houve um silêncio pesado.

— Eu poderia ter feito pior — acrescentou Jacob. — Poderia ter exposto publicamente certas movimentações suspeitas antes mesmo da falência.

Noah ergueu o olhar, desconfiado.

— Que movimentações?

Jacob não respondeu de imediato.

— Acha que eu não investiguei você depois do que fez com Renesmee? — perguntou, em tom baixo. — Acha que não sei que tentou usar informações antigas para pressioná-la?

Noah desviou o olhar por um segundo.

Jacob levantou-se lentamente.

— Eu não preciso da polícia para resolver certas situações, Noah. Preciso apenas de tempo.

A diferença de altura e postura tornou-se evidente quando ele contornou a mesa.

— A falência é uma lição. Não uma sentença.

Noah o encarou, o orgulho ainda sustentando parte da postura.

— Isso não vai ficar assim.

Jacob aproximou-se o suficiente para que a voz soasse quase íntima.

— Você já perdeu a empresa. Não perca o resto tentando me desafiar.

O silêncio que se seguiu era carregado de ameaça contida.

— Agora — disse Jacob, apontando discretamente para a porta —, saia da minha casa, e não se aproxime mais da minha noiva, ou não será apenas dinheiro que irá perder Callahan.

Noah permaneceu imóvel por um segundo, como se buscasse uma última palavra de impacto. Não a encontrou.

Virou-se e abriu a porta com força controlada.

Jacob permaneceu no escritório, a respiração firme, o olhar endurecido.

Não havia satisfação plena em suas feições.

Havia controle.

E a certeza de que aquela partida ainda não terminara.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.