O discurso de Jacob continuava, mas para Renesmee as palavras eram apenas um eco distante.

A imagem dele ali, sob a luz suave do fim de tarde, se sobrepunha à figura mascarada do Lobo da Noite em sua mente.

O queixo, os lábios… o mesmo formato.

Uma lembrança pulsou — os lábios do lobo próximos aos dela, o calor da respiração dele apesar da fumaça ao redor.

Depois, outra:

"Isso é uma pergunta formal para uma entrevista… ou informal?"

As mesmas palavras que Jacob dissera no jardim, na noite do baile de outono.

Seu coração apertou ainda mais quando recordou de outra frase:

"Nenhuma mulher conseguiu quebrar as barreiras."

E então, o golpe final.

"Ness…"

Jacob havia a chamado assim, carinhosamente, e… o lobo também.

Foi como um estalo seco dentro dela.

A certeza não vinha como um sussurro, mas como um grito.

Ela voltou à realidade exatamente no momento em que Jacob devolvia o microfone à diretora e recebia aplausos.

Renesmee o encarava, sentindo o coração bater rápido demais, quase dolorido.

Ele notou algo estranho em sua expressão ao descer do palco, mas antes que pudesse falar, ela se virou e se afastou.

Nessie caminhava apressada, praticamente atropelando alguns convidados, tentando encontrar ar, tentando encontrar silêncio.

Quando chegou a um ponto mais isolado, perto do lago, finalmente parou.

As mãos tremiam ao tirar o celular do bolso.

Abriu uma das fotos do Lobo da Noite, deu zoom no queixo, nos lábios.

Depois abriu uma foto de Jacob. Zoom.

As imagens se sobrepunham em sua mente.

— É ele… — sussurrou, sentindo o mundo girar.

Um arrepio percorreu sua espinha ao ouvir atrás dela, quase rente ao ouvido, uma voz grave e conhecida:

— Renesmee… você está bem?


Renesmee se virou para ele, os olhos arregalados, o coração martelando no peito.

Ela não pensou — não calculou, não mediu consequências. Apenas avançou e colou seus lábios aos dele.

Jacob ficou imóvel por uma fração de segundo, surpreso, mas então sua mão encontrou a cintura dela e a puxou para mais perto, retribuindo o beijo.

Era quente, intenso, e ao mesmo tempo, incrivelmente familiar.

Para Nessie, não restava dúvida: era a mesma sensação… o mesmo beijo.

Quando se afastou, ofegante, sua voz saiu trêmula, mas firme:

— É você…

Jacob franziu o cenho, confuso.

— O quê?

O olhar dela desceu lentamente até o braço direito dele, onde a manga do casaco escondia o ferimento.

— Tira o casaco.

Ele hesitou, e nesse instante, percebeu. Ela sabia.

— Nessie… — ele sussurrou, quase como um pedido.

— Você é o Lobo da Noite. — não era uma pergunta.

Jacob a encarou, o silêncio entre eles carregado de tudo o que ele nunca dissera.

Percebeu que não havia mais espaço para mentiras, e que negar seria inútil.

Ele respirou fundo, o olhar fixo no dela, e finalmente admitiu:

— Eu sou… Nightwolf.


Renesmee ficou imóvel por um segundo, mas a surpresa deu lugar a algo mais intenso — fúria.

— Você… mentiu pra mim esse tempo todo. — a voz dela tremeu, não só de raiva, mas de mágoa.

Jacob olhou ao redor, ciente dos olhares curiosos de alguns convidados.

— Aqui não é o lugar pra essa conversa.

Os olhos dela brilharam com lágrimas que insistiam em cair.

— Você arriscou a própria vida e me deixou sem notícias, sem saber se estava vivo! — a voz dela subiu um tom, mas logo ela mordeu o lábio tentando conter o choro.

Jacob deu um passo à frente, baixando o tom.

— Nessie… por favor. Só me ouve.

Ela respirou fundo, lutando para se acalmar. Jacob estendeu a mão para ela, hesitante.

Por um instante, achou que ela recusaria. Mas, com um suspiro pesado, Renesmee segurou a mão dele.

Sem dizer mais nada, eles começaram a caminhar juntos, de mãos dadas, atravessando discretamente a área do evento até a saída lateral.

Ao chegarem no estacionamento, Jacob abriu a porta do SUV preto. Eles entraram e fecharam as portas.

Harry, no banco do motorista, se virou para encará-los.

— Está tudo bem?

Jacob e Renesmee responderam ao mesmo tempo, quase mecânicos:

— Sim.

Mas por dentro, ela sentia tudo… menos calma.


O SUV preto parou diante da imponente mansão Black. As luzes externas iluminavam a entrada de pedra, refletindo o tom quente da madeira escura da fachada.

Antes mesmo de Jacob abrir a porta para ela, o celular de Renesmee começou a vibrar. Ela olhou o visor — Pai.

Atendeu, tentando disfarçar a respiração acelerada.

— Oi, pai.

— Onde você está, Nessie? Você desapareceu sem dar explicações — a voz de Edward soava preocupada, mas com uma estranha calma subjacente.

— Estou com o Black. — respondeu sem rodeios.

Houve um breve silêncio do outro lado, e então Edward disse, quase num tom de aprovação:

— Poderia ter avisado, depois converso com o Blackz cuide-se.

— Tá bem. — ela murmurou, encerrando a ligação.

Jacob observou a expressão dela enquanto desciam do carro. Sem soltar a mão de Nessie, ele a guiou até a porta principal. Harry se despediu com um aceno discreto antes de arrancar com o carro.

Ao entrar, o calor aconchegante da mansão os envolveu. Jacob fechou a porta atrás deles e virou-se para encará-la.

— Vou te mostrar uma coisa — disse, com a voz firme, mas o olhar carregado de cautela — eu vou te explicar tudo, Nessie.

Ela cruzou os braços, mas não soltou completamente a mão dele.

— Então começa. — sussurrou.

— Vem comigo.

Jacob a conduziu pelo amplo corredor de madeira até uma porta dupla, mais imponente que as outras.

— Meu escritório. — disse ele, empurrando as folhas para dentro.

O espaço era grande, moderno e luxuoso, com prateleiras altas repletas de livros, uma lareira acesa no canto e uma grande mesa de mogno polido. Renesmee passou o olhar pelo ambiente, absorvendo cada detalhe, até que viu Jacob se aproximar de uma estante. Ele tocou um ponto específico na madeira, e um clique suave ecoou.

Uma seção da estante se deslocou lentamente para o lado, revelando uma porta estreita com um painel metálico e uma trava digital. Jacob digitou um código e, com outro clique, a porta se abriu silenciosamente.

— O que é isso? — ela perguntou, a voz carregada de surpresa e desconfiança.

— Vem comigo. — ele respondeu, estendendo a mão.

Renesmee, hesitante, segurou a mão dele e entrou. Uma escada de ferro descia em espiral, mergulhando na penumbra. O som dos passos ecoava, e a cada degrau o ar ficava mais frio.

Ao chegar ao final, as luzes automáticas se acenderam, revelando um espaço subterrâneo amplo, iluminado por refletores discretos nas paredes de concreto.

Renesmee levou a mão à boca, assustada e fascinada.

Havia computadores de última geração, mapas da cidade marcados com pontos vermelhos, painéis de vigilância exibindo câmeras ao vivo, armários reforçados, manequins com diferentes uniformes táticos e prateleiras cheias de equipamentos de resgate e combate.

Jacob abriu os braços, observando a reação dela.

— Seja bem-vinda, Nessie… — disse com um leve sorriso — à toca do lobo.


Jacob caminhou até uma das paredes, onde havia um painel com várias fotos antigas. Ele tocou uma delas — a imagem de um casal sorridente com um menino pequeno — e ficou em silêncio por alguns segundos.

— Tudo começou… — ele respirou fundo — na noite em que perdi minha família. Disseram que foi um acidente, mas eu disse que não era.

Renesmee o olhou, surpresa.

— Então… não foi um acidente?

— Não. — Jacob respondeu firme, sem hesitar. — Foi um assassinato.

Ela se aproximou lentamente.

— E você descobriu quem fez isso?

Ele balançou a cabeça.

— Não. E é por isso que criei o Nightwolf. Primeiro para encontrar quem tirou minha família de mim. Mas, no caminho… percebi que podia fazer mais. Impedir que outras famílias passassem pelo mesmo pesadelo que eu passei.

Nessie desviou o olhar para o ambiente — as armas perfeitamente alinhadas, os uniformes táticos impecáveis, os monitores com câmeras espalhadas pela cidade. Era um mundo completamente diferente do que ela imaginava para Jacob.

De repente, passos soaram atrás dela. Harry surgiu no topo da escada, parou e arregalou os olhos ao ver Renesmee ali.

— Ela…? — ele perguntou, confuso.

Jacob assentiu. — Ela já sabe.

Um sorriso de alívio e até satisfação surgiu no rosto de Harry.

— Finalmente. — disse ele, antes de voltar pelos degraus, deixando os dois sozinhos.

Jacob então se virou para Nessie, os olhos atentos nos dela.

— Agora que você sabe o meu maior segredo… o que vai fazer com isso?

Ela respirou fundo, sentindo o peso de tudo.

— Eu… preciso de um tempo para absorver tudo isso, Jacob. É muita coisa.

Ele apenas assentiu, respeitando o silêncio que se seguiu.