NH | Uma novata em Hogwarts
1 Prólogo
Notas iniciais
—Emily! Emily querida, venha cá! -Irmã Charlotte gritava com uma voz esganiçada.
— Estou indo!
Irmã Charlotte de longe parece a freira perfeita, cheia de qualidades e um doce de pessoa. Afinal ela trata todo mundo bem... Exceto quando eu falo qualquer coisa que foge do seu conceito de “ética”. Claro, deve ser estranho você ser uma santinha e vir uma menina de treze anos fazer piadinha com tudo. Desculpe Deus por eu ser assim.
—Menina, você está lerda hoje! Ajude Susi e Mel a arrumar a mesa do jantar.
—Sim, Irmã Charlotte.
Senti seu sorriso se desfazer quando ela virou parando de me olhar. Se falsidade matasse ela já estaria na cama de madeira coberta com flores.
Susi e Mel são gêmeas idênticas, elas quase sempre estavam na sala de jantar. Eram completamente devotas, e era bonitinho até. Elas eram alguns anos mais novas que eu, pra ser exata tinham nove anos, quatro de diferença. Eu gostava delas, embora fosse poucas as vezes que eu perdia meu tempo em conversar com alguém dali.
Falando assim até pareço uma menina metidinha, mas a verdade é que eu nem sei como começar uma conversa sem ser interpretada mal ou espalharem boatos sobre mim. Sinceramente, eu nem sei porque estou num internato! Nem me lembro de como cheguei aqui, mas desde quando me deparei aqui, sou uma aluna vestindo um vestido preto imaculado de botões brancos com o logo da escola no peito e um lacinho pomposo na cabeça.
—Estão bonitas hoje, senhoritas! –Olhei seus penteados iguais, lindas tranças duplas embutidas combinando com lacinhos vermelhos nas pontas. Afinal só o penteado pode ser um diferencial.
—Você também, Senhorita Emi! -Responderam em uníssono.
Fizeram uma reverência graciosa antes de puxarem de dentro de uma gaveta uma das grandes toalhas das mesas. Ajudei-as a estender e logo fui pegando os pratos, colocando-os virados para baixo, e as meninas seguiram colocando os talheres e cálices.
Não era uma tarefa tão chata assim, mas era dispensável sabendo que eu poderia estar em meu quarto –Que era bem espaçoso e aconchegante –Lendo ou colando flores em meu álbum. Uma das únicas heranças que ainda tinha de meus pais. Eles costumavam registrar as flores que encontravam por espécie e nível de raridade... Desde então eu sigo o costume deles, e gosto bastante!
Assim que terminamos de arrumar tudo, elas agradeceram minha ajuda e logo fui em direção ao meu quarto para prender meu cabelo. Nesse caminho passei pela Irmã Charlotte, que sorria incessante, mas logo que nossos olhares se desencontraram pude ouvir um suspiro de entojo.
—Olá, Vicente. –Disse pegando meu coelhinho rosa remendado de cima da minha cama. –Como tem passado?
Posso parecer estranha, mas sim, eu converso com meu bichinho de pelúcia como se ele fosse um humano. Irmã Charlotte diz que foi minha tia que deixou para mim. Ela disse que foi entregue apenas com um bilhete dizendo que era pra mim apenas. Não acredito muito nela, mas de qualquer modo, eu amo esse bichinho.
Rolei sobre as cobertas logo enfiando a mão em baixo de meu travesseiro e pegando meu gameboy e respirei fundo antes de levantar.
Já na frente do espelho de minha penteadeira –Afinal cada uma tinha um quarto maravilhoso, e eu amava esse luxo- reparei nos meus cachos esvoaçantes, que eu adorava e odiava o mesmo tanto, tão volumosos e negros como a noite mais escura... Doía ter de prende-los. Mas se eu não prendesse eu poderia jantar ele sem querer, pois nem gel segura cabelo grande de cair na comida mais gostosa.Com uma mão jogando e outra pegando o garfo, às vezes eu ficava meio vesga tentando não bugar as mãos ao fazer duas coisas ao mesmo tempo.
Eu sempre tentava ignorar o olhar cínico de Violet, uma aluna mais velha que estava sempre a censurar qualquer uma ali. Mas dessa vez a criatura fez questão de sair de seu lugar –provocando várias risadinhas irritantes e as Irmãs franzirem o cenho –para vir até mim e arrancar o gameboy de minha mão.
—Olha só! Se a Emily não está jogando... –Violet fez então uma pausa pra ver qual jogo era –Zelda!
Várias meninas deram risada, mas eu sei que nem metade delas sabe ao menos o que é Zelda! Mas não pude deixar de ficar corada com todos os olhares. É revoltante.
—Violet, ninguém está brincando com você. Me devolve. Agora. –Tentei soar o mais severa possível.
—Ahn, deixa eu ver. Hm, não, não vai rolar.
Violet desligou o aparelho e voltou para o seu lugar, rindo baixinho. As Irmãs voltavam a sorrir falsamente. Meu rosto estava encolerizado de raiva, e eu queria muito pular no pescoço dela. Mas respirei fundo, e planejei a morte dela. Mentira, eu apenas planejei ter uma conversa “amigável” assim que acabasse o jantar.
Ela vez ou outra me fitava achando-se superior, e eu me defendia revirando os olhos e dando garfadas bruscas na comida.
Encostei a porta do quarto de Violet atrás de mim e fuzilei-a com o fundo de minha alma. Pra falar a verdade, eu nem sabia que argumentos usaria para falar com ela. Mas eu realmente esperava que o meu “por favor” funcionasse.
—Violet. –Ela parou de sorrir ao ver meu reflexo em seu espelho enquanto se penteava.
—Pode dar meia volta, Cross. Eu não vou devolver o seu joguinho tolo.
—Escuta, Violet. Eu não quero brigar, eu não quero que você seja minha inimiga. Eu só quero o meu jogo de volta!
Estendi minha mão para ela, que olhou com nojo e em seguida riu cínica, pegando o jogo na mão e balançando.
—Oh, você quer? –Fiz que sim com a cabeça e ela soltou um sorriso maquiavélico- Então vem pegar.
Ela continuou balançando e então eu fui até ela esticando meu braço para pegar. Quando ela me empurrou com tudo e eu caí de bunda no chão. Além dos meus ossos doerem, meu cotovelo sangrava. Eu não queria que ela continuasse agindo assim comigo! O que custa viver em paz...?
—Por favor... Para! Me devolve! É meu!
—É? Tá bom então. Vou ser boazinha. Eu te devolvo se você for pegar!
Só era possível ver o gameboy voando através da janela. Meus olhos que já estavam marejados do empurrão agora começavam a derramar a primeira lágrima. Ela veio até mim e puxou o elástico que prendia o meu cabelo a força, fazendo minha cabeça ir pra traz e arder.
—Nem adianta pedir ajuda, princesa!-Completou- Ninguém se importa com você! Nojenta!
Aquelas palavras machucavam, e eu fingia não ouvi-las. Era sempre que Violet tentava me importunar, e sempre doía o mesmo tanto. Pois era verdade, ninguém me ajudava ali, muito menos me ouvia.
Saí correndo tentando enxugar as lágrimas que caíam e desci as escadas do saguão batendo de cara com Irmã Charlotte, que dessa vez não segurou uma máscara de sorriso. Antes que ela pudesse me repreender por qualquer coisa, eu corri até a porta e abri. Passei os limites dos portões e rapidamente salvei meu gameboy que só não quebrou pois caíra numa moita.
Quando pisei dentro do internato novamente Irmã Charlotte pegou o meu pulso bem forte, tanto que poderia quebra-lo se ela colocasse um pouquinho a mais de força; e vi Violet rindo da janela.
—O que você pensa que estava fazendo?! – Charlotte parecia descontente e sua voz esbanjava ira de tal modo que eu nunca havia visto.
—Foi a Violet quem jogou meu vídeo-game lá pra fora...
—Calada! Você não tem limites? Menina insolente! Eu te trato com o maior carinho e você quebra as regras sem nem sentir remorso?!
—Você não me trata com carinho! E a culpa NÃO foi minha! –Já pude sentir meus olhos quererem continuar a jorrar lágrimas, mas eu segurei. –VOCÊ tinha que fazer o seu papel, e defender quem precisa da sua ajuda! E não assistir de camarote com pipoca e sessão de autógrafos!
Acho que ela aproveitou que não havia ninguém por perto e virou o tapa na minha cara, fazendo a marca de seus dedos tatuarem meu rosto de vermelho. Coloquei minha mão sobre o rosto e não consegui soltar mais uma única palavra. Apenas olha-la abominando da pior maneira possível.
Saí correndo até a sala de oração. Pelo menos lá ninguém ousava proferir nenhuma palavra.
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