NH | Uma novata em Hogwarts
23 Ele sabe demais
Notas iniciais
Meus olhos relutaram a se abrir e minhas olheiras eram profundas, a noite foi longa. Ô, se foi. Fiquei com Aaron por horas naquele estado, até que por fim ele parou de sentir aquilo, seja lá o que era, e fraquejou em meus braços. Insistiu em ir sozinho para o dormitório e assim o fez, mas é claro que fiquei muito preocupada.
Voltei a meu dormitório sentindo algo estranho corroer meu peito, o que era? Levantei colocando uma das mãos sobre a cabeça, essa que agora queria latejar mais que pau de virgem ao ler a playboy, talvez eu não devesse levantar, talvez eu devesse faltar e fingir que não existo. Ah, que vontade, mas o dever me chama, e não posso atrasar mais um ano.
—Jessye, você dormiu bem? -Olhei de canto dos olhos enquanto ela estava de costas prendendo a gravata.
—Como uma princesa. -Ela soltou um sorriso para mim e veio mais perto –E você deveria parar de se divertir com Draco nas madrugadas, pois está afetando seu sono.
Ela apertou minhas bochechas e eu corei brevemente, “não é isso...” eu ia dizer, mas ela não ia acreditar. “Bem que eu queria”, minha mente completou e corei ainda mais. “NÃO, NÃO QUER NÃO”, respondi a mim mesma internamente.
— Falando sério agora... — Jessye terminou de arrumar-se, colocou uma mão na cintura e me encarou no fundo dos olhos, retorcendo a boca para um lado. Engoli em seco, era como se ela pudesse enxergar minha alma daquela forma. — Você está com uma cara estranha desde que voltou para cá de madrugada. — Respirei fundo, abrindo minha boca para me defender mas ela me parou: — Não, eu não vou julgar você, eu só quero saber onde você estava, de verdade
Respirei fundo e olhei pra baixo encolhendo os ombros. Não tinha como escapar dela. -Estava com Aaron. -Ela arqueou as sobrancelhas como se pedisse que eu contasse mais -Eu... Acho que não posso falar sobre isso.
Houve uma longa e desconfortável pausa; Eu nunca havia me sentido tão desconfortável sob o olhar de Jessye. Apesar de não estar olhando para ela, algo em mim dizia que ela continuava com uma expressão analisadora, esperando que eu lhe desse uma resposta mais completa sobre a noite passada.
Ficamos naquela pelo que pareceram duas eternidades e mais um pouquinho, até que ela, inesperadamente, soltou um suspiro pesado, se aproximou de mim e me deu um abraço apertado.
—Independente de qualquer coisa, vai dar tudo certo, não importa quão assustador tudo pareça.
Por mais que Jessye não soubesse nenhum detalhe, ela disse exatamente o que eu precisava ouvir, exatamente o que podia me confortar. Abracei-a de volta enquanto me dava conta da realidade: "Eu tenho tanta sorte, tanta sorte.", e, por uma das únicas vezes depois que saí das garras das freiras, agradeci à Deus por ter Jessye na minha vidinha, por ter aquela rocha em meio ao mar furioso que meu antes doce lago se tornava com o passar do tempo.
Ficamos assim por um tempo, em silêncio. E logo depois fomos para a aula. Bom, Jessye foi, pois eu estava vagando por pensamentos e paranoias, por coisas que eu ainda queria saber. Perguntas ainda sem resposta.
A aula de Adivinhação se arrastava lentamente, mas eu tinha com o que me ocupar. Sentada numa mesa em grupo com Jessye e mais duas garotas (uma loirinha aguada da Grifinória e uma morena rechonchuda da Corvinal), eu começava á sentir os sons e os rostos ao meu redor tornando-se meros borrões dentro da sala mal-iluminada de cheiro agridoce conforme eu me indagava sobre pontos da noite anterior: A voz, a condição de Aaron, o barulho.
Perdida em meus pensamentos, mal notei quando a professora se aproximou de nossa mesa, batendo sua mão direita com força na superfície de madeira. O globo no centro da mesinha vibrou perigosamente com o impacto, a sala aquietou, e, ao levantar o olhar, percebi apavorada que ela me encarava nos olhos, sua expressão deixara de ser abobada como a da professora Trelawney a qual eu estava habituada. Apoiava o peso do corpo magro em seu braço comprido, encarando-me em silêncio por vários minutos, até começar, com uma voz quase espectral: — Nem você se reconhece... — E virou o rosto exageradamente para dar uma cuspida teatral no chão. — Suja, imunda, porca desleal! Ouvindo as ordens dele... Sim, as ordens dele... Você não passa de uma rata de laboratório nojenta!
Perplexa do jeito que eu estava, mal conseguia respirar. Apenas observei em silêncio quando ela abaixou a cabeça e começou á tremer descontroladamente, caindo no chão em convulsões longas e aparentemente dolorosas. Uma aluna saiu correndo para chamar Filch, e a aula deu-se por encerrada. Eu estava chocada demais para sequer me importar com os olhares grudados nas minhas costas conforme Jessye me conduzia para fora dali com um braço amigo ao redor de meus ombros enquanto sussurrava ocasionais "Calma, foi só um surto", "Você sabe que a Trelawney é louca de pedra, todo mundo sabe".
—É... Foi sim. Eu concordei mas eu sabia que não era aquilo; Trelawney não era louca, ela sabia que eu escutava Voldemort, ela sabe. Fingi demência e segui com Jessye. Notei alguém me observando, aquela figura da ponte, parado na parede lendo um livro de runas antigas avançado, e apenas pousou o olhar sobre mim. Tínhamos alguns minutos livre antes da próxima aula. Tomamos rumo até a ponte de pedra, e apoiamos os cotovelos para olhar para o horizonte e tomar aquela briza ainda fria sobre o rosto.
—Ah, acho que eu deveria parar de arrasar corações e dormir mais cedo. -Brinquei e Jessye riu.
—É? Pois eu bem que gostaria de ir até o quarto de Fred de noite dar umas beijocas.
—Ah, para, você não aguentaria.
—E você aguentou na casa de Draco? A marca no pescoço não engana ninguém. Dei um tapa no ombro dela e ficamos falando besteira até o horário da próxima aula
Eu não conseguia parar de me sentir observada, apesar de soar descontraída. De vez em quando olhava para onde o garoto estava e o pegava olhando para mim por sobre o livro, para o qual rapidamente direcionava o olhar assim que era descoberto. Tentei não transparecer meu desconforto sobre aquela situação para Jessye, sorrindo e falando sobre coisas bobas como "Imagine um dragão de boné" ou "Eu adoraria provar um dos doces explosivos da Dedos de Mel".
O pior de tudo era que a maior parte daquela vontade de sair correndo para longe da vista do rapaz se devia só fato da cena entre nós: o choro, as coisas que ele me disse. Ruborizei de vergonha, tomando um susto quando Jessye gritou, apontando acusadoramente para o meu nariz:
—Haa! Tomate! Tendo pensamentos impuros sobre o Malfoy né? Você não me engana!
E riu, riu uma risada contagiante, uma que só ela sabe dar, e eu ri também mesmo me sentindo atolada por uma pilha de problemas, mistérios e preocupação, eu ri, ri bastante, e tive quase certeza de ouvir um suspiro cansado e um "Tsc, Tsc" baixo de algum lugar próximo. Quando me virei para checar de novo, o garoto já não estava lá.
Não deu tempo de Jessye reparar no meu olhar longínquo pois logo mais retomei o sorriso e seguimos para as próximas aulas. Que ocorreram bem mais normais do que a de adivinhação. Na ida do jantar, deixei Jessye ir na frente e esperei todos os alunos passarem por mim. Eu estava de pé no corredor, enquanto vários mantos pretos passavam alvoroçados e famintos por mim até o salão principal. E eu? Permanecia parada olhando para o chão e com os cabelos esvoaçantes sobre o rosto. Eu sabia que ele estava vindo, e aquilo estava ficando estranho. Quando tudo ficou vazio e ele estava parado em paralelo atrás de mim, decidi me pronunciar.
—Você me observou muito hoje. Yuichiro. -Minha voz soava nítida e firme, escondendo completamente como eu estava.
—Ahh, deixei transparecer minha admiração, jovem lady? -Sua voz era brincalhona.
—Ei, não chamaria aquilo de admiração, parecia um stalker. — Dei de ombros, soltando uma risadinha baixa, sem emoção. -É algum assunto importante? — Eu remexia nos meus próprios dedos àquele ponto, me perguntando internamente qual era o real motivo de meu nervosismo. Yuichiro se aproximou um pouco mais.
Ele chegou tão perto que encolhi os ombros um tanto afetada, ele parou do meu lado e olhou pra frente, na mesma direção que eu, e sem olhar nos meus olhos disse: -Ouvi falarem da aula da Trelawney hoje.
—Ah. isso? Tá tudo bem, eu não me importo! -Eu dei uma risada baixa disfarçando o real motivo, e permaneci olhando pra frente.
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