Desde que meus sonhos mudaram
Eu venho desmoronando como um avião de papel
Nada nunca continua igual
Mas, tudo o que sei é que a vida é estranha

Marina — Life Is Stranger

O elevador apitou, e a porta abriu, deixando-me na sala de estar. A sala principal daquele andar seria completamente fechada, não fosse pela parede principal totalmente revestida de vidro, nos deixando com uma visão privilegiada da cidade que nunca dorme.

Caminhei para fora do elevador e parei um instante para olhar a vista.

Não importa quantas vezes a contemple, a imagem que tenho é bonita demais para se ignorar, no entanto, não fico admirando-a por muito tempo, cansada como estou, não há nada que eu queira mais que a minha cama. Porém, somente quando chego em meu quarto que lembro-me de meu compromisso marcado com Bruce.

Droga!

Infelizmente, combinado é combinado, e eu havia prometido à Bruce que o visitaria hoje em seu laboratório, para estudarmos juntos a mutação genética que corre em seu sangue, eu acredito que com o estudo correto é possível descobrir uma forma de controlar o Hulk dentro do cientista, e temos trabalhado nisso desde então, comigo auxiliando o doutor que tem mais conhecimento na área do que eu. Mas estou com tanta preguiça, mesmo para entrar no elevador, novamente, e andar poucos corredores. Isto já é exercício demais para meu pobre corpo sedentário.

Bufo de cansaço jogando-me em minha cama. Essa última semana tem sido um inferno na faculdade, não pelas aulas porque eu aprendo rápido, mas pelas pessoas. É oficial, eu não sei viver em sociedade.

Meu problema? Meu problema é aquele bando de interesseiros, sanguessugas, leigos, ignorantes... — e muitos outros adjetivos. — querendo subir às custas dos trabalhos de outras pessoas, no caso, eu!

Vou explicar melhor... no início da semana, foi nos passado um trabalho, elaborar um projeto, o que incluiu criação, montagem, programação, monografia e apresentação.

E, mesmo que seja algo trabalhoso, eu fiquei muito animada com as possibilidades, e bom... tive a ideia de criar um robô capaz detectar sensores. Com essa ideia em mente, acabei por passar o resto da aula elaborando alguns esboços para a parte motora do robô. Foi ao fim do período, comigo andando calmamente para encontrar Happy, que fui abordada.

Eu tinha, sim, trocado algumas palavras com ele, Jake, participante da turma dos tão conhecidos universitários, sabê? Aqueles que só querem saber de festas e garotas, filho de algum empresário ricaço, um jeitinho nojento de desprezar os outros com o olhar... bom, mas como eu dizia, eu havia, sim, trocado uma ou duas palavras com o tal Jake, mas isso com certeza, não havia nos tornado best friends forever.

Se seguiu que ele era apenas um idiota da minha classe, fingindo meu amiguinho, para poder roubar minhas idéias. Como já me é costumeiro, eu desconfiei das intenções dele. Como se eu fosse trouxa, para falar abertamente sobre um trabalho tão importante.

Obviamente, ele notou que eu não sou tão fácil de influenciar.

Dei um fora sutil — eu acho. — no panaca, e imaginei que deixaria-me em paz pelo resto da minha preciosa vida, se fosse possível.

Doce ilusão.

Hoje?

Ah! Hoje foi o inferno.

Por que? Porque eu descobri que o desgraçado havia plagiado — não sei como, mas plagiou nos mínimos detalhes. — meu belíssimo projeto, e que ainda teve a audácia de tirar dúvidas com o professor, que bateu palmas pro' filho da puta.

Ai. Que. Ódio.

O pior de tudo, é que eu, linda e bela, fui tirar satisfação e o descarado teve a cara de pau de me chamar de mentirosa na frente do professor.

Então, você deve imaginar minha reação, hum?

Barraco, barraco total.

Enfim, meu dia foi um saco e a treta foi encaminhada diretamente para o diretor da Faculdade.

Eu estou tão cansada, tenho quase certeza de que o som que eu ouço, é minha cama me chamando.

Como um canto de sereia.

Durma, durma...

Com os problemas do dia alucinante em minha cabeça, eu acabei por pegar no sono.

E, por fim, sonhei que eu acabava com a raça do idiota.

Foi bem interessante, se eu não tivesse que estar em um certo lugar.

***

Corri em direção a sala do doutor e parei em frente a sua porta, passando as mãos no rosto, tentando de alguma forma, dar um jeito em minha cara de sono.

Merda.

Quem se atrasa para um compromisso em sua própria casa?

Eu, Sofya.

Bati na porta e abri logo em seguida:

— Desculpa, me atrasei...

Iniciei minhas desculpas, porém, me detive quando me atentei ao fato de Bruce ter uma visita. Pensei em meu precário estado: Cabelos arrumados de última hora, cara amassada e não vamos falar do cheiro em minha boca. Bala de menta não ajuda em merda nenhuma!

Burra pra cacete! Por que eu não fiz uma parada no maldito banheiro?!

— Humm, desculpa atrapalhar. — proferi, enquanto encarava Rogers. Ele e o doutor, interromperam a conversa com minha entrada, e eu senti todo o meu rosto esquentar conforme recriminava-me por dentro.

Eu deveria, no mínimo, ter penteado a merda do cabelo direito.

— Não atrapalhou. — respondeu Steve.

Concordei e acenei com a cabeça, passando a mão pela cabeleira, tentando expulsar a vergonha do meu ser.

— Oi Steve. — lembrei-me de cumprimenta-lo verbalmente.

Ele disse um "Olá Sofya" e todos permanecemos em silêncio.

Constrangedor.

Depois daquele acontecimento em minha festa, eu evitei o herói com todas as minhas forças. Apesar de ser um esforço e tanto já que, estranhamente, eu sinto uma necessidade de estar com ele — eu sou a pessoa mais confusa do mundo, mas acho que todos já sabem disso.

Steve cumpriu sua promessa e manteve meu segredo a salvo, mas percebi, ele não conseguia evitar de lançar-me o olhar que me direcionava neste momento.

Steve me olha de um jeito estranho, e eu não gosto disso. Nunca disse a verdade por medo de ser julgada, e o fato dele nunca comentar sobre o acontecido naquela noite, me deixa muito insegura. Eu sei, eu sei, foi eu quem pediu para que ele não tocasse no assunto. Às vezes, essas minhas inconstâncias me irritam.

Obviamente, eu escondo toda a confusão dos meus sentimentos em minha tão costumeira cara de paisagem.

Não tive noção do tempo em que permanecemos assim, os olhos fixos um no outro, até ouvir um pigarrear que fez-me desviar a atenção do Capitão para Bruce, que revezava seu olhar entre mim e Steve, com um semblante suspeito.

— Podemos começar a hora que quiser. — avisei Banner, lançando outro olhar para o loiro ao seu lado, que ainda me encarava.

— Tudo bem, vocês se importam de eu buscar um café?

Estranhei:

— Não tinha uma cafeteira aqui? — procurei pela máquina e a encontrei desligada em um canto.

— Quebrada. — Bruce explicou, e ajeitou o óculos em seu rosto.

Me ofereci para consertá-la. Entrei na sala, um tanto hesitante, e tentei ignorar a presença dele enquanto procurava uma chave para abrir e ver o que causou o transtorno do doutor, no entanto, não encontrei o que eu precisava, não havia nada por ali. Constatei um tempo depois, que teria que ir até o laboratório de meu pai buscar o material necessário para o concerto.

— Posso pegar seu café se quiser. — ofereci.

— Não. — Bruce negou com um balançar de cabeça. — Eu vou, sem problemas.

Steve levantou de seu lugar, levando a mão ao pescoço, a encaminhando em direção a nuca, alisando e coçando o local. Reparei que ele faz isto quando está sem jeito, e disfarcei o sorriso que quis aparecer em minha boca.

— Eu tambèm estou indo, aproveito e pego uma carona até lá embaixo. — Steve apontou na direção que dava ao elevador. Ignorei a estranha pontada de decepção que me atingiu e me virei para a mesa, fingindo mexer em algo.

Bruce fez um pedido ao herói, enquanto eu observava nosso trabalho, disfarçando meu interesse na conversa dos dois:

— Na verdade, Steve... eu gostaria que você ficasse por mais alguns instantes. — pediu Banner, e acrescentou em seguida. — Se não for te atrapalhar.

Steve concordou em esperar e Banner tomou seu caminho.

— Aproveite e ajude Sofya no que ela precisar. — deu de ombros, indiferente demais. Ajuda? O doutor está estranho.... tem coisa ai. — Vão querer alguma coisa?

— Nada, obrigado. — disse Steve.

Muito educado, coisa que eu não consigo ser, com um dragão morando em meu estômago.

— Na verdade, eu quero. — eu falei, lembrando que não havia comido nada, e que meu estômago doía com a fome. — Cappuccino e torta de limão, fala que é para mim que a Lindsay já até sabe.

O doutor concordou com minhas indicações.

— Obrigado Bruce.

Bruce apenas sorriu e saiu do cômodo, e eu me voltei para Rogers.

— Precisa de ajuda com algo? — perguntou o loiro, prestativo. Afinal, quando ele não é?

Encarei o herói por alguns instantes:

— Eu preciso pegar algumas coisas no trigésimo andar. — falei. Ele assentiu em silêncio.

Sério, porque toda essa tensão no ar?

— Acho que...

— Claro, vou ajudá-la.

— Isso! Obrigado.

Concordamos e continuamos em pé, parados.

— Temos que pegar o elevador. — falei o óbvio.

O que está acontecendo comigo?

Soltei uma risadinha sem graça.

— Sim... — ele maneou a cabeça e apontou para eu ir na frente. — O elevador. — saímos da sala, ainda em silêncio. Entrei no elevador com o herói logo atrás, e me voltei para a vista que tínhamos com o elevador de vidro.

— Jarvis. — chamei. — Trigésimo andar.

A inteligência confirmou, logo, começamos a descer.

— Então... como você está?

O silêncio estava me incomodando, tive que falar alguma coisa, ainda que fosse bem...

— Estou bem, obrigado. — Steve me olhou e eu concordei, ficando novamente em silêncio, sem ter mais o que dizer. — E você?

— Bem também. — sorri.

Que conversa...

O elevador parou no andar desejado e nós saímos.

Fomos até a sala em busca dos equipamentos que eu precisaria, e assim que a encontramos, fui direcionando Rogers a pegar as coisas mais pesadas.

Ele estava ali para ajudar, não é?

Não conversamos, porém, olhando-o de relance, reparei que o herói também me encarava, isso fez com desviasse-mos nossos olhares um do outro, constrangidos.

Mas que saco.

— Pode perguntar.

— O que?

Rogers encarou-me sem entender, suspirei e repeti:

— Pode perguntar.

Steve fixou seu olhar no meu em concentração, sem sinal de confusão, mas de um leve constrangimento. Ele havia entendido.

— Não quis ser inoportuno. — murmurou acanhado.

— Não foi. Tudo bem, Steve. — o encarei com confiança, e suspirei. — Admito, o assunto não é o dos mais confortáveis, mas você já sabe, não há necessidade de fingir.

— Nunca houve necessidade... — seu tom de voz foi firme.

— Talvez, mas não sinto-me pronta para contar a ele.

— Tony é irritante, irresponsável e impulsivo, mas qualquer um pode ver que te ama, ele não a julgaria por isso.

A certeza em seu olhar quase me fez acreditar, mas havia muito mais que ele ainda não sabia.

— Diz isso porque não sabe de tudo que fiz. — eu disse em um sussurro.

Não há um modo de entender o fato de eu me abrir para Steve, com tanta familiaridade, verdade seja dita, Steve me passa uma confiança quase sobrenatural, é como se tudo o que fiz de errado não fosse um problema para ele.

É irreal.

Steve suspirou:

— Todo mundo já errou, você não é diferente Sofya.

Dou risada:

— Mal nos conhecemos, e você está aí, me defendendo. — comentei, mudando de assunto, isso não lhe passou desapercebido. De toda forma, não estou mentindo ao dizer aquelas palavras, são breves os encontros dos Vingadores em que eu estou presente, não são muitas vezes que nos víamos, ainda sim, é complicado explicar a atração que nutro pelo herói.

Então você vai me entender, ao ver que me encontrei paralisada, a suas próximas palavras, né:

— Você está certa, neste caso... vamos nos conhecer.

Seus olhos azuis deixou-me hipnotizada. Rogers é um homem bonito, gatíssimo, e ninguém pode dizer o contrário, porém, é raro pararmos para olhar além da beleza inferior, o que para mim é inadmissível. Todos deviam parar para pensar: o que há embaixo de um rosto bonito? Normalmente, nossos olhos são o caminho para o que existe no interior de cada um, e Steve tem os olhos mais lindos que já tive o prazer de observar, eram claros, como água cristalina, e tão expressivos. Toda a imensidão azul deu-me a sensação de estar mergulhando nos sentimentos que o homem demonstrava.

Carinho, respeito e naquele instante, interesse.

Eu o interessava.

A frase pareceu flutuar no ar, senti meu coração bater mais forte. Steve Rogers havia me surpreendido, muito mesmo.

Sua risada chega em meus ouvidos, parecendo nervosa, não sei. Estou ocupada demais investigando-o atentamente, tentando acreditar em suas palavras.

— Está me convidando pra sair? — eu sorri, minimamente, fingindo que não havia uma festa acontecendo dentro de mim.

— Depende.

— Depende? — ergui minhas sobrancelhas, minha garganta seca, meu estômago contorcendo em expectativa, meu coração crescendo em meu peito.

— Você irá aceitar?

Se vou aceitar? Dou risada pela pergunta. Não precisa perguntar, lindo.

— Vou.

Pensei nos minutos anteriores, em que não sabíamos o que dizer um ao outro, e no agora, sendo convidada para sair com mesmo. Como poucos minutos fizeram tanta diferença? Eu não sei dizer, mas não há como negar minha felicidade.

Um imperceptível sorriso formou-se em seus lábios, e como tudo no herói, seu sorriso é absolutamente lindo.

— Então sim, estou te convidando para sair.