NEW STARK | the avengers [1] ✓

31 Declaração, tiro e atentado


Você sente o mesmo quando estou longe de você?

Você sabe a linha que eu andaria por você?

Poderíamos dar meia volta ou poderíamos desistir

Mas vamos enfrentar o que vier, enfrentar o que vier

Imagine Dragons — Walking The Wire

— Por que nunca confia em mim?

— Como espera que confiem em você, como espera que eu confie?

Minha mãe costumava soltar aqueles famosos bordões que as pessoas normalmente citam, mas o que me vem à mente agora, é que a confiança é uma via de mão dupla. Se eu quero que confiem em mim, eu também preciso abrir mão da minha desconfiança e dar uma chance.

Nunca imaginei que minha cisma, meu receio em me entregar totalmente a alguém, fosse me ferrar tanto nesta vida. Sempre idealizei que isso fosse algo bom, não ser tão boba, não deixar-me levar pelos outros, contudo, acabei por desconfiar até mesmo daqueles que eu gosto. Tive tanto medo de ser deixada, mas dei as costas ao meu próprio pai. E se eu continuar assim, a insegurança e desconfiança me fará uma pessoa solitária e infeliz.

Como fui depois de Central City.

Tenho medo de voltar a ser assim.

O abajur que encontrava-se ao lado da cabeceira da cama, em cima do criado mudo, foi lançado contra a parede, enquanto meu grito de raiva seguia o barulho do objeto se quebrar.

— Idiota! — falei. — Você é uma idiota, Sofya. — olhei em um dos espelhos do quarto de hotel.

Sei que preciso me acalmar, entretanto, a onda de raiva não quis me deixar. Foi como se aquela breve demonstração de poder tivesse extinguido o remédio de meu sistema. Mas ao sentir minha mão esquerda tremer, eu suspirei, segurando-a contra meu corpo, sentando na beirada da cama. Um aperto em meu peito me deixou sem ar.

— Você sempre estraga as coisas. — disse a mim mesma. — Acaba com tudo. — funguei, prevendo o início de um choro que se começasse, não acabaria.

Deitei na cama em posição fetal e apertei meu rosto contra o travesseiro, fechando os olhos, tentando evitar as lágrimas que insistiam em vir.

Respire.

Inspire.

Respire.

As coisas não estão bem, e eu tenho que resolvê-las.

Mas como consertar minhas burradas?

Fale a verdade.

Tem que parar de esconder as coisas das pessoas.

Fale a verdade.

Dizer a verdade incluí revelar sobre o acidente, sobre meus poderes, sobre a causa da morte da minha mãe. E não há outra coisa que dói mais em mim, do que lembrar meu passado.

Não quero que saibam o que fiz, porém, sei que não poderei esconder isso por muito mais tempo.

Está mais que na hora de eu deixar de ser tão covarde.

É fácil falar, eu sei. Mas tenho que tentar.

Com isso em mente, eu me levantei da cama e visualizei, através do espelho, a garota de quinze anos que fugiu de uma cidade para não ter que ouvir os murmúrios das pessoas, os olhares de medo e desaprovação. Aquela garota teria de ir embora em alguma hora. Ela terá de ir embora, agora.

— Fale a verdade. — repeti como um mantra. — Não é tão difícil. — a garota de quinze anos deu lugar a uma Sofya diferente, uma Sofya que irá aprender a confiar.

Okay, falar a verdade.

Meu pai seria o primeiro com quem eu deveria falar, mas ele já não está na cidade, então não terei como conversar pessoalmente. E como um treinamento da verdade, confesso que estou aliviada por não precisar conversar com ele, agora.

Por que o assunto será tenso.

Então com a primeira etapa adiada, pulei direto para a segunda: entregar o pacote ao diretor filho da mãe, que não avisou da presença do Rogers em seu plano.

Foi complicado entrar em contato com o agente, mas nada que uns segundos em frente ao computador resolvesse o problema.

Minutos depois e estava feito, a mensagem codificada foi enviada com sucesso. E com a segunda etapa do plano feita, faltava a terceira, que logo foi executada.

Guardei minhas coisas, paguei minha conta no hotel e liguei para uma agência de viagem, reservando um voo de volta para New York, ao fim da tarde do mesmo dia.

Terceira parte concluída.

— Ótimo, agora falta a última. — comentei sozinha, recebendo uma olhada estranha de uma senhora que passou ao meu lado.

Ignorei a clara mensagem de "Louca" que ela me lançou e chamei o táxi que passou no instante, entrando nele ao parar e passando o endereço ao motorista.

Respirei fundo.

Entre, fala e sai.

Entre, fala e sai.

Repeti a frase várias vezes em minha mente, mas quando o carro finalmente parou em frente ao prédio de Steve, eu travei.

Simplesmente travei lá dentro, no banco de trás do táxi.

Eu estou muito ferrada.

Talvez não seja uma boa idéia, talvez seja melhor deixar do jeito que está. Minha mente sussurrou.

— Não estou fazendo isso por gostar dele, mas por ele merecer. — rebati.

É mesmo? Então por que está com tanto medo?

— Não estou. — falei alto e suspirei. — Okay, eu estou.

Um pigarrear tirou-me de meu dilema confuso com a minha mente. A carranca do motorista me recebeu através do retrovisor.

— Você vai descer ou não? — perguntou bruscamente. — O cronômetro só tá rolando moça. — avisou.

E eu posso pagar, moço.

Fiz uma careta para o mal humorado.

— Tá, já estou descendo. — peguei minhas coisas e tirei uma nota de cem dólares do bolso. — Fique com o troco. — ele arrancou o carro assim que sai, sem dar-me a oportunidade de mostrar minha expressão esnobe e deixando-me embasbacada, de boca aberta encarando o automóvel se afastar. — Mal educado. — murmurei indignada.

Não se fazem mais motoristas como antigamente. Balancei a cabeça em negação e caminhei até o prédio, subindo as escadas após chegar ao edifício.

Travei, novamente, a cinco degraus do andar de Steve, sentei e baixei a cabeça, suspirando. Tomei fôlego como se isso me desse coragem o suficiente para encarar a situação, bom… não deu. Eu fiquei os próximos minutos ali, parada e nervosa. Acho que passaram-se um total de cinco minutos, mas minha ansiedade dizia-me que havia sido duas horas. E no último segundo, conclui que talvez essa não fosse uma boa idéia, covardemente, inventei desculpas como: ele não está em casa, e que eu apenas ficaria plantada esperando-o como uma idiota.

— Melhor voltar outra hora... — decidi, levantando do chão.

Desci três degraus antes de parar, e voltar até o topo do andar para paralisar, novamente, parecendo uma barata tonta, sem saber o que fazer.

— Idiota. — xinguei, brigando comigo mesma.

Em meio àquela saudável luta interna, ouvi o som da voz dele me chamar:

— Sofya?

Me virei e levantei o rosto para encontrar aquele belo par de olhos azuis, Steve, com um olhar curioso pareceu querer respostas. Ele não mais trajava sua roupa do Capitão América, mas vestia um conjunto moleton e calçava um tênis, levando em sua mão um boné.

Inferno, estava lindo como sempre.

— Ah! Oi. — me remexi sem ação.

— Oi.

Fiquei em silêncio e ele também.

Saco.

— Estava te esperando. — eu falei.

— Sofya... — Steve começou .

Coragem.

Coragem.

— Steve... não quero discutir...

— Também não. — o herói concordou, subindo uns degraus aproximando-se de mim.

Assenti mais tranquila e relaxei.

— Que bom.

— Sinto muito por deixá-la sozinha e sem qualquer explicação. — ele falou envergonhado, passando a mão sobre a nuca, num toque que já reparei que faz quando está sem jeito. — Estava nervoso, optei por me afastar a continuar e dizer algo que talvez me arrependesse… — Steve suspirou. — Ainda sim, isso não justifica minha falta de compreensão e cortesia.

Pisquei, balançando a cabeça sem saber como respondê-lo.

— Aceito suas desculpas se aceitar as minhas. — falei, instantes depois. — Também errei nesta história. — encarei o herói, dando de ombros.

Steve negou:

— Não errou...

— Steve... — o cortei, erguendo as mãos. — Olha... quero te explicar toda a situação.

— Não é necessário que me explique.

Parei, encarando-o indignada.

— Como assim?! — cruzei os braços. — Todo esse barraco aconteceu por causa disso, e justo quando estou determinada a parar de fazer doce, você decide que não quer mais respostas?!

— Ham... — Steve me olha sem entender.

Ainda sim, eu continuo:

— Você vai ouvir, Capitão. — avisei e ele nada mais disse. Suspirei e comecei, antes, olhando ao redor. — Não estou trabalhando para a SHIELD. — cheguei perto do homem, tentando falar o mais baixo possível. — Eu, mais do que qualquer um discorda dos meios que a agência resolve seus problemas... acho que não sabe. — dei um sorriso. — Mas já neguei uma chance de trabalho na SHIELD.

— Quem ofereceu? — Steve perguntou curioso.

— Nick Fury. — revirei os olhos. — Quem mais tentaria... — murmurei, ainda injuriada com o diretor.

— Vocês não se dão bem.

— Ele me sequestrou!

Steve ergueu as sobrancelhas, pedindo pela longa história.

—É uma longa história. — avisei.

O loiro sorriu.

— Você é boa em resumir.

— Sou mesmo... basicamente, hackeei umas coisas de Tony, o diretor que já estava em meu encalço, meses antes, conseguiu convencer meu pai a ajudá-lo, Tony sem imaginar nosso laço sanguíneo descobriu minha localização, Fury me sequestrou e levou para a SHIELD. — maneio a cabeça, lembrando.

— E foi assim que nos conhecemos. — ele comentou, suprimindo um sorriso. — Mortinha da Silva. — citou, e eu sorri dando de ombros, feliz por ele lembrar. — Você nunca me contou essa parte da história. — Steve comentou.

— Foi uma loucura. — falei, pensando em como fiquei irritada na época, mas voltei a ficar séria focando no assunto principal. — O diretor também não dá motivos para uma boa convivência... Nick Fury meio que me... — eu pigarreei, envergonhada. — ...Chantageou. — o loiro ergueu o olhar surpreso. — Mas acabei ajudando-o por vontade própria. — completei rapidamente.

— Não entendo. — Steve murmurou aproximando-se, imerso em nossa conversa. — Acabou de dizer que não concorda com a SHIELD... então por que ajudou Nick?

Coloquei uma mecha do cabelo atrás da orelha, e peguei quando o herói acompanhou todo o movimento.

— Por isso não queria falar sobre isso na SHIELD, — não consegui evitar o leve tom de acusação, antes de completar. — O diretor desconfia de todos, eu desconfio.

Steve pareceu não entender.

— De quem?

— Quando a Torre foi atacada... — falei. — Senti a mente daquelas pessoas e eram tão vazias, quase como um bloqueio. — me aproximei dele, quase sussurrando. — Foi então que lembrei, de quando Tony e eu viemos para Washington... a SHIELD disponibilizou um carro e o motorista que tivemos era tão estranho. — contei, franzindo o cenho. — A mente dele era igualmente vazia. — olhei nos olhos do loiro. — Nunca havia parado para pensar nisso, não até meu aniversário.

— Você acha que a SHIELD atacou sua casa. — ele concluiu.

Neguei lentamente.

— Não entendeu ainda Steve? Acredito que há infiltrado dentro da agência. — ficamos em silêncio, comigo observado o herói digerir a situação. — Ajudei Nick Fury. — afirmei. — Construindo algo capaz de desabilitar e tomar controle dos aeroporta-aviões. — expliquei vagamente, vendo o entendimento passar por seus olhos. — Não pensei que você estaria no meio, — expressei. — Mas não sei por que fiquei tão surpresa... — dei de ombros, dando um sorriso fechado. — É o Capitão América. De qualquer forma, sinto não ter contado tudo antes.

Tratei logo de me afastar, indo alguns passos para longe do herói.

— Sinto muito. — Steve pediu, parecendo arrependido.

Parei de me afastar e o encarei sem entender:

— Sente muito?

— Fui egoísta.

— Steve... esquece isso. Não há problemas irritar-se com algo que atinge você.

— Ainda sim, optei por descontar em nossa discussão algo que você não tem culpa. É por isso que estou arrependido. — ele se aproximou — Nunca falei do meu trabalho na SHIELD e exigi que me contasse do seu. — comentou, parecendo decepcionado consigo mesmo.

Encarei o herói, contrariada.

— Eu não trabalho para a SHIELD. — neguei, balançando a cabeça. — De toda forma, não era um bom momento para nenhum dos dois. — ele me lançou um olhar afiado. — E agora tudo já foi esclarecido. — eu falei calma, voltando a me afastar do homem, dando um passo para trás enquanto ele dava um para perto de mim.

— O que houve?

Seus olhos preocupados quase amoleceram minha determinação, mas havia combinado comigo mesma: o que eu tenho, — tinha. — com Steve Rogers não dará certo.

Quando ele foi embora, decepcionado com minha omissão, percebi que talvez estivéssemos fadados a isso. Eu escondo coisas demais, ele preza por sinceridade.

Não dará certo.

O melhor a se fazer será me afastar e impedir que futuramente meu coração seja quebrado.

Balancei a cabeça, negando:

— Steve... não é uma boa idéia. — tentei não encara-lo.

Acho que ele soube do que eu falava, pois, seus olhos iluminaram em determinação.

— O que? Me preocupar com você? — ele indagou, olhando-me com aqueles olhos irritantes, subindo o restante dos degraus, chegando até mim enquanto eu tentei me afastar.

Tão irritante.

Tá-tá. Eu não conseguirei evitar seu olhar por muito tempo mesmo.

Argh!

Eu estou perdida, sem chances de escapar disso. Balancei a cabeça para afastar aqueles pensamentos.

— A gente... — eu disse lentamente. — Isso, não vai dar certo. Somos muito diferentes...

— Sofya...

— ... e há problemas maiores com que se preocupar agora. — continuei.

— Posso falar? — ele pareceu querer evitar o sorriso.

— Não, olha... eu sou chata pra caralho. — avisei, e ele tentou não se incomodar com o palavrão. — E eu xingo às vezes. — apontei ele. — Meu pai é louco, e é provável que agora não goste de você. — continuei a enumerar. — Somos de tempos diferentes. — a esse ponto, Steve estava com a testa franzida, apenas ouvindo-me. — Já fiz muitas burradas e continuo a fazer burradas o tempo todo, eu também escondo coisas e você não gosta que escondem coisas de você e...

Todas as palavras sumiram, todas as desculpas viraram fumaça ao sentir sua mão puxar-me pela nuca, enquanto a outra agarrou-me pela cintura. E então, sua boca colou na minha silenciando qualquer pensamento que passou por minha cabeça, minha mente entrou em curto enquanto meu coração retumbou em meu peito, e quando nossas línguas se tocaram, toda a coerência que ainda me restava sumiu, meus neurônios travaram e alguma parte da minha mente tentou entrar em protocolo de emergência para que eu reagisse… e eu reagi. Em seguida, tudo que pude fazer em meio ao turbilhão de emoções, foi retribuir aquele beijo com fervor, agarrando ele do jeito que sempre me imaginei fazendo e colando meu corpo ao dele, sentindo o cheiro de Steve inundar minhas narinas.

Meu corpo pareceu incendiar e quando ele me apertou para mais perto de si... senti todas as minhas barreiras caindo por terra, e as vozes que tanto me atrapalharam, nunca me pareceram tão absortas... eram sons baixos que não incomodavam, pois a batida do meu coração ecoou muito mais alto em meus ouvidos. Nosso ritmo foi lento como se quiséssemos provar cada pedaço um do outro, e mesmo nos separando pela falta de ar, eu ainda senti a necessidade de beijar o homem mais uma vez.

Ofeguei quando nos afastamos, e murmurei a primeira coisa que me passou pela cabeça:

— Ahann... — encarei aquela boca maravilhosa e depois subi meu rosto até encontrar seu olhar. — O que foi isso?

Quer dizer, uau!

Eu estou lutando bravamente contra a vontade de pular em cima de Steve, e beijá-lo até que não possa respirar. Mas temos uma situação a discutir aqui, e eu ainda tenho que me esforçar para deixar os pensamentos impuros longe da minha mente.

— Você não me deixou falar. — defendeu-se o homem, agora afastado de mim, alisando a nuca, em um misto de constrangimento e humor.

— Tá...

— Sofya. — Steve não me deixou falar. Eu também ainda não tinha coerência o suficiente para completar uma frase. — Acho que não entendeu ainda, mas eu também nunca falei claramente, então... — Steve se aproximou. — ...Não me importo com seus defeitos ou erros, por que apesar de tudo isso, eu estou apaixonado por você. — meu coração ritmado, passou a bater ainda mais forte. — Eu também sou chato demais. — evitei rir do fato dele não xingar, e me limitei a sorrir. Put... — Vou te cobrar toda vez que falar um palavrão. — continuou. — E não me importo se Tony é louco ou se não gosta de mim, por que o importante é você. — Ai. Meu. Coração. — E eu erro e vou errar o tempo todo. — fez um carinho em meu rosto. — E sobre seus segredos... — ele franziu o cenho. — Vamos lidar com isso... mas acima de tudo isso eu preciso saber, nossa diferença de tempo te incomoda?

— Nunca incomodou, Steve. — murmurei.

— Que bom. — ele assentiu, calmamente. — Por que eu posso lidar com isso se você puder. — ele falou, e eu concordei com um manear. Steve tocou meu cabelo, colocando uma mecha atrás da minha orelha. — Desde que acordei nesse tempo, nunca cogitei que me interessaria por mais alguém, nunca esperei encontrar uma pessoa que me faria querer permanecer neste tempo. Mas seu jeito sarcástico e tímido, seu sorriso, sua afeição pelas máquinas, sua força ao sorrir mesmo quando eu sei que guarda algo dolorido. — Steve falou. — Desde nosso primeiro encontro, você me chamou atenção, esses olhos brilhantes cheios de segredos… — ergui minhas sobrancelhas. Meus segredos te atraem, Capitão? — Não sei como ou por que, mas o que eu sinto por você é… sinto como se fosse um pequeno milagre em minha vida, então estou disposto a arriscar, e você, está disposta a arriscar?

Respire.

Inspire.

Respire.

Eu tinha procurado Steve para explicar a situação que ele não havia entendido, mas após essa reviravolta sem explicação, eu agora estou pertinho dele, enquanto o mesmo aguarda minha resposta.

Sabe aquela determinação que eu citei anteriormente? Então... ela meio que desapareceu.

Coloquei minhas palmas sobre a face do homem, olhando fixamente aqueles azuis que tanto amo.

A resposta é óbvia, mas ele quer ouvi-la e eu quero falar.

Está tudo lindo, maravilhoso... completo.

Até ela aparecer.

Eu estava gritando, sim! Em minha cabeça, mas quis ser uma mocinha, dizendo a palavra delicadamente. Não deu certo, pois, fomos interrompidos pela Vizinha.

Credo.

Parece até nome de filme de terror.

—Que lindo, isso é tão legal. — Katie falou.

Eu ao menos lembrava que estávamos no andar do herói, absorta demais em nosso beijo.

E que beijo viu!

A Vizinha conversava ao telefone e fechando a porta reparou em nossa presença, ela largou uma bacia no chão eu tive que fazer o sacrifício de soltar o herói.

— Oi, — sorriu para nós e retribuímos. — Ah, eu tenho que ir. — disse ao telefone e pausou. — Tá bem, tchau. — então nos olhou. — Minha tia... — deu de ombros. — Sofre de insônia. — explicou.

Concordamos, eu com um sorriso fechado.

Não dissemos mais nada e quando um enorme silêncio se fez, nos despedimos afastando-se da loira, quando Steve, subitamente parou.

— Estou esquecendo algo. — murmurou para mim.

— Seu escudo? — chutei em uma expressão de dúvida. Por que o Capitão América não pode ficar sem o escudo.

Steve sorriu, divertido.

— Não.

— Não custa tentar. — justifiquei, dando de ombros.

Steve segurou minha mão, puxando-me para perto

— É... não custa.

Sorrimos e eu me aproximei um pouco mais:

— Então eu acho que seja sua resposta. — murmurei sorrindo, para o loiro me acompanhou, hesitante. — Sim. — respondi, sentindo sua mão acariciar meu braço.

Os olhos dele me hipnotizou como sempre faz, e diferente de antes, Steve não pareceu reticente em beijar-me no meio do corredor, tanto que até mesmo nos esquecemos da loira ainda presente.

Não por muito tempo, pois, ouvimos um pigarrear.

Argh!

— Ah! — Katie sacudiu a cabeça, e nos encarou. — Quase me esqueci... acho que deixaram o som ligado. — avisou, enquanto erguia a bacia, com uma careta confusa.

—Ah, tá. — Steve reprimiu a tensão que tomou seu corpo e sorriu. — Obrigado.

— Não há de quê.

Somente quando a Vizinha, finalmente, desceu os degraus para longe do andar, que voltei-me para o homem.

Nosso momento terá que ser adiado.

— Você não deixou o som ligado. — deduzi hesitante, olhando a porta.

Então me deixei sentir, e prendi a respiração com o que vi.

— Não, eu deixei. — o tom sério do herói expressou o que desconfiou.

Enquanto isso, mergulhei em uma lembrança.

Nick Fury achou que havia conseguido despistar os que haviam tentado lhe matar. Apressadamente ele tentava fazer uma ligação, quando um homem, coberto por roupas pretas, máscara e um braço de metal, apontou uma arma na direção do diretor.

A surpresa do diretor não lhe deixou desviar.

A arma disparou e o objetivo lançado correu todo o espaço, até debaixo do carro, explodindo e desnorteado o diretor quando o carro capotou.

Pude então respirar profundamente, encarando a entrada do apartamento, alarmada.

— Me espere aqui... — Steve ia dizendo, mas o parei em meio a frase, com um toque em suas mãos.

— Não.

— Sofya…

Steve.

Ele se sobressaltou com o susto.

— O que..?!

Steve. Eu disse firme. É Nick quem está aqui. Falei em sua mente.

Olhei em seus olhos, afirmando com o olhar.

Como sabe? Pensou, parado em seu lugar.

—É ele. — afirmei.

Nos encaramos e em uma concordância mútua, e ele foi na frente abrindo a porta, comigo seguindo-o logo atrás. Andamos em silêncio, ouvindo o som baixinho de uma música antiga soar, espalhando-se por toda a casa, apesar do tom baixo.

Quando ouvi Steve comentar:

— Não lembro de ter te dado a chave. — o herói estava em minha frente tampando minha vista, de mim e para mim, mas não foi difícil adivinhar a quem se dirigiu.

As próximas palavras soaram baixas, firme e grossa, confirmando minha fala anterior. Sem mais delongas, dei um passo à frente e entrei no campo de visão de ambos os homens, recebendo um olhar repreendedor de Steve.

Qual é, até parece que eu me esconderia atrás dele pelo resto da conversa.

Espere sentado, lindo.

— Você acha mesmo que eu preciso de uma?... — o diretor Fury olhou para mim, sem se surpreender. — Minha esposa me expulsou. — explicou, lentamente.

— Diretor. — eu disse séria. — Tento imaginar o porque. — alfinetei.

Ergui minha sobrancelha esquerda, minha mente lutou contra a confusão de lembranças que vieram dele, busquei entender as coisas que ele espontaneamente mostrou-me.

— Não sabia que era casado. — Steve comentou. Isso se dá ao fato de Nick Fury não ser casado.

Olhei ao redor, desconfiada, com uma sensação de quem é observado.

Pela primeira vez, meu cérebro apitou em uma espécie de alarme, muito pouco conhecida, mas não esquecida.

Como deixei uma coisa dessa passar?

— Tem muitas coisas que você não sabe a meu respeito.

— Imagino. — meu tom sarcástico trouxe-me a atenção do diretor.

— Claro que sim. Você, melhor que ninguém sabe o que é isso, Sofya.

É a primeira vez em muito tempo que o diretor chamou-me pelo nome, após minha reprimenda a meses atrás. Diferente de antes, não me incomodei com a intimidade não dada. Me incomodei com o escuro que nos cerca, — e não no sentido literal da palavra. — todas as coisas não ditas deixando-me ansiosa. Estou cansada de apenas especular, quero ter certeza e deixar de lado todas minhas dúvidas.

— Pois é Nick, esse é o problema. — Steve falou, parecendo cansado, e eu reprimi a culpa por esconder as coisas que, aparentemente, são importantes para o herói.

Por não enxergar quase nada liguei a luz, e o diretor se destacou em meio ao ambiente, seu rosto tomado de sangue seco, seu braço braço machucado sobre o colo. Fury, imediatamente, voltou a desligar a luz, ainda que de forma lenta, evitando uma expressão de dor.

Vagarosamente, o diretor digitou em seu celular, mostrando-o logo em seguida.

OUVIDOS EM TODOS OS LUGARES.

Consegui ler, e a sensação que tive pôde ser explicada.

—Eu... sinto muito ter que fazer isso, mas eu não tinha onde ficar. — ele continuou a dizer, voltando a digitar.

Não é que ele não tivesse onde ficar, Nick apenas queria evitar que descobrissem seu segredo, queria protegê-lo.

SHIELD COMPROMETIDA.

E eu até mesmo suspeitei que Fury soubesse, a um longo tempo, sobre a existência das escutas presentes no apartamento de Steve.

Cheguei mais perto do diretor, buscando por informações:

— Quem mais sabe da sua esposa?

— Só... — ele suspirou.

VOCÊS E EU.

— ...meus amigos.

Ri baixinho, sem humor, por que eu senti que algo ia dar ruim.

— Amigos. — ironizei.

Steve deu um passo a frente, afastando-me do diretor, e eu estranhei a atitude protetora, mas meu coração acelerado — um idiota. — pareceu gostar daquela atenção.

—E isso que nós somos? — Steve perguntou.

Fury focou seu olhar no do herói:

— Depende de você.

Fury me olhou, e eu senti que ele quis dizer algo.

— O que houve lá? — fui direta, cansada de toda a ladainha.

— Você sabe o que houve, Sofya.

Steve não teve tempo de expressar suas perguntas, eu não tive tempo de dizer minhas suspeitas.

Fomos pegos de surpresa.

Nick leva um tiro certeiro no peito e grita, enquanto o loiro me obriga a baixar, colocando um braço sobre mim.

— Sofya?

— Estou bem. — avisei, Steve me olhou e assentiu.

Ajudei o herói arrastando o diretor para longe da janela, e logo, estávamos em um outro cômodo da casa. Steve abaixou-se até estar sobre o diretor, pondo a mão sobre seu peito, tentando estancar o sangue que saia, também me agachei até estar ajoelhada, e encarei o olho de Nick, tendo a certeza de que o diretor quis dizer algo a mim. Nick Fury prendeu as mãos do herói sobre a sua, e lhe entregou um pen drive, sua boca abrindo em uma frase entrecortada:

— Não... confie em ninguém. — avisou.

— Não se esforce, diretor. — pedi. O fato de Nick e eu não nos dar bem, não impediu que a preocupação me atingisse.

A porta da frente é aberta com um chute e Steve levanta, enquanto tomo seu lugar ao lado do diretor. Não esperei ver Katie, a Vizinha, entrando no apartamento portando uma arma.

— Capitão Rogers! — sua voz foi firme, seu rosto sério. Bem diferente da enfermeira que conhecíamos. Troquei um olhar com Steve, sem entender. — Capitão, eu sou a agente 13, serviço especial da SHIELD.

Agente da SHIELD.

Por essa eu não esperava.