N-não É Como Se Eu Te Amasse, Baaka!
3 Quero meu Jaoshingan
– Quê foi? Encontrou uma barata voadora no banheiro? — Wesley fez questão de entrar, principalmente porque queria lavar as suas mãos e já começava a senti-las grudando pela demora do outro rapaz. Quando voltou, encontrou o rapaz na mesma posição. — Tá com fome? É isso?
– Hm? — ergueu o rosto em sua direção com dificuldade. — Ah, é verdade, a gente não comeu nada depois do almoço.
– Só que aqui não tem comida japonesa não — ele riu de leve, sabendo que o outro parecia um tanto fanático por isso.
– Eu imaginei que não! — franziu as sobrancelhas, acompanhando-o até a cozinha. — Você que faz a comida em casa também?
– É, de vez em quando. Depende, se tô com pregui eu faço só um miojo esperto e como — ele começou a esquentar as panelas, com comida provavelmente do dia anterior, mas não se importava com isso.
– Hmm — observou-o. Não estava acostumado a ajudar nesse tipo de coisa em casa, então pensava não precisar fazê-lo ali também. Mais do que isso, mesmo que quisesse, não saberia nem por onde começar.
– Cê é mó marmanjo e não sabe cozinhar, é? — Começou a balançar um talher que tinha em mãos, usado pra virar a carne. — Garotas gostam dos macho que sabe cozinhar.
– Eu nunca aprendi — emburrou-se novamente ao ouvir aquele comentário. — Além disso, não são elas que precisam aprender a cozinhar? — sentou-se numa das cadeiras da cozinha pequena, fitando-o.
– Porra! Cê quer uma namorada ou uma segunda mãe? — Deu uma frigideirada na sua bunda, não acreditando que tinha ouvido isso sair de sua boca.
– Ei! — deu um pulo, levantando-se da cadeira, resmungando. — Mas não é normal que elas cozinhem? — praticamente grunhiu. — É coisa de garota.
– Fica quieto, seu filho da puta. Cê deve tá falando merda por causa da fome — ele riu um tanto, dando outra frigideirada nele. — Quero ver se vai chamar de "coisa de garota" quando tiver morando sozinho.
Ele novamente resmungou, dessa vez não fazendo mais nenhum comentário daquele tipo. Parecia também um tanto ofendido pela forma como fora tratado, mas preferiu ficar quieto.
–Mesmo que você fale, eu não sei o que fazer.
– Cê pode fazer que nem o cara aqui perto, casou com uns 15 anos e trata a mulher que nem lixo, achando que ela tem que fazer tudo que o bosta quer — ele respondeu, desligando o fogo de algumas panelas, vendo que já estava quente o suficiente para poderem fazer o prato.
– Ele casou novo assim? — surpreendeu-se. Mas o mais surpreendente fora que, de toda a frase, aquela fosse a única parte a chamar sua atenção.
– É só na periferia que acontece umas merdas assim, né? — Olhou em sua direção, entregando um prato simples para que pudesse colocar a comida.
– Eu não conheço ninguém que tenha feito isso — pegou o prato. Ao menos ele sabia que aquele tipo de coisa era incomum, pensou.
Fez o prato sem muita dificuldade, seguindo o outro até o sofá da sala, onde jantaram assistindo televisão.
– É por isso que você é popular? — Rodrigo perguntou repentinamente, entre uma garfada e outra.
– Por não ter engravidado ninguém até hoje? — Ele riu um tanto, dando uma grande mordida no bife que tinha pegado com o garfo, ficando com preguiça de cortá-lo.
– Por saber cozinhar — arqueou uma sobrancelha, embora também tivesse achado graça da pergunta.
– Nem deve ser — ele riu um tanto, pois não levava todas as jovens para a sua casa e fazia comida a elas.
– Então por que será? — franziu mais as sobrancelhas.
Era mesmo impressionante e não falava apenas das garotas. E não apenas com interesses amorosos, mas todas as pessoas ao seu redor pareciam apreciar imensamente sua companhia, era algo que simplesmente não conseguia compreender. Enfiou uma grande quantidade de comida na boca, frustrado.
– E eu sei lá. Por que cê tá tão invocado com isso? — Não entendia o que deixava o rapaz tão curioso assim para descobrir uma resposta em relação ao fato de ter uma boa vida social.
Mas Rodrigo deu de ombros, fitando-o de esguelha, ainda fazendo suspense por alguns instantes até finalmente dizer:
– Porque é o que todo mundo quer ser, não é?
– Cê não tem uns cumpadi também? — Perguntou, com o garfo parcialmente na boca.
– Eu tenho, mas não garotas — e imediatamente arrependeu-se de dizer aquilo. Agora o outro o atormentaria pelo resto da vida, tinha certeza.
– Cê precisa sair comigo então — ele riu ainda mais, tendo que se controlar pra não engasgar. — Acho que já saquei. Cê é nerd, né? Muito nerd. Nerd pra cacete, aê.
– Otaku! — grunhiu. — É o tipo de pessoa que gosta muito de cultura japonesa, que nem eu! — disse orgulhosamente.
– É a mesma coisa que ser um nerdão japonês então?
– Não chame desse jeito! — realmente sentia-se ofendido.Embora não fosse mentira.
– Mas os nomes que cê pede pra chamar são muito difíceis, tá ligado — ele respondeu, suspirando.
– Não são! São fáceis, olha! — e virou-se em sua direção, como se isso fosse deixar a comunicação mais fácil. — Repete comigo: O...
– Ooooo.... — Os seus lábios se entreabriram naquele formato, fitando-o.
– Ta! — parecia satisfeito por ele tentar falar corretamente, apesar de tudo.
– Taaaaaaaaaaa....
– Ku! — era isso. Agora ele conseguiria chamá-lo pelo nome certo.
– Cuuuuuuuu — ele riu da última parte, provavelmente por soar tão errado aos seus ouvidos.
Ainda pensava que esqueceria o modo de chamá-lo no dia seguinte.
– Agora fala tudo junto!
- Oteucu?
– Otaku! — gritou, chegando a levantar-se do sofá, com o prato em mãos. Estava tão bravo que parecia prestes a espumar pela boca a qualquer instante. — E eu pensei que pudesse aprender alguma coisa! — bufou e foi até a cozinha, deixando a louça dentro da pia. Ao menos isso era capaz de fazer.
Wesley não entendia o que ele murmurava e o que o deixava tão irado assim, mas de certo modo achava divertido. Fazia diversos insultos, tentava inferiorizá-lo, mas sempre acabava voltando para lhe fazer companhia, de algum modo.
– Vai cair tua mão de lavar?
– Lavar? — olhou para trás por cima do ombro, encontrando o loiro. — Mas... Eu não sou visita? — novamente murmurou, num misto de raiva e decepção.
– Dá licença então... Visita — ele colocou o próprio prato na pia e então começou a lavar ambos.
– Ah — afastou-se para que conseguisse fazer o desejado, sentando na mesma cadeira de antes. — Por que você saiu de casa?
Aparentemente suas perguntas eram sempre repentinas.
– Pra eu ser um a menos pra véia sustentar. A véia tava se matando demais pra isso. Alguém tinha que ajudar — ele respondeu, jogando o pano de prato em cima de mesa de qualquer modo.
– Mas não é o dever da mãe sustentar os filhos? — em sua cabeça o que ouvia simplesmente não fazia sentido. — E você tá trabalhando, de qualquer jeito, por que sair de casa?
– Cê não devia tá numa faculdade? — Olhou para o rapaz com um tanto de desprezo, pela primeira vez desde que se encontraram. Provavelmente ele tinha tocado em algum ponto sensível de sua vida, do qual não desejava falar.
E, pela primeira vez, ele sentia um calafrio percorrer sua espinha. Uma hostilidade horrível vinha do loiro, algo que nunca antes sentira, ou esperava sentir, de uma pessoa normalmente tão agradável.
Olhou para baixo e mordeu o lábio inferior. Poderia ter dito várias coisas, dentre elas "e você, por que não está?", mas não conseguiu, simplesmente. Apenas continuou calado e esperou que o rapaz terminasse o começado.
Esperava que aquele dia terminasse logo, gostaria de voltar para casa.
"Funkeiro baka, baka" ecoava em sua mente. Fora uma pergunta simples, nada para ser tratado daquela forma, e exatamente por não compreender o motivo de sua atitude era tão dolorido.
– Cê é muito moleque ainda — foi o que o "funkeiro" se resumiu a dizer, saindo da cozinha, indo provavelmente arrumar o próprio quarto. Não tinha se preparado para receber visitas, então deveria estar um tanto bagunçado, ainda mais porque costumava acordar e sair com pressa de sua casa, sem se importar com detalhes como aquele.
E ali ficou o jovem moreno, sentado na cadeira. Não tinha coragem de segui-lo, nem vontade. Na verdade tinha medo de tentar se aproximar e levar outra bronca, era uma sensação realmente desgastante. "É por isso que eu não gosto de funkeiros", pensou consigo mesmo, mas não se atreveu a dizer em voz alta. Não podia correr o risco de ser expulso dali, aquele lugar era perigoso demais para voltar sozinho, à noite.
Seus olhos ardiam um tanto, mas se recusava a deixar as lágrimas rolarem. Maldito fosse! Mas era isso o que ganhava por tentar ser amigo de uma pessoa daquele tipo, que lhe servisse de lição.
Alguns minutos se passaram para Wesley voltar até a cozinha. Estava apenas de cueca samba canção, com o cabelo um tanto molhado, assim como parcialmente o seu tórax, indicando que havia tomado banho.
– Vai dormir na cozinha? Ou cê vai tomá banho antes?
– Não sei onde posso dormir — a voz saiu resmungada, mas levantou-se de onde estava após algum tempo, fitando-o.
Lembrou-se de não ter trazido nem uma muda de roupas limpas, por não planejar dormir fora. Aquilo era mesmo ruim. De qualquer forma poderia tomar banho e dormir da mesma forma que o outro.
– No meu quarto, besta — ele riu um tanto, não acreditando que o outro tinha levado aquilo a sério. Apenas estava estranhando o fato dele não ter saído do cômodo até aquele momento.
Rodrigo se perguntava como alguém que estava tão bravo um momento atrás agora conseguia rir como se nada houvesse acontecido, aquilo simplesmente não fazia sentido em sua cabeça, o que o frustrou ainda mais.
– Vou tomar banho, então — e então entrou no banheiro, tirando a roupa e abrindo a ducha sobre si. — Baka — disse baixinho, os olhos ardendo novamente, finalmente deixando que as lágrimas escorressem.
Quando ele saiu do banho, Wesley já estava deitado em um colchão próximo de sua cama, parecendo cochilar um tanto, enquanto o local que sempre usava para dormir parecia vago para o outro rapaz.
Ao contrário da cama, o colchão em que o outro estava deitado parecia bem fino, provavelmente nada confortável para alguém daquele tamanho descansar.
Ah. Aquilo não era justo, não.
Como podia, após fazer-lhe uma pergunta atravessada que doera tanto, ter uma demonstração de consideração daquela forma?
Definitivamente, não entendia o rapaz.
De qualquer forma, respirou fundo e andou nas pontas dos pés até a cama, com cuidado para não pisar no outro. Não queria machucar nem acordá-lo, afinal de contas, e ambos teriam trabalho no dia seguinte.
Deitou e puxou o lençol sobre si, cobrindo as pernas nuas e a cueca.Inclinou um tanto o rosto para fitá-lo, parecia profundamente adormecido, mesmo numa situação tão precária, o que o fez achar certa graça.
Lembrou-se então do que fizera mais cedo, quando o observara para se aliviar no banheiro, sentindo o sangue concentrar-se todo em seu rosto. E era bom que fosse no rosto, pois teria sérios problemas caso ele resolvesse ir para outro lugar.
– Boa noite — disse baixinho, quase inaudível, ao virar-se para o lado oposto, evitando contato visual.
Fale com o autor