– Eu não odeio viado, fica sussa — respondeu, começando a se afastar do rapaz, apenas como prevenção, caso ele desejasse fazer mais do que aquilo. — Conheço uns cumpadi que odeia, vô tê que ficar de olho pra ninguém te encher de bifa.

O rapaz respirou fundo, acalmando-se um tanto, embora ainda o observasse.

- Não é por ser viado ou não — embora dizer aquela palavra quando dizia respeito a si mesmo fosse um tanto agoniante. — É daquilo que eu disse antes!

- Falou o quê?! Ah... Esquece essas porra tudo! Cê tá confundido minha cachola! — Ele colocou a mão sobre a lateral do próprio rosto, esfregando-o um tanto, parecendo estar indignado também com a sua própria reação. Era a primeira vez que tocava em um homem daquele jeito. A primeira vez que beijava um. — Eu não quero sê coiote não...

- Coiote? — piscou algumas vezes, não compreendendo o que queria dizer com aquilo.

- Coiote é viado que fica escondendo que é viado, faz tudo por baixo dos tampos — e então olhou para o outro rapaz, repentinamente abrindo um largo sorriso. Era estranho como ele continuava de bom humor mesmo após uma situação tensa. — É a primeira vez que tenho que explicar uma porra de palavra pra tu! Ficava me fazendo de burro com as palavra japas, toma!

- Cê também usa umas palavras estranhas! — resmungou, olhando-o, por fim coçando a nuca, franzindo as sobrancelhas e suspirando. — Eu esperava uma reação bem pior, mesmo — deu de ombros, sorrindo suavemente. — Já fico feliz de você não ter raiva de mim. Acho melhor eu ir agora — e olhou na direção do ponto de ônibus.

Wesley ficou observando-o ainda daquela distância. O normal seria que um rapaz daquele desaparece de sua vida de vez, não é? Que tomasse o seu rumo e acabasse virando um futuro playboyzinho, sem ter relação alguma com alguém que morava na periferia e precisava se esforçar para sustentar a si mesmo. Não deveria ser uma despedida difícil. Era apenas mais um colega de trabalho, um pouco maluco e divertido, mas mesmo assim um colega.

- Aê! — Colocou as mãos no bolso, notando que já tinha chamado a atenção do moreno novamente. — Tu não vai sumir, vai?

- Sumir? — surpreendeu-se ao virar o rosto novamente em sua direção. Não esperava que fizesse uma pergunta daquele tipo.

De fato, o pensamento passara por sua mente em alguns momentos.

Mesmo que continuassem sendo amigos, não havia realmente algo em comum entre eles, isso sem contar o fator agravante: seu amor. Seria muito sofrido vê-lo pelos cantos com garotas e tinha certeza de que aconteceria. Já vira acontecer diversas vezes, aliás, por que seria diferente agora? Mesmo assim, não conseguiu evitar uma pequena centelha de esperança dentro de si ao perguntar:

- Cê não quer que eu suma?

- Cê é surdo? — A sua expressão fechou de um modo repentino, desviando o rosto para o lado, mas logo ele voltou a sorrir, embora ainda não o fitasse diretamente. — Cê é mala pra cacete, Rodrigo...

- Eu sei — mesmo assustando-se a princípio, acabou rindo, divertindo-se com o último comentário. — A gente pode combinar de sair, mas nada de bailes — franziu as sobrancelhas como se quisesse repreendê-lo, embora não fosse muito convincente.

- Ah, porra, eu ia ajudar tu a abalar e te levá pruns lugar chapa quente! — Reclamou, chegando a tirar a mão do bolso e gesticular. Pois para Wesley, aquele seria um ótimo ponto de encontro para ambos. Ele até poderia notar que estava confuso e realmente conseguir uma "potranca" depois.

- É? Só se cê for num evento de anime comigo — deu de ombros, mais achando graça do que qualquer outra coisa, por ter certeza que ele negaria.

- Que porra é essa? — Colocou as mãos sobre a cintura e inclinou suavemente o rosto, parecendo curioso. — Vai ter japa de kimono rebolando?

- Eu nunca vi ninguém de quimono nesses lugares — surpreendia-se de ele saber o que era um, na verdade. — Mas tem muito cosplay! — pensou em dizer "e muita menina com saia curtinha com plaquinha de beijo", mas definitivamente não gostaria de ver o rapaz sendo popular daquela forma em sua própria zona de conforto. — Também tem comida e umas salas de exibição!

- Tem cosquinha? Que porra é essa? Cara, fala a minha línguaaa! — Acabou se aproximando dele apenas para lhe dar um tapa na nuca, rindo. — Toma umas bifas pra aprender! Mas se tem rango eu vou.

- Olha quem fala! — riu mesmo após receber o golpe, apenas massageando a parte em questão. — São pessoas que se vestem como seus personagens preferidos dos animes, cosplays! Eu te aviso quando tiver um, então.

- É tipo o batidão, só que tem festa a fantasia? Até que os nerdão sabe abalar! — Ele recuou alguns passos, sabendo que o outro rapaz não gostava de ser chamado assim, mas frequentemente deixava isso escapar. — Seu busão tá chegando, pega ele.

- Não é nerdão! — fez que ia chutá-lo, embora não parecesse tão bravo quanto das outras vezes em que fora chamado daquela forma. Talvez o fato da reação do rapaz ser melhor que o esperado o deixasse de bom humor. — É, eu vou lá — despediu-se dando uma leve batida no ombro de Wesley, apressando-se até o ponto.

Muitas coisas aconteceram, definitivamente.

Mesmo não conseguindo encontrar um assento vago, estava mais do que feliz. Sorriu estupidamente e passou as pontas dos dedos sobre os lábios, sorrindo. Ao menos aquela lembrança ele levaria consigo.

Wesley fez questão de naquele mesmo dia dar uns "amassos" com uma garota de sua vizinhança. Queria se certificar que não tinha virado "viado" por causa do que aconteceu com Rodrigo e, bem, não havia se tornado um. A jovem com camiseta de regada e shorts curtinho continuou parecendo atraente aos seus olhos. Fez tudo o que desejava naquele momento e logo a dispensou, voltando para casa.

- Puta ideia burra que eu tive — ele disse para si mesmo, ao se lembrar de ter apertado o pênis do moreno naquele momento.

Deveria ter sentido nojo, mas pareceu mais natural do que havia imaginado. Provavelmente porque ele era um "cumpadi". Mas não conseguia se imaginar beijando mais ninguém de sua turma, ainda mais aqueles que tinham o mesmo gosto que ele. Aí sim sentia um mal-estar só de pensar. Isso realmente não fazia sentido.

Sentiu que a sua cabeça poderia explodir caso pensasse demais. Aquilo não era o seu forte. Em todos os seus relacionamentos, apenas se deixava levar pela situação e a curtia, sem refletir sobre nada. Aquilo era ser "vida loka". Só que ela tinha ficado um pouco mais homossexual do que de costume.

"Ah, que se foda". Pensou antes de dormir, acreditando que aquilo não iria realmente atrapalhar a sua vida. Nunca tinha ficado ou se sentido preso por causa de mulher antes. De homem que não seria.



*********



- Wesley. Wesley! Ei, Wesley! — a jovem de cabelo enrolado, no caixa, balançou a palma da mão sobre a frente de seu rosto, tentando chamar sua atenção. — Você tá me ouvindo? O cliente tá esperando!

- Ai porra, calma, mulher! — Wesley saiu de seu devaneio, colocando alguns pedaços de atum que tinham caído de volta ao cone do temaki, entregando ao rapaz. Tinha até esquecido que não deveria falar palavrão em serviço, mas o cliente não pareceu ter ouvido.

Ela então suspirou, notando não haver mais ninguém na fila.

- Cê tá bem? Tá estranho desde ontem — seus olhos cerraram e o sorriso alargou, divertindo-se apenas com a possibilidade. — Ele te contou, né?

- Contou porra nenhuma!

Nem sabia mentir direito, pois a atitude em sua resposta o havia denunciado completamente. Aquela jovem do caixa era muito mais esperta do que as "potrancas" que ele pegava.

- É, claro, depois de meses trabalhando comigo decidiu que quer fazer isso só agora, sei — definitivamente não parecia acreditar no que ele dizia, apenas afastando-o para o lado por hábito. — Tem certeza que não é outra pessoa que você quer beijar? — perguntou novamente no tom de provocação, sabia muito bem lidar com o rapaz.

- Claro que não, cacete, vai que cê cisma comigo do nada e me denuncia praqueles bagulhos lá de abuso do trampo. Agora eu sei que dá pra brincar e tu não liga — desconversou, cutucando novamente as suas costelas, um mau hábito que tinha adquirido para provocá-la.

- É? Acho que outra pessoa faz mais o seu tipo — esquivou-se dos cutucões. — E denuncio mesmo! Desde quando trabalho é lugar de arranjar homem? — resmungou. — O que aconteceu ontem, afinal?

- Aê! Por que mulher é xereta? — Perguntou, colocando o dedo que estava sujo de cream cheese sobre o seu nariz.

- Ei, ei, sem generalizar! — inclinou-se e limpou o nariz na manga de sua camisa, nem ao menos se importando. — E é culpa sua não falar logo! Olha que eu pergunto direto pro Rô, ein?

- Rô? Tu podia dar um nome mais legal pro cara, tipo Rodri-boy, saca? Rodriboy — começava a rir do apelido que ele mesmo havia inventado. Mas não tinha mais como ver a reação do rapaz. Ele não trabalhava mais lá. Isso deu a ele um estranho sentimento de solidão.

- Então chama você ele assim — sorriu. — Sabe? Eu devia falar que estou feliz por ver que você tá tratando ele normal, mas não vou. Vai mesmo ficar como se nada tivesse acontecido?

- Pô, acabei de inventar, o cara nem sabe — e novamente ele passou o cream chesse pelo nariz dela, suavemente irritado com a sua insistência em continuar aquele assunto.

- Ficar fugindo não vai resolver as coisas também — e novamente limpou-se em sua camisa.

Precisaria lavá-la quando chegasse em casa, pois o creme branco no tecido preto era muito chamativo.

- O que cê quer eu eu faça? — Perguntou, parecendo perder a paciência com a insistência da garota.

- Quero que me diga a verdade — suspirou. — O que cê tá sentindo, por exemplo. E sua opinião de verdade sobre o Rô.

- Que papo de viadinho esse, se liga — ele a empurrou com um dos ombros, mas a verdade era que nem ele mesmo sabia o que estava sentindo.

Apenas queria que os três continuassem trabalhando na temakeria. Por mais que a jovem fosse legal, tinha assuntos que só conseguia conversar com Rodrigo, e aquele papo esquisito dele começou a se tornar engraçado.

- Bem, se vocês ainda tão falando, então podem resolver as coisas entre si — novamente deu de ombros. — Mas pode falar comigo se quiser, também. Sei que você acha que pode resolver tudo sozinho e não quer falar de certas coisas porque eu sou mulher — revirou os olhos em irritação nesse momento — mas mesmo assim. Eu vou estar aqui, se você precisar.



Perto da hora do almoço, o celular do loiro tocou, fazendo barulho de mensagem. Ao inspecioná-lo, ali estava uma mensagem de seu antigo colega de trabalho:

"Quer vir na minha casa domingo? \\(^o^)/"

- O cara não sumiu mesmo — acabou rindo ao ver a mensagem, olhando-a por alguns momentos, pensando em como deveria responder.

"Toh indu aiiii, KKKKKKKK!"

As formas de mandar mensagens eram tão diferentes quanto suas personalidades, o que não deixava de ser engraçado.

Não demorou para o tal dia chegar, com o "funkeiro" tocando à sua campainha.

Mas não fora Rodrigo a atender, e sim sua mãe.

- E aí....tia — ele não sabia ao certo como se comportar com aquela senhora. As pessoas do shopping tinham se acostumado com o seu jeito e gostavam dele. Mas pessoas com grandes status sociais não costumavam valorizá-lo muito. Sequer conseguia falar do jeito deles.

Ela pareceu um tanto surpresa com a aparência do rapaz, mas sorriu logo em seguida, convivando-o para entrar.

- Olá, muito prazer! — abriu um largo sorriso, realmente acolhedor. — O Rô está na cozinha — ela disse enquanto indicava o caminho.

Aparentemente este era seu apelido mais comum. De fato, era curto e fácil de pronunciar, não se admirava.

Provavelmente Wesley se sentiria ainda mais "viado" chamando o rapaz de "Rô". Que amigo chamaria o outro por um apelido assim, a menos que fosse para tirar sarro dele?!

Não conseguia andar com o mesmo gingado de sempre. Era como se aquela casa o deixasse um tanto preso. Como se tivesse que virar um grã-fino ao adentrá-la e ser forçado a se comportar do mesmo modo que eles.

- Oi — foi o que disse, um tanto encolhido.

- Oi! — o moreno disse do fogão.

Sim, do fogão.

De pé, mexia algo com consistência grudenta dentro da panela grande, o bastante para quatro pessoas comerem e repetirem, caso quisessem.

A mãe ainda permaneceu no batente da porta por alguns instantes, observando bem os dois antes de receber um olhar furtivo do filho, soltando um "vou deixar vocês à vontade" e indo para a sala.

- Não liga não — o dono da casa começou — ela só ficou curiosa porque os amigos que eu trago normalmente são diferentes — e achou graça de imaginá-los.

E o rapaz que estava de visita pareceu surpreso e curioso ao ver que o outro estava fazendo algo. Na verdade mais surpreso do que curioso. Chegou a se aproximar para também dar uma pequena observada na panela.

- Tua véia achou que eu era bandido? — Wesley perguntou baixinho, diferente do tom alto que ele normalmente usava e chamava a atenção de todos ao redor.

Ao fazê-lo notou grãos de arroz sendo misturados num creme amarelado e com aspecto puxa-puxa, provavelmente pedaços de queijo derretido.

- Claro que não — ele chegou a achar graça da pergunta enquanto continuava a mexer os ingredientes na panela, jogando agora alguns champinhons fatiados. — Eu falei de você, ela sabe que não é desse tipo. Só diferente, sabe? E tudo que é diferente dá curiosidade. Estica a mão — pediu repentinamente, retirando a colher do arroz e assoprando suavemente o conteúdo da mesma.

- Que porra cê tá fazendo? — Continuava falando baixo, como se a mãe dele pudesse repreendê-lo pelos palavrões também, olhando para os lados, não sabendo a qual distância ela estava.

Ele parecia cozinhar algo complexo. E tinha dito há algum tempo que mal fazia um miojo sozinho. Por isso não conseguia processar ou compreender o ocorrido.

- Só me dá a droga da mão — quase grunhiu, perdendo a paciência, olhando-o por cima do ombro.

- Vai se foder, é assim que cê sentiu minha falta, é? — Enfiou a mão na cara dele como resposta.

O moreno apenas riu, afastando sua mão e virando a palma para cima, onde colocou um pouco do arroz cremoso, voltando a mexer a panela novamente.

- Agora prova. Tá bom de sal e tudo? — tinha um sorriso estúpido nos lábios.

"Ele quer que eu sinta falta", pensou consigo mesmo, sentindo o coração apertar com o sentimento tão grande.

- Vai se foder, cê não vai cozinhar melhor que eu nem a pau, seu mala! — Resmungou, ainda parecendo apreensivo a experimentar.

Provavelmente teria o orgulho ferido caso estivesse realmente bom. Mas era culpa do almofadinha que tinha mais grana para gastar com ingredientes bons, não sua.

- Pára de reclamar e come logo! — mesmo brigando, achava divertido. Decidiu apagar o fogo enquanto esperava sua reação. — Nem parece que a comida é pra você, mal agradecido pra caralho.

- Caralho, é pra mim?! — Ele disse mais alto do que imaginava, e como a casa era grande, provavelmente deveria ter ecoado por diversos corredores. Para diminuir o seu próprio constrangimento, enfiou rapidamente o conteúdo em sua boca, experimentando-o. — Sei lá que é isso, mas tá bom pra caralho — admitiu.

Rodrigo o fitou chocado por alguns instantes, até finalmente cair na gargalhada.

- Que bom? — chegou a esfregar os olhos, quase chorando de tanto rir. — E, sim, é pra você também. Foi você que me fez ter vontade de tentar esse tipo de coisa pelos outros — começou a pegar uma travessa para despejar o arroz, tentando esconder seu constrangimento.

Wesley ficou constrangido ao ouvir aquela frase. Nenhuma mulher tinha tentado aquele tipo de coisa por ele. E o máximo que os colegas faziam por ele era lhe oferecer um baseado. Ou uma coxinha do bar da esquina. E só um pedaço.

- O caralho que fui eu, cala essa boca aê — começou a dor soquinhos em seu ombro.

- Cê tem problema em aceitar elogio, é? — cutucou sua costela com o cotovelo, como o loiro tantas vezes fizera com a amiga do caixa. — Por que não me ajuda pegando a travessa dentro do forno? — perguntou enquanto entregava-lhe um pano de prato, pegando outro para si, envolvendo-o no recipiente do arroz. — Cuidado que tá quente.

- Caralho, o que cê botou no forno?!

Definitivamente, aquela palavra não estava deixando sua boca naquele dia. Mesmo assim, fez o que tinha lhe sido pedido.

- É só bife à milanesa que eu fiz e deixei no forno pra não esfriar, mané — não conseguia deixar de achar graça de suas reações exageradas.

Foi até a sala, onde a mesa já estava posta, guiando o rapaz atrás de si. Colocou a travessa sobre a mesa e esperou que ele fizesse o mesmo, sentando-se numa das cadeiras.

Quatro lugares, exatamente, um prato na frente de cada cadeira.

- Vai....Se....Foooooder! — Disse sonoramente, ainda inconformado com a qualidade dos pratos que ele fazia. — Pera aê, eu vou comer com seus véios? — Ele puxou repentinamente o outro pela gola, não se importando de enforcá-lo no processo. Estava nervoso demais para prestar atenção no que ele mesmo fazia.

- Ah! — agradeceu por já ter pousado as travessas, ou correria o risco de derrubá-las, sendo levado contra sua vontade. — Cê tá louco?! — massageou o próprio pescoço. — Claro que vai, oras! A gente tem costume de comer todo mundo junto, então cê vem com a gente — não conseguia compreender o que havia de errado com aquilo.

- Cê pirou? Eu vou fazer merda na frente deles! — O rapaz ainda parecia incomodado. Provavelmente tinha medo que o achassem um mau exemplo e falassem ao outro jovem para nunca mais vê-lo.

- Fazer o quê? Cê não tem cinco anos de idade — ainda se divertia, embora não visse motivo para toda aquela preocupação. — Por que cê tá nervoso assim?

- To sussa, cara, to sussa — ele comentou, dando alguns tapinhas sobre o ombro de seu amigo, embora mordesse suavemente os lábios inferiores, numa tentativa de se acalmar ou se distrair.

- Vamos comer de uma vez! Cê não tá com fome? Meus pais não mordem, não — brincou, praticamente empurrando-o de volta à sala de jantar.

Wesley então pareceu mais rígido do que uma estátua. Somente depois de alguns instantes após se sentar notou que estava de boné e precisava retirá-lo, fazendo-o. Fora isso, não sabia ao certo como iniciar o diálogo com eles, nem qual a quantidade de comida que deveria pegar.

- Aqui em casa não tem frescura, viu? — a mãe disse, sorrindo, começando a fazer o próprio prato, para dar o exemplo. — Cada um se serve como quiser, então não fique com vergonha!

- Sim, senhora — ao menos não a tinha chamado de "tia" pela segunda vez. Isso poderia ser considerado um bom passo.

- Fique à vontade — o pai de Rodrigo comentou.

- O Wesley tá envergonhadinho, quer que eu faça seu pratinho? — Rodrigo soltou num tom de deboche enquanto servia a si mesmo, sentando-se em seu lugar e olhando para o outro. Esperava que fosse incentivo o suficiente para parar de se conter tanto.

O olhar de Wesley era de quem o estava mandando "se foder" mentalmente, mas não tinha coragem o suficiente para falar aquilo na frente de duas pessoas de idade mais avançada do que eles.

- Valeu. Eu tenho mãozinha e sei me virar — respondeu, pegando o próprio prato e começando a se servir.

- Então vocês se conheceram no trabalho? — a mãe começou a falar, tomando um gole de seu suco sobre a mesa. — O Rô sempre falou muito de você! — a fala fez o moreno rolar os olhos em frustração.

- Séeerio? Quê que ele fala de mim, tia? — Acabou se empolgando e a chamando do mesmo modo, mas ao menos tinha se descontraído mais ao ver a expressão de Rodrigo com aquele comentário.

O seu pai comia em silêncio, mas também aparentava se divertir com a situação.

- Ele sempre falou de como você se esforça no trabalho e mora sozinho. E como se preocupa com a mãe! — ela então suspirou, realmente feliz. — Não consigo nem dizer como sua influência tem sido boa pro nosso Rô, parece até uma pessoa diferente!

- Mãaaae — ele resmungou, realmente constrangido.

- Isso é verdade, ele até pensou em começar a estudar para passar em uma faculdade. Ainda bem, eu achei que ele ia passar o resto da vida na frente de computadores — o seu pai acrescentou, colocando mais um pouco de arroz em seu prato. — Isso está realmente bom.

- Ah... Maneiro... — Wesley não estava acostumado a ser elogiado e por isso ficou um tanto envergonhado. Teria coberto o rosto com o boné caso não o tivesse retirado.

- Paaaaai — o moreno soltou na mesma entonação de antes, tão ou um pouco mais constrangido que o jovem ao seu lado.

Tentou esconder essa vergonha enchendo a boca de comida, embora não parecesse ter muito efeito, especialmente por causa de sua mãe:

- Começou a ajudar nas coisas de casa, tem feito a comida nos fins de semana — ela parecia prestes a chorar, aliás, o que deixou seu filho mais embaraçado do que nunca.

- Caraca, esse não é o Rodrigo que eu conheci, não. Aê! Que bicho te mordeu? — Wesley precisava disfarçar o seu próprio constrangimento de algum modo. Acabou o cutucando com o garfo, esperando que isso não o fizesse cuspir toda a comida que tinha dentro da boca.

Mas tudo o que recebeu de volta foram ruídos abafados e o garfo afastado.

- Meu filho, não fale de boca cheia!

- Deixa ele falar, deixa ele falar — o pai riu um tanto, parecendo achar a situação um tanto divertida.

- Mas ele vai sujar tudo! — chateou-se.

O moreno que engolira a comida finalmente disse:

- Parem de encher! — não era nada muito revelador, realmente.

Ao menos aquele diálogo havia ajudado Wesley a se distrair um pouco, começando a falar com mais naturalidade na frente dos pais de Rodrigo, não se importando em deixar escapar algumas gírias estranhas de vez em quando. Nunca tinha acreditado que poderia mudar uma pessoa, ainda mais uma com status social bem melhor do que o seu. Era surpreendente e interessante.

Após a refeição, a mãe insistiu que lavaria a louça e agora os rapazes poderiam "pôr o papo em dia". Praticamente os empurrou para o quarto do filho enquanto ela própria se direcionava à cozinha.

- Acho que vou sair rolando — Rodrigo disse ao abrir a porta, deixando o amigo entrar logo em seguida.

- Convencido pra cacete, falando que vai sair rolando do rango que cê mesmo fez — o outro riu de leve, curioso para ver o quarto de Rodrigo, provavelmente estaria cheio de "gibizinhos" e outros artigos relacionados a desenhos.

- Eu precisei comer pra não responder as perguntas vergonhosas — resmungou, sentando-se na própria cama.

De fato, não era diferente do que o outro esperava:

Vários pôsteres de desenhos japoneses, jogos, mangás, mas também alguns livros, em especial um aberto sobre sua escrivaninha, indicando que estivera estudando.

- Tu vai continuar vendo os desenhos? — Wesley perguntou, olhando para um dos pôsteres que estava na parede, curioso.

Enquanto ele usava todas as suas forças internas apra não corrigi-lo, sabendo ser inútil, disse:

- Por que eu ia parar?

- Sei lá, cê que sabe — ele finalmente tomou coragem para finalmente se sentar sobre a cama também. Fazia um certo tempo desde que estiveram tão próximos assim fisicamente. E nesse momento, tinha levado um beijo. Era como se tivesse parado de se preocupar com isso.

- É como eu perguntar se você vai continuar ouvindo funk — achou graça, fitando-o.

De fato, estavam bem próximos, o que fazia seu coração disparar um tanto. Estava nervoso, por mais que quisesse ficar junto ao outro. No final não tivera uma resposta definitiva, mas agora tinha medo de perguntar novamente. Sentia que perdera sua oportunidade.

Um instante de silêncio perdurou até ele dizer:

- Aposto que até você podia gostar de um!

- Se eu gostar dessas porrinhas, dessas paradas loucas que cê curte aí, tu tem que gostar do meu batidão também! — E o empurrou com um dos ombros, uma mania que tinha adquirido e fazia tempo que não realizava. Agora tivera a oportunidade. Era como se pudessem ter de volta o momento em que trabalharam juntos.

- Ei! — novamente achou graça. — Pra ser bem sincero eu não ligo muito pro ritmo, mas as letras precisam ter tanta putaria daquele jeito? — resmungou. — E existem animes pra todos os gostos, sério mesmo.

- Nem é todo batidão que tem putaria, só o proibidão — ele riu. — Eu também curto — e admitiu, não parecendo se importar com isso.

- Eu imaginei que sim — mas constrangeu-se ao imaginá-lo cantando coisas pervertidas daquele tipo. — E eu nunca ouvi um que não tivesse putaria na letra! — surpreendeu-se ao ouvir de sua existência.

- Nunca ouviu porra nenhuma, cara! — Ele achou aquilo um ultraje, fitando-o com um ar de surpresa. — Tenho certeza que cê já ouviu o "Glamurosaaa, rainha do funk, poderooooooooosa...! — Se Rodrigo não o interrompesse, ele cantaria a música toda.

- Aaaah — lembrara-se naquele momento. — Mas esse é bem antigo, né? Os de hoje não são assim!

- Sei lá, cara, sei lá, deve ter, que se foda. Todo mundo fala palavrão — ele resmungou de leve, mas logo voltou ao seu humor habitual. — Mas tem funk assim também!

- Eu sei que falam, mas todas — enfatizou aquela palavra — as músicas precisam ser assim? — deu de ombros, decidido mudar de assunto. — E como tá tudo lá na temakeria?

- Não é toda, caraaaaalho! — Deu um tapa leve na testa do rapaz apenas para chamar a sua atenção, e somente então ouviu a pergunta sobre a temakeria. — Tá a mesma coisa, só tão pegando mais no meu pé, to fazendo sozinho agora, né cara.

- Ah! — resmungou, embora não tivesse realmente doído. — Não arranjaram ninguém pra vaga ainda? E a Nessa? — referia-se à caixa do restaurante.

- Ainda não, os cara não gosta, prefere ser caixa — Wesley suspirou um tanto. — A Nessa tá me enchendo, a cachorra fala de tu até agora.

Ele achou graça, especialmente ao imaginar que já teria levado um tapa na nuca caso a jovem o ouvisse chamá-la daquela forma. Talvez completasse com um "cachorra é a mãe", ou coisa assim.

- E que bizarro, isso — sorriu. — Eu tô popular assim, é?

- Ela quer que a gente dê uma aparada na rabiola, cara! Bucha pra caralho! — Ele continuou resmungando, parecendo inconformado com isso.

- Aparada na rabiola? — fez uma expressão realmente confusa. O que raios aquilo queria dizer, afinal?

- É, cara, comer teu cu! — Ele disse sem pudor nenhum, ainda com o mesmo ar de indignação que antes.

O coração de Rodrigo parou por um instante. Pensou que fosse ficar sem ar.

Não sabia o que fazer. Sentia as bochechas pegarem fogo, mas não poderia demonstrar que na verdade aquele era um desejo secreto seu. Quer dizer, nem tão secreto assim.

- É mesmo? — tentou abrir um meio sorriso, mas saíra completamente forçado.

- As gostosas é tudo fresca, a maioria nem quer dar o cuzinho — Wesley soltou um comentário repentino, fitando então o outro rapaz. — Epa, pera, pera, cê quer mesmo ser minha mulherzinha?

Rodrigo engoliu em seco, desviando os olhos para baixo, reunindo cada pequeno resquício de coragem em cada uma de suas células até finalmente falar, a voz um tanto trêmula:

- Eu preferia ser seu namorado.

Aquilo trouxe como consequência um momento de silêncio entre os dois rapazes, que apenas se entreolharam.

- Ah....Ih, cara, porra. Fodeu. Fodeu tudo — e embora Wesley dissesse diversos palavrões ao mesmo tempo, ele não parecia estar irritado de verdade. — Não entendo dessas porra de namoro não, sou muito vagaba pra isso. Cê parece bem sensível. Ia aguentar mesmo o tranco?

- Você nunca namorou alguém? — ergueu minimamente os olhos, ainda constrangido pela situação.

Na verdade achasse incrível que seu problema fosse em machucá-lo, em vez de ficar enojado pela ideia de namorar outro homem. Wesley era mesmo uma pessoa muito curiosa.

- Eu só fiquei — Wesley respondeu, acomodando-se melhor na cama do outro rapaz. Até que era bem higiénica, diferente dos lençóis imundos e quartos fedidos que alguns colegas seus tinham e emprestavam de vez em quando. — Eu fico curtindo, é isso.

- Hm — ainda não conseguia virar completamente em sua direção, muito envergonhado para isso. Entrelaçou os dedos de ambas as mãos e apertou uma palma contra a outra, o sorriso nervoso se recusando a deixá-lo. — Não pode ficar curtindo só comigo?

Sabia que era muito egoísmo de sua parte, mas realmente ficaria feliz. Amava-o, era normal o querer para si, não?

- Cê não vai se machucar se isso não der certo e eu for atrás de um rabo de saia dando mole? — Wesley não conseguiu virar em sua direção também. Nunca tinha sentido aquele "climão" com nenhuma outra companheira antes.

- Vou — encolheu suavemente os ombros, permanecendo de costas durante todo o tempo. — Mas também dói vendo você fazer isso agora, então eu queria pelo menos tentar — disse sinceramente. — Mas não é esse o problema — balançou suavemente a cabeça para os lados, negando, inclinando-a minimamente em sua direção, fitando-o de esguelha. — Você gosta de mim?

- Claro que eu gosto, cê é mó viadão e eu ainda gosto. Tô aqui no seu quarto por que te odeio? Ô malinha — ele resmungou, não acostumado com aquele tipo de pergunta.

- Não é gostar de amigo — riu nervosamente, finalmente sentando-se de lado, conseguindo enxergá-lo com sua visão periférica.

- Cê é chato mesmo, puta que pariu — o outro rapaz também resmungou, abraçando um de seus próprios joelhos, não querendo responder àquela pergunta.

Nem ele próprio tinha conhecimento de seus sentimentos e o que realmente desejava. Era do tipo que se deixava levar. Não que refletia e pensava duramente sobre algo.

- Eu disse que já sei — as pálpebras pesaram, parecendo triste. — Mas — pressionou os próprios lábios, tentando afastar o nervosismo — eu quero te fazer gostar de mim! — e desta vez virou completamente em sua direção, embora envergonhado consigo mesmo.

Wesley não sabia ao certo como reagir ao ser fitado pelo outro rapaz de modo tão intenso. Era verdade que o via de modo diferente dos outros homens que conhecia, mas imaginava que era realmente pelo fato dele não pertencer ao mesmo grupo. Sabia que vários de seus colegas teriam uma atitude diferente, iriam humilhá-lo ou dizer que era um "bebezão", mas ao contrário disso, conseguiu construir uma relação boa com o jovem. Também não poderia mentir que sentia a sua falta, e que não se sentiu mal com o beijo, e que "a porra da comida" tinha realmente chamado a sua atenção. Mas o que deveria responder em uma situação dessas?!

- Você pareceu gostar do beijo — Rodrigo disse.

Começava a se aproximar, mesmo ainda estando constrangido.

Não era o tipo de situação em que se deixava as oportunidades escaparem, especialmente por não saber ao certo quando poderiam se encontrar novamente. Aproximou-se aos poucos, ainda receoso, até tocar suavemente os lábios nos seus, de uma forma muito mais sutil que da primeira vez.

Wesley recuou-se um pouco, não assustado pela reação do rapaz, mas pelo o que seu corpo tinha sentido com aquele beijo sutil. Fora algo semelhante a um choque, só que agradável. E não queria começar a desejar os lábios daquele jovem do mesmo modo que desejava os peitos de uma moça. Caso pensasse bem, todos os atos com as garotas eram bruscos, não havia aquela mesma delicadeza.

- Desculpa — o outro disse, voltando a sentar-se onde estava antes.

Podia-se notar em seu rosto como estava ferido por ele ter recuado, apesar de tudo.

"Talvez ele tenha mudado de ideia", pensou, "daquela vez ele devia estar fora de si, só isso".

- Porra, o que cê fez? — Ele colocou a mão sobre os lábios, ainda tentando entender como uma pequena reação como aquela tinha feito o seu baixo ventre arrepiar.

Talvez o rapaz fosse mesmo mais experiente do que demonstrara antes, para a surpresa do loiro.


Notas finais
[Kurama-chan]: Tenho uns desabafos a fazer. Por favor não comam meu rim ao terminarem de ler tudo, eu só precisava falar tudo isso, já não estava mais suportando ficar quieta:
Há motivos para não respondermos algumas reviews:
1 - Você comentou algo tão curto que eu simplesmente não sei o que te dizer além de "obrigada" ou "continue acompanhando". Então já deixo meus agradecimentos aqui.
2 - Você comentou algo que soou ofensivo, preconceituoso ou machista, e por isso preferimos ignorar a responder de forma igualmente desrespeitosa, e com isso evitar conflitos.
Por exemplo, não acho que estupro seja algo para se brincar, e eu garanto que qualquer pessoa choraria sendo estuprada. Tenho medo que a leitura de yaoi excessiva acabe deixando algumas pessoas insensíveis em relação a um assunto tão sério.
Só uma dica, não confundam estupro com subjugação. O que acontece na maioria dos yaoi é subjugação, não estupro. Se alguém quiser saber mais detalhes, eu explico depois.
3- Nós simplesmente não temos tempo.
E outra, por favor parem de nos pedir para postar outro capítulo assim que acabamos de postar um, ou de ficarem nos apressando! Nós fazemos o máximo para postar uma fic de qualidade e bem revisada, portanto, respeite o nosso tempo se quiserem mesmo algo de qualidade!
Se não quiserem, bem, eu garanto que há muitas fics de má qualidade aqui no Nyah para vocês lerem.
Eu digo isso porque é muito chato quando você recebe uma notificação sobre um review novo, fica feliz achando que ele pode ter algo a acrescentar a respeito daquele capítulo, e quando vai ler, a pessoa não está falando absolutamente nada sobre o capítulo, só tem um "Continua logo!"
Tente imaginar como você se sentiria no lugar. É como se seus esforços não fossem nada, é isso que eu sinto.
Gostaria que vocês começassem a refletir um pouquinho mais antes de deixarem reviews, é só isso que eu peço.
Lembrando que isso não se aplica a todas as reviews, pois também recebemos umas ótimas e ficamos muito felizes com isso.
Obrigada.
[Yuu-Chan-Br]: Aliás, para quem por acaso ache estupro engraçado ou normal, ou sei lá o que, aqui estão alguns trechos de um texto que li ainda hoje:
"A mesma pequena parte de mim que ainda quer acreditar em fadas quis acreditar que eu seria capaz de não pensar ou escrever sobre estupro ao menos por algumas semanas. Mas é impossível. Não com leis na Califórnia dizendo que mulheres solteiras não podem ser estupradas. Ou enquanto uma garota de 16 anos, inconsciente, é estuprada por vários jogadores de futebol e o assunto divide uma comunidade dedicada ao time. Definitivamente não dá para deixar passar quando detalhes sobre o estupro da jovem de 23 anos em Délhi, envolvendo estripação, falência múltipla de órgãos e a consequente morte, vêm à tona e provocam protestos ao redor do mundo."
"Se assumimos o risco tipo, vivendo e somos estupradas, as pessoas ficam confortáveis em dizer que estávamos provocando, mesmo se você for uma garota de 11 anos, como aquela que foi estuprada no Texas por pelo menos 18 caras; ou garotos molestados por padres. E, sim, eu sei que garotos e homens são estuprados. Eles sofrem tremendamente. Quase sempre, eles não têm apoio, não conseguem a ajuda que precisam e vivem o resto dos dias com grande sofrimento. Mas, isso também têm relação com o que foi dito antes, porque quando garotos e homens são estuprados, eles não são só agredidos, mas também dizem que os fizeram de mulherzinhas, demonstrando como eles não têm valor."
"Há alguma demonstração maior de que estupros são sobre poder e dominação e não sobre sexo do que os estupros coletivos sobre os quais estamos falando abertamente agora? No final, que diferença faz se o estupro envolve canos enferrujados na Índia, ratos enfiados em vaginas na Síria, violência diária contra garotas na França ou drogas para incapacitar garotas nos Estados Unidos? Eu não consigo enxergar por qual razão não se faz essa comparação quando elas são tão gritantes."
"Lauren Wolfe, diretora do Women Under Siege Project, criou um Basta de cultura do estupro em 2013″. Como ela e outros dizem, o primeiro passo para acabar com o estupro é parar de culpar a vítima, e focar nos estupradores e na cultura que os produz. Ela não está falando só do Congo, da Síria ou do Egito. Rapazes que drogam uma garota e depois a estupram, a sequestram, estupram de novo, fotografam, fotografam o estupro, urinam na garota e depois fazem vídeos tirando onda, fazem isso porque eles se sentem protegidos e no direito de fazê-lo. (Escrevi essa frase deliberadamente porque estou cansada de ver ela foi estuprada, como se ela tivesse alguma participação no próprio estupro ou que não houve um agressor.)
Esses rapazes não foram ensinados, como adultos, que tais ações são crimes contra a humanidade moralmente repugnantes. Porque nós rimos de estupro e zoamos quem reclama. As garotas que testemunharam esses eventos não falam porque elas acham que serão as próximas ou sabem que não acreditarão nelas. Elas aprenderam a internalizar isso."
"Os homens são incomparavelmente os maiores estupradores de garotas, de garotos, de mulheres, ou de outros homens. A natureza de gênero deste crime é incontestável. Mas homens não nascem para estuprar. E, enquanto eu entendo que a maioria dos homens não andam por aí se achando os todo-poderosos, ou que eles têm o direito de estuprar, muitos deles pensam isso, sim. Eles se sentem no direito de fazê-lo. Tirar esse privilégio cultural deles não desumaniza ou oprime homens. Isso apenas liberta as mulheres e as pessoas que não se adequam."
Fonte ~> http://cemhomens.com/2013/01/estupros-tem-um-proposito/#comments