Notas iniciais
PARE AGORA MESMO!
Por favor, não menospreze a história antes de ler. Sei que o nome e a sinopse devem parecer bobos e mesmo um tanto vergonhosos para a maioria dos leitores, mas ao menos tentem ler o primeiro capítulo antes de julgar.
Podem acabar se surpreendendo, não?
~Yuu-Chan-Br

Multidão.

Era isso o que melhor descrevia aquele dia.

Mesmo assim, um rapaz lutava para se infiltrar na muralha de pessoas que se formava à sua frente, abrindo um enorme sorriso ao conseguir, após muito esforço, alcançar o estande de bótons. Animou-se ao desembolsar algum dinheiro para comprar uma grande quantidade, dos mais variados heróis de seus "animes" preferidos.

O jovem de pele morena chegou para mais perto de um de seus amigos enquanto prendia os recém adquiridos enfeites em sua mochila, cuja superfície já quase não era vista pela enorme quantidade ali presente.

– Agora sim! — disse animado, esperando que o outro também saísse da fila.

– Aeaeaeaeaeae! Eu consegui a minha waifuuuuu! Minha amada e querida waifuuuuu! — Outro rapaz se espremeu entre os demais para conseguir sair da fila, segurando com a expressão de maior felicidade do mundo um bótom com a imagem de uma jovem loira com seios fartos, sorrindo.

– Aaah, que sortudo! E agora, vamos ver se tem Mupy vendendo? — o moreno arrumou melhor a mochila nas costas enquanto começava a andar na direção da saída. — E tirar umas fotos!

– Haaaaaai! Vamos! Vamos! Vai ser sugoiiiii, neeeee! — O seu amigo começou a bater palmas, ainda com o bótom em mãos, como se ele fosse precioso demais para ser largado. — Você não tem medo de prender os que compra? Nyaaaaaaa, eu já perdi vários deixando na mochila assim.

– Baaaka! Qual é a graça de comprar uma coisa pra não usar nunca? — remexeu dentro da mochila e tirou uma plaquinha de plástico com uma caneta, escrevendo "Midá um abraçOooO?" nela, exibindo-a orgulhosamente durante a caminhada com o amigo até a geladeira onde comprariam sua preciosa bebida.

Várias meninas passavam por perto deles e olhavam a placa, mas a grande maioria preferia rejeitá-lo e seguir adiante, achando que ele era apenas um jovem carente. Apenas algumas poucas meninas saltitantes seguiam em sua direção, envoltas pelo clima contagiante de felicidade ingênua do evento, retribuindo ao abraço pedido. O seu amigo voltou com uma sacola de diversos sabores, jogando um em sua direção.

– O que quer fazer agora?

– Hmmm, quer dar uma olhada nos cosplays? — parecia ter certa dificuldade em furar o saquinho e segurar a placa ao mesmo tempo, mas finalmente conseguiu. Infelizmente o fizera com muita intensidade e o canudo atravessara até o outro lado. Ele apressadamente levou o saquinho à boca enquanto o amigo ria.


*******


– Seu pai vem te buscar, né? — arrumou novamente a mochila. — Eu vou lá pegar meu ônibus, então — apertou a mão do outro e seguiu até o ponto.

Já era noite àquela altura e o jovem parecia realmente feliz, brincando com os bótons comprados. Ao menos até uma música chamar sua atenção.

Outro rapaz estava no ponto de ônibus, segurando o seu celular enquanto ouvia um gênero de música considerado extremamente irritante aos ouvidos do jovem que havia acabado de sair do evento, um estilo chamado "funk". Não havia qualquer sinal dele possuir um fone de ouvido, mas ele sinceramente não parecia se importar com isso. Era como se as outras pessoas ao redor dele não existissem.

O moreno apenas olhou feio, revirou os olhos.Como podia fazer aquilo? Era completamente desrespeitoso com as demais pessoas esperando por seu transporte! Mesmo assim, ficou calado. Aquele tipo de pessoa tinha uma fama horrível e não gostaria de se arriscar a levar uma surra. Isso na melhor das hipóteses, é claro. Mais tarde, quando contasse a história ao amigo, faria questão de embelezá-la um tanto, mostrando como enfrentara o funkeiro heroicamente.

Infelizmente esquecera de desviar o olhar enquanto devaneava, encarando intensamente o garoto cuja música soava tão alto.O seu olhar se encontrou então com o rapaz que apelidara de "funkeiro". Ele arrumou um tanto o boné que havia deixado virado para trás, parecendo observá-lo dos pés à cabeça, para então soltar uma pequena risadinha e desviar o olhar.

Ah sim, aquele pequeno ato parecia ter soado como um desafio aos olhos do apreciador de personagens fictícios.

Aquilo fizera o sangue do moreno ferver, chegando a apertar bem as mãos em punhos. Mesmo assim, não fez nada. Apenas agradeceu mentalmente por seu ônibus chegar logo, apressando-se em entrar e pegar um lugar.

Para sua infelicidade, o rapaz sentou-se bem no assento em frente.Como se atrevia? Primeiro tocara aquela música infernal para que todos ouvissem, depois rira dele e agora sentava tão perto. Aquilo era uma afronta, definitivamente! Estava procurando briga! Ah, aqueles "funkeiros" eram mesmo assustadores. Se possível, gostaria de chegar em seu ponto sem ser morto.

O ônibus começou a ficar cada vez mais lotado conforme os pontos passavam, e com isso algumas pessoas começavam a ficar de pé. O rapaz que anteriormente estava ouvindo funk notou que uma senhora parecia ter extrema dificuldade para conseguir se apoiar, e os outros que estavam em assentos privados fingiam dormir ou ignorar sua existência.

Aqueles "moleques filhinhos de papai" realmente lhe davam nos nervos. Não tinham vivido nem metade do que aquela senhora e se achavam no direito de dizerem que estavam cansados. "Quem sabe se tirassem a bunda do computador ao menos um pouco e ralassem", pensara, quando se levantou, dando espaço a ela.

- Senta aí, tia.

Aquilo fora mesmo surpreendente. Mesmo assim, não podia se dar por vencido. Fazer uma pequena boa ação não melhorava sua imagem, definitivamente! Assim o jovem dos bótons pensou. Ah, sim! Ele devia fazer aquilo apenas para parecer bonzinho e conseguir enganar as pessoas!

Continuou observando-o durante todo o percurso, esperando por um momento de distração, apenas uma pequena brecha em que demonstrasse sua verdadeira face, pois assim poderia reafirmar seus conceitos e ficaria melhor consigo mesmo.

Mas nada aconteceu.

Soltou um "ah" em desespero ao notar que quase perdeu o ponto, apressando-se em apertar a campainha do ônibus e correndo até a porta. Tão logo o veículo estacionou. Em sua urgência, sequer notou algo caindo no chão.

E então o "funkeiro" o notou.

Sim, era aquele mesmo rapaz que tinha visto uns momentos antes de entrar no ônibus, que usava uma roupa bem engraçada, que parecia estar virando moda aos poucos. Tinha sido bem engraçado.

– Ei, cara com uma chapa na testa! — Tinha sido o melhor modo de chamar a sua atenção naquele ônibus lotado. Ao menos todos os outros ao redor saberiam que se tratava dele, e isso fazia sentido em sua mente. — Cê deixou isso cair no buzão! — Ele tentou esticar a mão para entregar a ele o bótom que havia recolhido.

– Ah! — sofreu um sobressalto e quase caiu. Oh, não, agora estava sendo seguido! Recuou alguns passos, mas não tinha forças para correr. Seria o seu fim. — O que você quer?! — precisou de muito esforço para não gaguejar.

– Que isso, moleque, só quero te entregar o negócio que cê deixou cair. Pega aí — ele parecia se divertir com o medo do outro rapaz. Em sua mentalidade, quem deveria estar com medo era ele. Afinal, não se viam muitas pessoas com chapa na cabeça pela rua.

E, ainda com certo receio, o outro se aproximou o mínimo possível e estendeu a mão, pegando o objeto que lhe era oferecido rapidamente. Ele realmente caíra, acusaria o amigo de tê-lo amaldiçoado mais tarde, por conta disso.

Ainda olhou o jovem que saíra do ônibus especialmente para ajudá-lo e, quando pensava que agradeceria, apenas disse:

– F-fique longe ou eu escrevo seu nome do meu Death Note! — e saiu correndo.

Sentiu-se estúpido em seguida.

Não sabia seu nome, afinal.

– Ahn? Escrever o nome no quê? — O rapaz ficou rindo sozinho, voltando a colocar as mãos no bolso. — Que porra é essa. Queria saber o que o cara fumou, pra pedir um pouco do bagulho aê.


********


Chegou em casa sem ao menos falar direito com os pais, subindo direto até o quarto, onde largou a mochila no chão. Aquilo fora por pouco. Correra um risco de morte altíssimo e mesmo assim voltara sem um arranhão sequer, devia ser mesmo um ser humano excepcional!

Olhou para o bótom ainda na mão, com um jovem loiro de cabelo espetado e bandana na cabeça, parecida com a que ele mesmo usava no momento.

– Talvez esteja infectado — fez uma careta e largou o objeto sobre a mesa, planejando limpá-lo com álcool em seguida.

Ligou o computador e falou por algum tempo com seus amigos sobre sua aventura com o "funkeiro terrorista" antes de finalmente ir dormir.


******


– Mããããe, e aquele boneco que eu pedi? — perguntou enquanto sentado à mesa, comendo um grande pedaço de pão com manteiga.

– A gente não tem dinheiro pra ficar gastando com coisas supérfluas assim. Eu pensei que já tinha te explicado isso antes — ela resmungou de leve, colocando o copo com achocolatado morno que ele havia pedido anteriormente.

– Mas mãe, eu já tinha pedido! Você compra aquele monte de sapato e eu não falo nada! — resmungou e emburrou-se, tal qual uma criança novinha. Realmente não gostava de ser contrariado.

– E você vai vestir o seu boneco, por acaso?! Se quisesse dinheiro pra alguma camiseta ou calça, eu até poderia pensar no caso! E também, não acha que está na hora de começar a conseguir dinheiro por conta própria? Aí vai poder comprar essas porcarias o quanto quiser! — A sua mãe contra-argumentou, o que poderia soar a ele como o discurso de uma pessoa chata e velha, que não conseguia entender os seus desejos.

O rapaz nada respondeu. Apenas grunhiu, pegou seu café da manhã e foi para o quarto, batendo os pés na escada e a porta quando entrou.

– Mãe idiota. Como se ela pudesse usar todos os sapatos que compra, também! Baka, baaaaka! — e mordeu nervosamente o pão.

Mesmo irritado com a forma que fora confrontado, começava a seriamente considerar um emprego. Havia acabado seu último ano no ensino médio e não tinha planos de fazer nenhuma faculdade em breve. Começou a passear pelos sites de emprego enquanto tomava seu leite. Não possuía experiência alguma, então não poderia ter um emprego que pagasse muito, mas já era alguma coisa.

Animou-se ao ver anúncio para um de seus restaurantes preferidos, onde vendiam cones com peixe cru dentro. Algumas horas e muitas perguntas para seus amigos depois, terminara o curriculum, enviando-o para o lugar.


******


Dias se passaram até receber uma resposta, arrumando-se para a entrevista.

Mesmo seus pais pareciam nervosos quando contou-lhes a novidade, torcendo para que o filho conseguisse. Era uma ótima oportunidade de amadurecimento, assim pensavam.

Quando chegou já à noitinha com uma expressão de desamparo no rosto, eles esperavam pelo pior. Ao confrontá-lo sobre o acontecido, notaram que ele apenas estava um tanto atordoado pela rapidez como as coisas aconteceram, pois fora contratado no mesmo dia.

Recebeu um abraço apertado da mãe e teve o cabelo levemente enrolado bagunçado pelo pai, que disse:

– Agora você vai precisar aprender a ser responsável, meu filho!Ele assentiu. Estava feliz, apesar de tudo. Com o dinheiro que ganharia poderia finalmente comprar o que bem entendesse sem precisar dar satisfações a ninguém.


Começara no dia seguinte, trocando-se em seu uniforme e colocando a rede de proteção no cabelo, acompanhando uma jovem extremamente simpática:

– Você será ajudante do cozinheiro principal — e soltou um suspiro, cruzando os braços. — Ele vai te treinar, mas está atrasado de novo — olhou para o relógio e retorceu os lábios.

– Cozinheiro? Que maneiro, eu só picoto uns pedaços de peixe e enrolo tudo, valeu aêee, caaara — ele surgiu repentinamente, cutucando uma das costelas da jovem, a qual provavelmente parecia acostumado em perturbar. Apesar de usar um lenço para proteger o cabelo e estar de uniforme preto, a sua expressão facial era bem reconhecível.

Sim, o "funkeiro" com quem havia se deparado no dia anterior.

– Aaaaaah! — o moreno apontou-o e gritou em surpresa, fazendo a garota sofrer um sobressalto. — Você! — sequer podia acreditar naquilo.

O destino estava mesmo sendo muito cruel com ele.

– Vocês se conhecem? -ela perguntou, finalmente frustrando-se e empurrando o atrasado para longe, embora risse um tanto.

– Não lembro desse cara, não — o outro rapaz riu, não esperando ser recebido de um modo tão diferenciado assim. — Só não diga que eu roubei tua gata e aí fica tudo beleza.

– Como não? No ônibus! — tentou se explicar.

– Aaaaah, eu não vou lembrar — ele não pareceu se importar, começando a puxar o rapaz para o outro lado. — Tu vai ficar de caixa ou vai enrolar os peixes comigo?

– Ah! — e assim foi levado, olhando para a jovem como se pedisse socorro, mas ela apenas acenou e sorriu.

Ele ainda ouviu um "sejam bons amigos" antes de ser levado para o balcão um pouco mais afastado, mas ainda visível para os clientes.

– Caraca, isso é algo que eu não sei explicar. É melhor cê olhar como eu faço pra imitar. Eu te mostro onde fica os ingredientes que pede, aí é só tirar e colocar. Não esquece de botar o peixe de volta na geladeira! Toma cuidado com essas coisas que estragam fácil! — Ele então começou a retirar e mostrar onde cada objeto deveria ficar e quais eram suas funções específicas. — Mas ei, cê disse que era o "funkeiro do outro dia". Cê canta então?

– Eu não! — parecia frustrado. Era humilhante que ele não lembrasse de si e agora precisavam trabalhar juntos. Mais do que isso, os pedaços que cortava pareciam se despedaçar e não mantinham uma boa consistência. Os que sobravam inteiros estavam grandes demais. Realmente não era bom naquilo.

– Olha, não esquenta, cê não precisa cortar sempre. Tem dia que já vem cortado e tudo que cê fez é enfiar na alga. Tenta montar um agora — ele não pareceu se preocupar com a sua resposta, tentando ensiná-lo do melhor modo possível, até o seu celular começar a tocar — Pera — e então ele pulou o balcão, atendendo do lado de fora do mesmo.

– Mas que ingredientes eu ponho? — quando se deu conta, o rapaz já havia ido embora. — Ei! — tentou chamá-lo, mas de nada adiantou.

– Preciso de dois especiais de salmão, um com maionese, outro com cream cheese, mais um especial spicy de peixe branco e — a jovem que até então falava com os olhos fixos no papel impresso do pedido finalmente olhou em volta. — Cadê o Wesley?

O rapaz ainda não sabia seu nome, mas julgava ser quem estivera consigo até agora.

– Não sei, ele sumiu de repente! — disse em agonia, perdido sobre onde estavam os ingredientes.

E após uns cinco minutos de agonia, o rapaz novamente surgiu no balcão, vendo a expressão de alguns clientes insatisfeitos pela demora em receberem seus pedidos.

– A véia ligou, ela queria... — E então ele notou como todos o estavam observando, em especial a garota que trabalhava com ele. — Fica assim não, gente, eu vou caprichar pra todo mundo. Vão tudo sair dizendo que comeram o melhor temaki da vida, lambendo os beiços ainda!

O único que parecia realmente insatisfeito ali era o empregado recém-contratado, que lutava para fazer os temakis, embora eles saíssem disformes e com uma quantidade irregular se ingredientes.

Ah, era realmente difícil fazer algo pela primeira vez sem nenhum tipo de ajuda. Aquele maldito "funkeiro", ia ver só!

– Pera, não entrega assim — o rapaz despreocupado riu um tanto, começando a arrumar o temaki que o outro rapaz tinha feito. — Coloca salmão até o final, porque é muito chato comer a bundinha dele só com arroz. Sabe como é, né. — E então o temaki que o outro jovem havia feito parecia perfeito com a habilidade daquele que chamava de "funkeiro". Para a mente do mais novo, deveria ser irônico alguém conseguir fazer um prato japonês com tanta perfeição assim.

– Como você consegue? — estava mesmo impressionado, os olhos chegaram a reluzir um tanto ao ver como o prato ficara bonito. Ele não era digno, mas realmente conseguia fazer aquilo muitíssimo bem.

– Eu sou bom, né? Tô arrasando na parada — Ele se gabava de uma forma que parecia brincadeira, que não se dava pra levar a sério. Entregou então o temaki para a moça que havia pedido, sorrindo. — E procê é com bastante cebolinha, bem picadinha, viu?

A moça pareceu feliz ao receber sua comida, agradecendo e relevando a atitude do rapaz.

Não demorou para que chegasse a hora do almoço e o local ficasse mais cheio, fazendo com que o moreno precisasse também montar os pratos.

Wesley o ajudava sempre que tinha dificuldades, no entanto, o que era realmente ótimo, pois os clientes não receberiam cones disformes e com poucos ingredientes. Ambos respiraram fundo quando o movimento finalmente diminuiu.

– Você faz isso todo dia? — o moreno resmungou, sentindo as pontas dos dedos dormentes por conta do peixe gelado e pela falta de habilidade com a faca.

– Opa, faço! Sozinho — ele respondeu, enxugando as mãos com uma toalha, finalmente se espreguiçando ao ver que o movimento tinha diminuído e eles próprios teriam sua pausa para descansarem. — Tu vai comer peixe ou cansou de mexer em coisa cru fedida?

– Claro que não! — virou subitamente em sua direção. — É impossível eu cansar de temaki, é muito bom! Comida japonesa é mesmo a melhor do mundo! — sua voz era repleta de determinação, embora soasse um tanto exagerado a pessoas de fora.

– Cê é japonês? — Ele esticou uma das mãos na sua direção, brincando com suas pálpebras. — Não parece não.

– Não — e emburrou-se, triste consigo mesmo. — Mas eu queria ser! Eu só nasci no lugar errado! Eu amo a cultura japonesa! — resolveu também limpar as mãos, ajudaria a aquecê-las.

– O que cê ama tanto aê da cultura japonesa? — Ele pareceu repentinamente interessado, começando a retirar o avental, para aproveitar a sua hora de descanso. Planejava comer em outro local.

– A comida e os animes e — parou na metade, observando-o. — Aonde você vai? — também ficara curioso.

– Vou bater um rango — ele respondeu, retirando o lenço de sua cabeça, revelando um cabelo tingido de loiro e espetado. Era a primeira vez que via o seu cabelo, afinal, no dia anterior ele estava escondido por um boné. — Cê não vai comigo? Quase ninguém aparece nessa hora, nem esquenta a cabeça.

– Ah, mas, o temaki — responde de forma lenta e enrolada, os olhos fixos nos fios loiros. Sua pele era clara e seu cabelo também, como podia ser um "funkeiro"? Aquilo simplesmente não fazia sentido, afinal. Era um contraste tão grande com seu cabelo escuro e sua pele morena... Se ao menos pudessem trocar de aparência, seria muito mais fácil fazer seus "cosplays"!

– Cê pode comer temaki a qualquer hora, meu fio. Vamô fazer a festa com o ticket de alimentação agora — ele sorriu, novamente se espreguiçando e colocando as mãos no bolso, indo para a outra direção.

– Mas — ele parecia realmente desejar comer o que vendia em seu local de trabalho. Era uma de suas comidas preferidas, seu sonho! Mas, sem nem ao menos perceber, havia retirado o avental e o seguia. — E o que você vai comer? — começava a ficar curioso. Nunca havia conhecido alguém daquele tipo, não conseguia evitar.

– Vou comer um pratão de pedreiro com um puta arroz, feijão, ovo, macarrão, frango, bacon e costela! O melhor restaurante por quilo é aquele lá no fundo — apontou na direção do mesmo, apressando-se por estar com fome, já que não havia mais fila alguma naquele horário.

A feição do rapaz se retorceu ao ouvir aquilo.

– Mas isso dá pra comer em casa! — ele simplesmente não compreendia o motivo de comer no shopping algo considerado uma refeição diária. Deu meia volta e seguiu novamente para a temakeria. Ao menos lá tinha certeza de uma refeição que realmente o deixaria feliz.

– Duvido que cê acha um macarrão tão bom quanto aquele, mas beleza! — Ele não pareceu se importar ao ver que o outro rapaz tinha dado meia volta. Apenas lhe desejava sorte tentando montar o cone sozinho.

E, de fato, o rapaz brigou para fazer o cone. Quando finalmente terminou, apenas conseguira algo um tanto disforme. Ainda precisaria de muita prática, ao que tudo indicava. De qualquer forma, teve a atenção chamada pelo loiro balançando as mãos no alto, sentado a uma mesa. Provavelmente gostaria que almoçassem juntos, já que trabalhariam no mesmo lugar por algum tempo. Ele resmungou, desviou os olhos, ouvindo a outra jovem dizer:

– É melhor você ir antes que ele venha aqui te buscar — riu um tanto. — Ele não gosta de ver as pessoas deslocadas, sabe? — e deu de ombros. O moreno abriu um sorriso sem graça, pegando um copinho de molho de soja e indo na direção do agora colega de trabalho, sentando-se na cadeira de frente para ele.

– Sério que cê vai almoçar só isso?! Vai morrer de fome depois! Tua barriga vai ficar roncando a tarde toda!

Definitivamente, o prato do outro rapaz era gigantesco comparado ao decente cubo disforme do jovem fã de asiáticos.

– Como você consegue comer tudo isso e ainda ser magro? — resmungava, olhando para o próprio prato. — E já foi difícil fazer esse, não sei se conseguiria fazer outro — colocava o molho sobre a comida, que se despedaçou assim que tentou levá-la à boca, espalhando-se pelo prato. Grunhiu em agonia.

– Cê quer que eu trabalhe até na hora do meu rango, né? — O outro riu, começando a arrumar o temaki para ele, notando o quanto ele estava disposto a comer aquilo.

– Ah — ficou surpreso com sua ação, sequer conseguindo dizer algo. Apenas encolheu-se um tanto na cadeira e fez um pequeno bico. — Você é mesmo bom nisso. Obrigado — saiu bem baixo e grunhido.

– Que nada, tu que tá perdendo esse macarrãozinho divino — e começou a brincar com o garfo, movendo-o para um lado e para o outro, até finalmente colocá-lo na boca.

– Como você consegue comer tudo isso e não ficar com dor de barriga? — dava pequenas mordidas no cone, como se assim pudesse fazê-lo durar mais.

– Eu fico com dor de barriga se comer essa porrinha de nada que cê come! — E então pegou a costela e deu uma grande mordida. — Cê devia experimentar também, está muito bom!

- Eu fico com o estômago revirado só de imaginar — fez uma careta. – Como você pode trabalhar numa temakeria e não comer lá? Ainda mais quando faz uns tão gostosos — e novamente a frase saiu baixa. Parecia não gostar de elogiá-lo ou demonstrar gratidão. Ainda era um "funkeiro", afinal.

– Quando cê acostuma a comer fora todo santo dia, tudo o que cê começa a querer é a comida da mãe de novo — ele achou graça, não compreendendo como o outro jovem não entendia algo tão simples assim. — E esse aqui tem o melhor rango que eu já comi.

– É? — estranhou, ainda fitando-o. — Mas você não sente vontade de comer nada diferente, às vezes?

– Eu já como uma porrada de coisa diferente quase todo dia — ele riu um tanto — Sei lá se tu credita, é que o temaki é uma das coisas que eu mais como, embora eu fuja às vezes, aí eu fujo porque cansa.

– É? — continuava a encarar o enorme prato que diminuía progressivamente. Como conseguia comer tão rápido sem passar mal? Era mesmo um mistério. — Quanto tempo dura a pausa pro almoço?

– Dura uma hora — ele respondeu, com empolgação ainda. — Dá até tempo de sentar lá fora pra ouvir uma musiquinha maneira depois, é bacana pra caramba.

– Musiquinha — a palavra saiu de seus lábios com desgosto enquanto terminava de comer. Sabia bem o que ele ouviria e não estava nada satisfeito com aquilo.

– Ah, foi mal, eu devia ter falado "musicona", né? — E então ele abriu um largo sorriso, rindo um tanto.

– Aqueles funks? — a palavra foi dita com extremo desprezo, sem que o rapaz sequer se importasse em esconder como se sentia.

– Aê, o batidão é o melhor, só que também tem pagode e sertanejo de vez em quando — ele continuou rindo, não parecendo notar a expressão do outro rapaz.

E a cada palavra a expressão do rapaz se distorcia ainda mais, definitivamente não apreciando sua escolha musical.

– Como você pode chamar essas coisas de música? — resmungou novamente, bebendo seu refrigerante.

– Huuum? O que cê acha que é música então? — O outro perguntou, não se importando em pegar um gole de seu refrigerante.

– Música japonesa! — podia-se sentir uma ponta de vergonha em sua voz, mas bem de leve, provavelmente imperceptível para quem não o conhecesse.

– Aquelas que ficam fazendo "iiiiiiiiiiiii ooooooooooooo yuuuu ya niiiiiiiiiiiiiiii"? — Ele começou então a encenar com as mãos aqueles movimentos feitos em músicas tradicionais japonesas.

– C-claro que não! Elas são muito mais atuais que isso e não fazem esses barulhos estranhos, dizem coisas de verdade! — se exaltou e chegou a quase levantar da cadeira, podia-se notar como ficara realmente irado com o comentário do rapaz.

– Cê entende tudo o que eles falam? — Mas o outro não se moveu da cadeira. Pelo contrário, permanecia em uma postura calma, brincando com o garfo em uma das mãos.

– Eu entendo! — praticamente grunhiu, imensamente frustrado.

– E do que os japa fala então? — Ergueu o rosto, tomando o resto de seu refrigerante, já que ele não parecia mais interessado nele.

– Depende da música, elas não são todas iguais. E ei, isso é meu! — novamente resmungou, pegando a latinha de volta para si.

– Ah, foi mal — ele riu de leve, levantando-se então da mesa e se espreguiçando, achando melhor naquela ocasião sair de perto dele.

O moreno o deixou ir, levando a própria bandeja até uma lixeira mais próxima, voltando então para o restaurante. Não sabia o que mais poderia fazer em seu tempo livre e sinceramente temia se atrasar. Ah, se soubesse, teria levado um mangá consigo ou coisa parecida.

Quando ele voltou, deparou-se com um temaki sendo colocado quase em sua cara, feito pelo outro rapaz, que já tinha voltado ao local.

– Tu vai passar fome com um só, toma outro.

– Ah! — assustou-se, chegando a arregalar os olhos, demorando alguns instantes para poder reagir apropriadamente. — Você não tinha ido ouvir música? — começava a se desequilibrar por ter se inclinado para trás, desviando da comida.

– Como é que eu vou ouvir música em paz, lá na booa, sabendo que cê tá comendo tão pouco? Deve ser por isso que cê tá tão mirrado assim — ele riu, balançando mais o temaki em mãos, como se fosse para ele pegá-lo rapidamente.

– Eu não sou mirrado — reclamou, mas pegou o que lhe era oferecido mesmo assim. — E pensei que você não quisesse trabalhar na hora do almoço.

– Foi pelo refri — ele deu de ombros, e então saltou novamente para fora do balcão, saindo de perto.

– Rodrigo — o moreno disse enquanto o outro pulava para fora do balcão, parecendo um tanto tocado por sua ação.

– Ahn? — Ele quase derrubou um pote de shoyu ao ser distraído pela fala do outro, mas por sorte conseguiu pegá-lo antes que caísse no chão e se espalhasse. Seria a terceira bronca que levaria... somente naquela semana. Por isso o alívio.

– Meu nome. É estranho trabalhar com alguém que você não sabe o nome. E por que raios você não usa a porta?! — ainda não compreendia as ações do rapaz, definitivamente. Ele era muito mais gentil do que esperava.

– Ah tá, eu sou Wesley — ele respondeu, acenando para o outro rapaz, não achando que tinha motivos para responder a pergunta dele, saindo de perto.

Rodrigo apenas bufou e terminou de comer a refeição que lhe fora preparada.

Talvez ele não fosse uma pessoa assim tão ruim, apenas não tivera a oportunidade de conhecer coisas boas.

Era isso! Seria sua responsabilidade dali em diante abrir os olhos do outro para o que era realmente importante!

Passou horas em casa pensando no que seria ideal, seu preferido. Começaria com um, apenas, para que ele se interessasse e então partiria para os demais. Tinha confiança em seus gostos, ele acabaria se empolgando, e, com sorte, até poderia deixar de ser um "funkeiro".


*****


Chegou ao trabalho suado e ofegando. A mochila em suas costas estava pesada e parecia muito cheia.

– Rodrigo, tu tá um caco, pior que gente depois de arrastão, que foi? — O outro rapaz riu. E assim que virou na direção do outro e se afastou, pôde notar que havia uma menina ao seu lado.

– Eu pensei em trazer só um, mas e se você gostasse e quisesse ler mais? — pousou a mochila sobre um dos bancos, abrindo-a. Havia uma quantidade absurda de mangás ali. Só então teve a atenção chamada pela moça. Era mesmo bonita, mas não seu tipo, franziu o cenho.

– O que é isso que seu amiguinho trouxe? — A moça perguntou, dando um riso de deboche.

– To olhando aqui... Eu também não faço a menor ideia — ele se debruçou um tanto para ver, apenas pelo alto, notando a grossura das revistas — Aaaah, eu tenho preguiça de ler livros.

– Mas têm imagens! — abriu um deles aleatoriamente, ainda mais incomodado com a garota ali. Ah, aquela mulher vulgar, apenas desejava que fosse embora de uma vez.

– O que são essas coisas? — A moça perguntou, provavelmente incomodada por ter aquele momento especial interrompido por um pivete que havia trazido um monte de historinhas em quadrinhos, ao seu ver.

– Ah, saqueeei, são gibizinhos! — Ele pegou da mão de Rodrigo, começando a folheá-lo um tanto, obviamente começando da esquerda para a direita. — Que troço engraçado.

– São mangás! — respondeu, um tanto mais irritado. Não gostava que confundissem, era simplesmente frustrante. Mas ele era leigo, precisava manter a calma e explicar. Aquela mulher irritante não deixava as coisas mais fáceis, definitivamente.

– Mangas? São de comer? — Ela continuou a perturbá-lo, frustrada pelo fato dele não desistir daquele assunto facilmente. — Ei, Wesley, o que vamos fazer?

– Pera um pouco — o rapaz continuou virando as páginas pela ordem errada, parecendo não entender nada da história.

– Weeesley, eu estou falando com você!

– São mangás, mangááás — enfatizou bem o acento. — Não mangas! E você está lendo ao contrário — ele resmungou e arrumou o pequeno livro nas mãos do loiro. — Os balões de texto também são da direita pra esquerda.

– Como é que é? — A expressão do loiro em sua direção era de alguém que estava completamente embasbacado. — E por que cê trouxe isso pra mim?

– Porque você me perguntou o que eu gostava da cultura japonesa — franziu bem as sobrancelhas, frustrado por não ter suas boas intenções compreendidas. Só queria fazer o outro ser uma pessoa melhor, o que havia de tão ruim nisso, afinal? — Então eu tô te mostrando.

– Essas porrinha é tudo cultura japonesa? — Ele ainda parecia confuso com aquela afirmação, mas fora distraído pela mulher, que se debruçara no balcão e o puxara para si, dando um selinho.

– Eu disse pra prestar atenção em mim! — Ela resmungou.

– São mangás — resmungou, fechando a mochila. — E você pode ler na hora do almoço, mas não estrague! — pegou novamente o objeto repleto de bótons e levou-o para dentro do restaurante. Precisava ajudar a outra moça na limpeza do local, para que pudessem então abrir.

– A gente se fala mais tarde — ele disse para a mulher, também se afastando.

– Desde quando você se preocupa tanto com esse trabalho? — Ela perguntou, mas desistiu de esperar ao ver que ele não iria recuar para ficar com ela.

– Sua namorada vai ficar brava — Rodrigo disse, guardando a mochila no armário dos funcionários, começando a trocar de roupa.

– Ela não é namorada — ele deu uma pequena risadinha, começando a carregar o lixo para fora do local.

– É? Parecia ser — deu de ombros, terminando de colocar o uniforme. Foi então pegar alguns produtos de limpeza a fim de higienizar a cozinha.

– Cara, cê não fica com as novinhas? — Ele perguntou, parecendo surpreso por aquilo. — Aaaaah, com o monte de gibizinho na sua mochila, não deve mesmo.

– Não são gibizinhos! — seu tom de voz era um tanto mais elevado dessa vez. Bufou. — E eu não sou popular que nem você — revirou os olhos, começando a limpar as bancadas onde cortavam o peixe e faziam a comida.

– Cê é virgem? — Ele se debruçou sobre o balcão, com a intenção de fitá-lo melhor. Tinha uma expressão que poderia debochar dele a qualquer momento, mas parecia se conter para não fazer isso.

Seu rosto corou um tanto com a pergunta repentina, mudando a direção que fitava.

– E se eu for, e daí!? — grunhiu e resmungou, espirrando um tanto de água que havia no borrifador na direção do outro.

– Ai, seu filho da puta, não faz isso — ele riu, colocando a mão na frente do borrifador, jogando um pedaço de salmão em sua cara pra descontar.

– Não desperdice comida! — tentou ficar bravo, mas acabou rindo no final, jogando o mesmo pedaço em sua direção logo em seguida.

– Seu virgem, vou ter que cozinhar esse pedaço pra poder usar direito! — Ele pegou e então levou para outra direção. — Pooooorra! Ainda bem que tem um povo que gosta da versão cozida aqui.

– É culpa sua por ter começado! — e mostrou-lhe a língua, continuando a limpar a bancada. — Você vai ler, aliás?

– O seu gibizinho? Eu vou tentar — ele respondeu, começando a fazer os preparativos de outros ingredientes também.

O rapaz bufou ao ouvir aquela resposta, mas ao menos já era alguma coisa.

Na hora do almoço, como antes, Rodrigo comera dois cones, feitos pelo outro rapaz. Era realmente prestativo, embora extremamente implicante. Terminou de comer e encarou-o por alguns instantes, telepaticamente dizendo para que lesse de uma vez o que lhe fora emprestado.

– Vamô sentá do lado de fora pra ler — ele respondeu, puxando um dos volumes que o rapaz tinha trazido, levando-o junto consigo.

Uns quinze minutos haviam passado quando, repentinamente, o jovem loiro pareceu roncar. Havia dormido sem sequer ter terminado o primeiro capítulo.

Rodrigo frustrou-se. A história era imensamente interessante, ele não deveria dormir!

– Ei — chamou, mas de nada adiantou. — Ei, Wesley — cutucou suavemente sua bochecha, mas ele apenas afastou sua mão e virou-se para o outro lado. Bufou. — Que falta de respeito — mas acomodou-se novamente onde estava.

Vê-lo dormir tão tranquilamente começava a deixar ele mesmo sonolento. Tinha medo de perder a hora, mas não conseguiu evitar, adormeceu.

– Hum...Nossa, esse negócio é bom, quero ter um pra mim quando não tiver conseguindo dormir — Wesley resmungou baixinho enquanto acordava, entreabrindo lentamente os olhos, somente então olhando que horas eram, dando um grande pulo. — Fodeu! — exclamou.

– Ah! — acordou num susto, arregalando os olhos em sua direção. — O que foi?!

– A gente já devia tá lá faz mais de uma hora — ele então riu, levantando-se e puxando o outro.

– Vamos ser despedidos?! — levantou ainda trôpego, apavorado. Nunca antes tivera uma responsabilidade assim e a quebrara, apenas esperava que ficasse tudo bem.

– Ahahahaha, calma, o dono daqui nem mora na cidade! Tá lá na puta que pariu, onde Judas perdeu a bota! Só que não deixa de ser foda. Tudo culpa do seu gibizinho — ele riu de novo, sabendo que uma hora poderia apanhar por provocá-lo tanto.

– Você dormiu porque é baka! — acabou dizendo, sem nem ao menos notar. — Se não gostou então pode devolver. Eu sabia que um funkeirinho não ia entender, mesmo — bufou.

Estava realmente frustrado com a situação. Era uma das coisas que mais gostava no mundo, como ele se atrevia a fazer pouco?

– Eu sou o quê? Que porra é essa? — Definitivamente não estava entendendo metade do linguajar dele, o que o fez arquear uma das sobrancelhas. — E qual é seu problema com funkeiros? O que eles te fizeram de mal? Cê tá todo bolado aê.

– É que vocês não respeitam o gosto dos outros! — ignorou a primeira pergunta completamente, ainda irritado.

– Não respeito? — Ele certamente não pareceu entender o que ele queria dizer. — Quando foi que eu te desrespeitei, colega?

– Fica chamando de gibi, dorme lendo — ainda resmungava. Não era muito a se dizer contra ele, mas o bastante para tirar o outro do sério.

– Qual é o problema de chamar de gibi? Essa porra num é um gibizinho mesmo? E eu tava com sono! — Ele certamente não conseguia entender como aquilo era tão ofensivo.

– É mangá! — novamente resmungou. — E é o mesmo que dizer que a história é chata.

– Eu não falei que era uma porcaria e nem nada do tipo — a sua feição ainda era confusa. — Rodrigo, se acalma aí, colega. Fica Pela Saco assim não. Eu não fiquei putinho porque cê falou mal das minhas músicas não.

O rapaz foi ficando mais quieto aos poucos, embora obviamente ainda parecesse magoado.

Mais que isso, parecia engolir o choro.

Mas sim, fora culpa sua. Não devia mostrar aquele tipo de coisa para gente que não compreendia, era uma perda de tempo.

– Vai ficar com bico e todo bolado comigo por causa do seu Naturo? Toma ele aqui, eu não estraguei — esticou a mão com o volume que segurava em sua direção, com a intenção de devolver.

Mas o outro apenas balançou suavemente a cabeça para os lados, negando.

– Lê até o fim — foram as primeiras palavras que dissera desde então, um tanto mais calmo. — Eu quero saber o que você achou, depois.

Ainda precisava ter esperanças. Quem sabe ele realmente gostasse, caso lesse tudo.

– Eu nem leio rápido assim, tem problema? — Ele perguntou, olhando novamente para o jovem loiro na capa do volume.

Mais uma vez ele balançou a cabeça, fitando-o.

– Você pode levar pra casa, se quiser — então sentiu-se um tanto agoniado. — Mas traga de volta!

– Tá bom, eu dou o seu Naturo de volta — ele respondeu, balançando o mangá para os lados, só então arregalando os olhos. — Puta que pariu, olha a fila.

– Ai, droga! — apressou-se em entrar novamente no restaurante, desculpando-se com a jovenzinha em agonia e também com os fregueses.

Se Wesley continuasse "caprichando" nos temakis, talvez seu estoque acabasse mais rápido do que o planejado.

Por sorte, isso havia sido resolvido com o carisma que o rapaz naturalmente tinha, e certamente encantava algumas moças ao redor. Estava prestes a ir para o cantinho com uma delas quando foi puxado pela gola pela moça que lá também trabalhava, sendo forçado a voltar para a cozinha e se concentrar especialmente nos temakis, montando-os.

– Como ele consegue ser tão popular? — perguntou para a jovem ao colocar a comida já pronta sobre os pratos. Simplesmente não compreendia.

– Porque mesmo fazendo um monte de besteiras, dá pra ver que no fundo ele é bonzinho. E ele consegue compensar com isso. No fim, ele é tão engraçado que eu acabo esquecendo que estou com raiva dele — ela suspirou de leve, fechando o caixa, parecendo mais aliviada que o movimento havia diminuído após todos os atendimentos feitos.

Rodrigo ainda parecia frustrado com a explicação. Ele era o extremo oposto de si e isso o frustrava um tanto.

No fim o expediente, quando se preparavam para sair, ouviu o loiro chamando, virando em sua direção.

– Quer ir pra minha casa? Assim cê pode ter certeza que não vou comer seu Naturo nem nada do tipo — Wesley rira um tanto.

Notas finais
Olá, essa foi a primeira vez escrevendo um personagem tão diferente da minha personalidade, e principalmente de meu convívio. Eu peço desculpas caso não tenha conseguido representar um funkeiro tão bem assim, e também aceito dicas de como melhorar o linguajar e o seu modo de agir! Obrigada por lerem XD
~Kurama-Chan