N-não É Como Se Eu Te Amasse, Baaka!
14 Bifão Vira Coiote
Os olhos de Wesley imediatamente se arregalaram. E um grande frio na barriga invadiu o seu corpo. Ele não tinha a menor ideia que havia se envolvido com uma mulher comprometida. E o pior, que havia feito Rodrigo também se relacionar com alguma. Aquela cena era demais para ele aguentar calado.
— Cê tá louco?! Cê tá louco, seu animal?! — Entrou imediatamente na frente, empurrando o homem contra a parede. Não se importava de apanhar, apenas não queria que o moreno fosse envolvido em algo que julgava ser sua culpa. — Ele não pegou porra nenhuma de mulher sua! Vai se foder, não soca o moleque, não soca o moleque que não tem nada a ver com isso!
— Pegou sim! Me contaram que você e o seu amiguinho de merda saíram passando o rodo geral, com minha mulher no meio! — Acertou-o também com vontade, não exibindo sequer esboço de pena.
Muito além, acertou-lhe diversos golpes até finalmente derrubá-lo no chão.
— Wesley! — o moreno gritou por seu nome, correndo em sua direção apenas para ser chutado longe pelo agressor, obviamente mais forte.
— Sua mulher deu porque quis, caralho! — Wesley certamente perdeu a pouca paciência que tivera ao tentar resolver a situação de modo mais pacífico, principalmente ao observar Rodrigo sendo machucado daquela forma tão intensa.
Os socos diretamente dados em si não doíam. Ver um rapaz que não tinha nada a ver com aquele ambiente sendo machucado daquela forma, isso sim lhe doía. Deu uma rasteira no rapaz, também o fazendo cair no chão, tentando recuperar o fôlego.
— Vai se foder! — esbravejou novamente ao ouvir a frase, chutando o loiro no chão indiscriminadamente.
No rosto, no peito, nas costelas, no quadril, chegou a pisar nele algumas vezes, parando apenas ao ver que alguns machucados vertiam sangue, por fim cuspindo sobre o corpo inerte, esbravejando:
— Seu monte de merda, fica longe dela ou eu acabo com a tua raça! — e foi embora.
Ao menos havia conseguido fazer o que queria. Tinha direcionado a raiva daquele rapaz totalmente para si, fazendo-o ignorar Rodrigo. Cuspiu uma quantidade considerável de sangue no chão, respirando de forma entrecortada, com problemas para recuperar o fôlego. Sua visão estava embaçada, mas ao menos sabia que o outro jovem estava a salvo.
— Wesley! — O outro conseguira finalmente levantar, correndo em sua direção, não sabendo ao certo de deveria movê-lo do chão ou não. — Ai, que caralho! Eu vou chamar um médico! — E tirou rapidamente o celular do bolso, preparando-se para discar o número.
— Não chama...! — O rapaz disse com dificuldade, esticando a mão, tentando impedi-lo de fazer a ligação. Iria apenas preocupar a sua mãe à toa caso ela descobrisse que havia apanhado em uma briga de rua. Era como se preferisse sofrer um ferimento grave a deixá-la desesperada por sua causa. Ergueu lentamente o rosto na direção do outro rapaz, tentando fitá-lo. — Cê tá bem?
— Eu tô, mas você — aos poucos abaixou o aparelho, os olhos ardendo ao ver o estado em que se encontrava. Sequer conseguiu guardá-lo novamente no bolso, esticando a mão livre e afagando suavemente uma de suas bochechas, notando um corte sangrento em seu lábio inferior. — Ah, que merda... Cê acha que consegue andar? Sua casa é perto daqui, né?
— Consigo sim... — E com dificuldade, em vez de se levantar, Wesley esticou uma das mãos na direção do outro rapaz, como se quisesse verificar por conta própria que ele estava mesmo bem. Ainda não conseguia acreditar no grande risco que havia feito o rapaz correr.
E tinha sido tudo sua culpa.
— Segura firme — pegou a mão que lhe fora estendida e colocou em torno do próprio pescoço, finalmente guardando o aparelho e amparando-o pela cintura, caminhando lentamente até sua casa.
Viu o outro tropeçar algumas vezes e quase foram os dois ao chão, mas conseguiram finalmente chegar à casa sem demais problemas. Deitou-o cuidadosamente sobre a cama, analisando seu corpo, sequer sabendo por onde começar.
— Caralho, cê pode ter uma hemorragia interna! — desesperava-se.
— Cê tá mesmo bem, Rodrigo? — E o outro ainda insistia em fazer aquele tipo de pergunta a ele, não se preocupando com o próprio estado.
Na verdade, era mais surpreendente que o tivesse chamado mesmo pelo seu nome. Talvez fosse a primeira vez que isso havia acontecido.
— Eu tô, seu besta! — disse numa voz mais alterada do que gostaria, segurando sua mão, notando que ela incrivelmente não sofrera danos além de um leve esfolado na palma. — Você tem algum kit de primeiros socorros?
— Deve ter no banheiro... — Ele disse com uma voz baixa, esperando que o outro se afastasse, para então olhar para o teto, sentindo a própria visão um tanto nublada.
Achou que poderia estar tonto, mas então entendeu que o motivo disso eram lágrimas que começavam a se formar e escorrer pelo seu rosto. Tinha arriscado o futuro de um bom menino por conta daquelas brincadeiras.
Sabia que havia alguns homens ciumentos que causavam problemas, mas antigamente estava disposto a enfrentar a situação caso fosse necessário. Mas agora, não poderia envolver uma terceira pessoa nisso.
O moreno voltou pouco depois, trazendo consigo uma caixinha com alguns remédios e bandagens, remexendo-os ao entrar no quarto.
— Não tem muita coisa, mas acho que posso dar um jeito — arregalou os olhos ao deparar-se com a cena, sequer acreditando naquilo. — Wesley?! — Largou a caixa no chão e correu para perto dele, o coração disparando. — Tá doendo tanto assim?! Onde? — Começou a vasculhar seu corpo pela possível causa, chegando a erguer sua camisa para isso.
— Rodrigo... — Ele segurou a mão do rapaz de novo, tentando impedi-lo de fazer aquilo. Nunca estaria chorando por um fator físico, por mais dolorido que ele fosse. O que o havia magoado era algo muito diferente daquilo. — Cê quase se ferrou por minha causa... Justo agora, que cê vai entrar pra faculdade... — Dizia com dificuldade, tentando respirar fundo, pois não era de seu feitio ser emocional assim.
Mas somente quando o outro havia corrido tal risco havia percebido o quanto ele era importante e que não gostaria de perdê-lo. Ao menos poderia ficar feliz por não ter percebido isso tarde demais.
— Seu retardado, é você quem tá todo fodido, pára de se preocupar comigo! — começava a sentir os olhos arderem também, um nó se formando em sua garganta por toda a situação. — Eu tô bem, tá? Não fica assim — aproximou-se e selou suavemente os lábios nos seus. — Agora eu preciso cuidar de você.
— Isso não fez nem cócegas, eu tô bem — ele respondeu, mas não conseguiu protestar mais do que isso, pois no fundo estava se sentindo realmente dolorido. Continuava o observando, um tanto inquieto, mesmo quando ele já começara a cuidar de seus ferimentos.
Rodrigo despiu o outro da forma mais cuidadosa possível, embora não adiantasse muito.
Limpou os cortes, passou pomada nas batidas e cobriu-o com bandagens e band-aids, esperando que fosse o bastante. Vestiu-o com roupas limpas em seguida, ajoelhando-se ao seu lado, voltando a segurar sua mão, afagando-a.
— Você vai precisar pegar pelo menos um atestado pra faltar no trabalho — franziu as sobrancelhas, realmente dolorido por vê-lo daquela forma.
— Cê passou no quê mesmo? Medicina? — Apesar de toda a sua preocupação, não resistiu provocá-lo naquele momento.
— Besta, qualquer pessoa sabe fazer isso — acabou rindo um tanto, afagando-lhe a testa. — Não prefere mesmo ir no médico?
— Não, a véia vai ter um ataque, eu não vou — ele resmungou um tanto, inclinando aos poucos o rosto em sua direção, fitando-o, como quem queria dizer algo além disso.
— Ela não precisa saber — acabou dizendo, embora soubesse não ser o melhor dos exemplos. — E você precisa ver se quebrou alguma coisa ou sei lá!
Calou-se apenas ao notar aquela expressão, as pálpebras pesando suavemente, voltando a afagar-lhe a mão.
— Ela vai saber, o povo aqui é fofoqueiro pra caraaalho! — Ele resmungou, e percebeu que um de seus músculos doeu quando se exaltou com aquele comentário.
— Porra, Wesley — tentou acalmá-lo novamente, — Fica quieto então e tenta descansar! Mas amanhã você vai — frisou bem essa palavra — no médico se examinar e pegar um atestado, quero nem saber! — soava mesmo intimidador, um lado que não mostrava normalmente.
— Vai se foder... — Ele disse baixinho, mas depois disso não resmungou mais, apenas desviando o rosto para o outro lado. Ainda estava com remorso de tê-lo envolvido naquela situação, no final das contas.
— Vou, sim, quando você melhorar — brincou, novamente beijando-lhe a testa.
Levantou apenas para tirar os colchonetes do armário, arrumando-os da mesma forma que fizeram das primeiras vezes. Não queria correr o risco de dividir a cama e rolar por cima do outro, sem contar que não seria nada confortável para alguém tão machucado.
— Boa noite. Ah, chama de precisar de alguma coisa! — Virou-se em sua direção antes de apagar a luz, aconchegando-se da melhor forma possível nas duas tiras finas de acolchoado.
— Rodrigo...
E aquela já era a terceira vez que ele o chamava daquela forma. Certamente tinha algo importante a dizer desde o início, mas não havia criado coragem para isso.
— Hm? — virou o rosto em sua direção, sentando-se parcialmente. — Tá com dor? — era o único motivo em que conseguia pensar, afinal.
— Não, não é isso — ele direcionou a sua visão para o teto, como se isso pudesse ajudá-lo a se concentrar melhor e não sentir vergonha pelo que poderia falar. — Sabe esses rolos que a gente anda fazendo aí? Essas putarias.
— Ah — e o sorriso estranho recém-adquirido voltara a seus lábios, como um tique nervoso. — Sei — sequer conseguiu dizer algo além, apenas esperando pela continuação.
Não esperava que terminassem, não quando estavam enterrados nelas até o pescoço, mas mesmo assim sentia-se desconfortável com o assunto.
— Eu quero parar com essas coisas aí — encolheu-se um tanto, embora aquilo o fizesse sentir um tanto de dor, o que o obrigou a voltar à posição original em que estava. — Nunca mais vou fazer alguém querer bater na sua fuça, tá ligado?
— Ah — encolheu-se também, ficando quieto por longos instantes, engolindo em seco e respirando fundo, mas não adiantara. Sentiu os olhos arderem e se curvou sobre os próprios joelhos. — Que bom — soltou abafado, seguido de um soluço.
Não queria deixá-lo mais agitado, sabia que os ferimentos doeriam, mas mantivera aqueles sentimentos trancados em si por tempo demais e agora explodiram de uma só vez, não era algo exatamente controlável.
— Rodrigo, cê tá bem?! — E definitivamente a sua preocupação não surtiu efeito, pois o rapaz já tinha ameaçado se levantar e quase tinha caído de sua própria cama para o lado em que ele estava.
— Fica aí, fica aí! — virou-se em sua direção, praticamente segurando-o na cama, ainda fungando vez ou outra. — Eu só estou realmente feliz — admitiu, suspirando.
— Eu não vou mais fazer merda, não se preocupa... — Ele disse baixinho, desviando suavemente o rosto para o lado, parecendo um tanto constrangido com o que ele mesmo falava.
— Por isso estou feliz — acabou soltando um risinho no fim, debruçando-se sobre a cama, apoiando a testa em seu ombro. Chegou a entrelaçar os dedos nos seus, beijando-lhe a bochecha, esperando não ter acertado nenhuma parte dolorida.
— Cê não vai mesmo ficar chateado? — Perguntou em um tom baixo também, levando uma das mãos até seu rosto. — Até que cê tava ficando popular.
— Cê é retardado!? — acabou soltando com certeza rudez, afagando seus fios claros. — Eu nunca quis ninguém além de você, pra começar — era bom mesmo que a luz estivesse apagada, assim não poderia ver como estava imensamente constrangido.
— Cê não tem vergonha de falar isso não? — O outro rapaz também acabou rindo do constrangido, fingindo lhe dar um tapa, embora continuasse próximo dele.
— Eu tenho, mas mesmo assim — riu um tanto, voltando a beijar-lhe a bochecha. — Cê não fica nem um pouco feliz de ouvir essas coisas?
— Vai se foder — ele riu novamente, aos poucos levando a mão para a parte de trás da orelha do moreno, afagando-o.
Após isso, tinha certeza. Ele estava feliz.
E o moreno alargou um tanto mais o sorriso, inclinando o rosto e beijando-lhe a palma da mão, acostumando-se com seus xingamentos carinhosos.
— Vamos dormir agora? Cê precisa descansar pra se recuperar dessa sova aí.
No dia seguinte, o rapaz ferido fora levado à força pelo moreno até o hospital. Ao menos havia conseguido ir a um local longe de sua comunidade, pois assim não haveria motivo para alegar as fofocas como desculpa para não ir.
Meio a contragosto, o rapaz recebeu alguns dias para descanso em seu atestado médico, e por sorte, não havia se ferido gravemente em nenhum local, muito menos se quebrado também.
— Agora você vai poder descansar direito — Rodrigo disse ao outro enquanto caminhavam até o ponto de ônibus — ignorou todas as suas reclamações, e, quando voltaram à casa do loiro, mandou uma mensagem de texto à mãe dizendo que ficaria lá um tanto mais.
Forçou-o a ficar na cama e apossou-se de todos os afazeres da casa, inclusive a comida.
Aproximou-se novamente dele com uma forma de bolo usada no improviso como travessa, onde estavam os pratos e copos de ambos, cuidadosamente equilibrados.
— É a primeira vez que vou comer no seu quarto — o moreno admitiu, um tanto ansioso enquanto ajudava o rapaz a sentar-se na cama, usando o travesseiro como apoio para suas costas.
— Que chique essa porra, eihn. Só faltou cê chegar vestido pelado só de avental! — E deu um leve tapa na bunda do outro rapaz, esperando que ele não derramasse nada por conta disso. A sua sorte era que Rodrigo tinha ficado muito habilidoso e não permitiu que nada caísse no chão. Seria um desperdício.
— Ei! — Não reclamava de verdade, achando certa graça de seu comportamento. — Vai querer que eu dê comidinha na boca também? — puxou um banquinho ali perto com o pé e sentou-se sobre o mesmo, apoiando a travessa no colo.
— Vou — ele respondeu isso apenas para ver se o outro rapaz iria mesmo fazer o que ele havia pedido, fitando-o. — Seu filho da puta, eu disse pra não cozinhar melhor que eu.
— Tarde demais — brincou, pegando um tanto de arroz e um pedaço de carne no garfo, ainda tomando os cuidados de assoprar algumas vezes e colocar a mão embaixo enquanto o levava até os lábios do outro, esperando que o abocanhasse.
O rapaz acabou entreabrindo os lábios e abocanhando um tanto daquela comida, reclamando de boca cheia que aquilo estava gostoso demais e levando uma bronca do outro jovem, para que engolisse antes de falar, ou poderia entrar pelo "buraco errado".
Tudo o que Wesley conseguia pensar naquele momento era que faria de tudo para conseguir preservar uma relação boa com aquele rapaz. Não importava o quanto o futuro tentasse lhes surpreender, eles conseguiriam dar a volta por cima.
Rodrigo olhou para a cena do rapaz saboreando sua comida com tanta vontade, mesmo que ainda reclamasse algumas vezes por ter superado sua técnica culinária, achando aquilo impressionante.
Olhando para trás e vendo desde o ponto de partida, eram um casal com tudo para dar errado, mas mesmo com tantos obstáculos, agora sentia que estavam caminhando juntos na direção certa.
Não resistiu e, mesmo o vendo ainda com a boca cheia, aproximou-se e selou suavemente os lábios nos seus, sussurrando um "eu te amo" enquanto ignorava os xingamentos seguintes, provenientes do constrangimento sempre causado por aquela frase.
Apenas estava feliz, tão feliz que sentia o coração prestes a explodir.
Esperava, do fundo dele, que continuassem sempre compartilhando daquele sentimento.
Notas finais
A coluna da Yuu-chan não anda muito boa, o que está dificultando um pouco o nosso trabalho no momento.
Responderemos todas as perguntas aos personagens somente no próximo capítulo!
Obrigada por lerem!
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