Número 12 [Fic de Terror]

3 3° Capítulo – Quando os demônios vêm à terra


Abri meus olhos embaçados, pela janela o raio solar matutino clareava a sala, o cheiro da floresta pela manhã era revigorante. Alguém batia à porta, me levantei ainda com os braços fraquejando pelo sono, a cabeça doía tal qual alguns músculos da panturrilha. Retirei a tranca da porta, era o chefe de polícia Ernesto.
–Posso ajudá-lo chefe Ernesto? –Já nos conhecíamos pelas inúmeras vezes em que eu ia na delegacia discutir sobre meu caso da perda de memória.
–Você tem muito o que nos contar sobre ontem à noite no hospital Cardoso –Ele dizia segurando minha carteira.
–É verdade, ontem eu havia ido lá para uma insp... –Minhas palavras foram interrompidas quando as lembranças de ontem à noite vieram a tona.
Por alguns minutos eu simplesmente havia deletado do cérebro o que acontecera ontem no hospital, mas assim que lembrei o que fui fazer lá, o resto da memória veio junto a um turbilhão de sentimentos, todos indescritivelmente ruins.
Eu cai de joelhos no chão, os olhos arregalados.
–E-eu...Ontem... Então aquilo realmente aconteceu? –Eu finalmente aceitara aquilo como a mais pura realidade.
–A princípio nós também não acreditamos quando fomos informados, mas assim que entramos no hospital, vimos com nossos próprios olhos. Os pacientes haviam se transformado em figuras grotescas.
– E o que vo-vocês farão sobre o assunto? – Eu tentava me acalmar e raciocinar um pouco.
–Não podemos divulgar isso, será mantido em segredo para que não haja perturbação pública. A Instituição de Prevenção a Vírus e Infecções será informada do ocorrido, e isso será deixado nas mãos deles.
–Há sobreviventes?
–Infelizmente, apenas você saiu com vida de lá. É por isso que precisamos tanto de seu testemunho, você é o único que sabe o que aconteceu .
–Espera um pouco, e o doutor Carlos? –Eu me levantei já tendo quase superado o trauma momentâneo.
–Encontramos a casa dele destruída, há indícios de que ele também se transmutou, e seguindo os rastros, descobrimos que ele fugiu em direção à floresta.
–Então e-ele é o único ainda solto por aí. –Pensei em voz alta
–Vamos por policiais rondando os arredores, até que descubramos o que causou isso. Até-la, por favor relaxe, depois nos conte tudo o que viu.
–Fo-oi.. horrível.- Eu abraçava minhas pernas dobradas sentado no chão com os olhos visando um ponto indistinto.

Eu dei meu depoimento de tudo que vi e fiz no hospital, e após muitas horas, fizeram algumas inspeções até constatarem que eu estava limpo e ser liberado.

Estacionei minha moto e entrei na cafeteria com ar de exaustão. Ana, a jornalista estava sentada com um prato cheio de migalhas, ao que aprecia ela havia desistido de me esperar e começou sua refeição sozinha.
–Desculpe te fazer esperar, mas como lhe disse por telefone eu estava na delegacia –Eu disse assim que me aproximei dela e sentei à mesa.
–Se você estava ocupado não tem problema, mas o por que da urgência em falar com você sobre seu caso? Eles descobriram alguma coisa?
Eu a havia dito que o assunto na delegacia era a minha perda de memória, já que fui proibido de espalhar o real fato.

Por um instante eu me via sozinho, era como se eu estivesse em um mundo afastado da mulher que sentava à minha frente, ou de todos os outros daquela cafeteria. Eu sofrera por não lembrar do meu passado, o que deixara meus pensamentos confusos, e pra piorar eu ainda passei pelo que parecia ser um filme de terror. Vi corpos transmutados de forma traumatizante, e como se não fosse suficiente, eu ainda perdi meu único amigo. Talvez isso tenha me deixado emocionalmente ainda mais apegado à ela, pois eu não gostava da sensação que me assombrava, a de que eu estava completamente sozinho.

–Então Gabriel, espero que me diga tudo o que foi descoberto. –Dizia Ana com um leve sorriso enquanto preparava seu bloco de notas.

Apesar de minha sanidade ter sido abalada, meus sentimentos pela jornalista apenas cresciam, enquanto ela falava eu observava seus lábios reluzentes e não conseguia deixar de visá-los pra mim.
Eu estava em um “mundo” isolado, mas quem disse que eu precisava estar sozinho, talvez eu conseguisse tê-la lutando ao meu lado.

–Ana, preciso te dizer a verdade. -Respirei fundo, olhei profundamente em seus olhos e continuei. –Na verdade não fui chamado na delegacia pelo meu caso, é algo muito mais sério, de um modo que você não deve nem acreditar.
Ana deixou o papel de lado, chegou mais perto de mim na mesa e escutou atenta. Eu lhe disse tudo o que passei no hospital, junto a isso o fato de que ela nada poderia publicar.
–Não que eu esteja duvidando do que você diz, mas tem como você me provar isso? Há como você me levar até o hospital? Ouvi dizer que foi um vazamento de gás que levou tudo pelos ares.
–Desculpa, não tenho provas, cabe apenas a você acreditar ou não.
Ela estava pensativa, talvez analisando as possibilidades.
–Sabe, não me leve a mal, mas é mais que óbvio que eu não acreditaria nesta história, não sei se você está mentindo pra mim, ou se realmente acredita nisso. -Ela expôs seu medo de ficar muito perto de mim.
–Ana, por favor, acredite, tudo o que eu passei é real, sei que disseram pra você que meu psicológico não anda bem, mas isso é apenas um disfarce, o acidente vai além da explosão, os corpos carbonizados são de outros pacientes já mortos, os verdadeiros, deformados, estão sendo mandados para estudos no exterior.
–Gabriel, eu sempre suspeitei que a sua perda de memória tenha sido psicológica, e da mesma forma que você perdeu suas lembranças de o que fez, desta vez acho que você ganhou lembranças de coisas que nunca viu. Olha eu quero mesmo te ajudar, mas pra isso você precisa aceitar ser ajudado ok?
Aquilo não podia ser sério, agora Ana me achava um completo maluco. Mas o erro foi meu de não ter calculado essa reação dela antes de tomar a decisão de contar.
–Entendo, bom, acho que é isso então, se você acha que o que aconteceu era fruto da minha imaginação, não temos mais muito o que conversar. –Eu me levantei sem a olhar nos olhos e de modo frio, me retirei em direção à porta.
–Espera Gabriel, isso não significa que devemos perder contato.
No momento em que a disse, eu parei meus passos pela lanchonete, e sem me virar, apenas torcendo um pouco meu pescoço, eu disse:
–Eu desejei muito me aproximar de você e somente a você confiei algo tão confidencial, ainda sim você me rejeitou tal qual o meu segredo. E mesmo após tudo isso, você não acha que seria tortura de mais eu ter de ficar próximo a você?
Ela nada disse, enquanto todos nos olhavam curiosos, eu continuei até finalmente sair da lanchonete, peguei minha moto, ajeitei minha jaqueta de couro e acelerei, não sabia para onde ir, eu só precisava de um tempo para pensar em tudo.

Eu dirigi até um parque que fica no centro da pacata cidade, lá eu descansei minha moto e me sentei em um dos muitos bancos com árvores cercando. Observei as crianças brincando ignorantes ás crueldades da vida, 3 amigos idosos caminhando tal como suas amizades que resistiram a muitos anos e que talvez continue até o final de suas vidas.
Percebi que todos viviam suas vidas normais, sem nada com o que se preocupar ou abalar no momento. Mas por que eu? Por que eu não posso ser como eles? Por que tenho que passar por isso tudo?
Pensei que queria apenas ter minha família e passear com eles nesse mesmo parque. Mas agora se eles existem, eu não lembro de seus rostos, não sei o que me fazia feliz. Tive que lidar com algo que abalou meu psicológico, em meio a isso, meu amigo se foi, e a mulher pela qual eu me apaixonei, me rejeitou achando que eu estava louco.
Meus sentimentos vieram tão fortes que eu não consegui conter minhas emoções, e permiti-me chorar levemente, ali, naquele banco público, em meio à natureza, sob o céu alaranjado do poente.

Cheguei em casa mais ou menos umas 19:00h, cuidei dos animais, arrumei minha bagunça dos últimos dias revirando os cômodos, tomei um banho e me deitei. Fiquei deitado no sofá ouvindo meu CD de rock, tocava Fairy Taile da banda Shaman, antes dela acabar eu já caia no profundo sono.

Escuridão... De repente uma voz... Era de uma mulher, só era possível compreender alguns trechos de sua fala: “...não quero discutir isso com voc...olha para fre...cuidado com o caminh...” após isso barulho de batida e depois silêncio...
Da escuridão nasceram formas planas mas coloridas, eram imagens tais quais as de outros sonhos, no entanto estavam menos distorcidas, mais visíveis. Vi um menino brincando em um balanço, era confuso de mais para distinguir seu físico. Vi a floresta na qual eu acordei, era noite e algo parecia se mover por entre as moitas.Vi três letras, um “X” e dois “I”s, pareciam estampados em um plano metálico... Então por último eu vi, vi a casa na qual eu agora estava dormindo, no entanto vista fora, era como se eu estivesse observado o que outra pessoa enxergava, tal pessoa olhava para a fachada da casa durante um tempo, então em um movimento brusco, começou a correr em direção à entrada, assim que agressivamente abriu a porta da frente, um clarão que surgiu da brecha entre a porta e a parede fez diluir a imagem por completo, nesse mesmo instante acordei.
Eu saltei do sofá mordendo o canto da língua, suava como das outras vezes, e novamente as imagens me torturavam. “Estão ficando mais frequentes e piores”, pensei. No rádio a música Bring me to Life da banda Evanescence havia travado na parte “Save me from the dark”, o CD devia estar arranhado, o que fazia um barulho irritante de repetição.
Me levantei tremendo, desliguei o aparelho sonoro, e fui buscar algum Drink pequena cozinha. Enquanto bebia, veio em minha mente uma lembrança recente, a qual eu havia simplesmente ignorado até o agora. Lembrei-me da ultima ligação de Carlos, onde ele disse ter achado uma estranha bactéria em meu sangue, assim que me recordei, minha mão perdeu forças e eu deixei o copo de vidro se espatifar pelo chão.
Então de algum modo eu estou envolvido com o incidente no hospital, não só isso, e se a bactéria que eu porto, for a mesma que infectou os pacientes os fez aquelas aberrações? Então era só questão de tempo até eu me tornar um deles também?
Fiquei tonto por alguns segundos, tive medo de ter o mesmo destino daqueles pobres que enfrentei, eu sabia que uma hora ou outra, os efeitos viriam à tona. Precisava de ajuda, e o único local onde eu já estava familiarizado era a delegacia.
Pus uma armação de couro na qual eu prendo minha Shotgun por debaixo da jaqueta, peguei as chaves da moto e sai novamente. O relógio marcava 2:13h da manhã.

A cidade estava calma como eu nunca a havia visto, o frio era intenso, uma rala neblina cobria o chão da cidade, a lua brilhava forte em sua forma minguante.
Estacionei a moto, passei pela porta de vidro da delegacia, em contraste com o exterior obscuro pela noite, a delegacia era dotada de luzes fortes o suficientes para me ofuscar por alguns segundos, no saguão de entrada media-se 5 metros da porta até o balcão onde ficava os policiais recepcionistas.
Assim que entrei, me encostei no balcão e chamei pela atenção do policial que jazia sentado em sua cadeira virado de costas para mim, ele parecia estar assistindo a um programa de tv de perguntas e respostas. Apesar de chamar por ele, o policial não me entendia, “deve estar dormindo”, pensei.
Passei pelo balcão para me aproximar do policial e assim acordá-lo. Eu então pus minha mão em seu ombro para balançar o corpo, assim que toquei na autoridade, o policial que supostamente estava dormindo se virou com violência tentando agarrar meu braço, porém fui mais rápido, no susto pulei para trás.
Ao se virar de frente para mim, eu pude ver sua face e barriga que antes estava oculta pelas costas da cadeira. Seus olhos sangravam tal como suas orelhas, os dentes tornaram-se afiados e podres, o nariz foi cortado ao meio, transparecendo o osso de seu crânio. Porém o mais bizarro era sua barriga que ainda estava em estado de deformação, ele caiu no chão e começou a se contorcer. A barriga da criatura aumentou quase o dobro do tamanho e de sua espinha cresceram o que pareciam ser pernas de centopeia no tamanho de um braço humano, eram 10 no total, suas pernas foram projetadas para fora e a criatura se sustentava apenas com os membros que originavam de sua espinha, fazendo das pernas nada mais que membros inúteis que mais pareciam feito de pano. A mudança corporal cessou, e os olhos amarelos e lacrimejantes de sangue me fitavam, eu em um movimento cauteloso, pus minha mão por debaixo da jaqueta, ficamos um tempo nos encarando, até que eu dei o primeiro movimento. Assim que puxei rápido minha arma de cano longo, o policial deformado correu em minha direção, locomovendo-se como um inseto, com seus braços sendo arrastados e as pernas inexistentes. Eu andava de costas enquanto tentava mirar na cabeça, o ser corria em uma velocidade voraz, sua boca babava como se clamasse por minha carne.
Sob condições precárias de mira, eu dei o primeiro tiro, que o acertou no meio da espinha em alto relevo nas costas. O ferimento pela bala de grosso calibre atrapalhou a rota da criatura, fazendo-a entrelaçar os pés, cambaleando em minha direção, eu rolei para o lado deixando o corpo passar e quebrar a porta de vidro, mas isso não o feriu de forma significativa, quase na mesma hora em que quebrou a porta de entrada, ela se pôs de pé novamente e se virou para mim, o osso perfurado se repartiu em dois, a parte ferida até os pés cau como um membro ejetado, restando 6 “patas” ela corria mais rápida. Agora com o lado revertido ela corria da porta para o balcão em minha direção, eu nada podia fazer enquanto corria de trás carregando a arma, assim que terminei de carregar o bicho abriu a boca pronto para me morder com seus dentes pontiagudos, mas estava perto de mais para eu atirar com precisão, então me virei e pulei sobre o balcão, caí de ombro do outro lado, o monstro bateu de cara na madeira, ele se recompôs e abaixou sua barriga até tocar o chão, as patas se contraíram, ele se preparava para pular, e assim que o fez, eu vi aquele corpo não-humano aparecendo novamente diante minha vista, mas eu já estava preparado para isso e minha arma apontada para cima, assim que tive a visão do monstro que pulava o balcão para cima de mim, eu disparei acertando-o em cheio no rosto, detritos de dentes correram pelo saguão, miolos junto a olhos mortos e muito sangue com textura anormal se espalharam no chão, balcão e em mim, mesmo com a criatura evidentemente morta, eu não conseguia abaixar a arma, sentia meu corpo dormente, era a mesma sensação de antes.
Eu não acreditava que aquilo estava acontecendo de novo, meu maior trauma, vindo à tona tão cedo.
Descansei os braços, relaxei, na verdade aquele trauma teve seus benefícios. Tamanho terror transtornou meu cérebro, e diante de situações de tensão e terror, eu não mais sou tomado pelo medo, aprendi a lidar com ele e agir rápido ignorando-o por parte. por outro lado, temia que essa já fosse o começo de certa insanidade.
Notei que entre o emaranhado de órgãos e membros pelo chão, havia o cinto policial caído próximo ao tronco cortado, cinto onde residia sua arma. Pulei o balcão, e me aproximei do cinto, cuidadosamente eu retirei o cinto de baixo do tronco, assim que puxei já com a escopeta relaxada, uma das patas se moveu, eu larguei o cinto e apontei novamente minha shotgun, mas a criatura continuava imóvel, aquilo era provavelmente o reflexo do sistema nervoso.
Pus o cinto em mim com a arma, chequei as balas e a guardei, recarreguei minha arma maior e a segurei firme.
Assim que pensei no fato da delegacia está sofrendo do mesmo problema que o hospital, me preocupei com Ernesto, o delegado que acompanhara meu caso.
Corri em direção à sua sala, chegando no escritório, notei a lâmpada estourada, deixando o cômodo obscuro, apenas com as luzes do corredor ajudando na visão.
Eu não podia ver muita coisa, mas reparei nos móveis todos revirados, folhas e envelopes jogados ao chão, a persiana caída e marcas fracas de sangue por toda a parte.
Entrei extremamente cauteloso, pisando firme nas folhas no chão, me movi ao centro da sala e assim que parei em frente à mesa do delegado, uma mão tampou minha boca enquanto outra me puxou pelo braço e fui levado ao chão debaixo da mesa. Por um instante meu coração parou, e quando pensei em lutar para me libertar, um rosto se mostrou ao meu lado, era Ernesto que se escondia debaixo da mesa e me puxara junto.
–Ernes... – fui interrompido por ele tampando minha boca e pondo o dedo indicador nos lábios em sinal de pedido de silêncio.
Ele sem dizer nada apenas apontou devagar para um canto da sala, indicava o corredor que dava a uma outra parte da sala e ao banheiro particular. Sob uma visão precária eu tentava enxergar o interior do corredor, mas a escuridão não permitia, no entanto não demorou muito para eu entender a situação.
Da negritude na passagem, uma figura se mostrou, era mais um monstro que caminhava lentamente em direção à nossa sala.
Tal criatura possuía toda a parte facial coberta por camadas de pele, provavelmente a impedindo de enxergar, mas onde deveria cobrir as orelhas, havia uma substância gelatinosa transparente que parecia ser sensível ao som. Todo seu corpo era despido e sem o sexo à mostra, com espinhos cobrindo-o por inteiro e unhas que chegavam a superar o tamanho das mãos. O ser aparentemente cego ficou imóvel alguns passos à frente do corredor, era como se estivesse tentando nos ouvir.
Deveríamos tentar sair sem que ela nos escutasse.
Era assustador, mesmo sem nos ver, ela estava ali, na nossa frente, pronta para atacar qualquer sinal de vida.
Eu e o delegado com máxima cautela, sem deixar escapar nenhum ruído, saímos de baixo da mesa e caminhamos até a porta. Nos movíamos quase prendendo a respiração, criando gotas de suor nas testas, o rosto da criatura voltado para alguns sons de animais vindos de fora da janela. Enquanto nos afastávamos do ser sem rosto, eu pisei em uma folha que deslizou alguns centímetros, paramos na hora de nos movermos. Assim que o mínimo de barulho foi feito, a criatura de rosto escondido virou-se para nossa direção, mas sem dar nenhum passo, era como se estivesse esperando mais um ruído para ter a certeza de um alvo.
Teríamos ficado parados e esperado ela ir embora, no entanto ela iniciou um andar muito lentamente em nossa direção, sabíamos que não nos tinha percebido ainda, mas teríamos de ser rápidos.
Apertando o passo, eu saí primeiro da sala escura, olhei para trás esperando Ernesto também passar pela porta aberta. Assim que ele estava para cruzar a passagem, alguma outra criatura apareceu por entre a escuridão de um canto e o agarrou nas pernas, Ernesto soltou um gemido de susto enquanto caía em cima desta. Assim que ouviu o tombo de Ernesto, o ser de trás agiu rápido. Em sua cara coberta abriu-se uma fenda de uma orelha a outra, era sua boca, exageradamente grande e mortal. A criatura cega saltou de onde estava bem em cima de Ernesto, sem me dar tempo de reagir ela abriu ainda mais seu maxilar monstruoso e pôs a cabeça inteira do delegado entre suas fileiras de dentes pontiagudos e que saiam de diversos lugares da boca, ela pressionou o maxilar que perfurou o crânio e logo depois o esmagou, fazendo os glóbulos ópticos serem cuspidos para fora junto a um jorrar de sangue pelas aberturas da face.
Enquanto as criaturas se ocupavam com o corpo destroçado de Ernesto, eu aproveitei para evadir do local, corri o mais rápido que pude até minha moto do lado de fora, virei a chave da ignição e acelerei de forma que cheiro de borracha queimada pode ser sentido junto a fumaça deixada para trás.
Após percorrido meio quarteirão, eu me virei para trás e pude ver a criatura cega correndo para a calçada, provavelmente atraída pelo barulho inicial dos pneus, mas eu já estava em uma distância segura, prossegui.
Enquanto corria pelas ruas desertas pude ouvir barulhos de pessoas gritando, outras vezes de monstros rugindo, de qualquer forma eu sabia que o portal do inferno aberto no hospital, agora jazia na cidade e os demônios já estavam a solta. Eu corria determinado, tinha um destino.
Com o celular que peguei de um dos policiais eu liguei para Ana, mas ela não atendia, temia que o pior tivesse acontecido. Cheguei à rua na qual ela havia me dito ser a da tia dela. Andei de vagar com a moto, ouvia ruídos bem ao fundo de desespero humano, vinham de toda a cidade.
Enquanto eu passava ouvi um barulho de janela se quebrando seguido por um grito, era Ana. Acelerei a moto e fui de encontro ao chamado, vi então Ana saindo correndo de um escuro beco, ela vinha na direção oposta à mim, e logo atrás uma das criaturas, mais parecia um leão deformado, era quadrúpede e sua velocidade superava gradualmente a da moça.
Assim que me viu, Ana correu mais rápido de encontro a mim, o monstro se aproximava dela de forma rápida. Quando estávamos para nos chocar, eu dei um giro de 180 graus com a moto fazendo uma marca arqueada no asfalto, uma vez com o banco passageiro apontado para ela, Ana pulou e sem parar de acelerar eu larguei o freio, se não fosse por seus braços envoltos à minha barriga teria sido arremessada para fora da moto tamanho foi o impulso.
A moto seguia reto pela rua enquanto o monstro corria a toda velocidade para nos alcançar.
Eu tirei rápido a pistola do cinto e a entreguei, não podia me dar ao luxo de dirigir só com uma mão naquela situação por isso confiei a ela atirar.
–Pegue a arma e tente atirar na cabeça – Era necessário gritar para ser ouvido.
–Não. Eu não vou atirar!
–Por que? –Questionei se ela tinha ciência da situação.
–Por que... ela é a minha tia doente.
–Ana, aquilo era sua tia, agora é só um monstro que corre atrás de nos devorar. Se você não quer matá-la ao menos atrase-a.
Ana pegou a pistola policial de mal jeito, segurou firme temendo seu poder e então mirou nas pernas da perseguidora. O monstro parecia se preparar para pular em cima da moto quando Ana fez os disparos, de 5 balas, 2 acertaram uma das pernas, fazendo então o criatura tombar se esfolando no asfalto.

Vimos algumas outras criaturas apareceram na rua, corpos degradados jogados nos telhados, janelas quebradas, postes de luz quebrados, súplicas de desespero por todo o lado.
Finalmente chegamos à minha casa, por ser a mais distante da cidade, o risco de ser atacada era menor.
Deixei a moto de qualquer jeito, entramos e então tranquei a porta por dentro, caímos juntos no chão.
Na sala acendi a lareira para aquecer-nos do frio de fora. Sentamos próximos às chamas.
–Parece que toda a cidade sofre da mesma mutação. Você acredita em mima agora?
Ao invés de responder ela se encolheu e me abraçou, estava chorando. Eu tinha noção do choque psicológico que ela se submetera, então não exigi nenhuma resposta.
–Eu estava dormindo quando escutei um barulho vindo do quarto dela, fui lá ver achando que tinha caído da cama, assim que entrei no quarto vi ela se contorcendo. Ela tentou me atacar, mas eu pulei a janela. – Dizia Ana soluçando agarrada a mim, sua voz era abafada pelo meu peito.
Eu retirei minha jaqueta e a encobri. Até pouco tempo eu estava terrivelmente irritado com ela por não acreditar em mim, mas neste momento não conseguia sentir mais nada a não ser meu coração bater forte ao sentir o cheiro do cabelo da jornalista.
Ficamos alguns minutos abraçados, eu havia esquecido completamente do mundo a fora, neste momento só conseguia pensar em mim e nela. Até que suas lágrimas cessaram e eu pude finalmente a beijar. Em ritmos frenéticos nosso peito pulsava ao toque um do outro. O romance abaixou quando ela decidiu falar.
–Desculpa por não acreditar, a partir de agora quero ficar somente do seu lado.- Com o rosto choroso ela me olhou nos olhos, eu a teria beijado novamente neste momento, não fosse ela saltando com uma expressão de susto – Essa não! Preciso ir buscar a m...
A fala foi interrompida por um berro, em seguida Ana caiu no chão.
–Ana?
–Argh! Que dor! – ela estava com as mãos na barriga gemendo de aflição.
Não era possível o que estava acontecendo, ela também estava se transformando bem na minha frente. Ana, agora que finalmente pude tê-la em meus braços irei perdê-la para sempre?
Eu caí de joelhos com a barriga virada pra cima de Ana entre minhas pernas, jogado em cima dela eu refletia, mas tinha que agir rápido. Não importa o quanto eu a amasse, não poderia aquele destino cruel cair sobre ela, eu tinha de libertá-la desse maldição. Do contrário ela mesma poderia me matar.
Levei minhas mãos ao rosto dela, seus olhos se amarelaram e de seu rosto pude ver as veias inflando.
–Eu nunca pude dizer que te amo, me desculpe por ser um covarde. –Era eu quem chorava agora, eu não queria fazer aquilo, mas logo logo ela estaria me atacando tal qual os outros, então era mesmo necessário –Adeus, para sempre.
Ana gritou, dessa vez com o tom vocal já alterado, eu fechei os olhos, enrijeci os músculos do braço e em um movimento único, girei violentamente o pescoço de Ana o quebrando.
Eu tive de evitar sua transformação, nem que para isso tivesse que matar a mulher pela qual me apaixonei.
Eu fiquei um tempo respirando fundo, ainda sobre o corpo falecido da mulher, me levantei de vagar, em meu rosto não havia mais nenhuma expressão, eu estava já à beira da insanidade.

O frio parecia ter se tornado mais insuportável, eu cravei a pá no solo e olhei a terra fofa que cobria o corpo de Ana ao lado do celeiro. Minhas lágrimas pareciam ter secado, meu cérebro deve ter desistido de se levar pelas emoções nas quais eu estava me submetendo.
Voltei para a sala, caí deitado no chão, pensei na situação lá fora. A mulher que fizera meu coração bater mais forte, o dono da cafeteria que me contava sobre sua terra natal, o policial Ernesto que me assistira no meu caso da memória, meu único amigo, todos mortos.
Por que eu não me infectara como os outros? Que eu tinha a tal bactéria eu já sabia. Será que meu organismo retardara o efeito e logo mais eu me transformaria também? Ou será que eu era imune? Que relações teriam isso com meu caso de amnésia?
Lembrei da conversa com Carlos no hospital, na qual ele citou que deveria ter algo estranho ainda não descoberto naquela floresta. Sim, a floresta, talvez lá eu encontre as respostas.
Coloquei mais balas na escopeta, ajeitei minha jaqueta, peguei uma lanterna, olhei pela janela que se direcionava às primeiras árvores da vasta floresta.
–Ana, Carlos, eu descobrirei o que está acontecendo, por vocês.
Saí de casa ignorando completamente meus medos, estava destinado à acabar com isso de uma vez por todas.

[Cidade Tales de Mileto] (Não tão devastada)

Notas finais
O que achou deste capítulo? Sua opinião é de extrema importância. =]