Nós e os muros

3 Intervenção


Eram no total de três. Cada criatura tinha cerca de cinco metros de altura. Eles eram humanoides, porém mais rudimentares e menos racionais. Suas partes estavam expostas e eles atacavam casas, socavam pessoas e berravam imponentes a cada passo que davam na infiltração das fronteiras da cidade.

Os que ali estavam dispararam flechas flamejantes, empunhavam suas bestas, puxavam os gatilhos de revólveres. Nada pareceu funcionar contra a fúrias dos gigantes, que pareciam se irritar mais com a resistência que tentavam firmar.

Muitos eram abatidos conforme a ira das criaturas. Os dois garotos se esconderam atrás de uma construção e espreitaram ofegantes cada grande movimento no local. Abraham, contudo, parecia mais estar indignado do que com medo. Crowley não sabia ao certo por qual razão estava ali, mas estava, e assistia tudo conforme seu coração acelerava.

Crowley se inclinou, olhou seu amigo nos olhos e ouviu palavras que pareceram martelar sua pouca coragem.

— Precisamos fazer alguma coisa, Crowley.

Entretanto, a bravura do garoto pálido foi interrompida por um estrondo, tão alto que pôde ser ouvido por todos na cidade. Um dos gigantes foi atacado por um raio explosivo que parecia ter vindo de lugar algum. Mas tudo se esclareceu conforme a fumaça se dissipava. Adiante, em frente aos três gigantes, estava um homem em vestes escuras e acinzentadas.

— De onde ele veio? – gritou um dos homens da guarda.

— Será um deles?

Muitos olhos observavam o homem, que parecia estar tranquilo enquanto admirava os gigantes bem em sua frente. Abraham e Crowley também admiraram, curiosos, a estranha intervenção.

— Sai daí! Você vai morrer! – gritou um soldado ferido.

— Você não tem chance contra eles! Não dá! – exclamou ainda outro.

No momento em que uma das criaturas rapidamente lançou seu braço para trás e preparou um soco certeiro contra o homem, este último retirou da sobrecasaca um bastão de pouca espessura e o segurou firme com sua mão direita. Era uma espécie de varinha. Então seguramente bradou:

— Movimentai-vos!

Em seguida, manejou o bastão suavemente para a direita e para a esquerda. Para surpresa de todos, uma luz envolveu as criaturas, que começaram então a flutuar atônitas.

Entretanto, ao invés de comemorações e aplausos, houve vaias e reprovação por boa parte das pessoas que assistia.

— Abominação!

— Pecador!

— Foi você que nos trouxe esses problemas! Filho do demônio!

O homem, que parecia não se importar com os amargos comentários, lançou seu corpo para frente conforme guiava seu bastão. Exatamente nessa hora, as três criaturas foram lançadas para longe através do ar, muito além das fronteiras da cidade.

Ao término do ato que parecia ter salvo a cidade, dezenas de pessoas cercaram o poderoso rapaz. As pessoas apontavam flechas, revólveres ou até mesmo seguravam pedras.

— Desgraçado!

— Eu vou acabar com você, demônio!

Sorrindo, o homem pôs as mãos nos bolsos da calça e conforme todos disparavam flechas, pedras e balas, desmaterializou-se diante de todos os olhos – mas não sem antes proferir as seguintes palavras:

— Vocês condenam o que não compreendem.