Nós - Brittana

3 Primeiras impressões


Notas iniciais
Não queria falar sobre isso, mas continuar aqui postando fanfic como se nada tivesse acontecido é algo que eu simplesmente não sou capaz de fazer. Então vamos lá. Nesse ponto todo mundo já sabe da trágica morte da Naya que aconteceu ali no começo do mês passado, é algo surreal, um assunto extremamente delicado que até agora tendo praticamente passado um mês desde o ocorrido é difícil de processar, dói demais. Me peguei imaginando se seria capaz de continuar escrevendo qualquer coisa de Glee e Brittana depois disso, e sinceramente, continuo tendo dúvidas. Ao mesmo tempo, ao fazer isso, Naya continuará viva através da Santana, que foi e é uma personagem tão importante para milhares de pessoas e Naya nos deu tanta alegria e amor ao trazê-la a vida. Basicamente, é isso o que me dá forças pra continuar por aqui, por enquanto. Então, cá estou eu. R.I.P. Naya Rivera ♥

Sem saber ao certo quantas horas havia dormido à noite – porque bom, não parecia ter tido mais que umas três ou quatro horas de sono; Brittany acordou por volta das sete da manhã. Os pensamentos ainda a milhão por hora. Tudo culpa do escândalo que Sugar fez para cima da moça grávida no dia anterior. A ocasião infeliz no Breadstix parecia impregnada em sua mente como um verdadeiro parasita, sugando toda a sua energia. Dava para ser mais ridícula? Vindo de Sugar Motta, a loira esperava qualquer coisa na realidade. Então, sim. Dava sim. O fato é que a imagem de Santana, a garçonete que teve que ouvir o chilique da outra, continuava pairando em sua mente e isso a trazia certa preocupação. Ela estava bem? Talvez... Talvez, um café afastasse tudo isso, quem sabe. Precisava começar o dia bem, na medida do possível. E, depois, veria o que fazer com tais ponderações.

Com algum receio, a Pierce abriu os olhos e fitou por alguns segundos Marley adormecida do seu lado direito da cama. Suspirou aliviada, pois não estava a fim de conversar àquela hora e se levantou com cuidado, para não despertar a namorada. Depois, encostou a porta do quarto direcionando-se ao banheiro, para lavar o rosto e afins. Em seguida, foi até a cozinha de pijamas espiar a geladeira. Lá, tinha uma caixa de ovos pela metade, duas embalagens de iogurte da semana passada, um frasco de leite parcialmente vazio, um filetinho de manteiga, queijo e uns três ou quatro vegetais... Nos armários, restavam uma ou outra embalagem de macarrão instantâneo, pão integral, açúcar mascavo e pó de café. Resumindo: precisavam fazer compras. Ainda assim, Brittany conseguia se virar. Qual é, não é como se ovos mexidos necessitassem mais do que ovos mexidos para se fazer existir. Tudo bem que precisava sim de sal e um pouquinho de manteiga, mas isso ela tinha. Sem problemas.

A loira começou então a separar os ingredientes para o café da manhã, ao mesmo tempo em que ligava suas caixinhas de som bluetooth na bancada -num volume quase imperceptível- selecionando a playlist de sempre para rodar. Seu repertório de músicas era totalmente aleatório, indo de Lana Del Rey à Smash Mouth, Muse e outros, e ela gostava de ser assim, muito mesmo, mas se tivesse que ouvir uma só música no repeat o dia inteiro provavelmente seria na voz de Johnny Cash. Era quase terapêutico quando o fazia. Bem, voltando ao café da manhã, não era como se a Pierce fosse “A Mestre-Cuca” na cozinha. Não... Não mesmo. Mas, sabia o básico e, por um milagre, tinha sorte no básico, então dava para o gasto.

Ela pegou uma frigideira repousando-a no fogão, porém congelou no mesmo minuto. As cordas vocais de Johnny Cash captaram seus ouvidos com Hurt. E, ao passo em que quebrava os ovos e os despejava na frigideira, a raiva voltou a ferver em seu interior, então Brittany resolveu que iria voltar ao Breadstix para saber se Santana estava bem depois daquele show de horrores desnecessário de Sugar em seu ambiente de trabalho. Era isso. Estava decidido. Só depois de o fazer, ela conseguiria voltar a atenção para a própria vida... Ou, coisa do tipo. Ainda não tinha completa certeza, já que estava meio avoada bem antes desse fator. Mesmo assim, não custava tentar, afinal de contas não conseguia parar de pensar no assunto. Não bastasse isso, mal percebeu que Marley havia acordado e estava se dirigindo à cozinha também.

— Levantou cedo...

A loira tomou um susto com a voz da namorada e deu um pulinho, seu coração palpitando. Tal comentário não havia saído em uma entonação tão pacifica como poderia. Brittany tentou disfarçar o incomodo, respirou fundo e deu um sorriso forçado, olhando-a de relance.

— Pois é, tava com fome. Tudo bem?

— Sim. — Ela respondeu, aproximando-se para dá-la um beijo desajeitado. Ambas estavam extremamente desconfortáveis. A discussão que tiveram na noite anterior era só mais uma de muitas que andavam tendo por qualquer coisinha, e ainda sim, aquela tinha sido a pior até então. — E você, tá melhor?

— É... Tô. — A Pierce empratou os ovos mexidos e se sentou na bancada após se apossar de um iogurte. — A gente precisa fazer compras.

Outra música na voz de Johnny Cash começou a tocar, dessa vez You Are My Sunshine. Marley arrepiou-se, incomodada. E aí abriu a geladeira, assentindo à namorada.

— Verdade. Será que você pode... Colocar um fone de ouvido, por favor? — Conviver com Brittany significava: ouvir Johnny Cash todos os dias, especialmente quando ela estava mal. Para Marley soava meio mórbido e com o tempo, aquilo passou a irritá-la profundamente, como muita coisa em relação a outra. Ainda assim, tinha os melhores sogros que alguém poderia querer, um apartamento próprio com a Pierce e toda uma história para contar. Em contrapartida, sentia-se carente da parte emocional, mas, acima de tudo, da parte carnal daquele relacionamento, que basicamente era a base dele, independentemente disso, ambas foram deixadas de lado e substituídas por mais e mais brigas nos últimos meses. Ao mesmo tempo em que ir para a Europa à trabalho aliviava a modelo em relação ao seu namoro, pois as garotas necessitavam de um tempo distantes, a preocupava muito também, pois não queria que o mesmo acabasse. Afinal de contas, todo relacionamento passa por uma fase difícil e quiçá as duas conseguissem se acertar uma hora. Não podia descartá-lo assim, sem mais nem menos. — Ou sei lá, ouvir algo que não seja esse cara pelo menos uma vez?

— Claro... — A dos olhos azuis desligou as caixinhas bluetooth, voltando a garfar seu café da manhã um tanto quanto possessa. — Feliz?

— Muito. — Marley a respondeu igualando seu tom irônico, e trouxe leite, manteiga, tomate e pão integral para a bancada, a fim de montar o próprio café. — Sinceramente, até hoje não sei como consegue ouvir esse tipo de música a essa hora da manhã.

— Mm...

Brittany terminou de comer, tomando seu iogurte e levantando-se para ir lavar a louça que sujara antes em silêncio. Pretendia sair o mais rápido possível do apartamento. E, de preferência, ficar o dia inteiro fora. Foi tomar um banho e assim que se aprontou, alguns minutos mais tarde, a Pierce encarou a namorada sentada no sofá da sala assistindo algo na TV.

— Vou dar uma saída. — Avisou.

— Pra onde?

Não iria falar a verdade para a outra. Marley não tinha o porquê saber que a dos olhos azuis pretendia ir atrás da garçonete que Sugar destratou. Quanto menos tocassem no assunto Breadstix: melhor. Por isso, iria de uma meia verdade.

— Pra casa da Kitty.

— Ah... Vai demorar?

— Provavelmente.

— Entendi. Até mais tarde.

— Até.

Ela abriu a porta e saiu, suspirando. Sem beijos dessa vez, nem mesmo o mínimo contato visual. Aquele clima horrível entre elas era sufocante. Pesado, gritante. Ao menos agora poderia tomar um ar e pensar. E claro, procurar saber se Santana trabalhava de sábado. Ela esperava muito que sim, caso contrário toda a situação do dia anterior continuaria a afligindo.

(...)

Com as rápidas mudanças provocadas em seu corpo (mais especificamente: nas últimas duas semanas) em razão da gravidez, Santana habituou-se a passar um bom tempo encarando-se no espelho de seu quarto totalmente nua pelas manhãs. Não só seus seios haviam crescido, mas as coxas e a bunda também. Não tanto como acontecia com certas mulheres, mas é, estava ali. De tudo, no entanto, sem dúvidas a maior mudança foi em sua barriga, que pareceu brotar de uma hora para outra, o que aparentemente era uma característica típica na transição do quarto para o quinto mês de gestação e, com isso em especial, ela não estava simpatizando tanto. Pelos olhares e comentários, e não pela estética em si. Aliás, o que mais a incomodava em toda a gravidez não era o seu físico, mas sim, seu emocional. Se antes conseguia ter certo controle sobre ele, hoje já não tinha quase nenhum.

A Lopez passou as mãos em sua barriga, e se pegou pensando outra vez em sua decisão de dar um tempo da faculdade. Ainda não havia contado a ninguém, mas em breve iria. Grande parte das garotas que engravidavam naquela idade se viam obrigadas a abandonar o ensino superior, era uma triste realidade... Fala sério, o dinheiro que tudo aquilo demandava e o estresse físico e principalmente mental, chegava a ser absurdo, nenhuma mulher de 20 anos estava preparada para isso. Ou melhor, nenhuma mulher com ou sem planejamento. Santana não queria abandonar os estudos, nem mesmo trancar seu curso, afinal amava a área da Linguística, mas não conseguiria voltar no próximo semestre com a barriga ainda maior e tendo mais consultas de pré-natal para fazer nesse meio tempo. Era impossível tanto financeiramente, como emocionalmente.

Talvez, esse afastamento fosse de grande ajuda à morena no fim das contas. O lado bom era que só restavam duas provas para acabar aquele semestre de aulas, e assim entraria nas férias de verão vulgo Julho-Agosto. Bem, mesmo não sendo uma gestação planejada, podia-se dizer que ela viera num bom momento desse ponto de vista. O fim de Junho estava logo ali, e suas únicas faltas haviam sido nesse mês para fazer horas extras no Breadstix.

Olhos castanhos se atentaram ao horário marcado no relógio, e então Santana refletiu mais uma vez sobre a proposta de Mercedes em tirar folga do Breadstix naquele dia. Era muito tentador, mas não. Precisava do dinheiro. Sobretudo depois de ter todo o salário do dia anterior descontado por conta da fodida em que derrubara vinho por acidente. Foi se trocar tentando deixar isso de lado e atentou-se ao fato de que necessitava urgentemente comprar roupas novas, isto é: maiores. É... Ainda tinha isso. O dinheiro que recebia com horas extras parecia água em uma torneira quebrada, caindo ralo a baixo sem controle. São Francisco não era uma cidade barata, e mesmo que fosse, não seria tão diferente. Ter um bebê é sinônimo de gastos. E pensar que ainda tinha berço, e fraldas, e roupinhas para comprar futuramente. Bom, ao menos o pai da criança era presente, trabalhava e fazia faculdade também.

Na verdade, Sebastian não só era presente como era muito amigo de Santana e ainda nutria sentimentos românticos por ela, embora não mais correspondidos. Era complicado. Se a Lopez fosse capaz de controlar os próprios sentimentos, ela continuaria o namoro com o rapaz. Acontece que, ela havia deixado de o amar há tempos, isso bem antes de engravidar. No começo discernir as coisas foi difícil, porque gostava da companhia dele, eram amigos desde a pré-adolescência, seus papos eram legais e sinceros, eram parceiros, tudo certo, e então Santana entendeu qual era o problema. Ela já não queria mais beijá-lo, nem falar de sentimentos, menos ainda ir para cama com ele. Borboletas no estômago, excitação, tudo isso sumiu e uma enorme preguiça e repúdio se manifestaram quando se submetia a se relacionar de forma romântica e sexual com ele. Sebastian não foi seu primeiro namorado, ele era o terceiro, mas Santana foi a primeira namorada dele e isso dificultava ainda mais as coisas, não queria magoá-lo. Assim, a latina postergou o término até o instante em que não pode mais.

Nesse mesmo tempo, Santana comtemplava sua sexualidade. É fato que, apesar de tudo, se atraia por garotos, o curioso é que também se atraia por garotas, mas não se sentia no direito de se declarar bissexual ainda. Primeiro porque existe certa ideia errada de muitos ao entorno disso, já que há quem considere os bis como indecisos, vulgares e daí para pior, e há quem os tem como fetiche. Segundo porque, ainda não tinha tido a chance de estar com outra mulher, mas desde que entrara para a universidade, as chances surgiam de todos os lados e ficava cada vez mais atentada a se entregar ao novo.

Quando enfim a Lopez acabou seu namoro com o Smythe, puff uma semana depois descobriu que estava grávida. O melhor desfecho que um relacionamento poderia ter... Só que não. Pirou no começo. Seus pais falavam uma coisa, seus amigos outra e ela ali, sem conseguir acreditar que tudo aquilo estava acontecendo. Até que acalmou-se e fez a própria escolha, a de manter o bebê. E, embora as coisas fossem mais “fáceis” voltando com Sebastian e seguindo a cartilha básica de família ideal aos olhos da sociedade, essa era uma escolha que ela não iria fazer.

Sem chance.

Estavam no século XXI. Ser um cara decente era o mínimo que qualquer cara deveria ser, então toda a vez que Santana se via pensando em como o Smythe era gente boa e como ela tinha “sorte” de um sujeito desses a amar tanto, ela se lembrava disso. Não era sorte, não era um presente divino, era o mínimo que um homem deveria ser e mais do que pensar nos sentimentos dele, ela tinha que se atentar aos seus, e os seus gritavam que não dava mais. Pelo menos, Santana tinha certeza que ele seria um bom pai, ela voltando ou não com ele. Isso já bastava. Por falar nisso, na última consulta pré-natal não fora possível descobrir o sexo do bebê, já que o serzinho mantinha-se de pernas cruzadas impossibilitando a descoberta, e não definir um nome para ele era uma coisa que inquietava um pouco a morena, mas tudo certo, tinha fé que na próxima vez que voltasse ao hospital a criança cooperasse.

Santana deixou seu quarto já vestida, e cruzou com Kurt e Rachel na cozinha trocando perguntas e respostas acadêmicas entre si. Essa sim era uma cena comum de se ver. Estavam falando sobre ações e cuidados de enfermagem em pacientes com transtorno mental, ou algo do tipo. Tão focados, que quase não notaram a presença da Lopez.

— Bom dia...

— Bom dia! — A Berry e o Hummel responderam juntos sorridentes, e Rachel continuou. — Dormiu bem, San?

Essa era uma boa pergunta. Santana estava tendo mais dificuldade para dormir desde o surgimento de sua barriga, francamente não queria nem pensar nos próximos meses. Achar uma posição para adormecer nunca foi tão complicada antes, ainda mais porque fazia parte do grupo de pessoas que só dormia de bruços, mas agora isso incomodava e muito, para a sua tristeza.

— Acho que sim.

— E como você está? — Kurt quis saber.

— Bem... Eu acho. E vocês?

— Também. Toma. — Rachel a trouxe o café da manhã, enquanto a latina se acomodava na mesa. — Espero que ainda esteja a fim de comer torradas, senão é só falar que a gente dá um jeito.

— Obrigada. Pra sorte de vocês, ainda estou. — Eles riram. — Mas, e aí, vão ficar o dia todo estudando?

— Provavelmente. — A baixinha afirmou.

— As provas da semana que vem são as piores! — Kurt complementou. — E pensar que no próximo semestre já vamos começar a estagiar...

— Ah, nem me lembre disso!

— Não pirem antes da hora. — Santana se divertiu. — Vocês vão arrasar.

— Que deus te ouça, Tana... — O Hummel juntou as mãos. — Amém.

As primas gargalharam com o garoto, e Rachel voltou a se manifestar:

— E você? Vai trabalhar hoje?

— Preciso. Então... Sim, Rach.— Ela respirou fundo observando as feições preocupadas dos amigos em relação ao ocorrido de ontem, e forçou um sorriso. — Eu tô bem, gente. Sério.

(...)

Após deixar seu carro no estacionamento do Breadstix que, diferentemente do dia anterior possuía vagas dessa vez, Brittany desceu do veículo e checou seu celular novamente. Eram praticamente nove da manhã e o restaurante havia aberto as portas há pouco ao que tudo indicava, tinha horários flexíveis durante os finais de semana. Agora só o que a Pierce precisava fazer, era descobrir quando Santana chegava. Caso ela trabalhasse de sábado, obviamente. Esse era um detalhe essencial. Com algum receio, a loira adentrou o estabelecimento e visualizou Mercedes atrás do balcão de atendimento. Foi até ela.

— Bom dia... — Começou. — Tudo bem?

— Bom dia. — A Jones respondeu, fitando-a desconfiada. Reconhecia aquele rosto. — O que eu posso fazer por você?

— Então... Eu... Queria saber se a Santana trabalha hoje.

— Perdão, mas posso saber o porquê? — Mercedes foi direta. O semblante intimidador. — Eu e suas amigas já resolvemos a situação de ontem. Ao menos, foi o que pareceu.

— Não! Não é por isso que estou aqui... — A dos olhos azuis se defendeu. — A última coisa que eu quero é trazer mais problemas pra ela. Ou, pra qualquer um aqui. De verdade.

— Então o que quer com ela?

— E-eu só... Queria saber se ela trabalha hoje pra me desculpar pela Sugar, e enfim... Deixa pra lá, é bobagem. Desculpa por ocupar seu tempo.

Brittany deu as costas antes que a gerente pudesse abrir a boca, e no seu caminho para fora do restaurante deu de cara com Santana chegando na fachada do lugar. A primeira vista, a Lopez não notou sua existência até que reconheceu-a num flash de luz. Era uma das mulheres que compunham o trio do qual a fresca do dia anterior fazia parte. O que aquela fulana estava fazendo ali, afinal? Será que todo o desenrolar de seu erro já não tinha sido o suficiente para elas? Como se não bastasse os berros que sua amiga FDP deu no dia anterior, agora aquela loira estava ali para sabe-se lá o que em nome da riquinha mimada. Era só o que a faltava, não estava com paciência.

— Oi! — A Pierce disse, surpresa pela coincidência. Sorriu, tímida. — Não sei se lembra de mim, mas...

— Eu sei muito bem quem você é. — Ela cortou, seca. — O que veio fazer aqui?

— Ahn... Saber se você tá bem. E, me desculpar pela Sugar. O que ela fez foi... — Brittany engoliu a seco, tentando mascarar o ódio pela Motta. — Você sabe. Eu sinto muito.

— Ah, jura? — Santana riu, sarcástica. — Muito tocante da sua parte, boa samaritana. Tá com peso na consciência, é?

— Oi?

— Sério que vai se fazer de sonsa pro meu lado? Vê se me erra, garota. Seja sincera, você estaria se “importando tanto” com toda a situação que sua amiga provocou se eu não estivesse grávida?

Era uma boa pergunta. Brittany não sabia o que dizer. E, assim, a garçonete obteve silêncio como resposta, como esperado. Tão típico.

— Foi o que eu imaginei. — A morena deu um sorriso falso. — Agora, se me der licença...

— Espera! — Brittany pediu, e olhos castanhos voltaram aos seus. — Por favor...

— Que foi?

— É sério. Eu... Não fiquei sabendo o que aconteceu depois. Não sou tão chegada na Sugar e eu e minha namorada não estamos num bom momento, então ela não tocou no assunto... Você tá bem? Isso te prejudicou de alguma forma no trabalho? Eu peço desculpa...

— É claro que me prejudicou! Todo o meu salário de ontem foi descontado pro reembolso daquela desgraça e nenhuma desculpa no mundo vai mudar isso. Então, não. Eu não tô bem. Satisfeita?

A desenhista assentiu, com o rosto carregado de decepção, pois Marley compactuara com aquilo e começou a mexer na bolsa, procurando por algo. Aquilo não ficaria assim. Era injusto demais para aceitar e não fazer nada.

— Qual foi o valor descontado? — Perguntou, séria. — Vou te devolver.

— Quê? — A Lopez se abismou com a brisada à sua frente. — Eu lá tenho cara de quem quer esmola?!

— Não é esmola. — Brittany rebateu, tranquilamente. — É justiça. O dinheiro era seu, e aquilo não foi nem perto de um motivo plausível pra reembolsar a Sugar. Da próxima vez que eu encontrar com a Motta, inclusive, faço questão de eu mesma derramar litros de vinho nas roupas dela de propósito pra ver se ela aprende a diferença.

Santana sentiu vontade de rir, mas segurou-se. Ainda não estava convencida com aquela cena. Algo estava muito errado, e não iria aceitar dinheiro daquela estranha desse jeito. Não mesmo. Nenhuma pessoa é tão boazinha assim. A dona dos olhos azuis agia como quem tinha culpa no cartório e tentava se redimir com uma ou outra boa ação, claramente. Embora, não parecesse e isso pudesse a tornar a melhor mentirosa que já existiu aos olhos da Lopez. Era de se pensar.

— E então, qual o valor?

— Tá surda? Já disse que não quero esmola! Aliás, você tá me atrapalhando com todo esse papo-furado.

— Desculpa, eu só queria...

— É, é. Eu já entendi. Você não precisava se preocupar vindo até aqui. Te garanto que não vai pro inferno, pode ficar tranquila e seguir sua vida. Agora eu preciso ir trabalhar, tchau.

Brittany a enxergou sumindo restaurante adentro e riu. A personalidade de Santana não era nada como havia imaginado. Mas, ainda precisava fazer algo para compensar tudo o que Sugar a causara. Teve uma ideia logo em seguida, colocando seu “plano” em prática sem nem pestanejar. A morena teria seu dinheiro de volta, e justiça seria feita muito em breve.

(...)

Assim que botou o uniforme do Breadstix, Santana percebeu que Brittany estava acomodada em uma das mesas do restaurante e revirou os olhos, automaticamente. Aquela mulher estava a cansando. E ainda por cima, teria que atendê-la. Antes de chegar ali, porém, Mercedes perguntou se ela estava de acordo com isso. Se estava tudo bem por ela. No fundo, não estava, mas respondeu que sim, já que os outros funcionários se ocupavam de outros clientes e não queria sobrecarregá-los, fora que atender mais clientes significava mais dinheiro, então não descartaria nenhum. Mesmo a loira aspirante a boa samaritana. Horas extras eram para isso.

— E aí, qual vai ser o seu pedido?

— Bom... — Ela sorriu. — Se aquele especial de boas-vindas do chef ainda estiver valendo, é o que eu vou querer.

— Que seja.

Depois disso, elas não trocaram uma palavra entre si. Brittany experimentou pela primeira vez a comida do restaurante e gostou bastante. O clima do lugar era bem calmo na verdade, não tinha certeza se era porquê Marley e Sugar não estavam ali, mas a percepção de todo o ambiente estava incrivelmente melhor. Enquanto ia embora, posteriormente a pagar tudo direitinho, a Pierce deixou um envelope endereçado à Santana com Mercedes e simplesmente saiu, sem grandes explicações. A gerente então, não perdeu tempo e o entregou a Lopez. Quando a mesma o abriu, se deparou com 500 dólares e um texto dentro do papel de carta improvisado.

“Oi, de novo...

Obrigada por me atender.

Espero que gorjetas não se enquadrem nos seus parâmetros de esmola, haha.

Agora falando sério, eu sei que nenhuma desculpa ou dinheiro que eu te der vai apagar o que aconteceu ontem, só que é tudo o que eu tenho a oferecer... Não me leve a mal. Se eu tivesse uma máquina do tempo eu faria diferente, juro...

Mas, até lá, vai ter que ser assim.”

Que porra era essa?! A quantia naquele envelope era o dobro do que Santana ganhava fazendo horas extras. A loira só podia ser uma doida varrida, ou então... Era outra riquinha cheia da grana. É, fazia sentido. Mesmo assim, não deixava de ser uma doida varrida. Sair dando dinheiro para desconhecidos assim, só porque não aprovou a atitude escrota de uma amiga/ou seja lá o que for não é normal.

— E não é que a menina se importava mesmo? — A Jones riu.

— É. A vida sempre dá um jeito de provar que tem maluco pra tudo.

— Ah, San... Ela parece ter um bom coração, vai.

— Sinceramente? — Santana guardou o envelope. — Tenho minhas dúvidas. Esse tipo de “boa ação” sem mais, nem menos, não me desce.

— Bom, de qualquer forma fico feliz que tenha recuperado o dinheiro.

— Eu também, Cedes. Obrigada.

(...)

Sentindo-se bem mais leve que antes e, ainda sim, estranha, Brittany dirigiu até a casa da Wilde. Precisava conversar. E quem melhor que Kitty para isso? Ninguém.

Notas finais
Sei que é chato, mas a próxima atualização vai levar um tempo de novo. Até ♥