A princípio, Kitty se esquivou. A situação não era muito favorável, diga-se de passagem. Tinha ido se encontrar com ninguém mais, ninguém menos que... A ex-namorada da sua melhor amiga. Não contou para uma alma sequer, o que incluía acima de tudo Brittany e Sam, seu fiéis confidentes, pois a verdade é que nem mesmo a Wilde estava certa do que ia fazer por lá. Só sabia que estava confusa. Desde Spencer, a psicóloga se encontrava na mesma, nenhuma outra pessoa havia balançado seu coração até... Bom, até agora. Conhecendo Marley melhor.

A Rose havia retornado a São Francisco no dia anterior e logo convidou-a para sair, queria te ver. As mulheres vinham conversando quase todos os dias desde que Marley fora para a Europa, coisa que partiu da própria. O que era muito estranho, levando em consideração que a modelo sempre, sempre, SEMPRE demonstrou desconforto na presença de Kitty e fazia de tudo para não ter que vê-la, enquanto ainda namorava Brittany. Não tinha muito o que fazer, Marley Rose não ia com sua cara e era isso. Acontecia. Estava muito bem conformada já que, certas vezes, o santo de duas pessoas simplesmente não se bate.

Então, por que aquilo? Por que procurar justamente ela online? Por quê?

Bom, não dava para negar que Marley andava meio pra baixo. Depois de refletir por uma semana, mais ou menos, em como e por que seu relacionamento com Brittany acabou, a jovem reconheceu muitos dos seus erros e quis corrigi-los, além disso... Sua estadia no outro continente estava sendo muito mais solitária do que imaginava, ainda mais após o retorno de Sugar para a América. E aí, uma coisa levou a outra e deu no que deu.

Marley entrou em contato com Katherine através de seu instagram e pediu desculpas por tudo, isto é, pela forma com que a evitou e julgou durante todos os anos em que namorou a Pierce. Explicando que se sentia um pouco intimidada por ela, já que Kitty era muito bonita e inteligente... Aquela garota prodígio da TV que havia entrado em Stanford aos 12 anos de idade e nos seus 24 tinha graduação, mestrado, doutorado e o amor incondicional de sua melhor amiga. Marley lembrava das entrevistas que a loira havia dado antes de sumir da mídia e, quando Brittany lhe contou que era amiga da Wilde e elas se conheceram pessoalmente, a modelo começou a se sentir ameaçada toda vez que a namorada falava da amiga porque, na cabeça dela, era como se Kitty possuísse toda a atenção e admiração de Brittany e até mesmo algum controle sobre suas ações. Tipo uma celebridade com quem ela não podia competir de todas as maneiras possíveis, se é que isso fazia algum sentido.

Além disso, Marley tinha a sensação de que Katherine não gostava dela, culpa do seu olhar penetrante e altivo. Era como se Kitty se sentisse superior e sempre tentasse analisar as pessoas. Mas, tudo não passava de um julgamento idiota da sua parte. Por isso, pediu desculpas. Estava errada, nunca havia dado abertura a outra mulher e, agora, sentia-se mal por isso.

A Wilde então disse que não fazia ideia da impressão que havia passado e que não tinha o porquê dela se desculpar e, a partir dali, elas começaram a jogar conversa fora. Em algum momento, uma delas acabou ligando sem querer a chamada de vídeo e ao invés daquilo gerar certo acanhamento, tornou tudo mais fluído. O que foi muito bom para ambas... Era a primeira vez que dialogavam de verdade. Olho no olho, embora tão distantes. Sinceras como nunca.

E, no intuito de conversarem uma outra vez, Marley usou do pretexto de estar precisando se consultar com um psicólogo. Quis saber se Kitty estava disponível. A loira então respondeu à Rose que não atendia online e que talvez não fosse uma boa ideia, levando em consideração sua história com Brittany e os detalhes que ela sabia por parte da amiga, mas, que podia indicar um outro profissional, bem como tentar ouvi-la sempre que possível, não como paciente, mas toda vez que precisasse desabafar com alguém sem compromisso como havia feito naquele dia e Marley se agarrou a oferta na hora.

Voltaram a entrar em contato de novo, de novo e de novo nos próximos dias. Quase como se contassem as horas até o momento em que poderiam conversar novamente. Era óbvio que algum sentimento iria surgir de tal interação, mas Kitty jamais imaginou que fosse para o lado romântico. Marley menos ainda. Mas, a verdade era essa e depois de muito pensar, a modelo resolveu confessar seus sentimentos à Kitty. Não de cara porque seria meio estranho, obviamente, então antes elas caminharam um bom tempo pelas ruas de São Francisco jogando conversa fora e fazendo vários nadas.

Por incrível que parecesse, estavam se divertindo. Não sabiam exatamente como aconteceu, mas, apenas algumas horas mais tarde, se viram sem roupa alguma, agarradinhas sob os lençóis do quarto de hotel que a Rose estava hospedada. Kitty tinha o rosto repousado sobre o peito da morena, enquanto deslizava sua mão carinhosamente pelas curvas dela e Marley retribuía o carinho, afundando os dedos em seus cabelos. Esse foi o único momento do dia em que não houve muita conversa, estavam ocupadas demais aproveitando cada segundo da companhia física uma da outra. A química era perfeita.

— Eu tô gostando mesmo de você. — Marley enfim confessou. — Será que eu sou uma pessoa muito ruim por isso?

— Se for o caso, eu também sou... — Kitty embarcou no pensamento. — Mas, acho que não tem jeito. Eu, definitivamente, não me arrependo.

— Nem eu. Pelo menos, afundamos juntas se assim for pra ser.

Elas riram e Katherine voltou a ficar séria pouco tempo depois, pensando longe.

— Preciso conversar com a Britt o quanto antes, explicar toda a situação pra ela.

— A gente vai se encontrar amanhã... — Marley comentou. — Se quiser vir junto.

— Não. Acho melhor eu fazer isso sozinha...

— Tem razão.

— Só não sei quando vou ter coragem, nunca me senti assim antes. Não faço ideia de como vai ser a reação dela... Isso me preocupa bastante.

— Imagino. Bom, deixa passar uns dias e aí você conta. Assim, vai ter tempo o suficiente pra ver se é isso mesmo que quer. — A modelo sugeriu. — Digo, ficar comigo.

Kitty levantou-se do peito da Rose e apoiou ambos os braços em torno do corpo dela, encarando-a de olhos cerrados.

— Hum, pode dar certo... — Ela beijou a debaixo. — Mas, acho que eu já tenho a minha resposta faz algumas horas. Você não?

Com um sorriso travesso, Marley envolveu a cintura da outra mulher, sem dizer absolutamente nada e elas voltaram a se beijar... Se estavam namorando ou não a partir dali, era uma tremenda de uma incógnita. Mas, a resposta provavelmente seria sim ou claro... Talvez, definitivamente, se perguntassem. Não eram pessoas de ficar por aí sem compromisso.

(...)

Enquanto acompanhava Brittany até o carro de mãos dadas, Santana sorriu dando-a um selinho. Então, elas acabaram por entrar no veículo e começaram uma série de beijos na sequência. O jantar com o Sr. e a Sra. Lopez tinha corrido muito bem, o que era ótimo... Para todo mundo. O humor das namoradas se encontrava radiante, como se nada no mundo pudesse abalá-las. Em algum momento, a Pierce se afastou um pouco da morena para poder falar. Suas mãos no mesmo lugar, as de Santana também.

— Viu só? — Perguntou convencida, ao passo que mexia no cabelo da namorada. — Lorenzo e Maribel me amaram! Ninguém resiste a mim, é fato.

— Argh, sabia que você ia se achar por isso... — A Lopez revirou os olhos castanhos, dando dois tapinhas na cara da loira. — Você prometeu, Britt-Britt. Você prometeu.

— Prometi o que mesmo, San-shine? Não tô lembrada... — Brittany se fez desentendida, descendo as mãos pela cintura da grávida. Puxou-a para perto, beijando-a uma outra vez. — Refresque minha memória.

Santana riu, segurando o rosto dela com uma mão, e então apertou suas bochechas uma contra a outra de tal forma que os lábios rosados tomassem forma de boca de peixinho.

— Você é muito folgada, espera só pra ver...

— Isso foi uma ameaça? — A dos olhos azuis quis saber, risonha. E aí fez uma careta, arrancando mais risos de Santana, que logo soltou seu rosto, possibilitando-a de dar um selinho nela. — É, pelo jeito não... As vantagens de ser irresistível são muitas, impressionante. Deve ser incrível me namorar.

— Ah, é. Principalmente com a sua modéstia. — A latina ironizou, brincalhona. — Foi o que me pegou à primeira vista.

— Desconfiava... — Brittany deu outro selinho na namorada. — Ah, nem te falei! Hoje eu passei numa loja de material de construção pra procurar as tintas que a gente vai precisar pro quarto da Lizzie e achei todas, sem cheiro e hipoalérgicas. Anotei tudo, não sei se você vai querer mudar alguma cor ou não por isso não comprei... Pensei de, talvez, voltarmos lá juntas amanhã pra ver direito. Que tal?

— É uma ótima ideia. — Santana sorriu, passando um polegar na bochecha da Pierce. — Obrigada por não ter comprado sem falar comigo antes, Britt... Eu teria odiado.

— Eu sei. — Ela se lembrou instantaneamente de seus pais e de quando namorava com Marley, era terrível ter pessoas tão próximas decidindo suas coisas por você sem aviso prévio, apenas por dedução de que é esta ou aquela escolha é a melhor a se seguir no momento. — Se alguma vez você sentir que eu tô passando por cima de você, por favor me avisa. Não quero ser essa pessoa.

— Ok... — A Lopez se divertiu. — Esse nível de fofura ainda vai me matar. Para.

— Ah, logo agora que tá dando certo?

Elas riram, voltando ao assunto pouco tempo depois. Santana teve uma ideia.

— E se a gente começasse a pintar amanhã?

— Eu topo, com toda a certeza. — Brittany assentiu, abrindo um sorriso contagiante. — Meu domingo precisa de um propósito. Que horas venho te buscar?

— Umas nove da manhã acho que tá bom...

— Nove? — Ela repetiu, esquisitamente.

— É, pra termos bastante tempo... Por quê? Algum problema?

— Não, é só que eu tinha marcado de encontrar com a Marley amanhã nesse horário mais ou menos. Ela chegou da Europa ontem.

— Ah, é? — Santana se afastou, encarando-a fixamente. Seu tom de voz mais agudo que o normal. — E quando planejava me contar, Pierce?

— Não sei... Eu precisava?

— Eu teria gostado de saber. Você tava até agora agindo como se não tivesse absolutamente nada de importante pra fazer amanhã, mas pelo jeito tem né. — Ela desviou olhos castanhos de azuis. — Enfim... Pode vir às dez ou vai encontrar com outra ex nesse meio tempo?

— Ei... — Brittany pegou o rosto da morena, trazendo-o para si. Beijou-a, risonha. — Fica brava não. Esse seu ciúme não tem o mínimo sentido, sabia? Primeiro porque você é perfeita e eu só tenho olhos pra você, segundo porque a Marley tá gostando de outra pessoa. Lembra?

— Isso é o que ela diz. E eu não tô com ciúme, só não entendi o porquê não mencionou antes que iam se encontrar amanhã. Era só ter me falado, não tem nada demais.

— Certo. Perdão, Sant... O que posso fazer pra melhorar as coisas?

— Hum, não sei ainda. Vou ter pensar. — Ela riu, dando um selinho na namorada. — Então, às dez?

Brittany balançou a cabeça e elas deram mais um beijo, antes da loira descer do carro e ajudar Santana a fazer o mesmo. Se despediram. No meio do caminho, a dos olhos azuis se recordou da lista de presentes de chá de bebê/aniversário surpresa de Santana e marcou o berço como um dos itens comprados, já que mais cedo aquele dia teve ajuda do Evans para ir resgatar o objeto das mãos de Liza e Frank sem que eles soubessem.

Não conseguia nem imaginar como seria, caso seus pais descobrissem que estava namorando uma mulher grávida, coisa boa é que não sairia disso... Portanto, só planejava contar depois que Santana desse a luz a Elizabeth. Queria poupá-la de todo estresse ambulante que Frank e Liza podiam ser, ninguém merecia. Eram as pessoas mais irritantes do planeta quando queriam, e a definição de espaço pessoal passava longe deles... Era um milagre ainda não terem descoberto seu novo endereço. Um milagre.

Notas finais
Demorei, mas voltei kkk nos vemos em breve. Até ♥