Nós - Brittana
28 Domingo
Notas iniciais
Para o contentamento de Brittany – e nem tanto assim de Santana; era domingo. Na última sexta-feira, elas haviam combinado de se reunir no apartamento da loira junto aos amigos dela e, bom, essa parte em especifico não se tratava nem de longe do que estava preocupando a Lopez, mas sim, a possibilidade eminente das namoradas acabarem ficando sozinhas em algum ponto daquele dia.
Antes de acabar metendo os pés pelas mãos, a jovem precisava conversar com sua obstetra, afinal de contas estava entrando no sétimo mês de gestação naquele início de Setembro e não sabia se era seguro ou não dar o próximo passo com a Pierce, mas, por via das dúvidas, era melhor se conter até que ouvisse diretamente da boca da Dra. Pillsbury o contrário.
Aquele final de semana estava sendo no mínimo agitado para a morena, ontem mesmo estava na casa dos pais os avisando que aceitava o convite para voltar a morar com eles depois de três anos de independência, tendo altas aventuras ao lado de sua prima, Rachel Berry, e seu amigo pra toda hora, Kurt Hummel. Infelizmente, tal ciclo se encerraria a partir daquela tomada de decisão para novos poderem começar dali em diante.
Entre morar em uma casa e um apartamento, a Lopez se decidiu pela casa. Era o ideal enquanto Lizzie fosse pequena, tinha mais espaço, a possibilidade de um quarto para ela e Santana, médicos por perto vulgo Lorenzo e Maribel, e a cereja do bolo é que não incomodariam ninguém. Nem vizinhos, ou colegas de quarto. Mesmo que Rachel e Kurt insistissem, dizendo que não se importariam com os choros, o estresse, e tudo o que significava ter um bebê por perto tirando o lado positivo, ela sabia que uma hora ou outra a paciência iria embora. Não só da parte deles, mas da sua também. Não queria isso.
Uma coisa que Santana não havia contado a ninguém nesse meio tempo, era como seu sono estava ruim nos últimos tempos. Lizzie sempre escolhia se mexer loucamente nas madrugadas, naquela semana então foi ainda pior. Era como se estivesse acompanhando os dias desde que Brittany e a latina começaram a namorar... Bom, levando em conta a principal preocupação da Lopez nos últimos dez dias, talvez fosse ela atrapalhando o sono da bebê e não o inverso, tinha que fazer algo a respeito. Procurar uma meditação guiada, posturas individuais de yoga... Tomar um chá, quem sabe. Iria providenciar o quanto antes. Voltar a dormir corretamente era essencial. Se agora já estava sofrendo com insônia, não queria nem pensar quando Elizabeth nascesse.
(...)
Brittany saiu do banho de roupas trocadas, foi até a sala de estar. Estava na hora. Ela olhou para os amigos, radiante.
— Vou lá buscar a Santana, se comportem crianças!
— Não prometemos nada... — Blaine provocou, em tom de brincadeira.
— Ah, eu prometo. Deixa comigo, jovem padawan! — Sam deu um soco na mão, fingindo-se de durão. — Vou manter a ordem na casa.
— Quem vê pensa. — Kitty gargalhou. — Não demora, Britt.
— É, volta logo! — Jane pediu. — Estamos ansiosos!
— Entendido. Farei o meu melhor. Até, galera.
(...)
Enquanto Santana estava no sofá discutindo alguns assuntos mal resolvidos de infância entre ela e Rachel, com a própria, que passava pano no chão doutro lado do cômodo, Kurt se encontrava frente à janela, concentrado em limpá-la com a parte macia de uma esponja, até que alguma coisa na rua chamou sua atenção. Parou na hora e virou a cabeça para trás, a fim de fitar as amigas. A esponja em sua mão, pingando sabão e água no chão.
— A donzela do cavalo branco chegou!
— Valeu. Tô indo, gente. — A Lopez se levantou com cuidado, procurando equilíbrio no braço do sofá. — Boa faxina pra vocês!
— Não pensa que essa conversa terminou, não... — A Berry arqueou as sobrancelhas. — Tá, Santana?
— É, é! Também te amo, anã! — Ela saiu porta afora. — Até mais tarde!
— Diz pra Brittany que eu mandei oi! — Kurt gritou.
— Eu também! — Rachel disse, na sequência. — Divirtam-se!
Santana acenou para eles e fechou a porta, pegando o elevador capenga do edifício depois. No curto trajeto até o térreo, ela ponderou sobre a dualidade de sentimentos que permeava seu âmago naquele instante. Estava extremamente feliz de ir passar um tempo com a namorada, ao mesmo tempo um tanto quanto... Culpada? Isso sequer fazia sentido? Porque parecia não fazer nenhum. Bom, era melhor focar no aqui e agora. Iria conhecer os amigos da desenhista e era isso.
Durante esse tempo, recebeu uma mensagem de Brittany avisando que ela havia chegado. Foi questão de segundos, até Santana aparecer na frente da menina Pierce. E ela se surpreendeu, com razão. A mensagem acabara de ser enviada, e num piscar de olhos a morena estava ali... Como mágica. Talvez, fosse a primeira vez que isso acontecesse.
— Nossa, que rápida! — A loira soltou um riso e não resistiu, fazendo cara de convencida em seguida. Cruzou os braços e se afastou de seu carro, enquanto encarava olhos castanhos fixamente. — Isso tudo é vontade de me ver, é San-shine? Ou seria vontade de conhecer meus amigos?
— Quem sabe, Britt-Britt? — Santana sorriu de volta e chegou nela, abraçando-a. Depois, se beijaram e a morena deu um passo para trás apontando para cima. — Olha só o motivo da minha rapidez... Kurt adora fofocar na janela, até quando tá limpando ela.
— Ah, faz sentido... — Brittany assentiu, ainda olhando para cima. Acenou, quando viu o Hummel olhar em direção a calçada, lá embaixo. — Oi!
— Oi! — Ele respondeu e pediu para esperar com a mão, sumindo por um segundo para trazer Rachel consigo de volta a janela. Então, a outra estudante de enfermagem acenou para a Pierce também. — Brittany, oi!
— Oi! Bom ver vocês! Tchau!
— Tchau!
A desenhista riu e abaixou a cabeça, fitando a namorada.
— Vamos?
Santana assentiu e Brittany foi abrir uma das portas de seu carro, ajudando a outra jovem a se sentar no banco passageiro. Então, ela deu a volta no veículo, entrou nele e se ajeitou diante ao volante, colocando o cinto de segurança. Aí ligou o rádio, como sempre.
— Os dois tão meio doidos com a volta das aulas, não param de limpar compulsivamente as coisas...
— Sério? Então, o semestre deles já começou?
— Não. Começa essa semana. Eles ficam desse jeito, por ansiedade de voltar a ação mesmo. Adoram o curso, e vão poder estagiar finalmente. Tavam morrendo por isso... Último ano, né. Quase formados.
— Entendo. Vou te dizer, eu amava as férias de verão, mas eu amava ainda mais voltar pra universidade. A sala de aula... Era a melhor coisa. Não trocava por nada.
— Sei como é. Se desse, eu não teria trancado a faculdade... — Santana suspirou. — Mas, enfim. Nem te contei, decidi voltar a morar com os meus pais.
— Ah, é? — Brittany olhou de relance para a morena. — E como tá o sentimento?
— Leve, eu diria. Acho que é a decisão certa.
— Isso é bom...
— Sim. Ontem eu fui lá passar o dia com eles, né? Não tava esperando, mas os dois conseguiram me pegar de surpresa.
— Por quê?
— Esvaziaram um cômodo que usavam de escritório, pra eu poder montar um quarto pra Lizzie.
— Que legal!
— Eu sei... Também descobri que a Rachel contou pra eles sobre nós, muito folgada! Ainda bem que sacaneei a smurf o máximo que eu pude enquanto éramos crianças, no fundo acho que sabia a raiva que eu ia passar.
— E seus pais reagiram bem? — Foi a primeira coisa que Brittany quis saber, se interessando rapidamente pela segunda parte também. — Ah, e depois me conta melhor essa história. Não acredito que você pegava no pé da Rachel... Ela parece tão tranquila.
— Não mesmo! Ela era insuportável, sério... Melhorou infinitamente, cê não tem noção. E meus pais reagiram muito bem, querem até que eu te leve lá da próxima vez que for.
— Verdade? — A dos olhos azuis se animou, sorridente. — Eu aceito!
— Tá bom. Isso é... Estranho. — Santana se divertiu, em função da animação anormal da outra garota. — Nunca vi uma pessoa tão empolgada pra conhecer os sogros antes, você tá bem?
— Claro que sim, Sannie! Vou conquistar eles... Você vai ver. Minha única preocupação é quando são preconceituosos, tirando isso, não tenho medo. Só um pouquinho... Mas, passa.
— Certo, certo. Boa sorte, então! — A latina riu, parando para pensar numa coisa. — Falando nisso... E seus pais, Britt? Você nunca me falou deles.
— Ah, é porque não tem muito o que falar. O Frank e a Liza são... Difíceis, por assim de dizer. Nunca gostaram de nenhuma namorada minha com exceção da Marley, minha última ex. — Brittany admitiu. — Mas, acho que é porque os três concordavam em muitas coisas... Que mais? Eles tem uma rede de concessionárias, vivem insistindo que eu tome a frente dos negócios, mas nunca vai acontecer. Resumindo, são bem controladores. É isso. Eu ainda nem sei como vou contar que tô namorando outra pessoa.
— Entendi...
Agora fazia sentido o envelope cheio da grana, Brittany de fato era de família riquinha. Bem que a morena desconfiava. Era óbvio... Agora, a parte dos pais da mais alta só terem gostado da tal Marley entre todas as namoradas que a Pierce já teve, isso ela preferia não ter ouvido. Santana se lembrava muito bem da terceira garota presente naquela mesa, junto a Sugar e Brittany há pouco mais de dois meses... Tinha ar de modelo.
— Como seus pais se chamam? Eles trabalham com o que?
— Ahn, Lorenzo e Maribel. Eles são médicos. Minha mãe é clínica geral e meu pai socorrista.
— Legal, tem mais vantagem do que eu imaginava voltar pra casa deles então. Deve te passar certa segurança, né?
— Acho que sim.
— Que bom... — Brittany sorriu e virou o carro naquele quarteirão, estacionou. — Chegamos!
— Oi? Tá falando sério? — Santana olhou ao redor. — Eu lembro de você ter dito que morava longe, Brittany... Isso aqui não é longe. Aliás, é muito perto. Demoramos o que, vinte minutos?
— É... Desculpa, Sant. — Ela riu. — Me mudei faz pouco tempo, esqueci de mencionar. Eu morava em outro apartamento com a minha ex, lá do outro lado de São Francisco... Meus pais me deram dinheiro pra comprar ele quando acabei a faculdade, mas não era meu de verdade, sabe? Esse aqui eu tô alugando sozinha e considero mais meu, que o outro. A propósito, daquela vez que a gente se esbarrou no shopping... Eu tava procurando apartamento pra me mudar.
Santana espreitou os olhos. Brittany petrificou, concentrada neles. Eram viciantes, ainda mais com aquele ar travesso.
— Isso quer dizer que eu tive certa influência na sua escolha?
— Totalmente. Eu já tinha curtido bastante a vizinhança... Mas, te ver aquele dia me fez ter certeza de que esse era o lugar certo.
— Meio comprometedor dizer isso...
— Eu sei. Mas, o que eu posso fazer? É a verdade. — A Pierce levantou as mãos. — Que foi? Se sentiria melhor compartilhando uma revelação comprometedora também? Eu não me importaria, à vontade.
— Ok. — Ela deu risada, um pouco receosa de revelar sua próxima fala. Mas, resolveu seguir em frente assim mesmo. — Nesse caso... Lembra aquela vez que te perguntei que nome teria, se tivesse que ter outro?
— Sim.
— Então, eu tinha acabado de descobrir que a Lizzie é menina. Não fazia ideia de qual nome escolher e não tava conseguindo chegar num acordo com o Sebastian... Até você me contar que quando era pequena achava que pra ser da realeza tinha que ter nomes específicos. Na hora, me veio Elizabeth. Pareceu tão certo, que eu só aceitei e assim ficou.
— Caramba, Sant... — Brittany se emocionou, não sendo capaz de evitar que algumas lágrimas escorressem bochecha abaixo. — Você não devia ter me contado isso, não!
— Relaxa. Agora estamos quites, Britt. Uma revelação comprometedora por outra, né? — Santana sorriu, alcançando o rosto da loira com ambas as mãos. Então, passou os polegares nas bochechas dela e beijou Brittany na sequência. — Você é o ser humano mais bobo que existe, não é possível!
— Espero que isso seja um elogio...
— É, é sim. Eu tenho uma quedinha, não vou mentir.
— Ah, é? Interessante... — A Pierce afagou a cintura da namorada. — E, comprometedor também.
— Você fica me devendo. — Santana se afastou, olhando para fora. Preocupou-se. — Seus amigos já estão aí, né?
— Sim! Chamei eles pra dormir aqui ontem pra facilitar.
— Que bom.
Brittany saiu do carro, ajudou a Lopez a descer também e logo as duas estavam dentro do apartamento da desenhista. Aquele domingo renderia. Sam foi quem abriu a porta, ao lado de Kitty.
— Santana, seja bem-vinda a humilde residência da Britt! Prazer... — Ele pegou na mão da morena, cumprimentando-a. — Samuel Evans. Mas, pode me chamar de Sam.
— Prazer, Sam.
— Brittany vive falando de você...
— Já tá fazendo hora, palhaço. Licença, vai! É minha vez. — Katherine o empurrou, brincalhona. — Bom dia, Santana. Kitty Wilde, tudo bem?
— Tudo sim. Prazer, Kitty.
— Eles são primos. — Brittany cochichou no ouvido da namorada.
— Faz sentido...
— Oi, Santana! — Blaine apareceu junto a Jane, e ambos cumprimentaram a Lopez também. — Prazer!
(...)
No fim do dia, os amigos da Pierce se despediram e foram para suas casas de carona com Sam. Tudo havia corrido maravilhosamente bem, mas agora Brittany e Santana estavam enfim sozinhas naquele apartamento, aos beijos no sofá... E por um momento, a Lopez esqueceu-se totalmente de sua preocupação, até que se lembrou de súbito no meio de um dos beijos. Não podia se esquecer. Tinha consulta pré-natal aquela semana mesmo, estava perto.
— Melhor eu ir embora... — Santana disse, assim que se afastou minimamente de Brittany. — Tá tarde.
— Pode dormir aqui se quiser, eu não me importaria.
— Não é uma boa ideia...
— Por que não?
— Porque... Amanhã eu trabalho.
— Ah, mas isso é fácil de resolver! A gente pode ir lá na sua casa buscar umas roupas agora, e amanhã eu te levo pro Breadstix. O que acha?
— Não dá, e-eu não tô conseguindo dormir direito nem na minha casa, imagina aqui. Lizzie não para quieta. — Ela continuou, desconversando. — Vamos deixar pra outro dia.
— Tudo bem. Assim, se você ficasse, podíamos cantar pra Lizzie até ela ficar quietinha... — Ela fixou os olhos no cabelo da morena, enquanto mexia nos fios com os dedos finos. — Só dizendo. Mas, você que sabe.
— Tá legal... Não é só isso.
Rapidamente olhos azuis encontraram castanhos, Brittany queria entender.
— Então o que é?
— Você sabe. — A Lopez desviou os olhos, meio constrangida. — É arriscado.
— Aaah, entendi... Desculpa se foi isso que pareceu, Sannie! Eu tava pensando de te deixar lá no meu quarto sozinha e eu ficaria aqui no sofá, na verdade. Não que eu não queira ou não pense nisso também, mas... Não era essa a intenção. Fica tranquila, tá tudo bem. Eu não vou insistir. Quando quiser você vem, ok?
— Ok. — Santana sorriu e deu um selinho na Pierce. Posteriormente, elas se abraçaram. — Obrigada.
— Imagina. Vou te levar pra casa.
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