Já dentro do supermercado, um tanto quanto avoada, Brittany voltou em pelo menos oito corredores diferentes para pegar algum produto esquecido de sua lista mental. A tarefa de prestar atenção nas compras não estava lá muito fácil aquele dia... Desde que Marley avisou ter deixado escapar que a loira estava namorando para Liza e Frank, a cabeça da Pierce não funcionava muito bem. Conhecendo seus pais, iriam se manifestar a qualquer instante e isso a preocupava bastante... Era a primeira vez que “escondia” uma namorada deles. Com exceção de Marley, o histórico ali não era nada bom. O casal não gostava de ninguém. Ninguém mesmo.

E só de pensar o que diriam caso conhecessem Santana, Brittany já passava mal. Para uma gestação livre de riscos, estresse nenhum podia ter vez com a Lopez... Então, a loira precisava garantir a todo custo que seus pais ficassem bem longe dela. Nem que para isso tivesse que tomar medidas drásticas. Liza e Frank eram especialistas em tirar qualquer ser humano do sério, Santana não podia nem sonhar em vê-los ou sequer ter conhecimento que agora eles sabiam do namoro das garotas, para seu próprio bem.

Só tinha um problema: Brittany era transparente demais. Passou o dia inteiro transtornada, esperando uma ligação que nunca veio a chegar, e Santana logo percebeu que tinha algo de errado, quando vieram a se encontrar mais tarde naquele sábado, mas preferiu não dizer nada – nem imaginando que, além disso, assim que elas chegaram no apartamento da desenhista, a própria correu para esconder os exames negativos de ISTs na primeira gaveta que achou, porque não era um bom momento para falarem sobre o assunto na sua cabeça. Mal conseguia pensar direito, quem diria comemorar alguma coisa.

O lado bom era que Santana tinha muita coisa para fazer, então era pouco provável que notasse seu desespero... Certo? Errado. O contraste entre sua personalidade habitual (especialmente naquela semana) e a que havia adotado do dia para noite era absurdo, só seus pais tinham o poder de deixá-la naquele estado caótico. Entretanto, a Lopez sequer suspeitava disso. Primeiro achou que Brittany estava passando por um bloqueio criativo, talvez isso explicasse seu olhar distante e as falas monossilábicas... Mas, assim que achou os exames que a namorada escondeu às pressas – numa das gavetas do guarda-roupa dela, por sinal; enquanto procurava por um par de meias que Brittany disse que ela podia pegar, Santana se preocupou.

Será que era por isso que a dos olhos azuis estava toda estranha àquele dia?

Num reflexo de quem mexe em algo que não devia, a jovem olhou para a porta do quarto rapidamente. Nem sinal de Brittany. Tudo bem que era errado abrir aqueles exames sem a presença da outra, mas a curiosidade falava mais alto, então a Lopez não demorou a ver os resultados. Tudo negativo, ufa... Isso era ótimo! Mas, qual era o problema então? Isso, é claro, se existisse um.

Talvez, a Pierce só tivesse dormido mal na última noite. Ou então estava ansiosa com o lançamento de Codinome Snixx. Acontecia. Santana não iria criar caso em cima de algo tão bobo... Quer dizer, muito provavelmente aquilo a incomodava um pouquinho porque tinha sido muito mal acostumada na última semana, e, a brusca mudança de humor vinda de Brittany era incomum.

Bom, independente do que fosse, o importante é que estava bem de saúde.

A grávida voltou a pôr os exames no lugar onde achou e foi para o escritório da desenhista, espiá-la. Mais uma vez, Brittany olhava para o celular repousado em sua mesa. A tela do aparelho apagada e mulher com o pé balançando embaixo da mesa, sem muita paciência. Na sua frente, tinha rascunhos inacabados e era como se não prestasse atenção em nada, nem mesmo no som dos passos de Santana chegando cada vez mais perto.

— Ei, Britt...

— Que susto! — Ela se virou na cadeira e abriu um sorriso genuíno, embora cansado. — Tudo bem, San?

— Eu que te pergunto.

— Ah, se eu tivesse que dizer... — Brittany pegou uma mão da morena e a beijou. — Melhor agora, né?

— Que bom. — A latina deu risada, um pouco desencanada da preocupação de antes. — Então, eu tô indo dormir.

— Já? — Brittany soltou a mão da mais baixa e resgatou seu celular, dando um toque na tela. Viu que era quase uma da manhã. — Nossa, tá tarde. Acho que eu já vou também.

Ela girou a cadeira de escritório e se levantou, fechando seu caderno de rascunhos em um segundo. Depois se voltou à namorada e a beijou, sorridente. Talvez, Liza e Frank não tivessem intenção alguma de discutirem aquele assunto afinal. Tinha se estressado à toa, quando fosse a hora certa eles falariam sobre isso... E o seu bom humor durou muito pouco. No dia seguinte, assim que acordou, foi convocada a aparecer na residência dos mais velhos... Sabia que eles não deixariam passar. Ela sabia. A Pierce saiu de casa no mesmo instante e deixou um bilhete avisando Santana que iria demorar um pouco para voltar.

— Tá legal. — Brittany suspirou, sentando-se no sofá com seus pais. — O que vocês querem? Vamos acabar logo com isso, por favor.

— Calma, filha. — Liza foi a primeira a abrir a boca. — Só queremos entender uma coisa.

— Certo... Podem começar.

— Bom, pra resumo de história, ficamos sabendo pela Marley ontem que tá de namorada nova. Até aí tudo bem... — Frank contou. — O problema é que, dias atrás, um dos nossos vizinhos disse que viu você e o Sam entrando aqui e levando algumas coisas com vocês. Então, fomos até o porão e notamos a falta do seu berço, fora outras coisas de quando ainda era um bebê.

— Pois é. Deixamos passar batido, porque não tinha nada demais na ocasião. Mas, agora, juntando os pontos... Eu e seu pai suspeitamos que esteja namorando uma gestante. Isso explicaria o porquê escondeu-a de nós, sem dizer o sumiço das coisas do porão e sua relutância em revelar seu novo endereço.

— Quê? — A loira riu, desconversando. — Nada a ver, eu só peguei essas coisas por lembrança!

— A Sugar já confirmou nossa teoria. — Sua mãe assumiu. — Nós fomos procurá-la depois, pra ver se ela nos dava mais detalhes que a Marley e ela logo contou toda a história.

— Ah... — Brittany sentiu-se tensa, outra vez. — Claro, tinha quer ser. Essa vaca.

— Olha a boca, Brittany! — O Sr. Pierce a repreendeu. — Sinceramente, estamos preocupados.

— Preocupados com o que?

— Com seu relacionamento com essa garota.

— E todas as circunstâncias que o englobam. — Liza parecia ter algum receio de falar. — Não queremos te ver mal.

— E por que cargas d’água eu ficaria mal, mãe?

— Porque namorar alguém prestes a ter um filho exige uma responsabilidade e tanto...

— Sei disso. — Brittany se apressou a dizer. — Mas, ainda não entendi o motivo da preocupação de vocês.

— Muito bem, eu explico. — Frank tomou as rédeas da conversa. — Você mal saiu de um relacionamento, onde teve um gostinho do que um casamento pode ser, a partir do instante em que você e Marley moraram juntas por quase um ano, não deu certo e, assim que terminaram, você já engatou outro namoro, não com qualquer mulher, mas com uma que está grávida e é mais jovem e irresponsável que você.

— Se vocês a conhecessem não diriam isso...

— Me responda, o que vai acontecer se um belo dia vocês brigarem, se separarem e essa criança estiver um pouco maior? — Frank perguntou. — Acha que sua namorada vai deixar você continuar a vendo? Mesmo que queira, você não terá direito algum sobre esse bebê... Isso, sem mencionar o quão jovem essa garota é. A probabilidade dela voltar com o pai dessa criança, caso ela souber de quem se trata, é muito grande! E você só a conhece há o que, três meses? Não se apegue, filha, pro seu próprio bem.

— Quase quatro. E ela vai fazer 21 anos essa semana... Olha, eu não sei o que a Sugar disse pra vocês, mas, por favor, será que dá pra confiarem em mim pelo menos uma vez? — Brittany pediu. — Eu não entrei nesse relacionamento pensando num fim e eu sei muito bem que o fato dela estar grávida acarreta bem mais responsabilidades do que o normal, mas, eu gosto muito dela. E tô de coração nisso. Eu até conheci o pai do bebê, ele e a Santana são amigos de infância.

— Pois você deveria se preocupar muito mais com esse detalhe. — Seu pai a alertou. — Vai acabar saindo de coração partido dessa história. Não queremos isso.

— Brittany, você sequer sabe se estão procurando a mesma coisa nesse momento da vida de vocês? — Liza embalou. — O que essa garota quer depois que esse bebê nascer? Casar? Ter uma casa própria? Virar dona de casa? Terminar a faculdade? E o que ela espera de você?

— Exatamente. Pensa bem, quando você e a Marley foram morar juntas, você também não estava pensando no fim do relacionamento de vocês... E o que você queria a longo prazo na época? Mudou alguma coisa daqueles meses pra cá? O que quer agora? Brittany, você nunca mencionou o desejo de ter filhos. Nunca.

— Sim. Quando brincava, sempre dizia que as bonecas eram suas irmãs mais novas... Se pergunte, você tá nessa pela garota, pela curiosidade inconsciente de criar um bebê, uma família, ou o que? Pensa no lado da Santana também, às vezes ela tá esperando muito mais do que você pode oferecer. Já conversaram sobre isso?

— Não... — Ela disse com certa insegurança, ponderando sobre todos os pontos levantados pelos mais velhos. — Não conversamos.

— Viu só? E quanto aquilo que disse pra gente sobre seus desenhos? — O Sr. Pierce se manifestou, novamente. — Que queria um ano e meio pra provar do que era capaz e tudo o mais, essa já não é mais sua prioridade?

— Claro que é. E Santana só vem me ajudado nisso! Minha primeira HQ vai ser lançada quarta-feira, foi ela que inspirou a protagonista.

— E aí está outro problema. — Liza pontuou. — Por acaso, você sente que só tem inspiração quando tá perto da garota?

Sim.

— E se for? Qual o problema?

— Todos. Você sempre se cansa das suas fontes de inspiração e procura por outras, seu interesse na menina pode não passar disso. Quando ela deixar de ser sua fonte de inspiração, o que vai acontecer? Lembre-se que quando você se envolve com uma mãe, não se envolve só com ela.

— Sim. Não sei se você entende nosso ponto aqui, mas, você tende a ser um pouco... Inconstante, Brittany. — Frank ajudou a esposa. — Assim que você não vê mais graça em alguma coisa, se esquiva e perde o foco. Sempre foi assim e não vai mudar do dia pra noite. Só queremos o seu bem.

— Vocês tão é tentando me enlouquecer! — Brittany se ergueu, zangada, e foi andando em direção a porta principal da casa. — Eu vou embora, tchau!

Ela saiu da casa o mais depressa que pôde, mas as palavras ouvidas não saíram dela. Ficou pensativa o resto daquele dia, ainda mais transtornada do que antes. Brittany sabia que estava de corpo e alma naquele relacionamento, ela sabia... Mas, não tinha como prever o futuro. E se seus pais tivessem razão? Ela realmente era inconstante. Se não fosse, não ficaria desse jeito todas as vezes que não soubesse como lidar com uma situação.

E segunda-feira chegou. Assim que Santana concluiu seu expediente e foi para a segunda consulta pré-natal daquele mês junto a Sebastian – que havia conseguido arrumar o carrinho surrado de seu avô; a morena decidiu passar um tempo no seu antigo apartamento com Kurt e Rachel. Brittany iria buscá-la mais tarde, e, como sua mudança brusca de humor estava preocupando a Lopez, ela acabou virando pauta na conversa que tinha com os amigos.

— Sei lá, ela anda tão estranha... Do nada. Nunca tinha visto a Britt assim. Acho que aconteceu alguma coisa. Claro que pode ser só ansiedade com o lançamento da HQ... Mas, não sei. Não tá parecendo.

— Não deve ser nada, San. — Rachel garantiu, no intuito de tranquilizar a prima. — Como você disse, pode ser só ansiedade com o lançamento da HQ. Deixa pra lá.

— Na verdade... — O Hummel se contrapôs. — Blaine me disse que a ex-namorada dela começou a namorar com a Kitty, geral ficou sabendo na sexta. Não que seja esse o motivo pra ela estar assim, mas, vai saber.

— Oi?

Kurt. — A baixinha o deu uma cotovelada, repreendendo-o.

— Ai, Rach! Só tô dizendo... Achei que a Santana já soubesse, não tem motivo pra esconder.

— A menos que isso esteja incomodando ela. — A Lopez fez seu raciocínio, tomada por um ciuminho irritante. — Isso explicaria muita coisa.

E aquele assunto morreu por ali. A Berry e o Hummel até tentaram contornar a situação, mas era tarde demais. Quando Brittany encontrou com a namorada e abriu a porta do carro para Santana entrar, tentou beijá-la, mas a grávida logo se esquivou. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, a loira meramente entrou no carro também e começou a dirigir.

— Tá tudo bem? — A Pierce quis saber.

— Me diz você, Brittany. Está?

Olhos azuis alcançaram a figura ao seu lado de relance, Brittany não fazia ideia do que estava rolando. Começou a pensar em tudo de errado que poderia ter feito e não obteve respostas. Temia que o dia em que brigariam chegasse e agora estava bem ali na sua cara, o problema é que sequer sabia o motivo e isso tornava as coisas ainda mais difíceis para ela.

— Eu fiz alguma coisa de errado?

— Não... — Santana olhou para a janela, suspirando aborrecida. — Quando pretendia me contar que a Marley tá junto com a Kitty?

— Ah, eu nem pensei nisso. — Brittany voltou a atenção na direção. Provavelmente Santana havia descoberto através de Kurt, ela mesma contaria se não estivesse tão preocupada com tudo o que seus pais haviam a dito. Tinha sido um erro ir vê-los. — Desculpa, Sannie.

— É por isso que tá toda estranha?

— Como assim?

— Você sabe. — A morena a fitou, outra vez. — Parece que tá com a cabeça em outro lugar... Podia ter me contato que o namoro delas te incomoda, eu entenderia. Sei que às vezes é difícil superar.

— Mas, eu não me incomodo não...

— É mesmo? Então, por que não me contou quando ficou sabendo? Ou melhor ainda, por que escondeu seus exames de mim? — Santana indagou um pouco mais abalada que antes. — Eu não tinha a mínima pretensão de achá-los, mas como você colocou dentro do guarda-roupa eu acabei encontrando!

— Santana, não tem nada a ver. Eu só...

— Quer saber? Para o carro, eu quero descer. — Ela pediu.

— O que? Aqui?

— É, aqui.

— Eu não posso fazer isso. — Brittany diminuiu a velocidade do veículo, olhando aflita para a namorada. — Vamos conversar, tá bom?

— Não. Eu não quero falar com você agora, se não vou acabar falando besteira. — Ela desviou os olhos num flash de luz, sentindo algumas lágrimas descerem pelas bochechas. O corpo fervendo de raiva. Os hormônios da gravidez não a perdoavam. — Por favor, só para o carro.

Ótimo. Agora Brittany era o motivo do estresse da Lopez.. Exatamente tudo o que ela vinha tentando evitar até o momento.

— Deixa eu pelo menos te levar pra casa, tá bom?

Argh... — Santana se zangou. — Que ódio que eu tenho dessa sua mania de bancar a boa samaritana, Pierce!

— Eu só quero te ajudar, Sant.

— Mas, aí é que tá! Eu nunca pedi a sua ajuda! Aliás, eu era muito melhor sem ela! Será que dá pra entender?

— Sei que só tá dizendo da boca pra fora...

— Antes eu tivesse! Preferia nunca ter te conhecido, Brittany. Você e a Marley estariam juntas até hoje e isso me pouparia muita dor de cabeça.

— Sério? — A loira olhou magoada para o lado, aquelas palavras haviam a atingido em cheio. — Mesmo depois de tudo o que eu te falei, você ainda acha isso?

— Eu acho!

— Tá certo...

E o silêncio de ambas as partes se instalou daquele ponto até a residência dos Lopez. Sem se despedir, a latina praticamente saltou do carro e foi a vez de Brittany chorar. Não fazia ideia do que tinha acontecido, mas, odiava com todas as forças brigar e levando em conta o estado em que havia deixado Santana naquela discussão, talvez fosse melhor ela se afastar de vez. Seus pais não eram tão loucos assim. A Pierce não estava fazendo bem para a latina, qualquer um podia ver. Pelo menos, era o que seu desespero dizia.

Notas finais
E agora, seria esse o fim de Brittana? kk Até ♥ P.S.: perdoem o meu sumiço, passei o comecinho do mês sofrendo por antecipação por causa da vacina, mas eu tomei semana passada e deu tudo certo!