Assim que Santana deixou o pronto-socorro e chegou em casa, junto a Rachel, Kurt, Lorenzo e, claro, Sebastian que vinha no outro carro logo atrás, seu pai se despediu de todos eles e foi embora. Em seguida, a latina tomou um banho e depois conversou com Quinn por vídeo chamada, enquanto sua prima e os garotos se ocupavam de cozinhar. Então, logo, os quatro jovens se reuniram à mesa para comer. Contudo, a tentativa da Berry – e dos outros dois; em não estressar a Lopez com possíveis assuntos predispostos a tal, resultou em um jantar extremamente atípico, em outras palavras: silencioso.

Apesar disso, quando menos percebeu, Santana estava em sua cama, pronta para se deixar relaxar de verdade e, finalmente, dormir. Era tudo o que a grávida precisava após as dores, o susto e o medo de perder o bebê, só faltava um detalhe... Sebastian sair de seu quarto e ir embora. Bem, acontece que, mesmo a morena tendo dito diversas vezes à ele que estava tudo bem, o rapaz se sentia muito mal por não ter atendido suas ligações ou visto suas mensagens na hora que ela tanto precisou e agora não parava de pedir perdão por manter o celular desligado durante suas viagens como motoboy.

— É sério, Sebastian... Para de se desculpar. — Ela pediu, recebendo a total atenção do ex-namorado. — Você não precisa e nem deve manter o celular ligado quando estiver no controle de uma moto, tá? Nada de distrações. Tem que pensar na sua segurança também, cara. E acontece... Sei que posso contar com você, mas também sei que não podemos depender exclusivamente um do outro, toda hora.

— Tem razão.

A Lopez sorriu para ele, torcendo para o mesmo ir embora agora, mas, ao invés disso, Sebastian voltou a falar frustrando suas expectativas. Longo dia... Só queria dormir sossegada.

— Olha, vou trabalhar o verão inteiro por nós três, ok? Quantas horas eu puder pra compensar tudo isso, San... Então, não se preocupa mais com a entrada de dinheiro, porque se ainda não for o suficiente... Eu também tranco minha faculdade no próximo semestre e faço todas as horas extras possíveis.

— Não mesmo! — Ela se exaltou, ficando brava. — Tá louco? Você não vai trancar nada, entendeu?

— Santana...

— Você entendeu? — A mulher voltou a perguntar cortando-o e ele assentiu, quieto. — É bom mesmo... Agora, eu preciso dormir. Tchau, Sebastian.

— Ok... — O estudante de Direito se levantou da beirada da cama, se afastando aos poucos, e foi até a porta do quarto. — Boa noite, San. Nos vemos segunda?

Para a consulta pré-natal do quinto mês, ele se referia. A morena balançou a cabeça. Aparentemente, Sebastian pretendia deixá-la em paz naquele final de semana, para trabalhar mais horas ela deduzia. E com razão, porque era exatamente esse o plano do rapaz.

— Uhum.

— Até lá então... Amo vocês.

Ele saiu, deixando Santana reflexiva sobre os próximos dias, que seriam bem diferentes do que estavam sendo até ali. Se isso era bom ou ruim, ainda não tinha certeza... Mas, torcia para o melhor, é claro. E pensar que estava tão perto de descobrir o sexo do bebê... Nem pensou em perguntar ao Dr. Howell no calor do momento, justamente pela aflição que foi toda aquela situação que teve que passar. Bem, de qualquer maneira, agora faltava pouco para descobrir e as coisas se tornariam ainda mais reais depois disso.

(...)

Quando Brittany adentrou seu apartamento, depois de voltar ao Breadstix para jantar e avisar Mercedes que estava tudo bem com Santana, ela enxergou Marley sentada no sofá da sala. A modelo estava a sua espera ao que tudo indicava... Mas, por algum motivo que a loira desconhecia, o semblante da Rose não estava ruim como nos últimos dias. Na verdade, parecia carregar um misto de nostalgia e felicidade... Isso sim era curioso.

— Oi...

— Oi, Britt.

— Tudo bem? — Ela quis saber, ao passo que se aproximava do acolchoado.

— Vai ficar. — Marley sorriu fraco, mostrando-a um papel com um desenho em pontilhismo seu. — Você se lembra quando fez isso?

Brittany pegou a ilustração e sentou-se ao lado da ex, assentindo. Foi logo no início do namoro delas, há três anos, quando a dos olhos azuis mais desenhou em sua vida, era como se bloqueios não existissem na época... Não tinha tempo ruim, estava sempre aperfeiçoando o traço com novas técnicas que aprendia nas aulas da universidade, e falando para quem quisesse ouvir sobre tudo, empolgada. Marley nunca tinha visto alguém com tamanho entusiasmo por algo antes, era extremamente contagiante e aprazível de se ver.

— Não sabia que tinha guardado todo esse tempo...

— Como eu poderia não guardar? — Ela riu, pegando o papel de volta. — Não é todo dia que as pessoas dão a sorte de arrumar uma namorada que sai por aí te desenhando, né.

— Achei que não gostasse...

— Mas, eu gostava. Me sentia especial, porque você fazia eu me sentir assim sempre. Enfim, o que eu tô querendo dizer é que... Por mais que a gente tenha mudado muito desde esse ponto e, o relacionamento tenha ficado uma droga nos últimos meses, vou sentir saudades Brittany... De tudo isso. Queria que tivesse dado certo.

A Rose começou a chorar e a Pierce, não se aguentando, foi no embalo. Ainda estava sensível. Muitas mudanças a aguardavam pelo caminho, grande parte delas para melhor, mesmo assim, era assustador. Marley se encontrava na mesma, o lhe servia de apoio ideal naquele momento, e vice-versa. O tempo de brigar enfim ficara para trás.

— Eu também, Marley... — Brittany se permitiu abraçá-la. — Mesmo. Desculpa.

— Não... Sou eu quem te devo desculpas, Britt. Principalmente por essa semana aqui... Descontei tudo em cima de você.

— Tudo bem, eu entendo. Sei que tava nervosa com a viagem e com o rumo do nosso relacionamento... Eu também tava e poderia ter sido mais compreensiva. Com exceção de... Você sabe.

Sugar, é claro. Marley balançou a cabeça e as duas permaneceram algum tempo naquele abraço, em silêncio. Até a loira se afastar segurando ambas as mãos da outra mulher. Sorriu.

— Espero que bombe lá na Europa. Aliás, no mundo inteiro.

— Obrigada... Te desejo todo o sucesso na sua carreira também. Por falar nisso... — Ela enxugou as próprias lágrimas. — Quando seus pais vieram me contar sobre sua pretensão em vender o apartamento e devolver o dinheiro pra eles, eu mal acreditei. Achei que só tivesse ficado chateada com o que eu te disse e que ia ficar por isso mesmo, não imaginava que fosse me escutar pra valer e tomar uma decisão dessas tão cedo. Até fiquei me perguntando se isso já não fazia parte dos seus planos... Mas, sei que não. No fim, eu entendi. E tudo bem.

— V-você não tá brava por eu ter falado com eles antes? — Brittany se surpreendeu, de novo. — Quer dizer, eu tinha planos de conversar com você primeiro, mas eles ficaram me perguntando o que ia ser do apartamento já que terminamos e eu acabei soltando.

— Não. Eu não tô brava... Eu fiquei, claro. Preferia saber por você, também não esperava que fosse acontecer tão rápido. Mas, são seus pais né... E confesso que tô mais feliz de saber que a Brittany que eu conhecia ainda tá aí do que qualquer outra coisa.

— A Brittany que você conhecia?

— É. — Marley mostrou-a o desenho, outra vez. — Essa aqui, sonhadora, engajada e apaixonada pelo o que faz.

— Aah...

— Ela tem ambição, sabe o que quer. Não fica em cima do muro esperando as coisas acontecerem, isso faz toda a diferença. Eu odeio admitir isso, mas... Nesse ponto, deveria ser mais como a Kitty. — A Rose disse freneticamente, antes de continuar. — Então... Eu tava pensando sobre e cheguei à conclusão de que ficar com esse apartamento não vai me fazer bem, então é melhor nós acharmos um comprador em comum mesmo.

— Ok.

— Bom... Tenho que ir dormir agora, senão vou acordar um caco amanhã e a última coisa que eu quero é me atrasar pro voo. — Ela se levantou, inclinando-se para dar um selinho demorado na ex-namorada. — Boa noite, Brittany.

— Boa noite...

A dos olhos azuis observou Marley se afastar, um tanto quanto perplexa. Por essa ela não esperava. As coisas andaram bem mais tranquilas do que a Pierce sequer imaginou que pudessem andar... Isso, levando em conta os últimos dias logicamente. Nem sabia explicar direito o que tinha acabado de acontecer. Todavia, estava feliz por ter corrido tudo bem.

(...)

Por volta das seis da manhã do dia seguinte, Brittany acordou. Era sábado, e, como viu que não conseguiria voltar a dormir tão cedo, resolveu ir até a sala, onde se acomodou no sofá e ficou pensando. As coisas que aconteceram a seguir foram tão automáticas que, tinha dúvidas se ainda estava dormindo ou não. Basicamente, Marley se levantou algum tempo depois, a cumprimentou, tomou café e depois foi tomar um banho. A loira por outro lado, continuou ali, quietinha, até ouvir a campainha tocar e ir abrir a porta, sem nem mesmo se preocupar em checar o olho mágico antes. E o resultado? Se deparou com Sugar, sendo obrigada a respirar o mais profundamente que conseguiu para manter a calma. O que estava sendo de extrema dificuldade, diga-se de passagem.

— Não vai me convidar pra entrar, não? — Ela passou para dentro do apartamento, esbarrando na desenhista. — Você já foi melhor, Brittany. A propósito, sua cara tá péssima...

— Pra combinar com você.

— Hum, não me admira que estragou tudo com a Mar. Mas, eu tô até feliz sabe? Porque assim ela pode arrumar alguém bem melhor.

— É... Tipo você? — Brittany jogou no ar.

— Hah! Até parece. Essa sua cisma comigo é muito engraçada... Sério. — A garota olhou ao redor, dando uma risadinha irritante no processo. — A Marley me contou que vão vender o apartamento... Talvez, eu até faça uma oferta. Esse lugar é tudo de bom, fora o vizinho que é um gostoso. Aliás, vocês dois são bem próximos né? Podia me passar o número dele qualquer dia desses.

— Tenta a sorte, Sugar. Com esse seu jeitinho doce, pode ter certeza que vai longe.

Antes que pudessem continuar com a série de provocações, ambas as mulheres se atentaram a Marley aparecendo na sala. Calaram-se na hora. Em compensação a modelo sorriu, enquanto vinha arrastando suas malas de rodinha na direção delas.

— Sugar! Por que não me avisou que já tinha chegado?

— Ah... Você sabe, Mar. Gosto de fazer surpresas, né... — Ela tirou uma passagem do bolso. — E advinha só quem vai passar esse final de semana todinho na França com você?

— Mentira! — Marley arrancou o papel da mão dá outra, para ver com os próprios olhos. — Sugar. Do. Céu. Como eu te amo...

— Eu sei! — Elas se abraçaram, dando alguns pulinhos eufóricos, e Brittany se afastou um pouco. — A gente vai se divertir horrores!

— Sim! Nós vamos! — Marley assentiu, risonha, e depois deixou aquele abraço, indo até a ex-namorada para abraçá-la também. — Tchau, Britt.

— Tchau... Boa viagem.

— Obrigada.

As amigas se foram, e, pela primeira vez, Brittany amou a ideia de Sugar e Marley não se desgrudarem nunca. Muito mesmo. Seria um sonho se a Motta resolvesse ficar lá na Europa para sempre, há milhas e milhas de distância da sua pessoa.

(...)

Santana acordou duas horas mais tarde do que estava acostumada. Não havia conseguido relaxar completamente ainda, mas já era um começo. Checou as mensagens ainda na cama. Uma delas era de Quinn dizendo que iria aparecer por lá logo menos, outra de Sebastian desejando um bom dia e a última era de seu pai a avisando que ele contara tudo o que havia acontecido à Maribel e que a mesma planejava fazer um jantar de reconciliação na próxima quarta-feira, que não por acaso, era 4 de Julho, feriado do dia da independência. Ah, e aniversário da Lopez mais velha também.

É... Parece que as coisas finalmente estavam se resolvendo.

A morena deixou o colchão, e foi até o banheiro. Depois, se colocou na cozinha, onde Kurt e Rachel a recepcionaram. Mais uma vez, os jovens ficaram em um silêncio mortal, até Santana decidir puxar assunto.

— O que pretendem fazer hoje?

— Ficar com você. — Rachel disse, enviando-a um sorriso.

— Voluntariado... — O Hummel respondeu. — Lá naquela casa de repouso que tínhamos comentado, sabe? A dos velhinhos do coral.

— Ué, achei que a Rach fosse com você.

— Ela ia....

— Mas, como as circunstâncias mudaram, vou ficar por aqui mesmo. Sem problemas.

— Nem pensar. Não preciso de babá, Rachel. — Santana riu, balançando a cabeça em negativa. — Vai com o Kurt, fico muito bem sozinha. Além do mais, a Fabray vai aparecer daqui a pouco, então...

— Vai mesmo?

— Sim.

— Tudo bem, então. — Rachel assentiu. — Nela eu confio.

— Ri-dí-cu-la! — A Lopez arremessou uma torrada na prima, e os três gargalharam. — Aff... Mereço.

(...)

Mais tarde naquele dia, Brittany se pegou desenhando Santana mais uma vez. Mas, diferentemente das outras ilustrações, essa chorava. Como o rosto que havia presenciado na noite anterior, tão lindo e tão triste ao mesmo tempo. Como será que ela estava indo, afinal? A loira encarou o número que Rachel salvara em seu celular, e se perguntou se deveria ou não mandar uma mensagem. Parecia meio invasivo de sua parte... Talvez, não fosse. Só saberia se tentasse a sorte.

Foi o que fez.

Santana estava com Quinn naquele momento. As duas assistiam um documentário qualquer da Netflix... Ou quase isso. Na verdade, era tão parado que Lucy estava cochilando há algum tempo ao lado da amiga e a Lopez decidiu meramente procurar outra coisa com o que se entreter em seu smartphone enquanto deixava o filme rolar até o fim, então viu novas mensagens chegarem para ela.

Número desconhecido

Oi...

Aqui é a Brittany do Breadstix

Sua prima me passou seu número ontem

Mas, se for um problema eu excluo agora mesmo

Só queria desejar melhoras já que não conseguimos nos ver mais ontem

(6:49 p.m.)

Em segundos, Santana abriu um sorriso involuntário. Tinha que responder. Rachel era uma folgada, mas nem conseguiu se incomodar tanto com aquilo visto que Brittany se mostrava ser uma ótima pessoa.

Santana

Obrigada

Fica tranquila

Não é um problema pra mim

(6:51 p.m.)

Brittany

Ah, que bom ♥

(6:51 p.m.)

Santana

Só achei meio estranha essa sua história...

Não sei se a Rachel faria isso, haha

Tem certeza que não ouviu lá no hospital?

(6:52 p.m.)

Brittany

hahah

Juro pra você!

Quer dizer...

Tem duas coisas que eu acabei ouvindo sem querer, eu admito

Nada mais, nada menos

(6:53 p.m.)

Santana

Hum, vou fingir que acredito

E quais seriam essas duas coisas?

(6:54 p.m.)

Brittany

Bom...

Nome completo e idade

(6:54 p.m.)

Santana

Ah, péssimo!

Só esquece o Guadalupe, por favor

(6:55 p.m.)

Brittany

Só se você me prometer uma coisa...

(6:55 p.m.)

Santana

Uma coisa, é?

(6:56 p.m.)

Brittany

É, coisa simples

Prazer, sou Brittany Susan Pierce

Agora, basta esquecer o Susan

E estaremos quites

O que me diz, Santana Guadalupe Lopez?

(6:58 p.m.)

Santana

LOL, engraçadinha

(6:59 p.m.)

Brittany

Foi mal, haha

É um nome muito bonito

Não aguentei

(6:59 p.m.)

Santana

Mentira tem perna curta, viu?

(7:00 p.m.)

Brittany

Ainda bem que eu não minto ;)

(7:00 p.m.)

A Lopez se deixou rir com a conversa e Quinn acabou despertando, curiosa com a euforia da latina.

— Com quem tá falando, hein?

— Ninguém... — Ela bloqueou a tela do celular correndo, mas logo se deu por vencida. Afinal, era Quinn ali. Não conseguia guardar segredos dela, ainda mais quando a amiga a encarava com olhos pidões como estava fazendo agora. — Tá, era a Brittany.

— Brittany? Aquela lá do envelope com grana?

— A própria. Foi ela que me levou pro hospital ontem.

— Sério?

— Uhum...

— Berro! Deixa eu ver isso, por favor! — Lucy se apossou do celular da outra e leu todas as mensagens. — Nossa, vocês tão flertando muito...

— Não estamos não, ela só é... Divertida. — Santana arrancou o aparelho da loira e guardou-o, rapidamente. — E tem namorada.

— Ah, “só isso”? — Ela ironizou, adorando a história. — Quem vê pensa...

— Quer parar?

— Querer, eu não quero. Você fica uma gracinha sem jeito, Lopez. Só não vou insistir no assunto porque vim te ajudar a ficar de boa e não o contrário, mas não pense que vai ficar por isso não.

— Você, a Rachel e o Kurt são emocionados demais. Nunca vi.

— Fazer o que, né? A vida nos fez assim. — A dos olhos verdes riu, empurrando levemente o ombro da outra com o seu. — Então, o que eu perdi do documentário?

— Sinceramente? Nada. Parei de prestar atenção também, tava muito devagar.

Notas finais
Até ♥