Quase três semanas se passaram desde que Brittany conseguiu recuperar o número de Santana, e as coisas andavam ótimas... Com exceção de uma coisinha ou outra aqui e ali, mas vida que segue. Esse era o normal. Nesse meio tempo, Liza pediu para que Frank se desculpasse com a filha, além afirmar a Brittany que não concordava com a atitude que o marido teve quanto ao celular perdido da jovem e que se tivesse tido conhecimento antes, a ajudaria na hora. Como a dos olhos azuis não estava com lá muita paciência com os dois naquele momento, resolveu meramente aceitar a palavra da mãe e as desculpas do pai e, a partir dali, a relação da menina Pierce com os mais velhos tornou-se um pouco menos estremecida que nos últimos meses, o que deixava-a consideravelmente menos tensa.

Já Santana, estando de volta à ativa, tinha dias que trabalhava 6 horas e dias que trabalhava 8, mas nada como a velha jornada estressante de 12 horas de antes. Continuou optando por entrar de manhã, pois assim conseguia aproveitar mais o dia e de brinde ainda evitar os clientes ranzinzas da noite. Brittany aparecia no Breadstix com muita frequência, sorridente de tal forma que deixava os dias da morena curiosamente mais calmos que o normal. Sempre carregando seu caderninho de desenhos consigo, fechava-o com certo desespero toda vez que Santana chegava perto demais. Suspeito? Um pouco... Mas, não devia ser nada demais. Talvez, a loira se sentisse inibida desenhando com plateia. Quem sabe.

No meio de tudo isso, o processo de mudança da Pierce corria muito bem. Aliás, já havia escolhido um novo apartamento e tudo mais. Em função disso, antes que o final de semana chegasse pediu para mudar de horário na Glee Comics e assim, passou a entrar às sete da manhã e sair por volta da uma da tarde, marcando um ótimo horário na semana seguinte para o caminhão de mudanças passar e levar suas coisas ao novo prédio – este que, por coincidência do destino ou não, ficava nas redondezas do shopping onde Brittany havia encontrado com a Lopez na véspera de 4 de Julho. Bom, levando em conta tudo isso, agora era totalmente impossível a dos olhos azuis continuar indo tomar café no Breadstix, por isso avisou a latina sobre a mudança de turno e dali em diante começou a aparecer no horário de almoço.

Num dia desses, a Pierce travou com o quadrinho autoral que vinha desenvolvendo. Como protagonista, ela tinha uma super-heroína baseada à imagem de Santana e uma trama toda pela frente para resolver, muitos furos no caminho. Mas, uma coisa era certa, precisava de um código pelo qual a organização de criminosos se comunicava no enredo. Logo, ligou uma coisa à outra e lembrou-se da mais nova dizer que cursava Linguística na faculdade. Talvez, Santana pudesse ajudá-la... Quer dizer, ainda não havia contado nenhuma de suas ideais para ninguém, nem para Kitty, nem para Sam, nem Jane ou Blaine, muito menos ainda para Mike – mesmo que o rapaz se mostrasse duas vezes mais curioso que os outros; contudo Brittany sentia-se esquisitamente confortável com a ideia de compartilhar o projeto com Santana. Não a parte que ela era a inspiração para a personagem principal, mas talvez todo o resto.

A Lopez observou a desenhista entrar no restaurante por volta das duas da tarde daquela quarta-feira, como vinha o fazendo nos últimos dias e, após a jovem terminar de atender os clientes à frente da loira, prontamente foi até ela. Antes de se cumprimentarem de fato, elas sempre acabavam rindo por nada, já era rotina. Depois disso, o papo seguia normal... Na medida do possível. A verdade é que haviam alcançado um pouco mais de intimidade online do que pessoalmente, mas ainda assim, nada superava a presença física uma da outra. Era muito bom, além de que estavam progredindo significantemente.

— Então... — Brittany manteve o sorriso no rosto, ao passo que introduzia um novo assunto no diálogo costumeiro. — Deixa eu te perguntar uma coisa. Quando seu expediente acaba hoje?

— Às três e meia. Por quê? — Ela estranhou.

— Ah, tá pertinho. É que eu queria falar em particular com você em outro lugar depois... Tudo bem? Quer dizer, se tiver algum compromisso hoje pode ser amanhã, ou sei lá. Eu espero.

— Não, não precisa... — Santana respondeu, com certo receio. — Tudo bem. Tô livre hoje.

— Que bom! — A loira voltou a olhar para o cardápio. — Vou parar de te enrolar agora... Vejamos.

E ficou por isso mesmo, sem mais explicações. Brittany fez seu pedido, Santana continuou trabalhando, e quando a jornada de trabalho da garçonete chegou ao fim, elas se encontraram nos fundos do Breadstix. A Lopez havia enviado uma mensagem a Sebastian dizendo que ele não precisava buscá-la no dia, então agora só restava as mulheres se direcionarem a outro lugar... Mas, que lugar era esse? Nenhuma das duas sequer imaginava. Assim que a latina entrou no carro da Pierce, ficaram dando voltas sem chegar a lugar algum. O que não foi comentado em nenhum momento... Até ser. Afinal, viajar só é legal quando se tem um destino.

— Tem um parque aqui perto, podemos ir lá... — Santana sugeriu.

— Boa ideia. Confesso que eu não tinha pensado nessa parte ainda.

— Nem percebi! — A grávida ironizou, risonha. — Você é meio perdida, né?

— Meio? — Brittany a acompanhou no riso. — Quem me dera! Eu sou toda perdida mesmo... Melhor já ir se acostumando, é desse nível pra pior.

— Tá tentando me espantar, é?

— Bom... Se funcionar, eu vou saber que cê não tem um bom coração. Então, talvez eu esteja? — Provocou, brincalhona. — Fica aí essa dúvida no ar.

— Cheia das gracinhas! Impressionante... — Ela continuou rindo e olhou para frente, apontando para a rua da qual se aproximavam. — Entra aqui, depois vira na próxima esquerda.

— Beleza.

Em poucos minutos, as mulheres chegaram no parque citado pela morena. Ao descerem do carro, caminharam por um tempo até chegarem em um banco de madeira vazio. Sentaram por lá.

— E então?

— Certo, eu... — Brittany sorriu, um tanto quanto tímida. — Tenho uma proposta pra te fazer.

— Uma proposta? — Santana espreitou os olhos, brincalhona. — Pera lá, Pierce. Muito cedo pra me pedir em casamento ainda.

A dos olhos azuis começou a gargalhar, instantaneamente. Aquilo, definitivamente, ajudava-a a se soltar. Ainda mais quando as covinhas da outra ficavam tão marcadas.

— Poxa! — Disse, quando enfim conseguiu conter um pouco do riso. — Que pena, já tava aqui pensando nos arranjos e tudo mais...

— Eu sei, eu sei. Infelizmente, a vida não é perfeita. — A latina riu um pouco mais junto a outra e desfez o último sorriso, com certa dificuldade. — Mas, falando sério agora... Qual é a proposta?

— Me ajudar com um projeto. — Ela revelou, correndo para se autocorrigir em seguida. — Na verdade, ajudar não, fazer parte dele. Vou te pagar. Você tinha comentado que tava cursando Linguística e eu preciso de um código inédito, pelo qual os criminosos do quadrinho que tô desenvolvendo se comunicam. Basicamente é isso.

— Entendi... Não prefere procurar um profissional formado?

— Não. Quero você, já tá decidido... A menos que não esteja a fim de participar.

— Ok... Então, tô dentro. Só preciso saber da trama agora.

— Ah, é! Isso é muito importante.

Elas riram e Brittany começou a contar todas as suas ideias para a mais nova, que simplesmente escutou, deixando para fazer perguntas depois. E assim a conversa fluiu, até Santana se distrair com algo no horizonte. Curiosa, a Pierce logo olhou para lá também. Um casal estendia uma toalha no chão, enquanto seus filhos corriam envolta afobados.

— Que foi? — Brittany quis saber.

— Nada... Só tava pensando. — Santana suspirou e voltou a encarar olhos azuis. — Às vezes acho que não tô preparada pra isso. Digo, cuidar de uma criança... Por mais que eu queira ter esse bebê, não fazia parte dos meus planos até uns meses atrás entende? Me enche de medo ser uma mãe ruim.

— Posso imaginar. Ninguém tá preparado pra nada nesse mundo, essa é a verdade. Mas, uma mãe ruim? Você nunca vai ser, te garanto.

— E o que te faz ter tanta certeza?

— Não sei... Intuição?— Ela sorriu, tirando uma folha de cima do cabelo da Lopez, que havia sido trazida pelo vento segundos antes. — Relaxa, vai se sair bem.

Elas trocaram alguns olhares em silêncio, até que Santana sentiu algo se mexer em sua barriga. Logo a jovem desviou os olhos e levou a mão ao abdômen, tentando descobrir o que era.

— Elizabeth tá me chutando. — Concluiu. — É a primeira vez.

No mesmo instante em que ouviu, Brittany arregalou os olhos.

— Agora?!

— Sim. Agora. — Ela riu da reação da outra. — Para de me fazer rir, Brittany! Isso não é nada confortável pra sua informação!

— Desculpa!

— Tudo bem... Quer sentir?

A desenhista balançou a cabeça e viu sua mão ser guiada pela morena até sua barriga, nunca havia presenciado tal coisa antes. Era tão... Engraçado.

— Tá mexendo mesmo!

— Claro que tá! — Ela continuou rindo, então percebeu algo mais curioso ainda acontecer. — Você tá chorando?

— Eu tô... Desculpa. — A dos olhos azuis usou a mão livre para limpar as lágrimas. — Não aguentei. Isso é muito legal.

— Quem vê, até pensa que é seu... — Zoou, aos risos.

— Já se acostumou com a ideia?

— O quê? — Ela ficou extremamente séria e sem jeito. — Q-que ideia?

— Da Elizabeth se mexendo. Você disse que não era confortável... — Brittany lembrou-a. — Já se acostumou?

— Aah, sim. Acho que sim.

— Que bom. — Elas ficaram daquele jeito uns dois ou três minutinhos mais em silêncio e quando a mexeção do bebê parou de vez, a loira tirou a mão da barriga da outra, sorridente, e levantou-se ajudando Santana a fazer o mesmo. — Melhor eu te levar pra casa, deve estar cansada de mim já.

— Que nada... Mas, tô querendo ir embora mesmo.

— Minha intuição é boa, te disse.

— Ah, tá. Claro.

Elas riram e foram andando até o carro da Pierce, que logo descobriu o endereço da morena. Moravam consideravelmente mais perto agora, do que antes. Isso era interessante. No meio do caminho, a mais alta perguntou a Santana se ela se incomodaria do rádio ser ligado e a resposta obviamente foi não. Como raramente tirava o CD de Johnny Cash de lá, foi ele que começou a tocar quando Brittany ligou o rádio.

“You are my sunshine, my only sunshine...”

Ela ouviu a latina cantarolar, junto a música e se admirou. As pessoas costumavam não gostar muito de quando ela ouvia o cantor country, e, por isso, não esperava nunca que alguém fosse gostar. Estavam em São Francisco não era bem o estilo de música que os jovens mais curtiam por lá.

— Gosta de Johnny Cash? Isso sim é uma surpresa... — Riu. — Depois dessa posso morrer em paz!

— A voz dele é outro nível, né. Faz qualquer um gostar de country.

— Olha, eu também achava isso... Mas, já se irritaram muito comigo ouvindo.

— Aí o problema é com a pessoa, não tem jeito.

— Verdade... — Ela concordou e cantou mais alguns versos com Santana, até perguntar. — Mas e aí, fiquei curiosa agora, como conheceu a música dele?

— Pelo clipe da Katy Perry, daquela música lá.... The One That Got Away. Não me julgue.

Brittany riu, balançando a cabeça em negativa.

— Longe de mim, Katy Perry fazendo o bem sem olhar a quem. Fantástico.

— E você?

— Ah, eu vi um especial que fizeram dele na MTV anos atrás e me encantei, desde lá eu escuto esse homem religiosamente. Me faz bem.

— Dá pra ver. — Santana riu. — Mas, ainda acho que minha história é mais criativa...

— Não, não, de fato é. Sua história ganhou, sem dúvidas. Tem toda uma reviravolta, sabe? Começa na Katy Perry e termina em Johnny Cash... Isso diz muito.

— Muito.

Elas riram com a brincadeira e Santana se atentou a localização que estavam, se preparando para abrir a porta.

— Chegamos. Pode me deixar aqui na esquina.

— Não, eu te levo até a frente do prédio Santana. Não custa nada. Pode ficando aí.

— Ok.

Brittany adentrou a rua e foi encostando o carro na guia, até o parar de vez.

— Pronto.

— Obrigada... — Santana abriu a porta, despedindo-se com certo sorriso estampado nos lábios. — Tchau, Brittany.

— Até logo.

Notas finais
Até ♥