Nós - Brittana
47 Ação de Graças
— Qualquer coisa vocês me ligam, tá bom? — Santana se direcionou ao seus pais, entregando Elizabeth para Maribel. — Eu volto num segundo.
— Não se preocupa, hija. — Lorenzo abriu um sorriso, sincero. — Pode ir tranquila.
— Nós damos conta dessa coisinha linda, né? — Maribel não tirou os olhos da neta, parecia outra pessoa interagindo com a pequena. Extremamente abobalhada, coisa que não era muito comum da sua parte. — Sim, damos sim.
— Ok... Então até mais tarde, mamá, papá. — A morena deu um beijo na bochecha de Maribel e Lorenzo e, em seguida, alcançou sua filha, afagando as costas da bebê com cuidado. — Lizzie.
— Tchau, Sra. Mari! — Brittany acenou da porta, sorridente. — Sr. Lo!
— Até logo, Brittany querida.
— Feliz ação de graças, minha jovem!
— Feliz ação de graças pra vocês!
Logo, as namoradas estavam dentro do carro da loira. Uns dias antes, a ideia de ficar muito tempo longe da recém-nascida não parecia nem um pouco real para Santana, mesmo quando ela concordou em passar a Ação de Graças na casa dos pais da Pierce. Foi só depois de ser obrigada a retirar leite com uma daquelas bombinhas próprias para isso que as coisas tomaram outro rumo.
Aparentemente, ela estava produzindo mais leite do que Lizzie tomava por dia, então precisava extrair para evitar possíveis obstruções. Dali para frente, ficar fora por algum tempo tornou-se possível e até mesmo dormir, já que vez ou outra quando Elizabeth começava a chorar de madrugada, Brittany simplesmente pegava uma mamadeira e acudia a pequena sem grandes complicações, além disso, por causa das mesmas, Sebastian, Lorenzo e Maribel também conseguiram passar mais tempo com a bebê naquele primeiro mês de vida.
Só tinha uma coisa que não agradava nem um pouco Santana naquela história e, essa coisa, era que alguém a assistisse tirando leite. Porque, bom, sentia-se uma vaca leiteira – para dizer o mínimo; então todos, absolutamente todos, eram estritamente proibidos de ficar por perto quando ela o fazia. Especialmente Brittany.
Não se sentia assim quando estava amamentando Lizzie de forma natural, mas quando se tratava de extrair leite com aquela bombinha? Era impossível não se sentir a própria vaca leiteira. Não podia correr o risco daquela imagem invadir a cabeça dos outros, assim como invadia a dela. Já bastava Quinn, Rachel e Kurt terem visto de surpresa uma vez, não precisava de mais plateia.
No intuito de espantar tais pensamentos, a Lopez acabou se recordando da primeira vez que ela e Brittany deram banho na recém-nascida. O que aconteceu apenas sete dias antes, pois, até então, quem tomava conta disso era Maribel. O medo que Santana tinha de fazer algo errado ainda era extremamente vívido, foi só com a paciência de sua mãe e o apoio da namorada que conseguiu ter a coragem necessária para enfim banhar a neném.
A água na pequena banheira era morna. No tempo em que a desenhista se ocupava de segurar a cabeça de Elizabeth, Santana lavava o corpinho dela tendo em mente tudo o que vira e ouvira de sua mãe. E aquele momento acabou sendo tão tranquilo e sossegado que, quando menos perceberam, Brittany e Santana estavam cantarolando despreocupadas. O cheiro doce de shampoo de bebê mais que presente no ar.
(...)
O caminho até a casa dos Pierce foi preenchido de músicas como sempre, porém nenhuma das garotas sequer abriu a boca. O pensamento de ambas se encontrava muito longe dali. Ao passo em que Santana analisava todas as mudanças por qual passou assim que virou mãe, Brittany começou a pensar que talvez não fosse uma ideia tão boa assim levar a namorada para conhecer seus pais naquele momento. No que estava pensando? A probabilidade de dar tudo errado era enorme. ENORME. Sam e Kitty deram a maior força, mas, elas ainda tinham tempo de dar meia volta antes que fosse tarde demais. Brittany encostou o carro uma quadra antes, recebendo um olhar confuso da Lopez.
— Que foi, Britt? Tá tudo bem?
— Sim, eu tô bem. É só que talvez... Não seja uma boa ideia você conhecer meus pais agora. — A loira suspirou, insegura. — Te falei como eles são difíceis, San. Nada nunca tá bom pra eles, nada. Tenho medo do que pode acabar acontecendo com a gente se eles resolverem mostrar esse lado. Foi uma péssima ideia, desculpa.
— Ei, calma. — Santana segurou a mão dela. — Não acha que tá se precipitando um pouquinho, amor? Eu entendo o seu medo, mas acho válido a gente tentar. E se der tudo errado, tudo bem, porque não vamos levar isso pro nosso relacionamento. O que acontecer por lá, fica por lá. Confio na gente, você não?
— Claro que sim! — Ela abriu um sorriso e puxou a outra para um beijo terno, distribuindo vários beijinhos na bochecha dela ao final. — Que pergunta...
Santana riu, ao passo em que mexia no cabelo da namorada, e então rebateu:
— Não sou eu que tô surtando aqui, licença.
— Tem razão, tem razão. — A dos olhos azuis contornou o rosto da morena com os dedos e puxou o queixo dela, dando-a um selinho acentuado. — Eu te amo.
— E eu amo você...
Elas deram outro beijo e mais outro e outro, até Brittany se afastar mais confiante que nunca.
— Ok, vamos nessa!
(...)
Frank e Liza estavam ansiosos para conhecer Santana, contudo, não sabiam dizer se isso era bom ou não, afinal: não faziam ideia do que esperar pela frente. E seria mentira se dissessem que estavam amando o fato de Brittany estar namorando uma mulher tão jovem que acabara de virar mãe, porque passava longe disso. Ainda assim, estavam dispostos a conhecê-la sem tantos julgamentos. Queriam entender o motivo que levou a filha deles a se interessar pela moça, além, é claro, dela ter servido de inspiração para história de quadrinhos da menina Pierce.
O perigo de alguém sair daquele relacionamento de coração partido era grande na visão dos mais velhos, principalmente porque Brittany não estava se comprometendo só com Santana, mas com a filha dela também e o que aconteceria se, em algum momento, elas resolvessem se separar? Muita coisa estava em jogo. Eles conseguiam ver como Brittany estava eufórica com todo aquele universo novo envolvendo a criação de um bebê, só esperavam que não fosse passageiro. Em relação a Santana, ainda não podiam opinar já que até aquele instante não a conheciam, porém esperavam que, pelo menos, fosse recíproco.
Se aquele namoro não tivesse estrutura o bastante para durar, era melhor que acabasse de uma vez antes que as coisas ficassem intensas demais. Agora, se fosse o caso de durar, eles torceriam verdadeiramente por elas. Apesar de acharem que Brittany não era lá muito boa em fazer escolhas na vida, se isso a fizesse bem e ela continuasse inspirada e tudo mais no trabalho, só tinham a aceitar. Mesmo que não gostassem da Lopez.
— Eu não sei o que pensar. — Liza comentou com o marido, enquanto eles esperavam por Brittany e Santana. — Sobre a garota, quero dizer.
— Também não sei. — Frank admitiu, olhando para o relógio em seu pulso. Já havia passado uns quinze minutos, desde a hora combinada. — Aliás... Acho muito provável que elas tenham mudado de ideia no meio do caminho, querida. Não vamos criar muita expectativa.
— Você acha?
— Você não?
A campainha tocou.
— Ufa, que alívio! — A mulher disse, levantando-se. — Devem ser elas.
— Espero que sim...
— Lembra do que combinados, querido?
— Claro. Lembro sim.
— Ok. — Ela foi atender a porta e o Sr. Pierce foi logo atrás. Quando se depararam com Brittany e Santana, Liza abriu um sorriso tão grande que parecia estar dentro de um comercial. — Feliz ação de graças! Sejam muito bem-vindas!
— Olá! — Frank acenou, imitando o sorriso da esposa.
— Pai, mãe... — Brittany os cumprimentou, notando instantaneamente o sorriso um tanto quanto forçado dos mais velhos, mas tentou não se prender muito nisso. — Essa é Santana. Santana, esses são meus pais Frank e Liza.
— É um prazer conhecê-los, feliz ação de graças...
— Igualmente.
— Entrem, por favor. — O Sr. Pierce pediu, fechando a porta na sequência. Depois de irem lavar as mãos, os quatro andaram até a cozinha, sentando-se à mesa em silêncio. Frank propôs uma oração e começou: — Senhor, muito obrigado por permitir que eu e minha esposa passemos este feriado com nossa filha e sua nova namorada. Abençoai este alimento que vamos comer para que, assim, possamos continuar conservando a saúde e a vida do nosso corpo. Amém.
As mulheres repetiram o “amém” e, em alguns segundos, todos estavam comendo o banquete de Ação de Graças. A princípio, nem Liza nem Frank puxaram muito assunto, mas, foi só eles irem terminando de comer que o festival de perguntas começou.
— Então, Santana, Brittany nos contou que você fazia faculdade e trancou por conta da gravidez... — Liza jogou no ar. — Pretende voltar a estudar?
— Sim, pretendo. Em alguns meses.
— E o que fazia mesmo? — Frank perguntou.
— Linguística.
— Ah, é uma área interessante. — A Pierce mais velha comentou. — Mas, onde você se vê no futuro depois que estiver formada?
Brittany ficou um pouco tensa com aquela pergunta, mas assim que sentiu a mão da namorada envolver a sua por debaixo da mesa, relaxou.
— Bom, eu já me vi na carreira acadêmica. Já me vi como linguista forense. Hoje em dia, eu tô trabalhando na Glee Comics com a Britt e percebi que essa área tem muito mais a oferecer pra mim. Acho que não consigo me ver em um só lugar agora.
— Entendo...
— E seus pais? — Frank voltou ao interrogatório. — Eles trabalham com o que?
— Medicina. Minha mãe é clínica geral e meu pai socorrista.
— E eles são casados? — Liza quis saber.
— São, há vinte e três anos.
— Isso é bom...
— Você pretende se casar algum dia? — O pai da desenhista indagou. — Tem planos?
Brittany ficou tensa, outra vez. Estavam analisando Santana. Eles sempre faziam isso.
— Eu não sei. Acho que quando for o momento, eu vou saber.
— Faz sentido.
— E quanto ao pai da sua filha, ele estuda? — Foi a vez de Liza perguntar.
— Sim. Faz faculdade de Direito.
— E vocês terminaram bem, são amigos? — Frank continuou pela esposa.
— Nós somos. Felizmente, nunca tive um relacionamento que acabasse mal. O Sebastian e a Brittany viraram os melhores amigos, inclusive. Ele também já tá em outro namoro e conta mais coisas pra Britt do que pra mim, é engraçado.
Frank e Liza se entreolharam instantaneamente, gostaram daquele detalhe. De fato, Santana se mostrava uma pessoa bastante agradável. Parecia extremamente aberta para dialogar sobre qualquer coisa.
— E a bebê, quando vamos conhecê-la? — A mãe da loira perguntou.
— Vamos com calma, gente. — A dos olhos azuis pediu, dando uma leve risada nervosa. — Elizabeth ainda é muito pequena.
— Verdade. — Frank assentiu. — Foi no começo desse mês que ela nasceu, né?
— Sim, dia 3. — Santana confirmou.
— Foi parto natural? — Liza quis saber, nada discreta.
— Mãe...
Brittany franziu as sobrancelhas, incomodada com o nível de intromissão.
— Tudo bem, Britt. — A morena a tranquilizou, despreocupada. Logo, voltou a encarar o casal. — Sim, foi. E deu tudo certo, ainda bem. Nem cheguei a tomar anestesia, embora achasse que fosse morrer. A Brittany estar lá comigo fez toda a diferença.
— Você é uma guerreira! — Liza sorriu. — Que Deus abençoe!
— Que Deus abençoe. — Frank repetiu, erguendo o copo. Deu um gole em sua bebida. — Vamos a sobremesa?
— Claro.
O resto daquele almoço de Ação de Graças correu tão calmamente, que Brittany mal reconheceu seus pais. Aparentemente, estavam gostando de Santana. Isso era bom.
(...)
Mais tarde, já na residência dos Lopez, Santana terminava de amamentar Elizabeth com calma, enquanto Brittany permanecia do seu lado, uma mão acariciando suas costas e outra à da bebê.
— Parece que deu tudo certo hoje, né...
— Pois é, Pierce. — A latina abriu um sorriso. — Achei que seus pais fossem assustadores. Mas, eles pareceram muito normais pra mim.
— Então, até eu me surpreendi. Esse não é o normal deles, acredite. Pelo jeito gostaram mesmo de você... E como não gostar? É irresistível.
— Que nem você? — Santana riu.
— Definitivamente, mais que eu. Bem mais.
— Olha só, que honra a minha! — Ela recebeu um selinho da namorada e em alguns minutos, as duas cantaram e levaram a bebê até seu berço. Santana beijou a pequena e a repousou em seu colchãozinho. — Boa noite, mi amor.
— Boa noite, Lizzie.
Brittany sorriu e afagou o rosto da bebê. Depois, puxou Santana consigo para fora do cômodo até o quarto da morena. Lá, elas se aconchegaram na cama e a loira encheu a namorada de beijos.
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