Névoa de Guerra
10 Um pandemônio para embriagados
Notas iniciais
Miss Fortune
– Briga! Briga! – Os clientes no bar berravam. Alguns bêbados, alguns jovens demais e outros que estavam ali só por curiosidade. Havia uma pequena multidão do lado de fora da taverna também. – Enche ele de porrada, Fate! – Um calvo bêbado gritou, atirando uma garrafa vazia bem ao lado de Graves, que desviou por pouco.
Miss Fortune assistia a tudo aquilo divertida. O que começara como um embate verbal virou uma grande baderna ao clamor da multidão por violência. Twisted Fate e Malcolm Graves se encaravam em um silêncio perturbador, que era seriamente criticado pelos expectadores sedentos por sangue. A ruiva enrolava os cabelos com os dedos quando Twisted Fate atirou a primeira carta.
Todos arregalaram os olhos ao ver o mago paralisar o homem armado com apenas um valete brilhante. Então o deck é realmente mágico, Fortune pensou, erguendo-se ligeiramente da cadeira. Ouvi dizer que o não-cartomante pagou um preço de sangue para aprender magia. Estático e ligeiramente surpreso, Graves virou-se para seu rival com intensa malícia no olhar.
– Bem que me contaram sobre isso. Ouvi dizer que você me entregou pra poder virar uma fada.
Twisted Fate riu de leve, separando uma carta vermelha de seu jogo.
– Sim, e me disseram que você virou a mulher de uma cambada de presos.
Quase todos no restaurante riram daquela resposta, e Miss Fortune percebeu a gravidade da situação. Todos aqui estão do lado do não-cartomante. Mesmo que Graves sobreviva às mãos de Twisted Fate, não acho que estes homens o pouparão. Ela suou com a expectativa. Pelo papo deles, acho que o mago entregou Graves a alguma autoridade em troca de aprendizado em magia.
Traição.
Este é o preço de sangue?
Livre do feitiço da carta amarela, Malcolm Graves desviou-se rudemente das outras cartas lançadas, atirando sempre que tinha chance. A ruiva observava a arma aflita. Mas que merda de arma é essa? O tiro é bem forte, mas... ele só foi à loja do velho Pelt pra comprar balas?
– Ainda com essa velharia, Malcolm? – Fate bradou, girando habilmente enquanto arremessava cartas de diversas cores no atirador, que desviava delas com impressionante facilidade. – O coice é forte, o intervalo entre os tiros é longo, e ainda assim... – O mago repentinamente agachou, e Fortune engasgou quando o chapéu do homem voou até seu lado, com um furo de bala bem no topo. Os expectadores na porta gritaram de tensão, e várias garrafas se quebraram ao serem jogadas no piso de madeira, em protesto.
– Fale menos e lute mais, amigo. – Graves disse com um dos tons mais camaradas que a ruiva já tinha ouvido. Twisted Fate não pareceu gostar nada daquilo.
– Não há nenhum amigo seu aqui. – O mago cartomante respondeu, erguendo-se lentamente. Graves pigarreou.
– Me poupe do seu drama! – Malcolm largou o gatilho de sua arma e usou a mão livre para agarrar Fate pelo colarinho. Miss Fortune viu um homem entrando para defender o mago, mas parou quando a ruiva apontou a arma para ele. “Mais um passo e seus miolos vão virar tapete”, ela disse. Os dois rivais se encarando no balcão da taverna tinham fogo nos olhos.
– Por que magia? Isso é coisa de maricas. – Graves rosnou, fechando ainda mais o punho no colarinho do não-cartomante, que o encarava indiferente. – Se tivesse me entregado pra aprender alguma arte secreta da esgrima ou qualquer merda dessas, eu entenderia, mas mágica com cartinhas? Você usava facas e apostava em jogos na minha época!
– A magia me dá mais chances de sobreviver. Como pode ver, pude paralisá-lo antes que se aproximasse de mim. É a sobrevivência que eu busco, velho parceiro. – Disse Twisted Fate, rindo com uma estranha frieza. – Pra matar com facas, eu tinha que me aproximar demais. Com a magia, meus oponentes caem antes mesmo de me arrancarem sangue.
– No dia que me mandou preso, deve ter perdido as bolas junto com a dignidade.
Meia parte da multidão riu, e a outra parte quis brigar com quem estava rindo. Piratas imundos, sequer sabem de que lado estão. Assim como eu. O passado dos homens a fez se lembrar de um momento em sua adolescência, quando realmente se sentiu uma pirata feita. A menina Sarah estava servindo como tripulante no mesmo navio desde que abandonara seu lar e o corpo de sua mãe. A nau Curvas da Sereia era pobre em pilhagens e homens. Ninguém era amoroso com a jovem, mas também não eram cruéis. Ela até se afeiçoou com o talentoso cozinheiro Buck, ou aquele jovem dos mapas que tinha dentes amarelos. No Golfo de Noxus, foram abordados por Névoa de Guerra, uma imponente caravela zaunita. A humilde tripulação do Curvas da Sereia, com munição ainda mais humilde, não teve chances contra as armas biológicas de Zaun. Trêmula sobre o que restara do casco da nau, Sarah e seus velhos companheiros observavam a respiração virar um vapor claro no ar frio da noite. Os zaunitas logo foram até ela, fazendo questão de tocar seu decote. "Morra de frio com sua tripulação ou venha esquentar a minha", disse o capitão do Névoa de Guerra, sorrindo com dois dentes de ouro e a cabeça careca coberta por uma fina camada de neve.
Naquela noite, esfaqueou cada homem que tentou tomá-la.
– Assistir os meninos brigarem tem sido bem divertido, porém tenho dívidas pra quitar. – Miss Fortune disse, apontando suas pistolas para os dois homens. Tanto os alvos quanto os bêbados que assistiam o embate berraram de choque. Um careca com uma túnica rasgada e os ouvidos cheios de brincos levou um tiro antes de alcançar a ruiva.
– Fortune! O que pensa que está fazendo? – Graves berrou, observando as pistolas da mulher, totalmente apontadas para a cabeça de cada um dos rivais. – Tínhamos um trato!
– Tratando até com mulheres, Malcolm? Depois eu é que não tenho dignidade. – O mago cartomante disse, e logo levou um chute de Graves. Miss Fortune gritou para ambos ficarem parados e limpou a garganta.
– Eu apenas mantive o mago dentro da taverna, como me pediu. Nunca disse que poderia confiar em mim. – Ela riu da expressão assustada dos homens. Não há prazer maior que o de ver sua presa mordendo a isca. – Vocês andam bem baderneiros. A Liga ofereceu uma bela recompensa por vocês.
– Que diabo é Liga? – Graves disse, e em seguida gritou de susto ao ver a multidão de expectadores ser derrubada aos poucos. Alguns levavam tiros, outros eram nocauteados, mas no fim só um bando mais bem vestido de piratas caminhou para dentro da taverna, amarrando Malcolm e Twisted Fate. – Quem é essa gente?
– Não acredito que ela o trouxe. – O cartomante resmungou, cuspindo no piso de carvalho.
– Não se preocupe, caro Graves. É nossa carona pra Valoran. – Miss Fortune disse, inclinando a cabeça na direção de um homem com uma túnica vermelha surrada e uma barba castanha bem cultivada. Sobre sua cabeça, o imponente chapéu de capitão. Ele resmungou quando a viu. – Não é mesmo, Gangplank?
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