Névoa de Guerra
14 Os loucos de Zaun - 2
Notas iniciais
Jinx
Sair de Zaun não estava sendo fácil como Jinx previu. Aparentemente aquelas policiais idiotas de Piltover tinham dado um alerta pras autoridades zaunitas sobre a foragida, e agora as saídas estavam vigiadas. A garota pigarreou, jogando a lata do refrigerante que bebia bem no outro lado da rua.
– Ah, Mundinho. — Jinx lamentou para o gigante roxo a seu lado, que parecia entretido amolando seu cutelo sentado na calçada acidentada. — Eles têm mais armas que a gente. E se eu nunca mais conseguir sair de Zaun? — Ela bateu o pé direito no chão, frustrada. — Preciso voltar pra Piltover! Eu quero aquelas mãos maneiras!
– Mundo ter mãos maneiras! — Disse seu ouvinte, erguendo seus punhos roxos e inumanos. Ela negou com a cabeça, sentando-se a seu lado e com sua metralhadora apoiada encima de Fishbones no chão.
– Ouvi dizer que Noxus tá te querendo lá, por causa desses lances que você fez no seu laboratório. — Jinx falou num tom cabisbaixo. Mundo sorriu com aquilo, mas nenhum sorriso daquela criatura era agradável. — Que bom pra você, Mundinho.
Além da auto-bajulação que veio em seguida, nenhum dos dois falou algo relevante por vários minutos. Jinx observava as estruturas ao redor: edifícios com paredes repletas de umidade, o enorme polo industrial cujos tentáculos se estendiam até o subúrbio, enchendo a paisagem com motores, encanação e chaminés. Ela já estava quase dormindo enquanto observava o céu alaranjado quando Mundo a sacudiu.
– Mundo ser gênio! Mundo ter amigos da ciência, ele tem sim!
– Ahn? Amigos da ciência? — Jinx indagou, bocejando. O gigante a ergueu com uma mão só e começou a caminhar depressa, carregando-a no ombro esquerdo como se a garota fosse uma sacolinha de pão. — Hãã?! Me explica isso aí!
– O cientista baixinho que o Mundo conheceu vai tirar a gente de Zaun! — Mundo exclamou, começando a correr. Alcançaram um beco iluminado apenas por umas lâmpadas a óleo. Jinx se surpreendeu ao ver que a iluminação melhorava conforme eles avançavam, e a primeira criança apareceu.
– Um pirralho nesse lugar? O mundo tá perdido. — A garota bufou. Passou a mão esquerda na cintura e notou que apenas seu revólver estava lá. — AH! Fishbones! Minha metralhadora! A gente deixou na calçada!
– Mundo volta lá depois! Ele quer mostrar amigos cientistas! — o outro respondeu, ignorando os socos que a garota desferia em seu peito junto a gritos agudos de fúria. — Não quero saber de amigos cientistas! — Jinx berrou. — Quero a Fish...
Ela foi interrompida por uma vista incomum na Cidade dos Privilégios.
No final do beco, abriu-se o caminho para uma praça lotada de crianças e adolescentes. Quase todos pararam para olhar os intrusos, e outros foram até eles pedindo esmola. Mundo os afastou e perguntou sobre "menino cientista". Jinx observou bem o lugar com uma expressão assustada. O chão ladrilhado tinha várias poças. Meninas desarrumadas, rapazes tentando encaixar encanações, crianças com partes mecânicas no corpo, diversas lâmpadas com cores frias e uma parede longe no horizonte estava pintada com faces, iluminadas pelas várias velas no local.
– Onde a gente tá? — Ela conseguiu dizer, ainda pasma. Mundo a colocou no chão, reclamando de dor no braço. Uma menina de cabelos desgrenhados veio respondê-la.
– Está aonde nós, crianças perdidas, nos concentramos. — A menina olhou para Mundo, um pouco intimidada. — Vou te levar até o Ekko.
– Ekko? — Jinx repetiu com uma careta confusa. — Quem dá um nome desses pra uma pessoa? Parece Eca.
Aquele simples comentário fez Mundo rir até engasgar, e a menina-guia ficou claramente constrangida. Andou lentamente até um edifício velho e com estruturas metálicas enferrujadas. Do lado de dentro, Jinx viu uma enorme janela embaçada pela idade e que não foi vista do lado de fora por estar do lado oposto à entrada, provavelmente. Embaixo daquela imensa janela e perto de vários papéis com desenhos de projetos, um garoto com um moicano branco e chamativo usando um par de óculos de proteção virou-se imediatamente para eles.
– Mundo? Quem é essa daí? — Ele indagou, aproximando-se cautelosamente. Uma pintura branca no seu nariz se expandia na testa, e por um momento Jinx não se sentiu satisfeita tendo só tatuagens.
– Jinx é amiga do Mundo! — Falou o cientista louco, apontando para a garota de cabelos azuis. A menina que os trouxe coçou a cabeça por um longo momento antes de dizer ao rapaz que o Dr. Mundo tinha chegado lá perguntando por ele. Quando ela se retirou, Jinx bateu as mãos como se estivesse retomando uma reunião.
– Você é o tal Eca?
– Ekko. — O rapaz corrigiu, sentando na larga escrivaninha coberta de papéis. Suas roupas eram basicamente trapos — um cachecol vermelho e de tecido fino, uma camisa amarela e desbotada e calças largas demais. Suas botas e avental tinham manchas recentes de óleo. Ele tirou os óculos e os apoiou no cachecol, revelando olhos castanhos e cansados. O típico zaunita. — Faz tempo, hein, Mundo. Achei que estivesse em Noxus.
– O Mundo só vai pra Noxus semana que vem. Mundo tá ansioso. — Exclamou o gigante, pondo as mãos na cintura orgulhosamente. Jinx estava atraída por um aparelho semelhante a uma ampulheta numa escrivaninha menor na outra extremidade da sala, que tinha uma suave luz azul. Ekko revirou os olhos ao ouvir o homem.
– Você só quer saber de sair daqui. Mas tudo bem, os noxianos são dos nossos, afinal. — Ele limpou as mãos nos joelhos e pareceu finalmente perceber Jinx. Ele observou-a por um tempo, estranhando a cabeleira azul, e percebeu como ela olhava para o outro lado da sala.
– É aquilo que chama sua atenção? — Ekko perguntou, apontando para o motor que Jinx admirava.
– É sim. — Ela assentiu. — Ei! O Mundo disse que você pode ajudar a gente num lance.
Ekko deu de ombros, com um sorriso amigável.
– É só falar.
– Ótimo! — Jinx exclamou num gritinho agudo. — Tá, er... eu meio que preciso sair daqui. De Zaun, eu digo. Só que tem uns soldados de Piltover protegendo lá, eles tão atrás de mim e tal. Se tem algo que você-
– Espera, espera, espera. — O garoto disse com uma expressão aflita, erguendo as mãos. Ele se virou e recolheu um papel que estava entre os vários jogados na escrivaninha. Nele estava estampado um retrato de Jinx, junto com um PROCURADO enorme embaixo. — Você é essa aqui?
Jinx arregalou os olhos numa feição digna de alguém que tinha recebido uma festa surpresa. Ela deu gritinhos e pulinhos, cantarolando para Mundo sobre como era agora uma criminosa das grandes. O louco a bajulava de "melhor pior criminosa da cidade". Ekko piscou repetidamente em confusão.
– Você... gosta de estar sendo procurada pelos tiras? — Disse o rapaz, coçando a cabeça.
– Eu amo! — Ela bradou, girando uma trança. — Ah, você deve tá bem confuso. Vou explicar. É que um dia desses, tipo, uns dois meses né, eu entrei em Piltover e quebrei umas coisinhas. Prédios, pessoas, as coisas de sempre. — Ela tossiu elegantemente. — Daí uns policiais me prenderam, só que eu não tava despreparada. Tinha uma policial com umas mãos enormes que tava lá quando eu fui presa, e ela nem percebeu quando eu coloquei as nanobombas naquelas mãos robóticas iradas que ela tem. Daí quando eu tava na prisão, essa mesma policial me visitou, me perguntou umas paradas, só que aí eu percebi que ela realmente ia ficar lá durante o restinho das 2 horas que a bomba tinha pra explodir. E explodiu mesmo! Aí acabou derrubando as paredes e a parede da minha cela também. Eu me machuquei, tive a pior escoriação de todos os tempos no joelho, como pode notar por esse curativo que tá aí até hoje. — Ela limpou a garganta, rindo com a expressão de Ekko enquanto ouvia sua história. — Vou resumir, tá? Eu fui pra Piltover, fiz merda, fui presa, explodi a prisão, fugi de lá, vim pra cá, eles fortaleceram as fronteiras, eu quero voltar lá pra pegar umas mãos robóticas e agora não posso porque sou prioridade deles e 3 armas contra o exército nas saídas da cidade não é algo muito útil. Mundo disse que você pode ajudar.
O mencionado cientista só pareceu ter prestado atenção ao ouvir o próprio nome. Ekko engoliu em seco, com um sorriso de interesse.
– Já sei o que posso fazer por você. — Falou o rapaz, descendo da escrivaninha e indo até a máquina que Jinx admirava há pouco. A garota o acompanhou, ouvindo-o atentamente.- Isso aqui se chama Zero-Drive, mas eu o chamo só de Z-Drive mesmo. — Ao lado do Zero-Drive havia uma espécie de manopla mecânica com um botão saliente. Ekko ergueu o motor, e Jinx notou que não havia só metal ali. Um cinto de couro desbotado prendia dois lados da máquina, e o rapaz vestiu o cinto por cima de seu avental manchado.
– Parece pesado. — Jinx comentou, com o dedo na boca aberta, desejando substituir sua velha metralhadora por aquilo.
– Nem tanto. — O garoto respondeu, esfregando os cabelos brancos com uma naturalidade que fez Jinx deduzir que aquilo era uma mania. Ele virou-se para a garota ver a máquina totalmente vestida nele. — Talvez você não acredite, mas muitos não acreditam de primeira. O Z-Drive foi invenção totalmente minha, e foi feito pra voltar no tempo.
– QUÊ? — Jinx berrou, incrédula. — Tá brincando!
– Hehe. — Ekko riu, como se previsse o comentário da garota. — Eu até faria uma demonstração, mas você não se lembraria por causa da mudança na linha do tempo.
– Não entendi nada do que você disse, mas soa maneiro. — Disse Jinx, sorrindo e com os olhos cintilando. — Ei Mundo, no que você acha que voltar no tempo pode ajudar a gente?
– Jinx não pensar direito. — Falou o cientista louco, com um pigarro de decepção. — Facinho. Jinx e o Ekko vão lá na fronteira, eles tentam passar, e se der errado eles voltam no tempo pra tentar de novo. Mundo achar Jinx lerdinha.
Ofendida, a garota se voltou para Ekko, que aparentemente a esteve observando, pois virou o rosto ao notar que ela o vira.
– Eu ainda tô aprendendo a entender o dialetozinho dele. — Jinx admitiu, com uma feição derrotada. — Traduz aí pra mim.
– É simples. — O rapaz retornou à escrivaninha no outro extremo da sala, onde havia a imensa papelada. Em um dos papéis, passou a anotar o que falava. Aquele edifício devia estar abandonado há muito tempo, pois a única iluminação vinha da janela e de uma lâmpada no corredor, e já havia passado do pôr do sol. — Pelo visto nosso plano inicial é o seguinte: Vamos pra fronteira. Lá, pelo que os jornais dizem, tem um esquadrão de Piltover pronto para checar os viajantes, pois procuram você, a mais nova terrorista. E somos só três, sendo que eu só tenho uma espada, e isso num sentido muito figurado, porque nem laminada ela é. Você tem três armas de fogo e o mundo tem um cutelo e músculos. Nossos inimigos são a polícia alfandegária de Zaun e um pouco de forças de Piltover, e isso já deve somar muitas armas, então nem dá pra gente cogitar um conflito. Então meu plano é a gente tentar passar pacificamente primeiro. Você é uma figura caricaturada, então tenta esconder esse cabelo, uma maquiagem deve ajudar também. Podíamos até fingir que vamos com o Mundo, já que ele foi convidado a ir pra Noxus. Se esse plano der errado, e eles nos interceptarem, com certeza vão nos apreender, e aí eu uso meu Z-Drive pra voltar alguns minutos no tempo e poderemos refazer a estratégia. E aí?
Jinx encolheu os ombros, sorrindo com uma cara boba de admiração e confusão. Ela girou a trança esquerda avidamente.
– Só entendi a parte de que a gente volta no tempo se der merda. — Ela admitiu com uma risada amarela. Ekko pôs a palma da mão contra a face, incrédulo com a capacidade intelectual duvidosa daquela garota. Após divagar um pouco sobre a situação, Jinx levantou a mão para fazer uma pergunta. — Me fala uma coisa, Eca. Há meia hora atrás eu tava zoando seu cabelo mentalmente, e agora a gente tá bolando planos pra passar a perna nos policiais. Apesar do Mundo estar aqui, por que você tá ajudando uma estranha?
Dr. Mundo virou-se pro rapaz com as sobrancelhas erguidas, aparentemente também interessado na resposta. Ekko pôs a mão direita atrás da cabeça, respirando fundo.
– Você é bonitinha. — Ele falou, e riu com a cara insatisfeita de Jinx, que mostrou a língua pra ele. — E, bem... Não é sempre que aparece a oportunidade de acabar com Piltover.
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