Névoa de Guerra

3 Os desonrados de Ionia


Notas iniciais
Asaryo!

Yasuo

As pessoas nunca querem morrer. Aprendera isso na noite passada, quando pôs a própria espada contra a sensível pele do pescoço, achando que estava preparado. Não estava. Nunca esteve. Nunca estaria. Somos seres vivos, e não temos esse nome à toa, divagou, observando o saquê mover-se no copo que ele balançava. Morrer não faz parte da nossa lista de necessidades. Quando fechou os olhos e sentiu a lâmina fria contra a pele quente, uma dúzia de pensamentos lhe veio à mente, sem permissão ou preparo. Via pessoas, amigos, filhos, amantes, paisagens, histórias, músicas, um universo de coisas que ele perderia se morresse. E, principalmente, um pânico inexplicável. O mais primitivo dos instintos berrando não quero morrer no fundo de sua mente. Pensar naquilo o fazia suar frio, e bebia para tentar esquecer a tentativa de suicídio. Pigarreou ao ver a garrafa esvaziar.

Com a bebida vinha o sono, e um sono de ressaca, não os sonos comuns. A ressaca não dá espaço para sonhos, e os sonhos de Yasuo não o agradavam. A maioria de seus pesadelos era protagonizada pelo seu irmão, morto por suas próprias mãos. Não pense nisso, disse a si mesmo. Só durma. Estava num navio que ia para Noxus, onde ele pretendia encontrar o assassino que virou sua vida ao avesso. De acordo com sua lógica, o homem certamente estaria em sua terra natal. Não há por que o cara ter ficado no lugar onde matou alguém, certo?

O sono de bebida, porém, durou pouco, e após uma hora e meia de uma soneca bagunçada, Yasuo levantou-se e saiu ao convés, buscando ar fresco. Só o que teve foi uma brisa quente e impregnada com o cheiro de sal, que deixava a pele estranhamente oleosa. Pôs a mão rapidamente sobre a espada embainhada ao notar que não estava sozinho no lado de fora. Nada bom. Pessoas não dormem quando têm culpa, e excesso de culpa num navio, onde não há pra onde fugir, é perigoso. O fato de toda aquela gente estar indo pra Noxus o inquietava ainda mais. Ou eram ionianos raivosos em busca de um banho de sangue, ou noxianos voltando pra casa. Não sabia de qual gostava menos.

Para quê ter medo? Se eu não morrer aqui, morrerei em Noxus. Naquela manhã estivera intensamente motivado a viver, e comprara uma passagem num navio que ia até Noxus. Repetira a si mesmo a razão daquela viagem inúmeras vezes. Encontre o assassino, só isso. Só encontre ele e aí pode morrer. Ouvira alguns aldeões ionianos comentando sobre uma pessoa com uma grande espada, que manipulava o vento e se chamava Riven. Um cavaleiro exilado de Noxus, esse Riven, Yasuo pensou, coçando o queixo com os cotovelos apoiados nas bordas frias do convés. Noxianos não gostam de exilados ou desertores. Se eu não o matar, talvez o general Darius o mate. Noxus era conhecida por não tolerar traidores ou desertores — principalmente o segundo tipo. Se você morre em batalha, é porque não merece viver, ou algo assim. Noxianos são uns doentes.

Seus pensamentos foram bruscamente interrompidos por um estrondo. Olhou para trás, de olhos arregalados, e viu um estranho homem se erguendo de uma recente queda no piso de madeira. As unhas afiadas em suas mãos e pés deixaram leves rastros no chão. Um homem muito estranho. Seus cabelos eram tão brancos quanto sua pele, esta que escurecia nas mãos. Suas pernas eram revestidas até a virilha por algum tipo de pelo, ou um material que Yasuo desconhecia. Ainda se perguntava o que era aquela pessoa quando um enorme ioniano apareceu na porta de onde o homem estranho provavelmente foi chutado.

Você!– O enorme ioniano calvo numa túnica verde e suja gritou, andando lentamente até o homem estranho. — Desgraçado. Preferiu o templo à nossa vila! Sim, eu morava lá. Os noxianos acabaram com tudo num piscar de olhos. E você, o único guerreiro experiente que tínhamos, todo quietinho na beira do poço. — Já erguia as enormes mãos cicatrizadas para ferir o homem estranho, que permaneceu imóvel, mas quatro homens de origens desconhecidas o seguraram. — Me soltem! Vou quebrar esse pescocinho com a facilidade que quebro um osso de galinha.

Quando o grandão foi levado ao capitão, a multidão se afastou, mas o homem estranho permaneceu meio curvado, como se à espera de um ataque. Yasuo viu um longo cachecol vermelho espalhado ao redor do homem, que não parecia vê-lo, embora a cor fosse intensa e o acessório, chamativo. Lentamente, Yasuo abaixou-se para pegar o cachecol, e o estendeu para o homem.

– É seu? — perguntou, tentando evitar os olhos mortos do outro.

O homem estranho o aceitou e curvou-se com gratidão, sem dizer uma palavra. Yasuo sentiu um arrepio na espinha. Deste homem não virão coisas boas.

– Vai pra Noxus também? — o samurai perguntou, tentando induzir o homem a falar. Mas a resposta foi um olhar repleto de descrença. É como se disesse 'óbvio'. — Não precisa responder se não quiser. — continuou, constrangido. De repente o convés pareceu mais frio. — Ionianos não vão pra Noxus com frequência. Perguntei por curiosidade, porque é bem raro ver gente de Ionia lá, principalmente por causa dos ataques...

– Então por que você está indo?

A voz do homem era alterada. Parecia criar um eco próprio, uma coisa sinistra que atraiu a atenção de todos os que restavam no convés. Yasuo pode sentir vários olhos sobre ambos. E de repente eu movi as peças contra mim. Se dissesse as palavras erradas, o tomariam por um noxiano, ou o humilhariam por ter razões tolas. Isto é, a população ioniana do navio. Se abrisse o jogo e dissesse Vou matar um noxiano e talvez o líder dele, a secreta tripulação de Noxus reportaria aquilo para seu general, ou dariam um fim nele ali mesmo. Só conseguiu pensar na resposta mais infantil que poderia conseguir.

– Não é da sua conta.

Abandonou o convés a passos largos, ansioso para sair dali e jamais ouvir a voz daquele homem novamente.

Automaticamente foi até as cozinhas, o local mais quente do navio, com três mesas apertadas em um cômodo ainda mais apertado. Pediu uma taça de vinho ao marujo responsável, que demorou em lhe trazer. Durante a espera, uma esbelta mulher de pele bronzeada e cabelos brancos entrou e pediu o mesmo que ele.

– Pelo visto, há até fila para tomar umazinha. — ela disse, rindo, quando Yasuo lhe disse que havia pedido vinho e ainda estava esperando. O marujo chegou pouco depois da mulher, e encheu os copos de ambos com um vinho vindo de uma garrafa verde bastante arranhada. Yasuo e a mulher se sentaram na mesma mesa, conversando sobre coisas fúteis.

Quando percebeu que estava sonolento, o samurai teve um pequeno medo de dizer mais do que devia, e levantou-se lentamente.

– Já vou indo. Você é... Ra...

– Raven. — ela disse, um tanto depressa, fazendo cachos em seus cabelos brancos com o dedo indicador da mão esquerda.

– Raven. — ele se curvou à maneira ioniana, como se curvara mil vezes antes a seus companheiros de dojo. — Adeus. Aliás, antes de ir, gostaria de saber: Você é de onde? Não tem nem um pouco da aparência ioniana, sem ofensas.

Ela se mexeu desconfortavelmente na apertada cadeira de carvalho. Parou de cachear os cabelos e girou o copo vazio que estava sobre a mesa com o indicador da mão que fazia os cachos. Yasuo teve outro arrepio na espinha ao olhar em seus olhos claros, que estavam claramente aflitos. Alisou a bainha da espada.

– Não sou de Ionia. Não pertenço a lugar algum. Não mais.

Notas finais
Hasagi!