Névoa de Guerra
11 Irmãos em Ionia
Notas iniciais
Naquele dia, sobre as pedras úmidas na Colina dos Deuses, eu e meu irmão separamos nossos caminhos. Não insinuo que saímos andando para lados opostos da trilha de pedras. Apenas deixamos bem claro que jamais pensaríamos igual, por mais que eu tentasse.
Era outono, e Navori fica estonteante nessa época do ano. Eu tinha prometido ao meu irmão que se ele aprendesse a ler e escrever, eu juntaria todas as minhas finanças para fazermos uma viagem às montanhas — e foi na Colina, ao som da cachoeira e dos passos sobre o riacho sob nossos pés, que meu caçula disse o que eu mais temia.
"O dojo me cansa, e a alfabetização também. Pelos deuses, não quero ser um samurai. Me deixe ser dono de mim mesmo." Disse meu irmãozinho. Na hora eu somente o observava com um sorriso enquanto ele praticava golpes de espada em uma árvore, mas quando ele disse aquilo, pude sentir meu riso se desmanchar instantaneamente.
"Não pode. A Espada será boa pra você, meu irmão. É um caminho de interminável aprendizado." Eu respondi, tentando manter a tranquilidade na voz. O grunhido de desdém do meu irmão não ajudou muito. "O fará entender que poupar vidas tem maior valor e significado que um assassinato. Vai ajudá-lo a ficar sempre calmo e pensar bastante antes de erguer a lâmina."
"Mas é isso que eu quero!" O menino bradou, cortando um galho do pessegueiro, seguido pelo suave assovio da lâmina no ar. Eu o encarei de cenho franzido. "Para de me olhar dessa forma. Você sabe muito bem que eu nasci para a batalha." Ele cortou mais um galho, como se cada pedaço de madeira fosse minhas expectativas. E, deuses, foi exatamente o que aconteceu com elas. "Não quero que a lâmina seja contida. Você e os anciões veneram a paz de espírito etc, falam sobre o equilíbrio no caminho da espada. Mas não esqueçam que a lâmina não é feita pra isso." Ele cortou um galho maior, que partiu-se no chão com um grande baque. "A lâmina foi feita para cortar, e bainhas foram feitas para serem desembainhadas. Minha espada terá sangue, não equilíbrio."
Me ergui da pedra onde estava sentado, tão aflito e irado que sequer tive um sinal de escorregar naquela superfície molhada. Meu irmão apontou a espada na direção da bainha em minha cintura.
"Não iremos duelar. Não agora." Eu concluí, pondo meus sapatos, que estavam quase caindo no riacho devido ao vento. "Continue no dojo. Treine com meus irmãos de espada. Fique bom no que faz. No futuro teremos um embate justo."
"Hm!" O riso mais orgulhoso que já vi surgiu na face de meu irmão enquanto ele amarrava os longos cabelos castanhos. "Feito. Espero que seu equilíbrio o ajude."
Anos são como navios: passam lentamente, mas se você não está prestando atenção, somem depressa. Meu irmão logo alcançou sua maioridade, muito tempo após nossa discussão em Navori. Naquela noite de aniversário, meu caçula e nossos irmãos de dojo festejaram bastante, lembro-me claramente do forte cheiro de saquê impregnado no dojo, ou os dois guerreiros que passaram mal de tanto comer peixe e ficaram jogados no tatame. Está se perguntando Mas e você, dedicado narrador? Não se uniu ao festim?, não está? Bem, enquanto os rapazes faziam a festa, eu fui atrás de algo que tinha uma influência muito mais duradoura que o saquê. Fui até o nosso Ancião para pedir-lhe uma semente de bordo. Embora eu temesse que meu irmão jamais fosse ver o real significado por trás de tão simples presente, pensei que talvez um pouco de menção à honra fosse fazê-lo acordar pra realidade.
Muito mais tarde, quando todos se retiraram para o descanso, fui até meu irmão, que estava sentado no tatame de seus aposentos, longe do colchão e surpreendentemente acordado, apesar do horário tardio. Quando eu entrei, ele olhou pra mim com uma satisfação que eu jamais pensei que veria naquele rosto imprudente. Me ajoelhei diante dele.
"Não achou que eu ia esquecer do seu dia, né?" Eu disse, rindo. Meu irmão riu junto, dizendo que quase pensou que eu ignoraria a sua maioridade. Coloquei um lenço enrolado encima do meu colo e o abri, revelando a semente. Não houve grande reação.
"Semente de bordo." Disse meu irmão, coçando os cabelos castanhos, meio sem graça. Aquele movimento me fez observar melhor sua cabeleira, que solta daquele jeito parecia quase selvagem. Encaixava-se perfeitamente à personalidade dele. "Ahn... Obrigado." Ele curvou-se levemente com o agradecimento. A decepção era visível em seu semblante, mas o que eu podia fazer? A semente não era só uma semente. Mas pensei que com o tempo ele entenderia.
Bons deuses, nunca estive tão errado.
Caro leitor, escrevo esta carta porque acabo de receber a cruel missão de executar meu irmão. Estou certo de que jamais retornarei dessa busca. Ele tornou-se uma fera. Tive um pouco de esperanças em seu juízo quando ele aceitou um emprego como guarda — um serviço simples que não se adequava a seu ego. Pensei que ele tinha compreendido.
Faz mais ou menos duas horas desde que amolei minha espada. Comecei a tremer enquanto a embainhava. Com as mesmas mãos que amolaram a espada, abracei e corrigi meu irmão diversas vezes. Nunca pensei que aqueles olhos apertados e impetuosos fossem chegar a tanto. Diziam que ele, o guerreiro dos ventos, que gerava redemoinhos com sua hábil espada, traria glória para nossa geração. Eu tinha esperanças nele.
Nosso Ancião está morto, e meu irmão é o assassino. Toda uma vida de aprendizado, valores e lições foi sacrificada nesta traição. Ele tornou-se uma espada sem bainha, e a culpa não é de ninguém senão eu. O dojo foi destruído pela invasão noxiana, e agora ainda tenho que lidar com meu irmão, o traidor. Que os deuses me deem juízo.
Não sou pário pra ele, não mais. Admito isso. Portanto, caro leitor, sinta-se livre para interpretar este meu último relato antes de sair à caça do sangue de meu sangue. Despertarei de uma noite de insônia junto à aurora, e partirei pela manhã.
–
Yone do Dojo do Ancião, ano do Dragão.
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