Névoa de Guerra

15 Golfo de Noxus


Notas iniciais
Sempre ouçam a OST de Piratas do Caribe ao escrever histórias sobre alto mar.

Miss Fortune

O sol estava implacável tão perto do meio-dia. Miss Fortune estava acordada desde o início da manhã – era parte de seus hobbies acompanhar o modo como o dia evolui de uma brisa fria e silenciosa para um sol infernal e um mar violento em apenas algumas horas.

Caminhando pelo convés, a ruiva pôs a mão direita sobre os olhos e olhou pra cima, vendo, no alto do mastro, o par de prisioneiros amarrados.

— Veja se não são nossos mais estimados prisioneiros. — Fortune comentou, acenando para Twisted Fate, que estava amarrado de frente para ela. — Onde está seu chapéu?

— Foi-se há muito tempo, pirata. — O homem respondeu, com um riso desgostoso. Seu rosto estava vermelho, queimado pelo sol do Golfo de Noxus. — Desde muito novo sei que depois da Morte, o vento é o pior dos ladrões.

— O indivíduo tem que ser bem mesquinho pra roubar um chapéu surrado. — Interrompeu Graves, amarrado do lado oposto do mastro, encarando o leme. Gangplank, que tinha as mãos no mesmo, riu daquele comentário, adicionando a história de uma vez que foi roubado num porto demaciano.

— O mãos-leves pegou um mapa do meu bolso, o grande imbecil. Pelos bons mares, quem rouba mapas? — Falou o pirata, segurando o chapéu devido à ventania.

— Contrabandistas roubam qualquer pedaço de metal. — Respondeu Fortune. O sol estava realmente intenso, e ela sentia os ombros arderem, assim como a metade inferior de seu rosto, que não era protegida pela sombra do chapéu.

Os olhos brilhantes de Twisted Fate se estreitaram perante alguma coisa que tenha visto no horizonte. Miss Fortune percebeu o olhar, e virou-se para aquela direção. Os outros tripulantes pareceram fazer o mesmo, e aos poucos toda a tripulação encarava uma fileira de navios que despontava nos limites da visão.

— Que silêncio é esse? — Bradou Graves, que era o único incapaz de olhar para o horizonte atrás. Ele esticou o pescoço ao máximo para ver o que estava acontecendo, e calou-se também ao ver uma grande nau com a bandeira de Noxus.

Miss Fortune caminhou cautelosamente até Gangplank, que tinha as mãos imóveis no leme, sem movê-lo. Ela tossiu para chamar sua atenção.

— Que eu me lembre, não avisamos pra Marinha sobre nossa chegada. — A ruiva murmurou, com o cenho franzido em indignação. O capitão ergueu as sobrancelhas.

— E realmente não avisamos. — Gangplank virou-se para a tripulação abaixo; metade dos marujos estava de olhos arregalados em direção ao mar. A outra metade encarava o homem ao leme. O capitão soltou um riso nervoso.

— Estibordo! — Berrou, desembainhando sua curta espada e apontando-a para o horizonte. — Pela âncora de Nautilus, virem seus traseiros para estibordo!

A tripulação rapidamente obedeceu, e Miss Fortune observou os vários grupos de marujos manejando as cordas e as velas. Ela duvidava bastante que iam conseguir escapar – e se fossem pegos, afinal, seriam questionados por tentarem fugir. Só quem tem algo suspeito é que foge das coisas.

Todos foram pegos de surpresa quando a primeira bala de canhão entrou por um lado do casco e saiu pelo outro, chacoalhando o navio e jogando pelo menos três homens ao mar. Água voou por todos os lados, e uma chuva breve caiu sobre o convés. “O que foi isso?”, Miss Fortune se perguntou, caída perto do leme, olhando o capitão se erguer com dificuldade. Olhou ao redor, e quase gritou ao encarar a frota de navios encurralando a embarcação pirata. Repentinamente se lembrou dos prisioneiros, e olhou para o mastro, onde os dois patifes discutiam avidamente.

— Cretino desgraçado! — Berrava Graves para seu rival, movendo os ombros para tentar deslizar sob a corda. — É por causa de você e aquela pirata maldita que eu vim parar nessa. Sair da prisão pra morrer com um furo de bala de canhão da largura de um barril no bucho é tudo o que eu não preciso!

— Cale a boca só uma vez na vida. — Exclamou Twisted Fate, movendo as mãos nervosamente. Com os braços atados ao corpo, uma magia era algo pouco possível. A sua única faca, de porte pequeno e habilmente escondida, tinha sido retirada quando foi amarrado. Pensar naquilo fez seu rosto corar de raiva. — Não tenho nem minhas cartas. Pelos deuses, esse é o fim.

Ainda no convés, Miss Fortune correu desajeitadamente sobre a madeira, tentando não cair novamente com o chacoalhar da embarcação. Gangplank estava no leme novamente, gritando algo com o homem dos mapas. A ruiva segurou-o pelo braço.

— O que tá acontecendo aqui, afinal? — Ela indagou, furiosa e desesperada. Tentou ignorar o olhar que o homem da sala de mapas direcionou a seus seios. — Pensei que Noxus tinha te mandado pegar os prisioneiros pra colocá-los na Liga!

— Pois eu também pensei que tava tudo bem! — Respondeu o capitão, cerrando os punhos com força. Dispensou o homem dos mapas, que entrou rapidamente na cabine. Gangplank girou o leme freneticamente para a direita, e o barco foi brutalmente redirecionado. Miss Fortune encarou-o aflita.

— Por que estamos virando a bombordo de novo? Pelas ondas do sul, você quer nos matar?

— Quieta! — Retrucou o capitão, ajeitando o chapéu na cabeça com um rápido movimento da mão esquerda. — Eles querem vir pra cima? Que venham.

Fortune suspirou em incredulidade, correndo para perto do mastro. Os prisioneiros, ainda lá encima em sua ávida discussão, foram distraídos pelos berros da mulher.

— Encrenqueiros! — A ruiva berrou para Twisted Fate e Graves, que a olhavam com profundo rancor. — Considerem este um momento de sorte ou o maior dos azares. — Ela ergueu uma escada que estava jogada a poucos metros dali, e a apoiou no mastro. Subiu depressa, tirou uma pequena faca que estava presa no forro de seu chapéu, e cortou as cordas que prendiam os dois homens. O mastro não era lá dos mais altos – a queda doeria, mas não mataria, pelo menos. Os prisioneiros caíram no chão como dois sacos de batatas.

Ainda gemendo de dor, Graves a olhou com um par de olhos desconfiados. Tossiu antes de apontar para a ruiva.

— Não iria nos soltar assim. O que quer da gente?

Miss Fortune riu. A atitude daquele atirador era deveras previsível às vezes. O cartomante, porém, permanecia com sua efêmera dignidade, encarando a pirata com um semblante cauteloso.

— Se houver combate, vocês serão bastante necessários. Agora me sigam.

Fortune caminhou rapidamente até o leme, onde Gangplank a observava incrédulo. A primeira coisa que o capitão fez foi perguntar o motivo de libertar os prisioneiros. Qualquer diálogo, porém, foi interrompido por uma voz grave que ecoou nos ouvidos de todos. Uma pequena nau noxiana, perto até demais do navio pirata, tinha um senhor alto e calvo, com roupas de couro velho e um manto de linho branco. Ele falava em um instrumento em forma de cone, mas curvado e com um fio cujo fim não se podia ver dali. Aquele objeto, de alguma forma, sintetizou sua voz no ambiente. “Malditos noxianos e suas geringonças zaunitas.”, Miss Fortune pensou.

— Capitão Gangplank e sua tripulação, recolham seus canhões e abaixem as armas! — Berrou a voz sintetizada do homem velho, que dava tapas no aparelho de vez em quando. — Soubemos que está trazendo um par de bons soldados pra Noxus por causa da Liga, mas a Marinha achou conveniente reportar que seus favores não serão mais necessários.

— E vou ficar sem minha recompensa?! — Gangplank gritou alto o bastante para ambas as embarcações ouvirem. O homem noxiano tossiu nervosamente antes de responder ao pirata.

— O senhor será devidamente indenizado.

Miss Fortune não pode não notar que Twisted Fate estava inquieto. Aproximou-se do homem, perguntando o que havia com ele.

— Pergunte a esse noxiano o porquê da desistência. — O cartomante disse, antes de virar para Graves, que o encarava igualmente preocupado.

Hesitante, a ruiva fez o que o prisioneiro pediu. Pôs as mãos em concha ao redor da boca e berrou para a embarcação noxiana um Por que desistiram dos criminosos? bastante energético. O senhor noxiano encarou os tripulantes perto dele com um nervosismo palpável.

— Porque não há mais propósito. — O noxiano bradou em seu instrumento zaunita, cada palavra fazendo Miss Fortune gelar ainda mais. — A Liga acabou.