Névoa Álgida

2 Capítulo 1 – Recepção


RECEPÇÃO

I

Despertei com a sensação de quem dormiu numerosos dias.

A visão turva impossibilitou que eu enxergasse com exatidão o local onde estou e do tórax para baixo sinto uma “sensação molhada” como se estivesse submerso, e um latejo infernal na cabeça compelindo meu raciocínio, causou um desespero imediato.

Para completar a impotência sensorial: minhas mãos e pés estão presos a algo.

Com estabilização gradual da visão, notei que estou nu sentado numa “banheira” preenchida por um liquido verde, explicando a sensação molhada no tórax para baixo.

O local é uma sala cilíndrica de diâmetro pequeno (6 metros?) com teto de vidro no qual os raios solares penetram. As paredes, o chão e o teto são de pedra polida. Possuindo uma única porta de madeira.

Ser congelado daquela forma me deu a impressão de que iria morrer, mas pelo visto escapei? “Escapei”, ao menos por enquanto.

Manuseando um painel de controle que é conectado a banheira por alguns fios, está um garoto de cabelo ruivo com o rosto repleto de sardas e olhos vermelho sangue, aparentando ter 14 anos ou menos. E um cara careca de olhos azuis apenas observando o garoto enquanto ruía as unhas impacientemente.

Uma luz verde cintilou na tela do painel.

— A atividade cerebral aumentou. – Disse o garoto ruivo apontando para o painel de controle.

— Quanto?

— 80... 84%... Não, 92%...

O careca, seguido do garoto, olharam na direção da “banheira”, percebendo que acordei, caminharam até mim.

— Edward, ele vai compreender nossa língua? – Disse o careca.

— Ajustamos todos os detalhes cerebrais da transição de mundos, inclusive a linguagem.

O careca deu ordens para algumas servas desatarem as fivelas que prendiam minhas mãos e pés, e outra serva esvaziou o liquido apertando um botão do painel de controle. Em seguida me cobriram com uma túnica.

— Olá, nobre herói, eu sou o vice-monarca Feliks V de Sacramento. E este é Edward Magnus, o mago nº 1 do reino. Solicitamos seu envio para nosso mundo como parte da tradição da Casa Real de Remissão, onde o monarca e o vice-monarca selecionam heróis de outro mundo para serem seus cavaleiros pessoais.

— ...

Feliks (o cara careca) me cumprimentou com um aperto de mão.

Herói? Solicitação de envio? Perguntar-se “será que” não é correto e sim: possivelmente aquela mulher alta e essa transição de mundo estão diretamente relacionados.

Mil perguntas brotaram na minha mente. Fiquei indeciso quanto ao que falar e disse:

—– Er... Eu sou Matheus Bressiani...

—– Bressiani, desculpe se te sobrecarreguei com tanta informação.

— ...

Estou hesitando em fazer as perguntas, e Feliks parece ter percebido.

— Por hora, vista essa muda de roupa. Amanhã após a refeição matinal daremos mais detalhes a você, respondendo todos os seus questionamentos.

Peguei a muda de roupa e a vesti.

No caminho para meus aposentos, Feliks explicou que estamos na Cidadela Lorena, localizada a 2 km do Povoado de Lorena no centro-norte do Reino de Sacramento. A Cidadela é octogonal, sendo a sala onde eu acordei o compartimento central – claramente utilizado na convocação de heróis.

Ala A: um portão (de ferro) quadricular imponente vigiado por 10 arqueiros e 20 escudeiros, e com 50 metros de distância um portal semicircular; Ala B: os estábulos comportando 42 cavalos; Ala G: o arsenal bélico com uma infinidade de armas e armaduras; Ala C: o campo de treinamento divido em Arena e Sala de Preparação; Ala F: o refeitório, cozinha e armazém; ala D: os quartos, entorno de 270, distribuídos em 6 andares; Ala E: as salas de reuniões. Cada uma das alas tem entre 20 e 30 guardas todos parrudos e trajando armaduras de corpo inteiro. E no muro – de uns 7 metros –, 8 torres de vigia em cada ponto do octógono com 8 arqueiros cada.

Além de tantos guardas, também há um número imenso de servas na Cidadela, todas jovens e bonitas.

II

Antes de dormir, sucedeu-me pensamentos a respeito da minha família. É natural se preocuparem com meu sumiço ou que eu sinta saudade deles, já que posso nunca mais vê-los, certo?

Sinto que fui cortado da terra dos viventes a partir do momento que aquela mulher me congelou. Vir para outro mundo é lucro para quem deveria estar morto. Mas Fico triste pela minha família, não sei como eles vão lidar com isso. Mesmo com pouca proximidade, deve ser difícil perder um familiar de uma hora para outra.

Em questão de amigos ou coisa parecida, não é como se eu tivesse algum para sentirem saudades, pelo menos não mais.

A noite foi tranquila, o quarto é bastante espaçoso e a cama confortável. O único fator que poderia ter atrapalhado meu sono seria o clima frio. Mas os cobertores aqueceram bem.

O suposto banheiro contém um tanque menor de frente para um espelho. Atrás, um buraco que simula uma privada. E por trás das cortinas, uma banheira vazia.

Molhei meu rosto no tanque menor – o que causou calafrios – e ajeitei o cabelo conferindo no espelho.

Olhando no guarda roupa, noto que há mudas de roupas suficientes para vestir 100 ou mais pessoas. E todas cheiram a novas, nenhuma com odor de mofo.

Peguei uma calça marrom escura e uma camisa branca ambas de pano grosso, e ásperas botas pretas. Por fim, um casaco também marrom escuro acompanhado de luvas.

Vestimentas suficientemente eficazes para proteger do clima frio regional.

Abrindo a porta, me deparo com dois guardas, ao que parece vigiando a entrada do quarto.

— Ms. Bressiani! Vossa majestade Feliks deu ordens para escolta-lo até a sala de reunião 08, onde ocorrerá a refeição matinal.

Apenas consenti com a cabeça.

III

A dita sala 08, é similar a todos os locais da Cidadela Lorena: pedras polidas e porta dupla de madeira. Seu diferencial é a imensa mesa retangular preenchida com todos os tipos de alimentos com odor e aparência apetitosa.

Porém, o que de fato destaca o ambiente é a figura de uma mulher de cabelo castanho escuro de corte curto e olhos esverdeados, sentada na ponta esquerda.

Sentei na ponta direita com três cadeiras de distância em relação a sua frontal.

Ela fitou um olhar examinatório em mim por alguns segundos e depois voltou a sua posição olhando para o nada.

Essa pessoa é o cavaleiro do Feliks? “Solicitamos seu envio para nosso mundo como parte da tradição da Casa Real de Remissão, onde o monarca e o vice-monarca selecionam heróis de outro mundo para serem seus cavaleiros pessoais”, possivelmente...

Permaneci alguns minutos perdido em pensamentos a respeito desse mundo até ser interrompido com a quebra do silêncio:

— Bressiani, né? – Disse a mulher.

— Sim, e você?

— Juno, Ganímedes Juno.

A conversa tinha tudo para acabar aqui se dependesse de mim.

— Cheguei na Cidadela Lorena há uma semana, assim como você também vim de outro mundo. E segundo o vice-monarca Feliks, serei a cavaleira dele. Logo, por eliminação, você pertence a monarca, certo?

— E quem seria essa monarca?

— Ele ainda não te contou? Ouvi falar muito pouco sobre ela, então acho melhor perguntar ao vice-monarca Feliks...

A conversa é interrompida com a abertura súbita da porta.

Feliks e Edward entram, diferente de ontem, os dois estão vestidos de forma mais... Informal.

— Bom dia! Peço que perdoem meu atraso, perdi alguns minutos conversando com capitão da guarnição da Cidadela. Um mensageiro trouxe infelizes notícias da ocorrência de assassinatos misteriosos no Povoado de Lorena. Mas isto é assunto para outra hora, por agora vamos comer.

Feliks puxa a cadeira e senta ao lado de sua cavaleira. E Edward senta ao meu lado.

— Dormiu bem Bressiani? – Disse Feliks, enquanto fazia seu prato.

— Sim, o quarto é bastante confortável.

— Os patriarcas edificaram joias da arquiteturas constituídas dos materiais mais preciosos, incalculavelmente superiores a esta ínfima Cidadela de pedras polidas. Ouvir seu comentário positivo alegra meu coração, não somente isso, faz-me sentir menos culpado por recepciona-lo num lugar tão inconveniente.

Ele é bom com as palavras. Um minuto atrás falou sobre assassinatos e agora já está colocando a conversa noutro rumo. E por que tanta humildade? Nem parece que ele é o maioral aqui.

Observando minha hesitação diante do banquete, Feliks diz:

— Sinta-se à vontade para comer. Não se preocupe com a aparência. O gosto é excepcional.

Vejamos...

Aquilo com certeza é pão. E aquilo é carne de algum animal. Peguei o pão e preenchi com a carne. Mastiguei um pouco e tem o mesmo gosto da carne de gado, já o pão é superior aos pães convencionais.

— Pão de favo e carne de Javali Demoníaco. Boa escolha. – Disse Edward olhando com o canto do olho. Ele comia o que parecia ser um purê de batata.

— O seu é purê de batata, correto?

— Pu... De quê? – Edward murmurou em voz baixa – Não, é creme de raiz da terra.

Em todo caso, essa “raiz da terra” deve ser a batata inglesa desse mundo.

Deus... A quantidade de comida que a Juno colocou no prato formou um morro. Como alguém consegue comer tanto? Em contrapartida, Feliks colocou pouquíssima comida.

Não mais dando lugar a pensamentos pífios, voltei a comer.

Alguns minutos depois...

Quando terminamos a refeição, levantamos e fomos em direção a porta. Ao mesmo tempo que algumas servas foram recolher os pratos e retirar as comidas sobejadas da mesa. Espero que tudo aquilo não seja jogado fora, seria um desperdício.

—Feliks, caso não se importe darei continuidade aos meus afazeres. – Disse Edward.

— Sinta-se à vontade.

Edward se retirou e foi na direção esquerda do corredor. Eu, Feliks e Juno fomos na direção direita.

IV

O corredor findou no pátio central.

É a segunda vez que venho aqui, e observando mais atentamente, é um espaço que causa desconforto. A névoa ao redor faz parecer ter alguém camuflado nela, aguardando para “dar o bote”, mas considerando o número de guardas presentes aqui chega a ser um pensamento ridículo.

— Sessão de perguntas abertas.

Feliks sorriu ao falar.

Eu poderia perguntar coisas a respeito da transição ou da mulher alta, mas preferi algo mais simples:

— Fale um pouco sobre a monarca.

— Melhor não, iria estragar a surpresa.

— Ontem foi dito que todos os meus questionamentos seriam respondidos.

— Todos menos esse.

Tá, próxima então:

— Sobre a transição de mundo então.

— A transição de mundo é uma complexa magia descoberta há 1 milênio. Até hoje não desvendamos os mistérios por trás dela. Quanto ao processo, a solicitação é feita com a sincronização espaço-temporal entre os mundos e o corpo passa a ser gerado no recipiente preenchido com matéria orgânica liquida, sendo essa substancia base para o corpo gerado.

— Um pouco difícil de assimilar, mas consegui.

— Fico feliz que tenha conseguido. Há muito mais, então “abra” sua mente, fica mais fácil a compreensão.

Conversamos o resto da manhã e após o almoço.

E antes de cada um ir para seu quarto, Feliks disse:

— Ah, quase esqueci de avisar... Partiremos logo pela manhã rumo a capital.

— Entendido.

Notas finais
Pão de Favo – Um pão feito com o que seria favo de mel e farinha de trigo. Raiz da Terra – Equivalente a batata inglesa, porém, 6x maior. Javali Demoníaco – Existem diversas raças de javali demoníaco, mas no geral, eles medem 3 metros por 6 metros, e são extremamente letais. [* Neste capítulo a palavra “patriarcas” refere-se aos ancestrais do monarca e do vice-monarca. *Na 1ª versão usei erroneamente “Mr.” como abreviação de mestre, mas fiz a correção substituindo por “Ms.”]