Não vai embora.
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Histórias românticas sempre nos alertam que amar dói.
Mas eu nunca pensei que fosse tanto.
Eu deveria imaginar, pois os chutes de Karina no meu saco sempre foram espetaculares. E dessa vez, ela caprichou ainda mais. Meus olhos lacrimejaram e eu senti vontade de socar alguma coisa tamanha a dor que eu sentia. Agachei perto da porta e fiquei ali, agonizando.
– Porra, Karina! – reclamei, segurando meu fiel amigo – pra que isso?
– Você me assustou... e mereceu – respondeu ela com a voz tensa. Senti seu corpo mais perto e percebi que ela havia agachado do meu lado – para de ser frouxo, Pedro. Nem doeu tanto assim.
– Não doeu tanto assim? – respondi incrédulo, encarando seus olhos – Karina, qualquer porrada no saco de um cara dói pra caramba. E você tem muita força.
Karina ficou mais tensa ainda e desviou o olhar. Eu já havia apanhado tantas vezes dela que reconhecia aquelas reações: ela estava se sentindo culpada por ter me machucado. Karina não costumava controlar seu gênio e sua força, mas isso não a impedia de se arrepender depois de perder o controle. Ela odiava se sentir uma bruta.
– Deixa pra lá, já está passando a dor – menti, para que ela não ficasse triste.
Levantei com dificuldade e me encostei na parede, me concentrando em respirar fundo para tentar aliviar a tensão e dor no corpo. Karina me observava com receio, de braços cruzados.
– Podemos ir, então? — questionou ela.
– Não mereço nenhum beijinho de desculpa? – perguntei sorrindo.
– Eu deveria é te dar uma surra! – brigou ela, ficando vermelha de raiva – isso que você merece!
– Na situação em que estamos, acho que aceito apanhar de você. Pelo menos assim, você fica perto de mim.
Karina ficou desconcertada e meu coração aqueceu ao ver um quase sorriso formar em seus lábios. Sabendo que eu estava atento as suas reações, Karina me deu as costas e tentou sair. Mas fui mais rápido, puxando-a para mim e encostando seu corpo em uma parede. Prendi seu corpo delicado entre meus braços para que ela não escapasse.
– Me solta, Pedro – pediu ela, sem me olhar nos olhos – depois de tudo que você me fez eu...
– Eu sei que mereço isso, o seu desprezo. Não estou te pedindo pra se jogar nos meus braços de novo, por mais que isso seja o que eu mais quero na vida. Olha pra mim, K.
Relutante, seus olhos azuis encontraram com os meus. Me permiti admirá-la por alguns segundos antes de continuar.
– Eu te amo. Te amo mesmo. Sei que você não vai acreditar em mim. Posso ser o mais otário do mundo por pensar assim, mas eu realmente acho que mais cedo ou mais tarde você vai perceber isso, vai entender o meu amor. E eu não vou desistir de você, por que sei que você também me ama, mas tá magoada demais pra enxergar isso também.
Como um reflexo, meus olhos marejaram assim que vi os dela se enxerem de lágrimas. Ela olhava para cima, em uma tentativa de não deixa-las escorrer.
– Me deixa estar perto de você de novo.
– Como assim? – sussurrou ela.
– Não me evita do jeito que você está fazendo. Pra mim é muito difícil, mas eu prometo que vou me controlar e não vou te agarrar a força mais. Me machuca muito quando você vai embora dos lugares que eu chego, quando me olha com nojo e quando não deixa eu sequer te desejar bom dia.
– Você merece sofrer.
As palavras dela me atingiram em cheio. Havia tanta mágoa e rancor nos olhos dela. As lágrimas venceram e eu assisti as gotas escorrerem pela sua face. Acariciei o rosto dela com um das mãos e com a outra enxuguei as lágrimas.
– Eu já sofri mais nesses dias do que na minha vida toda – respondi, controlando minha própria vontade de chorar.
Sofri por vê-la dilacerada com a verdade sobre a maldita aposta. Sofri por vê-la desejar todo o mal do mundo para mim. Sofri por sua indiferença durante esses dias. Sofri por ter perdido a confiança dela e do pai dela.
E eu sofria, sofria muito, por ter descoberto que a virgindade dela não me pertencia mais.
Sem querer, acabei apertando-a com um pouco a mais de força, tamanha a raiva que me dominou ao lembrar daquele lençol ensanguentado. Karina se assustou e se debateu nos meus braços.
– Escuta, K – pedi, ainda a prendendo – vamos conviver. Isso é o que eu te peço. Por favor, em nome de tudo que a gente viveu.
– O que você espera que eu faça? – resmungou ela.
– Amanhã teremos uma pequena festa na Ribalta – expliquei, depois de pensar em alguma situação em que eu poderia me aproximar dela – é beneficente, o dinheiro das entradas vai ser doado para um instituto de câncer infantil da cidade. Vai ser legal, vou tocar com a banda. Por favor, vai. Não vou te agarrar e nem ficar te incomodando. Mas me deixa pelo menos estar no mesmo lugar que você.
Karina, com apenas um puxão, se livrou dos meus braços. Foi até a porta e ficou ali, de costas para mim.
– Vou pela caridade e não por você – respondeu ela, antes de sair pela porta.
Senti meu coração desapertar um pouco. Não importava o motivo, ela pelo menos estaria lá. Perto de mim. Respirei fundo, satisfeito e fui encontrar o resto do pessoal.
Fabi pegou um táxi sozinha até sua casa e eu, Karina e João dividimos outro até nosso bairro. Por mais que fosse muito perto, tinha medo de ir a pé e algo acontecer conosco, principalmente com Karina. Ela recusou-se a aceitar que eu pagasse a corrida e arcou com os gastos sozinha.
– Bom, boa noite – disse João.
Ele me olhava curioso. Afinal, não havíamos conversado sobre como ficaria nossa amizade dali em diante. Fato que ele havia me ajudado muito hoje e isso com certeza o deixou esperançoso para uma possível reconciliação.
– Amanhã a gente conversa – respondi para ele, de maneira significativa. João abriu um sorriso e pareceu entender o recado. Acenou para mim e começou a andar em direção a casa, me deixando sozinho com Karina – até mais, K. Até amanhã.
Ela nada respondeu, apenas revirou os olhos e seguiu o caminho de João. Observei-a caminhar em direção a casa, em parte para ver se ela chegaria segura e em parte para admirar seu corpo de costas.
Aquela bunda empinada ainda me levaria a loucura.
Assim que vi que os dois entraram em segurança, me joguei de qualquer jeito em um velho companheiro: o banco da praça. Tentava organizar minhas ideias, assimilar tudo que havia acontecido naquela noite e tentar imaginar como poderia ser a tal festa na Ribalta. Enquanto refletia, observava a lua cheia. Naquela noite, ela parecia brilhar ainda mais, assim como a minha esperança.
Luas tem um brilho lindo. Porém, não piscam.
Virei rapidamente em direção ao QG assim que vi as luzes se acenderem de repente. Uma movimentação dentro do local me fez perceber que Cobra estava ali. Levantei depressa e o observei sair do QG.
Ele bateu a porta ao sair. Bufava de ódio. Em menos de 10 passos, ele já estava colado em mim.
– Pois não? – perguntei, visivelmente confuso com aquela reação.
– Ele diz: pois não – Cobra me imitava e ainda bufava de ódio – aproveitou a noite, guitarrista?
O leve sono que eu sentia me fez demorar alguns instantes para entender o que ele queria dizer. Aos poucos, tudo ficou claro. Não me contive e acabei sorrindo, perante a raiva dele. De alguma forma, ele sabia que eu havia passado a noite com ela.
– Como sabia disso? – questionei, cruzando os braços – não me diga que você é tão problemático que agora segue as pessoas.
– Larga de ser retardado – disse Cobra, tentando se acalmar – não é nada disso.
– Mas agora eu fiquei bem curioso. Se não me disser como, vou realmente achar que você está seguindo ela.
Cobra riu e jogou a cabeça para trás, como se implorasse aos céus por paciência.
– Eu estava com Thawick. Thawick luta na academia do Gael. Lá na academia do Gael, tem uma pseudo-lutadora chamada Fabi. A Fabi, adora redes sociais. Thawick e Fabi compartilham suas redes sociais. E nessa bela noite de sexta feira, ela achou extremamente necessário...
– ... enviar o tal do SnapChat – completei. Acabei rindo alto da situação. Um simples aplicativo havia dado todas as informações necessárias para Cobra. O lugar, as pessoas.
– Cada dia fico mais orgulhoso. Você realmente pensa – comentou Cobra, fingindo interesse.
– Bom, agora nós dois sabemos o poder da grande tecnologia desse SnapChat. Boa noite, passar bem.
Cobra fechou os dedos com força em meu braço antes que eu desse sequer um passo.
– O que você quer agora? – perguntei, cansado – Karina não estava lá amarrada. Não fiz mal para ela. Sua grande amiga do peito está segura.
– Disso eu não tenho dúvidas. Você sabe que eu te arrebento se fizer qualquer mal pra ela de novo – respondeu ele, extremamente sério.
Meu sangue ferveu de tal forma que meu corpo reagiu me afastando de Cobra com violência. Eu odiava essa preocupação exagerada que Cobra tinha com Karina. Odiava o fato dele tentar me ensinar como cuidar dela.
– Qual a tua, Cobra? – com uma força e coragem que nem sabia que tinha, empurrei o peito dele para trás e fiquei satisfeito ao vê-lo cambalear – pra que essa obsessão pela Karina agora? Você não tem nada a ver com a gente. Se a Karina quiser voltar pra mim, não vai ser você que vai tentar impedir. Ou vai?
Observei os olhos de Cobra migrarem da raiva para a confusão. Ele me encarava confuso, como se não soubesse o que me responder.
Eu, mais do que ninguém, conhecia aquele olhar, aquela expressão. Eram as reações de alguém que estava começando a confundir as coisas... sentimentos. Me aproximei dele devagar e senti meu maxilar travar.
– Não se atreva a se apaixonar por ela – minha fala era um sussurro – não que eu ache que você tem um coração.
Pode ser loucura, mas eu preferia mil vezes que Cobra perdesse o controle e me esmurrasse ali mesmo, dizendo aos quatro ventos que eu era ridículo por pensar nessa possibilidade. Eu preferia ouvir a risada irônica dele me dizendo que aquilo estava fora de cogitação.
Mas ele não fez nada e percebi que sua respiração falhou. Aquilo sim era a pior alternativa.
Baguncei os cabelos e acabei gritando no meio de praça para ver se eu conseguia aliviar minha raiva. Aquilo não poderia estar acontecendo.
– Como pode isso, Cobra? – praticamente gritei – justo você? Sabia que esse papo de amizade e carinho de irmão era pura fachada.
– O que posso fazer se sua namoradinha é tão boa de cama?
Sujo, maldito. Como podia falar da virgindade de Karina dessa forma tão irônica?
Mas dessa vez, eu não consegui acertá-lo. Cobra pareceu recuperar sua lucidez e me empurrou antes que eu chegasse perto dele.
– Eu não te devo explicações – rosnou ele – e não tire conclusões daquilo que você não sabe.
Não consegui responder. Cobra me encarou mais uma vez, olhou em direção a casa de Karina e saiu, caminhando com rapidez para o QG. Me encarou uma última vez antes de apagar as luzes.
Ali, perdido em meus pensamentos no meio da praça, eu chorei. Chorei de ódio, de raiva.
Mas principalmente, de medo.
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