Não vai embora.
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Não reagi de imediato. Continuei encarando o lençol enquanto minha mente trabalhava em negar tudo aquilo, pois definitivamente era loucura. Mas lá no fundo, algo me dizia que por mais que Cobra fosse daquele jeito, ele não iria tão longe só para me provocar. Mas eu não podia aceitar essa possibilidade. Eu precisava negar. Afinal, aquele sangue poderia ser de qualquer outra garota. Não poderia ser da minha.
– Não acredito em você – respondi mais baixo e inseguro do que deveria.
Como se esperasse que dissesse isso, Cobra soltou o lençol no chão e voltou para o cômodo. Voltou logo em seguida, segurando uma camisa xadrez azul.
– Toma, cheira – ele estendeu a camisa para mim mas eu não peguei – vai, guitarrista. Cheira. Tem o cheiro da Karina.
Como continuei parado, Cobra praticamente enfiou a camisa embaixo do meu nariz, mas na verdade ele nem precisava ter chegado tão perto. Senti o cheiro da minha linda assim que a camisa movimentou-se no ar. Tirei-a das mãos dele e cheirei com mais vontade, apenas para ter plena certeza. Cheiro doce, leve e viciante: era o cheiro de Karina, sem dúvida alguma.
Naquele momento, minhas forças caíram.
Nem me importei em estar dentro do QG com o Cobra. Comecei a chorar em silencio agarrado naquele pedaço de pano. Ao contrário do que imaginei, Cobra não soltou nenhuma piadinha ou risada. Apenas ficou parado ali, esperando eu me recompor.
Depois do choque, minha ficha caiu. Levantei os olhos e vi o olhar de Cobra vacilar, diante da minha raiva. Joguei a camisa no chão e fui para cima dele e só consegui empurrá-lo para cima do balcão porque ele estava distraído.
– VOCÊ ABUSOU DELA, SEU FILHO DA PUTA! – berrei enquanto sacudia o corpo dele – VOCÊ FORÇOU ELA!
Vi Cobra quase soltar fogo pelas ventas. Ele levantou-se e me empurrou para longe dele, visivelmente transtornado.
– Acho que não entendi direito. Você tá me acusando de ter estuprado a Karina? – disse ele com um tom irônico.
Eu não queria sequer pensar naquela palavra. Estupro. Mas era isso que tinha acontecido: Cobra tinha estuprado Karina.
– É exatamente isso que eu estou dizendo, Cobra.
Cobra riu e pareceu se acalmar um pouco, o que me deixou com ainda mais raiva.
– Como explica ela ter vindo aqui? Acha que sai correndo atrás dela e tranquei aqui dentro?
– Karina confia em você – respondi tentando não avançar nele de novo – deve ter vindo te pedir um lugar pra ficar.
– E daí você acha que eu, como uma legitima bruxa da casa de doces, a fiz se sentir acolhida aqui e depois comi ela? – Cobra riu da própria piada – realmente no final eu comi ela, mas foi com a permissão dela.
Perdi o controle. Não ia ficar ali escutando ele dizer que “comeu” minha namorada. Consegui acertar um soco até considerável no rosto dele. Cobra mexeu a mandíbula para se recompor e voltou a me encarar como se eu tivesse apenas o empurrado.
– Olha aqui, guitarrista. Vamos deixar algumas coisas claras. Em primeiro lugar, eu não preciso pagar, suplicar e de maneira alguma forçar alguma mulher para conseguir sexo. Eu me garanto muito bem. Em segundo lugar, estupro é crime e dá cadeia. Sou burro, mas não a esse ponto. Em terceiro lugar, tenho consideração pelo Mestre Gael e pela Karina e jamais faria isso. E em quarto lugar, posso ser canalha para várias coisas, mas não pra isso. Tenho meus próprios princípios e estuprar uma menina não é um deles.
Caí de joelhos e escondi o rosto nas mãos. Gritei tão alto que talvez toda a praça me escutasse. Eu não queria aceitar aquela realidade, não podia ser possível que eles tivessem transado.
– Ela só tem 16 anos, seu animal.
– E você não tava tentando transar com ela também? Duvido.
– Mas eu sou o namorado dela, imbecil – levantei e comecei a encará-lo de novo, gritando e com mais raiva do que antes – eu sou apaixonado por ela. Transar com ela pra mim não é só desejo físico, é por amor! Pra você ela deve ter sido só mais uma.
Cobra virou de costas para mim.
– Pedro, vai embora – pediu ele ainda de costas para mim – acho que já deixei bem claro que o que aconteceu ontem aqui, foi com o consentimento dela. Não tem mais nada pra fazer aqui.
Dei a volta para encará-lo de frente.
– Por que me contou isso? Pra me humilhar?
– Porque ela não vai te contar, nunca. E acho que você merece saber. Não sei o que vocês vão decidir quando conversarem. Você decide o que vai fazer com essa informação, se fala pra ela ou se finge que isso nunca existiu.
Concordei com a cabeça. Respirei fundo e me dirigi para a porta. Mas antes que eu pudesse alcançar a maçaneta, a voz dele me pegou de surpresa.
– Você vai desistir dela agora?
Não precisei de tempo para ter uma resposta. Encostei o corpo na porta de entrada e cruzei os braços.
– Acho que você não ouviu direito. Eu sou apaixonado por ela. Amo aquela garota. Você não tem noção de como me destruiu depois de me contar isso. – engoli seco, segurando as lágrimas. Não choraria na frente dele de novo – eu sonhava com nossa primeira vez. E agora, eu vou ter que conviver com o fato de que não fui o primeiro homem dela. Mas eu não vou desistir da Karina. Jamais.
Cobra me encarou por alguns segundos como se avaliasse toda a minha fala. Por fim, pela primeira vez na vida, senti que ele abaixou a guarda. Quando as palavras vieram, reparei que nunca tinha ouvido ele falar com tanta sinceridade.
– Se te consola, ela se arrependeu. – percebi que ele queria me contar mais alguma coisa, mas desistiu – não foi... como ela queria.
– Você... foi carinhoso com ela?
De maneira alguma eu queria detalhes da noite dos dois. Mas naquele momento eu percebi que precisava saber se ele não tinha frustrado as expectativas de Karina em relação ao sexo.
– Tentei fazer o melhor possível. Mas acho que não foi suficiente.
Cobra me empurrou da porta e a abriu, me mostrando a passagem.
– Vou te pedir um favor, Cobra.
– O que, moleque?
– Não procura a Karina mais.
Cobra apenas apontou a saída com a cabeça. Sai do QG transtornado. Fui o mais rápido que consegui para casa. me tranquei no quarto e chorei como nunca havia chorado antes. Gritei, esmurrei o travesseiro e me permiti colocar toda aquela dor para fora. Meus sentimentos eram uma mistura de raiva, nojo, decepção, angústia... mas no topo de todos eles, continuava meu amor por ela.
Quando finalmente consegui dormir, os pesadelos vieram me atormentar. Via com clareza imagens de Cobra mordendo e apertando todo o corpo de Karina. Via as mãos dele apertando os seios dela, podia ver as unhas dela cravadas nas costas dele. Acordei assustado, suando. E naquela noite, não consegui dormir mais.
Eu não sabia o que faria agora: contaria para ela? Esconderia isso pra sempre?
A manhã de segunda-feira chegou de repente, enquanto eu tentava organizar meus pensamentos. Decidi levantar, tomar um bom, vestir-me de maneira apropriada, tomar um café reforçado e como dizem por aí, ir a luta.
Cheguei na academia do Gael antes de qualquer pessoa. Sentei em frente a faixada e esperei. Depois de cerca de uma hora, eu o vi chegando, visivelmente abatido. Ele vinha com passos lentos e desanimados. Só me viu quando eu levantei. Vi seus olhos estreitarem em descrença e pude sentir seus músculos tensionarem. Respirei fundo, porque precisava ter uma atitude digna.
– Bom dia, Mestre Gael – comecei – sei que o senhor não está feliz em me ver. Mas nós precisamos conversar.
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