Às vezes há momentos que sinto falta de algo que não existiu, um tempo que não vivi, um desejo de voltar a um passado que não tive. Sempre achei isso muito engraçado e me pergunto se as pessoas sentem algo parecido, na maior parte do tempo acontece quando escuto uma música ou vejo um filme.
Chego na conclusão se isso não é inveja, porque olho para mim e vejo como desperdicei minha vida, não tendo o amigo que sempre aguardei para dividir os melhores momentos e criar lembranças como fala na música ou no filme — tem até uma música que fala que morrer ao lado de um amigo seria um grande prazer. Mas só estava cego demais ou não dando o devido valor a Cris.
Não nos conhecemos na adolescência, então nosso cenário diferenciava muito com um filme coming-of-age, porque não se passava numa escola e nossos papos não eram sobre Elliott Smith ou Jeff Buckley ou outros gostos em comuns. Até porque eu só conheceria tais artistas e filmes do gênero depois que ele me apresentasse cada um.
Conheci Cris no início do ano quando passamos a trabalhar juntos no museu da cidade. Eu ficava responsável em atender as pessoas que chegavam, já ele fazia pesquisas e até corria atrás de artistas convidando-os para uma exposição. Era um cara muito mais inteligente do que eu e não fazia ideia qual foi o motivo que o fez falar com um atendente, cujo na maior parte do tempo dava instruções de como chegar no andar certo de uma exposição.
Cris era bem culto, mas não exibido. Ele se interessava pela minha simplicidade e tinha paciência para ver filmes com carros turbinados e cheios de explosões do selo "Michael Bay de qualidade". Mas aos poucos quis saber mais sobre ele e com isso conheci Elliott Smith e Jeff Buckley.
Não entendia o motivo, mas chorava ao ouvir suas músicas e eu não contava nada para Cris. Só foi possível esconder isso até o dia que ele me fez ver o filme Stand By Me na sua companhia e eu começar a chorar feito uma criança desamparada num supermercado.
— O que foi, Jou? — Ele estava muito preocupado, sentado ao meu lado no sofá.
Eu não consegui dizer o que sentia; como aquele grupo de amigos era tão especial, como eu não tive nenhum amigo como eles durante minha infância e adolescência. Senti que minha vida não fazia sentido, eu nem ao menos tive um sonho para almejar como Cris teve pela arte.
— Te faz lembrar de momentos que não teve, certo? — Ele perguntou, fazendo-me abrir meus olhos muito surpreso.
— Sim... acho que é isso... sente o mesmo ou tá tão estampado na minha cara que sou uma pessoa solitária?
Cris umedeceu os lábios, se preparando para contar uma história longa. — Eu ouvi um disco recentemente que é sobre a melhor fase da nossa vida... mas toda a nostalgia que ele me fez sentir foi quando voltava ao passado e só me lembrava de mim preso no meu quarto, estudando sobre uma escrivaninha. A janela ficava na minha frente e se eu a deixasse aberta, eu conseguiria ouvir as crianças se divertindo na quadra do condomínio sem nem terem ideia da minha existência. Sempre quis chegar perto de uma pra puxar assunto...
Eu me lembrei uma vez que Cris disse que seus pais lhe obrigavam a estudar muito e que se decepcionaram com a escolha em artes.
— Sabe, Jou, acho que é o meu primeiro amigo... tive amigos na faculdade e no trabalho, mas nada se compara com sua transparência num mundo que cada vez mais se preza a aparência.
Eu enxuguei minhas lágrimas, pensando que o amigo que sempre esperei estava bem na minha cara e simplesmente o menosprezei. — Então, quer continuar criando memórias comigo?
— Sim.
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