O Balanço


















A tarde, no balanço do jardim, eu chutava a grama abaixo dos meus pés. O dia estava ensolarado, embora o clima dentro de casa fosse cinzento...

Vi Mariette voando no céu, se aproximou do balanço e pousou no chão próximo à árvore.

— Mariette! Você tem cartas para mim?...

— Uhh...

Olhei ao redor me perguntando se talvez ela tivesse deixado cair enquanto se aproximava. Mas não havia nada. Nenhuma carta sequer de Lúcia. O que me deixou um pouco triste.

Era domingo, então não tinha aulas com os professores, era só mais um dia tedioso em casa. Olhei para a mansão de pedra cinzenta. E notei uma janela, inclinei a cabeça curiosa, então sai do balanço.

Nunca vi nenhuma janela como aquela dentro de casa. Pensei que talvez tivesse vendo coisas, mas era bizarro. Uma janela redonda de vidro, apontada para o céu.

Peguei Mariette do chão e entrei em casa. Havia alguma coisa errada, eu sentia. Ao entrar no Hall olhei para cima pensando que talvez fosse alguma janela no andar de cima que eu curiosamente nunca havia notado.

Mas não tinha nada ali. Pelo ângulo talvez fosse mais a fundo de casa.

— Talvez seja só algum feitiço ilusório que papai botou em casa para enganar os trouxas?

Não. Não fazia sentido ele perder o seu tempo com isso.

Talvez se eu tivesse a minha varinha, eu poderia usá-la para revelar o oculto. Mas como eu poderia recuperar se ainda estava nos domínios de Valther...?

Fui para a sala e coloquei Mariette na gaiola, dei alguns grãos a ela, e olhei para a porta fechada do escritório do papai. Ele não estava em casa naquele domingo, então talvez eu pudesse entrar e pegar a da mamãe.

Mas a porta estava trancada, fiquei aborrecida e sentei no sofá entediada. Ficar em casa sem nada para fazer e sem ninguém para conversar era muito chato. Senti falta da Lúcia mais uma vez, ela era tão falante, principalmente quando se tratava de fofocar.

Suspirei e levantei novamente. Decidi que pegaria a minha varinha no quarto da Valther. Primeiro eu precisava saber o que cada uma das empregadas estava fazendo, não queria ser pega no flagra.

Olhei Anaria limpando a biblioteca, pendurada no último degrau da última prateleira. Seu rosto branco estava sujo de poeira.

— Senhorita!-ela me viu saindo.

— Sim?

— Quer algum livro? Eu já estou acabando aqui.

— Não obrigada!- quer dizer, quero sim!

— Eh?-ela me olhou confusa.

Eu precisava de tempo, então inventei algum livro e pedi que ela o procurasse para mim.

— "A pedra vermelha"?

— Sim! Pode achá-lo? Faz tempo que não vejo... Queria ler novamente.

Ela olhou um pouco preguiçosa para as prateleiras.

— Tem certeza? Não pode ser outro mais fácil de achar?

— Não! Tem que ser aquele, então por favor... Quando achar me avisa.

Disse já saindo. Anaria amarrou o cabelo ruivo mais forte e começou a olhar os livros um por um.

— Ótimo agora a Bridjet...

Entrei na cozinha e a vi dormindo com a cabeça na mesa.

— Brid?

— Ah! O quê?!-ela levantou o rosto assustada.

— Ah!...

Acabei acordando ela sem querer, eu devia ter me lembrado que ela tinha o sono leve.

— Pode fazer um bolo para mim?

— Um bolo??

— Sim, por favor.

— Mas ainda há pão.

— Mas eu quero bolo...

Ela me olhou por algum momento, e suspirou.

— Tudo bem, mas não será um tão grande.

Assenti animada e sai da cozinha.

— O que ela está aprontando?-Bridjet pensou sorrindo.

Desci as escadas e fui até o quarto de Valther. Abri a porta lentamente e a vi lá dentro, deitada na cama com as costas machucadas para cima. Em cima da sua mesa estava algumas cartas de Lúcia, então finalmente soube quem estava com elas, mas não dava para pegar com ela ali.

Foi então que notei a minha varinha em cima do baú ao lado do beliche onde ela estava deitada dormindo. Abri a porta mais um pouco e fui engatinhando até o baú. Fui o mais silenciosa possível.

— Ahh dói... Dói muito... — gemeu com agonia..

Paralisei quando estava perto de pegar a varinha. Olhei com medo para sua nuca. Ela estava acordada, mas ainda não tinha me visto, era um alívio. As costas estavam bem machucadas por causa do chicote do papai, eu não sabia que meu pai poderia ser tão brutal com uma serva, principalmente com Valther que era tão leal.

Peguei a minha varinha rápido e sai do quarto por onde tinha entrado. Suspirei aliviada vendo a minha varinha em mãos.

— Senti tanta falta sua! — Cochichei e guardei-a no bolso do vestido.

Fui para fora de casa, e observei a janela novamente, ela estava mais ao fundo na casa, parecia passar do Hall, talvez fosse próximo ao quarto do papai.

Antes que eu pudesse ir descobrir, ouvi o portão ranger, o papai havia voltado! Guardei a varinha no bolso novamente e fui espiá-lo.

Papai saiu da carruagem, estava bem-vestido, seus cabelos loiros penteados para trás, com sua bengala novamente —, ali era um lugar secreto para a sua varinha, aquelas bengalas faziam um baita sucesso na época.

— Susie...

Ele me notou atrás da parede da casa. Sai de trás e o olhei por alguns segundos. Seus olhos frios ainda estavam ali, meus inimigos.

— Papai...

— O que faz aqui fora?

— Estava brincando...

— É perigoso.

— Eu sei... Desculpa. — abaixei os olhos.

Papai olhou o cocheiro.

— O balanço, corte-o.

Levantei meu rosto.

— Não, por favor!

— Não quero que brinque aqui fora, você tem um dever a fazer, estudar.

— Mas é domingo!...

— Não interessa!

Fiquei em silêncio, com medo de irritá-lo e acabar ganhando uma punição como Valther.

— Agora vai para dentro... — disse firme.

Assenti e subi os degraus para dentro de casa. Do lado de dentro, vi pela janela o balanço ser cortado.

Mamãe me empurrava ali quando eu era bem pequena... O único momento que eu tinha de lembranças felizes dela... Se foi, e papai não parecia se importar...

— Que cheiro é esse? — disse entrando em casa.

— Cheiro?

— Isso é bolo? — ele olhou em direção a cozinha.

— Ah! Pedi a Bridjet para fazer um para mim... Eu estava com muita vontade.

Ele não disse mais nada, não pude decifrar se ele ficou feliz ou não, por eu ter a mandado cozinhar para mim. Apertei a varinha no bolso do vestido. A noite chegou logo. Jantamos e fomos deitar. Não houve conversas no jantar, não que eu já não estivesse acostumada... Mas foi um jantar mais frio do que o de ontem.

Porém, isso não importava, porque agora eu estava com a minha varinha, e decidida a descobrir que janela era aquela. Tinha quase certeza de que ficava no corredor escuro, era arriscado, de fato, mas a curiosidade era ainda mais forte.

Meia-noite levantei meu rosto do travesseiro e olhei para a porta. Eu estava com muitos pensamentos na cabeça, coisas que começaram a não fazer tanto sentido. Mas eu sabia que, de alguma forma, fazia. Sentei na cama e olhei fixo para o meu armário enquanto calçava minhas pantufas, então notei algo ali, um risco na madeira. Pensei que talvez tivesse alucinando outra vez por causa de tudo o que tinha acontecido. Mas assim mesmo me aproximei e olhei o que estava riscado.

Meu nome estava escrito ali, era esquisito, pois eu nunca havia escrito nada nos móveis do meu quarto. Mas a letra era familiar, há era... O "S" feito preguiçosamente de um jeito quadrado, a ponta no final do "e" era bem puxada para cima, quase igual a um c.

Reconheci aquela letra, meu nome, mas o que ele fazia ali? Como havia parado ali? Como nunca notei antes...? Mas acima de tudo, quem o fez?

Olhei ao redor procurando mais alguma coisa. Peguei a lamparina e aproximei dos cantos do meu quarto, na ponta dos armários, da estante de livros, até perto da porta, mas não vi mais nada. Apenas ali no armário.

— E se eu...

Observei o meu armário, a forma como ele estava um pouco afastado da parede, era estranho.

— Já sei... Talvez se eu mover um pouco...

Segurei o meu armário e puxei para frente, ouvi o som de algo caindo atrás dele. Abaixei e olhei por debaixo, a capa preta meio cinzenta. Folhas marrons, cor de café com leite. Um caderno pequeno e velho.

— Uh?? O que isso faz aqui?

Estiquei meu braço e peguei aquilo. Sentei na cama e coloquei a lamparina no criado mudo, aproximei o caderno e enxerguei na capa um sobrenome. O meu sobrenome.

"Landerwood"

— Isso não faz sentido... -abri o caderno e olhei várias coisas rabiscadas nele.

Nomes de feitiços, como executar cada um deles, a maioria era os que eu ouvi na escola usadas pelos veteranos. Coisas sobre poções também estavam ali, mas poucas.

— O que isso faz aqui?... A letra é tão...

A letra era do garoto desaparecido! Ele escrevia exatamente como o do livro de feitiços do terceiro ano. Nada e tudo ao mesmo tempo, fez sentido. As mensagens, as coisas que vi e descobri no castelo. Eram para que eu visse!

Eu nunca me questionei antes sobre as minhas perdas de memórias, memórias que faltavam, peças que faltavam! Então percebi que mais alguém morava ali conosco, e algumas pistas sempre estiveram ali, mas ocultas da minha percepção de alguma forma... Talvez Hogwarts tivesse aberto os meus olhos.

Peguei a minha varinha imediatamente, e sai do quarto. Havia um lugar na casa que papai me proibia de ir, mas e se algo estivesse escondido lá? Eu nunca poderia descobrir antes porque peças faltavam nesse quebra-cabeça! Mas depois de tudo, tudo o que aprendi em Hogwarts... Eu finalmente poderia desvendar esse mistério. Meus olhos estavam bem abertos e eu estava mais atenta aos detalhes. Parei de frente ao corredor escuro e apontei a varinha para a parede mais suspeita.

— Revelium!

E aquilo surgiu diante dos meus olhos, uma porta, cor marrom escuro, maçaneta cinzenta e empoeirada. Dei um passo para trás. Eu nunca imaginaria que talvez algo estivesse escondido na minha própria casa! Escondido de mim!...

— Alohomora! — lancei o feitiço mesmo sem checar se estava trancada.

Girei a maçaneta e entrei. Fiquei estática ao ver ele sentado lá na poltrona. Meu pai.

— .... Papai?...

Ele me olhou, e por trás de mim, ouvi a voz de Bridjet.

— S-senhorita...

Olhei ambos e depois o quarto, havia uma cama lá, lençol azul-escuro, livros nas estantes e uma janela escura e fechada atrás do papai. E acima de nós, estava ela, a janela redonda!

— O que é isso...? Por que tem um quarto secreto na nossa casa!?

Bridjet se aproximou e apontei a varinha para ela, eu estava muito assustada.

— Abaixa isso, Susie.

Ouvi papai e me virei, ele ainda estava sentado, calmo. Eu não sabia distinguir que sentimentos tinha na hora, raiva, medo ou dúvidas... Minha respiração estava acelerada, obedeci à ordem e deixei meu braço cair ao lado do corpo.

— Por favor... Me expliquem o que é esse lugar... O que está acontecendo...

Bridjet se aproximou lentamente e pegou a varinha das minhas mãos. Sentei na outra poltrona de frente para o papai. Ele finalmente me contaria tudo...

— ....

Houve silêncio por um tempo enquanto ele encarava os meus olhos. Talvez estivesse procurando as palavras certas para dizer.

— Susie, você tem um irmão. — Ele foi bem direto.

Meu coração acelerou, olhei para o quarto e disse trêmula.

— O quê?... Como assim?

— Eu queria ter te contado antes... — De verdade —, mas eu não sabia como fazê-lo.

— Um irmão...-

— Acabei fazendo uma enorme confusão durante o meu desespero, e isso nos afetou, afetou a todos ao redor.

— Eu não estou entendendo...

— Seu irmão foi expulso da escola a um ano atrás...

— O-o garoto da escola é mesmo meu irmão!?

— Sim... Tommy Munego Landerwood.

— T-Tommy Munego Landerwood, então esse é o nome dele...

— Ele acabou matando aquela menina, e isso tudo aconteceu. Acabei fazendo um feitiço mal executado na tentativa de apagar o que ele havia feito e limpar o nome da família Landerwood...

— É verdade, Senhorita, foi apenas para que o nome da família Landerwood fosse limpo... -Bridjet confirmou.

— Então, você tentou apagar da memória de todos que ele é da nossa família?...-meu rosto escureceu.

— Sim. Mas isso não deu muito certo, agi sem pensar, algumas coisas que deixam pistas sobre o que ele fez, ainda estão por aí-

— Esse não é só o problema! — Me exaltei pela primeira vez — O que aconteceu... você tentou nos livrar da culpa, tentou livrar o nome da nossa família e deixando esse... esse meu irmão lidando com tudo isso sozinho...

...

— ... é cruel demais...

— Senhorita... — Bridjet se aproximou e tocou o meu ombro.

— Você sequer tem certeza que ele realmente matou aquela menina? Se era a intenção dele?!

—...- papai abaixou a cabeça.

— Talvez tenha sido apenas um acidente, todas as circunstâncias e pistas levam a isso... Você não ficou ao lado dele?... Por que não o defendeu em vez de simplesmente deixar ele carregar essa culpa para sempre!? Por que você não tentou investigar e provar a todos que ele era inocente em vez de fazer isso? Por quê!?

— Eu sinto muito...

— Você apenas o deixou-... Apenas o deixou carregar essa culpa... Sozinho.

— Eu tentei o meu melhor, e não é como se eu não estivesse investigando também... Tenho feito isso há muito tempo.

— Mas não é só isso! Você simplesmente apagou ele da minha memória, por que fez isso? Por quêee!?

— Eu não queria que você sofresse, caso ele realmente tivesse feito algo... Eu queria te livrar desse sofrimento, dessa vergonha.

— Você não me livrou... Você me abandonou. Exatamente como fez com ele. Me fez pensar que eu estava sozinha aqui, eu passei muito tempo acreditando que o motivo de você ser tão distante era porque me odiava, por causa da mamãe...

— Susie... -ele ficou sombrio enquanto abaixava a cabeça novamente.

— Mas estou aliviada...

Ele levantou o rosto surpreso.

— Por que agora eu sei a verdade sobre como você se sente, e sobre tudo o que realmente aconteceu...

— Entendo...

— Eu vou voltar a Hogwarts, dessa vez eu prometo que vou descobrir o que realmente aconteceu.

— Você... Quer voltar lá? Tem certeza?

— Eu tenho, por favor, então me deixe voltar.

— Eu não sei se é uma boa ideia, depois do que aconteceu lá...

— Está tudo bem, papai... Eu estava perto de descobrir o que aconteceu, quem mais estava envolvido nisso, e agora que já sei que ele é meu irmão, eu prometo que trarei ele de volta. Eu acredito-... Não, eu sei que ele é inocente.

Papai me olhou como se estivesse aliviado. Bridjet sorriu parecia aprovar a ideia.

— Ainda falta mais algumas peças do quebra-cabeça. Para descobrir quem mais fez parte do acidente, então eu preciso voltar a escola...

Quando olho para o passado, eu não consigo sentir nenhuma sensação ruim — meu coração sabe —, e um coração não pode mudar com nenhum tipo de magia, foi o que aprendi com Anaria... Então isso já é prova o suficiente de que o meu irmão é inocente!

Eu acredito nisso.