Não se vá
4 Capítulo IV
Notas iniciais
Parou em meio ao silêncio do próprio quarto repassando toda a cena na cabeça. Quando foi que ele não segurou o impulso de abraça-lo? Por que todos os pensamentos dele apagaram e ele não controlou o corpo de se inclinar para frente para o abraço? O que Mateus estaria pensando sobre? Será se ele iria chegar no outro dia afirmando ter dado muita liberdade para Cesar, e com isso, era melhor não fazer o trabalho e aceitar a recuperação? Estúpido, Cesar. Muito estúpido.
Lupin brincava com uma barata que acabara de matar. Aposto que ela sabe o que faz o tempo todo, ponderou.
Passaram-se uns bons vinte minutos desde que chegara e o vermelhidão no seu rosto se transformara no branco de sempre. Tentou banhar-se mas estava inundado por pensamentos dos mais temíveis. Ficou observando seu reflexo por alguns minutos. Cesar era o tipo de cara que raramente praticava exercícios atualmente, porém foi a saída que achou para parar de pensar no assunto por um momento. O som no computador estava ligado, mas dessa vez tocava um pop/eletrônico. Meia hora depois, ainda agitado, andando de um lado para outro, finalmente saiu do quarto e ligou o chuveiro. A água percorreu por todo seu corpo, expelindo todo e qualquer tipo de sentimento ruim no qual ele estivesse sentindo.
O rosto dele ardia. Ele reparou no sorrisinho de canto de boca quando se olhou no espelho. Isso tudo parecia uma cena tragicômica de um seriado qualquer. Cesar tenta se absolver da culpa, mas ainda sente. E ainda tinha o choque da situação. Foi como se Jorge o tivesse socado no estômago antes que ele pudesse se defender ou trancar-se em seu quarto. Ainda era 22h30 quando a pizza chegara. Sempre que ficava sozinho, o que acontecia com muita frequência, comprava alguma coisa por um aplicativo de celular. Acendeu a luz da sala de estar, ligou a tevê, colocou em um canal qualquer e preparou-se para comer quando seu celular vibra.
“Querido, aqui é a Mamãe. Iremos chegar um pouco mais tarde, não há necessidade de esperar acordado. Espero que esteja tudo bem por aí. Você lembrou de colocar ração na tigela de Lupin? Não esqueça de comer algo, escovar os dentes e dormir.”
Julieta sempre fora uma mãe apreensiva ao deixar Cesar sozinho em casa, todavia, ele adorava. Aproveitava para fazer as coisas que não podia quando o pai estava presente. Se ela ao menos soubesse o acontecido desta noite, ela ficaria espantada. Talvez. O que ele tinha na cabeça para abraçar Mateus daquela maneira? Qual era o seu problema? Pegou um pedaço da pizza, limpou a garganta com um pouco do refrigerante e deu a primeira mordida. Não é como se a pizza estivesse ruim, a sua boca estava amarga, podia sentir o gosto da culpa descendo a goela. Olhando para o celular ao lado do copo, pensa em mandar uma mensagem, apenas um envergonhado pedido de desculpas, sem detalhes. Inspirou fundo enquanto mastigava a última mordida do primeiro pedaço. Suas mãos costumavam suar bastante e ele sentia-se um tanto enjoado.
Ponderou se o professor estaria pensando tão vividamente como ele sobre o abraço e sobre a despedida após. Talvez Cesar precisasse de algo mais forte que uma pizza e refrigerante. Entrou na adega do pai, pegou um vinho qualquer já aberto e serviu numa taça. Sem saber o quanto era necessário para não deixar rastros, encheu a taça e voltou para o sofá. Voltou a comer a pizza e, a cada mordida, deleitava-se do vinho do pai. Ele deveria estar ansioso para saber de Mateus e toda essa comédia de erros. Tentou parecer não preocupado mesmo com seus ombros pesando mais do que deveriam. A série na tevê deveria ajudá-lo a esquecer um pouco da vida, desse apunhado de emoções confusas que percorriam pele, veias e sangue. Dava umas risadas aqui e acolá. Via-se obrigado a rir. O telefone não vibrara, Cesar tirou os olhos da caixa vazia de pizza e continuou assistindo a série, que avança inexoravelmente para o final, destacando que aqueles pensamentos voltariam a qualquer instante. Após o fim do episódio, abriu a porta do escritório de Jorge, deparou-se com a caixa de cigarros e indagou quantos seu pai fumava por dia e o porquê de fumar tanto. Levou um a boca, acendeu e tragou. Tossiu algumas vezes e depois acostumou-se com aquilo. Com os pés em cima da mesa enorme de madeira envernizada, apagou o cigarro e ficou tamborilando os dedos. Cesar precisava habituar-se àquele sentimento pelo seu professor. O que quer que fosse aquele sentimento. Achava que era uma aposta insegura. Ele balançou a cabeça e deu de ombros.
Bebeu um pouco d’água, lavou a louça e jogou o cigarro fora deixando a porta do escritório aberta com o ventilador de teto ligado. Deitou na cama dos pais, observou as fotos nas prateleiras brancas junto com os milhares de livros sobre Economia, Romance, Drama, Suspense, Terror e Ficção. O hobby favorito de sua mãe era ler, a cada semana comprava um livro diferente. Infelizmente ele não nasceu com esse dom para a leitura, não que já não tivesse tentado, mas sempre acabava acordando com o livro em cima de sua cara ou da barriga.
Já fazia quinze minutos desde que desligara tudo e deitara na cama. Por um instante, pensou em ligar para Mateus, sua ansiedade precisava saber o que ele estava pensando, se estava pensando e com qual intensidade estava pensando.
Sou eu. Desculpa tentar contato, mas preciso saber se você está pensando no que eu fiz hoje mais cedo. Se sim, por favor, me ligue.
Sem medo, ele apertou enviar.
Segurou o celular com as duas mãos.
O celular tocou um solo de guitarra.
Na tela: Mateus.
Por que o nervosismo tão subitamente? Não precisava ser formal, mas também não precisava exagerar muito. Afinal, eles tinham passado a noite juntos. Aquilo não precisava ser estranho, eles não estavam na escola onde todos podiam observá-los.
O telefone parou de tocar. Cesar gritou merda. Lupin batia na barata já morta. Cesar gritou com a almofada abafando o som. O celular tocou novamente. Dessa vez ele arrastou para a direita.
— Alô, oi. – Sua voz ficara meio fraca.
— Ei, Cesar.
— Olha...
— Você não precisa se preocupar, tudo bem? Sei que foi um mal-entendido, acho que no calor do momento você fez o que fez. Tá tudo certo. Também penso que você agiu daquela forma por conta do grande alívio que sentiu por eu estar ajudando. Não pense que por causa disto eu irei pedir para você não fazer mais o trabalho. Como disse, mal-entendido.
Como ele podia ser assim? Como Mateus tinha a audácia de agir dessa maneira? Qualquer outro professor, em sã consciência, retiraria a proposta e comportar-se-ia mais profissionalmente. Cesar percebeu que não falava já tinha um tempo.
— Ah, claro.
— Você está bem? – Ele estava bastante formal. O tom da sua voz aparentava meio precipitada.
— Sim. Desculpe, pensei que o senhor reagiria de outra forma.
— Como, exatamente?
Lupin deitara entre suas pernas e ronronava por carinho. Cesar passou a mão algumas vezes antes de responder. Podia ouvir a respiração dele através do aparelho. Ele estava... nervoso?
— Não sei. Não dessa forma.
— No começo, pensei em retirar a proposta. Achei que tinha dado liberdade demais. Porém reavaliei a situação e decidi deixar do jeito que está.
Por que ele estava sendo tão formal de repente? Não foi ele mesmo que disse não haver necessidade disto? Lupin mordia uma vez ou outra a mão de Cesar.
— E-Entendo. – Balbuciou. Controle-se!
— Ainda sozinho em casa?
— Sim. Minha mãe mandou uma mensagem mais cedo dizendo que eles iriam chegar tarde.
— Não era para você estar dormindo?
— Ah, sim. Bem, pensei em madrugar fazendo o seu trabalho. Não tenho muito sono.
— Não deveria se esforçar tanto. Ainda há bastante tempo. Já são quase meia noite.
— Eu sei, mas preciso focar minha mente em outra coisa.
— Certeza que está tudo bem?
— Não foi o senhor que disse que não tinha necessidade de tanta formalidade?
— O que você quer dizer?
— A forma que tá falando agora. O tom da sua voz. Eu me sinto péssimo pelo abraço, se é isso que você queria ouvir.
Silêncio.
— Tu também vem sendo bastante formal nessa conversa.
— O que eu deveria dizer agora?
— Como eu deveria saber? Assim como você, eu devia estar dormindo.
— Mas eu não estou dormindo.
— Exato.
Cesar sorriu. As bochechas voltaram a arder. Mateus tinha uma certa força sobre ele que ele gostava. Notava que a tensão esmorecia rapidamente. Cesar deitou-se na cama e sentiu o marasmo imperar em seu corpo de 1,70cm. Visualizava Mateus deitado, provavelmente esperando para que pudesse desligar e ir dormir. Ambos acordavam cedo para ir à batalha, mas ele tinha consciência de que seu professor acordava muito mais cedo. Quando se preparou para informar que iria desligar, Mateus interveio.
— O que anda fazendo por aí?
— Oi? Ah, bom, apenas deitado olhando para o teto e com o som ligado.
— E tem música tocando? Não escuto nada.
— Tá baixo. Alguns vizinhos não suportam som alto a essa hora da noite, mas quando são eles... Você precisa ver.
— Posso imaginar.
— E você?
Ele parecia mexer em algo.
— Acabo de trocar minha fantasia de amanhã para minha calça moletom. A vista daqui é ótima. Aparentemente tá tendo uma festa não muito longe daqui.
— A vista daí de fato é ótima. Festa? Aonde?
— Não sei.
— Deve ser meus pais e a turma do emprego do meu pai.
Mateus riu.
— Eles festejam com fogos de artifício também?
— Agora eu escutei. Pode ser alguma partida importante de futebol. Sei lá.
Riu novamente.
— Deixa eu ver. – Cesar ouviu o barulho da tevê. – É, você acertou em cheio, meu caro. Você curte algum tipo de esporte?
— Sim, o de procrastinar.
Era interessante como Cesar transformava-se em uma pessoa absolutamente extrovertida na presença de Mateus, e isso o preocupava um pouco, pois se o que ele estava sentindo fosse real, teríamos grandes problemas. Não só para o professor, mas como para ele. Se bem que Mateus não precisava saber de tal sentimento. Se seguíssemos por esse caminho tudo ficaria bem.
— Eu não sei você, mas acho futebol bastante tedioso. Prefiro vôlei ou basquete.
— Qual é a de vocês pessoas que curtem esportes?
— Ué. O que você quer dizer?
— De onde vocês arranjam tanta disposição para praticar? Qual o segredo? Só de pensar em esportes eu já fico ofegante.
— Acho que uma boa alimentação.
— Foda-se a boa alimentação.
Mateus riu alto. Até demais. Ele tinha uma gargalhada genuinamente linda.
— Você não parece ter um corpo flácido. – Disse já com uma voz sonolenta.
— Precisei ir à academia por um tempo.
— Por quê?
— É um assunto no qual eu prefiro não falar.
— Tudo bem, entendo. Se ainda se sente mal por conta do abraço, por favor, não fique. Sei que suas intenções foram as melhores. E se ainda se sente mal por qualquer que seja esse assunto, a escola proporciona um psicólogo. O sr. Araújo. Ele é ótimo.
Por que ele tinha de ser tão atencioso com um sorriso formidavelmente lindo? Cesar entrava numa fria maior ainda a cada palavra trocada.
— Eu sei. Agradeço.
Meia noite.
— Não é como se você não pudesse me abraçar. É normal.
— Hm.
— E eu precisava mesmo. Meu domingo foi uma completa merda.
— Aconteceu algo?
— Sempre passo o fim de semana na casa dos meus pais, eles moram num sítio, e sempre ajudo quando vou por lá. Aparentemente eles estão pensando no divórcio. Eu sei, você deve imaginar “você tem 28 anos, não deveria se importar com coisas mais influenciáveis na sua vida?”, mas quando eu olhava para eles eu enxergava verdadeiro amor. Pelo visto até nisso eu me enganei.
Ele falara isso pensando no ex-namorado?
— O amor é uma grande incógnita. O que você acha?
O que diabo Cesar poderia dizer para amenizar a dor dele?
Ele fez um barulho com a boca.
— Desculpa jogar isso em cima de você assim.
— Tá tudo bem.
— Queria que estivesse.
— Sinto que meus pais também irão se divorciar. Só estão juntos por minha causa, sei disso.
— Por que você diz isso?
Cesar coibiu-se de dizer o motivo de tal achismo. Não havia necessidade.
— É o que penso. Pode não ser.
— Entendo. Ainda estou tentando processar essa informação, eles estão juntos há exatamente 30 anos. 30 anos é muito tempo. Vocês prometeram. Fizeram votos. Não deveriam ser valiosos?
— Acho que você que deveria procurar o sr. Araújo.
— Você é ótimo, Cesar. – Mateus ria diante sua dor.
— Todo casal tem problema e talvez seus pais estejam fazendo isso apenas para o bem deles mesmos. Teria sido pior se eles tivessem agido pelas suas costas e você descobrisse da pior forma.
— Tem razão. Acho que ainda preciso processar toda essa história.
— De qualquer modo, eles estão priorizando a felicidade deles. Eles merecem ser felizes também, não acha? – Cesar falou pensando em sua mãe. Engoliu em seco a vontade de chorar.
— Aparentemente temos um psicólogo na conversa. Pode entrar, Cesar.
Cesar riu cobrindo o rosto. Que bobo! Quanta bobagem. Tentava se controlar, mas era inevitável. O sentimento estava dominando-o por completo e, quando conversava com Mateus, não ligava se era estranho ou completamente louco. Era bom. Puro.
— Eu tento.
Seu celular vibrou.
— Um instante.
— Claro.
Maxine mandara mensagem. Parecia irritada.
“EI PORRA, TÔ TENTANDO FALAR CTG HÁ HORAS!!!! CESAAAAARRR!!!”
“Dsclp, eu tava ocupado.”
“Caralho, viado. Precisava falar ctg mas já passou.”
“Era importante?”
“Poli teve um ataque de asma e não encontramos a bombinha em lugar algum da casa então viemos direto para o hospital, mas já está melhor.”
“O QUE??????????”
“Ela tá melhor já. Não se preocupe. Só qria q tu avisasse q ñ vamo pra aula hj. Blz?”
“Tudo bem. Meu Deus! Dsclp mesmo, Max. Visitarei vocês dps, blz? Melhoras.”
Cesar ouvia a respiração de Mateus. Concentrou-se.
— Alô?
— Ei.
— Você tá comendo?
— Sim. Encomendei uma pizza.
— Eu também.
— Agora?
— Ah, não. Logo após ter chegado em casa.
— Tendi.
Cesar olhou para o relógio na parede. Ele precisava começar o trabalho, queria termina-lo o mais cedo possível. Estava animado, precisava aproveitar o pique.
— Vou desligar agora. Vou terminar de comer e se eu não dormir, descontarei minha raiva nas pessoas erradas.
— Você tá com raiva?
— Eu fico bastante rabugento se não durmo.
— A pergunta é: quem não fica?
— Uma ótima pergunta.
— Boa noite.
— Até. E não se exceda tanto nesse trabalho, tudo bem? São quase 00h30.
— Certo.
— Boa noite, Cesar.
— Boa noite, Mateus.
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