Não se vá
2 Capítulo II
Notas iniciais
— Isso não pode estar acontecendo comigo! – Cesar levou as mãos à cabeça sentindo muita náusea pelo corpo inteiro. – Eu vou ser massacrado.
Poli passava vagarosamente a mão nas costas dele dizendo palavras de conforto, todavia, ela sabia que não adiantava. Pensava no que poderia acontecer de tão catastrófico na casa dele para ele ficar daquele jeito. Os três estavam sentados no banco de mármore perto do pátio, alguns alunos conversavam muito alto e outros jogavam futebol no campinho ali perto.
Cesar sentiu o ar faltar nos pulmões. Se aquilo era um ataque de pânico, Maxine não queria ter que passar por isso nunca. Nunquinha!
— Vou buscar uma água. – Disse Poli, apressadamente. – Volto logo!
— Ei, cara. Respira comigo. Que nem uma grávida, vamos.
Em meio ao desespero, Cesar soltou uma gargalhada que aparentava mais um pedido de socorro, todo seu corpo tremia e nem tinha chovido como a moça da tevê mencionara. Maxine retirou o casaco do time de futebol, revelando seus seios robustos e reverberando toda uma onda de assobios em sua direção e pousou sobre ele.
— Cesar, foi só uma nota ruim. Calma! – Ele vociferou para cima dela.
— Não é pela nota ruim, Max. Meu...
— Aqui! – Poli enfiou o copo d’água no meio dos dois, causando um susto duplo. – Beba, pedi para a dona Lola colocar um pouco de açúcar.
Diferente de Maxine, Poli tinha um corpo mais esguio e ela sempre mencionava como odiava ser daquele jeito, além de ser baixinha, que para ela, era apenas mais um adendo ruim à sua fisionomia. Cesar também era meio esguio, mas não como a amiga. Ele tinha lá seus músculos do tempo que fazia academia e dos exercícios diários.
Uma vez ou outra, tentou levá-la a academia, mas algo importante aparecia no meio e ela sempre dava o bolo nele.
— Na próxima semana, quem sabe. – Dizia ela.
Maxine nunca fora de ser insegura, sentia-se sempre emponderada na própria pele, no próprio corpo, entretanto, quando sua irmã falava que odiava aquele corpinho molenga, ela ficava mal. Não por ter as gordurinhas a mais, nunca foi um problema, ela soube lidar muito bem com o bullying, mas sim, porque sua irmã não se amava como ela a amava. Poli não via o quão perfeita era.
Enquanto uma tinha pouco busto, a outra tinha aos montes. Enquanto uma era supersegura de si, a outra não gozava da própria pele. Uma era baixinha, a outra era um pouco alta. Maxine gostava de usar vestidos longos floridos e Poli curtia umas roupas casuais, de preferência da cor rosa-claro. Uma tinha o humor tóxico e a outra um humor meio tanto faz, respectivamente. Ambas eram diferentes, mas se completavam. Eram irmãs, afinal.
Mateus, o professor, descia as escadas do segundo andar da escola quando avistou os três e notou o ar meio tenso.
— Tudo bem por aqui? – Cesar não conseguia olhá-lo nos olhos, ele percebeu, mas preferiu deixar de lado.
— Sim, sim. Cesar ficou assustado com uma aranha. Ele tem aracnofobia.
— Entendo. Vocês podem ir descansar na enfermaria qualquer...
— Eu me esforcei bastante para essa prova, professor. Por favor – De repente, Cesar ajoelhou-se –, tem como o senhor passar algum trabalho para me ajudar na nota. Eu... – Engoliu seco suas palavras e falou baixinho. – Eu não posso ficar na recuperação. Meu pai...
— Acredite, Cesar, eu queria muito curtir as férias, mas não posso passar um trabalho individualmente. Isso seria antiético, você entende?
Umedeceu os lábios e levantou-se do chão. Tinha passado vergonha demais, as outras pessoas presenciaram aquela cena com olhares estranhos, poderia causar má concepções sobre o professor. O que eles pensariam? Que eles tinham um caso e Cesar suplicava pelo retorno? Não tinha sido um movimento muito sábio da parte dele.
Maxine e Poli colocaram as mãos em seus ombros e olhavam meio com pena, Cesar odiava quando sentiam pena dele. Muito! Era como se ele fosse impotente. A raiva subiu, mas soube se conter. Despediram-se do professor e caminharam até o portão. Era 12h10 e Cesar não estava no humor para o ônibus da escola, principalmente para as pessoas que vinham nele.
As garotas passaram a maior parte do tempo tentando animá-lo como se ele tivesse desistido dele mesmo e de todo o resto, não era tão simples assim, elas não conheciam Jorge, o pai carrasco. Não tinha nada mesmo que Cesar pudesse fazer para recuperar a nota? Se havia ele não conseguia pensar na solução. Decidiram passar pelo shopping ali perto para comer alguma coisa, raramente eles voltavam antes das 15h para casa, então a mãe de Cesar nunca deixava almoço para o filho. Todavia, o pai não curtia muito da ideia de seu filho comer porcaria em troca de uma alimentação mais saudável. Como se ele realmente se importasse com a saúde dele. Era de achar graça.
Maxine ficou na fila para fazer os pedidos enquanto Poli guiava Cesar pela multidão no meio da praça de alimentação; ele odiava multidões. Sentaram-se perto das mesas do McDonalds onde tinham uma vista geral de todas as outras lanchonetes. O shopping estava lotado. Até demais. Poli retirou o celular da bolsa e começou a digitar algo bem rápido com um sorrisinho de canto de boca. Cesar gostaria de pensar em outra coisa além da nota, ele sentia a decepção com uma gota de remorso. A culpa era dele por não ter se esforçado mais, ele poderia ter prestado mais atenção, feito mais anotações, estudado mais algumas horas mesmo que perdesse o sono que precisava. Olhou para o andar de baixo pensando que queria ser como Fernando, um dos caras mais inteligentes da sua turma. Não tinha nem comparação. Por um instante, cogitou em pedir auxílio para Fernando, mas por outro lado, sentiu que ele preferiria curtir suas tão merecidas férias.
Cesar não sabia o que fazer. Estava perdido entre tantos pensamentos. E eles doíam. Tudo que voltava ao seu pai doía. Por quê? Ele não merecia um pai como Jorge. Ou merecia? Seria esse seu castigo mortal? O pai o espancaria novamente, só que dessa vez, mais firme. Seria um péssimo fim de semana. Poli continuava teclando rápido. Era irritante. Ela era irritante. Óbvio que isso era apenas um pensamento momentâneo, Cesar estava triste.
— Aqui. – Maxine pôs a bandeja com 4 sanduíches em cima da mesa. – Um Picanha Barbecue Bacon para mim, um Chicken Crisp para o Cesar e dois Picanha Cheddar e Bacon para você. Pode me dizer novamente porquê você anda consumindo tanta porcaria?
— Preciso engordar.
Poli simplesmente constatou e começou a devorar o primeiro sanduíche.
— Por quê?
Ela não respondeu, continuou mastigando ferozmente a comida como se não houvesse amanhã. Cesar ficou um pouco espantado pois nunca vira a amiga sentir tanta fome do jeito que sentia no momento, aquilo era surreal. Algumas pessoas olhavam aquela atrocidade e depois continuaram suas respectivas conversas.
— Você vai se entalar dessa maneira. – Maxine tentou fazê-la ir devagar retirando o sanduíche de longe dela, mas ela tapeou a mão da irmã. – Ei! Que porra, Poli?
— Deixa ela. Come o seu antes que caia nas mãos do mau.
Maxine riu.
Uma bandinha passou tocando música em seus saxofones e trombones e o que quer que fossem os outros instrumentos. Cesar odiava aquilo. Para ser sincero, ele odiava qualquer coisa no momento. Só queria se esconder debaixo do edredom e esquecer esse dia horroroso que se formava a cada minuto que passava. Sua mãe também não gostaria muito daquela nota, especialmente porque seu pai cairia em cima dela como sempre. Daqui a 4 dias sua casa seria uma zona de guerra, uma guerra que ele não queria se envolver, uma guerra na qual ele preferia ajoelhar-se e rezar à Deus por perdão.
O mundo estava caindo e ninguém sentia. Seus ombros pesaram e ele decidiu parar de comer o hambúrguer com fritas, o gosto na sua boca não era prazeroso, tudo se tornara cinza por conta de uma nota abaixo da média. Poli e Maxine agora conversavam mais calmamente, a atenção de Cesar estava voltada novamente ao andar de baixo. Ele jurou ter visto alguém conhecido ali.
Bingo!
O professor Mateus passava com um notebook em mãos, provavelmente um novo. Essa era a chance. Levantou-se e disse que ia ao banheiro. Maxine indagou porquê ele não ia usar o da praça de alimentação. Sujeira demais, ele viu. Ele mentiu. Foi preciso. Começou a andar em passadas rápidas até chegar a escada rolante, atropelando algumas pessoas seguido de desculpas.
— Professor! Professor! Espere! – Mateus parou, já escutara aquela voz de algum lugar, só não lembrava onde. Ele virou e reconheceu. – Professor Mateus!
— Ah! É você, Cesar. Sabia que conhecia essa voz. Você não foi para casa? Quem tá aqui contigo? – Ele nunca fora tão informal com Cesar assim.
Cesar apoiou-se nos joelhos, inspirou e expirou 2 vezes.
— Não, não fui. Às vezes venho para cá com Maxine e Poli, elas estão comendo agora. Eu precisava falar com o senhor.
— Por favor, me chame de Mateus ou você. Não estamos na escola.
— Tudo bem. Você. Eu precisava falar com você.
— Olha, se for sobre a nota, eu não posso...
— Por favor! – Seus olhos marejavam. Mateus notou. – Eu imploro, Mateus. E eu nunca imploro.
A situação era complicada. Mateus não sabia o motivo de tanto alvoroço por uma nota e Cesar sabia o quão difícil deveria ser para seu professor em deixa-lo de recuperação sendo que ele nunca tinha ficado. Mateus conhecia Cesar. Ele era um ótimo aluno. Mas sentia que algo a mais entrava no caminho. Pediu o celular dele e digitou um número.
— Mais tarde, envie uma mensagem para esse número, tudo bem? É o meu.
— Tudo bem, mas...
— Vou mandar a localização da minha casa. Apareça por lá e posso te ajudar. Não sei o que está acontecendo, Cesar, mas pressinto que não é nada bom.
Cesar engoliu em seco. Mateus mudou o semblante. Parecia tenso.
— E porque estaria acontecendo algo?
— Esta não é a primeira vez que você tira uma nota baixa. Nunca vi essa reação. Você está com medo de algo? Ou de alguém? É alguém na sua casa, Cesar?
— Não! – Pigarreou. – Não está acontecendo nada. Eu só não consigo... – Cesar olhou para o andar de cima e viu as meninas levantarem-se das cadeiras. – Preciso ir, professor. Nos falamos mais tarde.
Cesar saiu correndo antes que Mateus pudesse respondê-lo. Entrou no banheiro, lavou o rosto e as mãos. Pegou o celular e visualizou o número. Deveria enviar um oi? Saiu às pressas e quase esbarrava em alguém. Era Maxine.
— Alto lá, fugitivo! – Poli riu. – Tudo bem aí?
— S-sim. Tudo bem?
— Precisamos ir andando, mamãe ligou e disse que nossa avó chegou de viagem. Aqui a metade do teu sanduíche. Você vai pegar o ônibus?
— Vou.
— Hm. Então tá. – Ela cuspiu as palavras.
— Não me julguem. Vocês acabaram de comer sanduíches.
— Há exceções, rapazinho! Aquilo é delicioso.
— Não podem haver exceções.
— Comece a andar, fugitivo!
Poli riu de novo.
—
Era difícil manter os pensamentos focados em outro assunto a não ser no professor Mateus. Como ele faria para ajudá-lo sem que os outros alunos soubessem? Claro, nenhum de seus colegas de classe sabiam que ele tinha reprovado além de Poli e Maxine. Cesar sabia o quanto esforçara-se, tivera inúmeras dores de cabeças, vários litros de café, milhões de anotações num caderno que comprara no supermercado próximo a sua casa, os diversos resmungos de sua mãe na madrugada quando descobria que o filho não estava dormindo. Tudo bem que era apenas uma prova, apenas uma nota, não media a sua inteligência, porém o pai dele era Jorge. O pai que batia na mãe diariamente. O pai que jogava objetos na mãe diariamente. O pai que chutava a porta do seu quarto por conta de uma caixa de areia suja. O pai que jogara uma faca em sua direção por ter comprado os cigarros errados. Tudo era culpa dele.
No meio do caminho, pensou que sua mãe sofria daquela maneira tenebrosa por sua causa. Imaginou se não tivesse nascido, será se seus pais teriam continuado felizes como eram? Será se eles seriam aquele casal apaixonado desde os 15 anos? Será se ele morresse agora, faria falta? Sentiu enjoo só em pensar na probabilidade. Isso tudo por causa de uma nota. Não! Não por causa de uma nota, por causa do medo.
O ônibus parou no ponto em frente à sua casa e ele desceu junto com a senhora Valdez. Ele carregava as sacolas dela. Sentia nojo do único filho dela que nunca a ajudava em nada. Já a vira chorar várias vezes no portão de sua casa quando o filho chegava bêbado às 7h da manhã, presenciou ele aos berros com ela chamando-a de ingrata pois ele sempre comprava coisas caríssimas para ela. Como se isso fosse sinônimo de gratidão.
Despediu-se da senhora Valdez e entrou em casa, com as mãos nos bolsos para esconder o nervosismo. Era quase 17h, ele perdera os dois primeiros ônibus jogando Clash of Clans no celular.
Seu pai ainda não havia voltado do trabalho, podia usufruir um pouco do silêncio. Sua mãe, deitada na cama deleitando-se de um livro da Agatha Christie, avisou que a janta estava na geladeira. Após jogar a bolsa na cadeira da mesa do computador, correu para o banheiro e pôs uma música ambiente. As nuvens estavam brilhando no caminho de volta para casa. Com certeza choveria.
No banho, Cesar se coibia do mundo. Parecia desligar-se com o resto do mundo, tudo era inaudível, tudo era ínfimo agora, nem mesmo aquela nota ridícula que o fizera implorar para seu professor. Seu professor. Algo chamava atenção nisto. Pela primeira vez, Cesar pensou no banho e uma lágrima desceu involuntariamente. Droga! Droga! Droga!
Pôs o pijama, não ia sair de casa, talvez. Esquentou a comida, despejou o suco de laranja num copo de vidro e ajeitou-se na cadeira super-hiper-mega confortável do quarto dos pais.
— E então, como foi na escola?
— Bem. – A voz ficou trêmula. Disfarçou enfiando uma colherada de comida na boca. – O professor foi vestido de sereia.
A mãe riu. Suas rugas surgiam toda vez que ela sorria, ela era linda.
— Qual deles? O gordo de Física?
— Não, não. O de História.
— Mateus? Ah, ele é lindo. Uma pena ser gay. – Cesar engasgou. – Quê? Vai me dizer que você nunca notou?
— Como eu deveria saber disso, mãe? – Suas bochechas ruborizaram. – Ele é meu professor, a vida particular dele não me interessa.
Sua mãe riu novamente enquanto guardava o livro. Passou por ele, beijou-lhe a testa e bagunçou seus cabelos.
— Nunca foi atrás de informações dos teus professores, Cesar? – Julieta começou o processo de se maquiar logo após limpar o rosto no banheiro. – Eu achei o perfil dele de repente. Ele namorava com um rapaz há 1 ano e meio, mas eles terminaram. Nem sei por quê.
— Mãe!
— O que, bobo?!
— Estamos falando do meu professor aqui. Você não o está dando muita privacidade.
— Pff, ele não vai saber que eu sei dessas informações, Cesinha.
— Por favor, não me chama assim. É... embaraçoso!
— Vocês, jovens, sempre com vergonha dos pais.
Cesar continuou comendo. Olhou o relógio no alto da parede. 17h15. Menos de 1h para Jorge voltar para casa. Voltou-se para Julieta, sua mãe. Os cabelos louros balançando graciosamente de um lado a outro enquanto ela passava alguma coisa no rosto. Fazia caretas e achava graça sempre que pegava o filho observando-a se maquiar.
— Mãe? – Após terminar o jantar, limpou a louça e parou na porta do quarto dos pais. Julieta fizera apenas um barulho. Hm? Aquilo dava-lhe uma brecha para fazer a pergunta. – Sobre o que você estava conversando com a vovó no telefone hoje mais cedo?
Ela parou. Prendeu o cabelo num coque no alto da cabeça, ajeitou a alça do vestido branco e passou um batom nude.
— Hoje não, Cesar. Seu pai ficou de bom humor de repente. Eu estou de bom humor. Estamos todos de bom humor, entendeu?!
Cesar entendeu o olhar da mãe, todavia, não entendia toda aquela formalidade.
— Explico outra hora. – Começou a escolher um salto. Cesar deu de ombros, porém trocou o assunto.
— Alguma ocasião especial?
— Sim. – Ela deu de ombros.
— Qual, então?
— Ah, bom, seu pai tem uma reunião muito importante da firma. Aparentemente ele recebeu uma promoção, provável ter sido isso que o deixou tão animado, deveria ter o ouvido na ligação. – Julieta engrossou a voz. – Julie, arrume-se! Hoje à noite teremos um evento bastante preponderante. Finalmente, mulher. Finalmente!
— Entendi. Então, ele foi promovido?
Julieta olhou feio para o filho.
— Por que você faz isso soar tão pífio?
— Pífio?
— Sim. Devemos aproveitar quando seu pai está assim. – Ela apertou os ombros dele. – Cesar, Jorge está de bom humor.
Ele abraçou sua mãe, apontou para qual salto combinaria com o vestido e saiu para o quarto. Deixou a porta entreaberta, ligou o computador e começou a jogar um pouco de LoL. Era incrível como aquilo viciava. E era incrível como ele sempre vencia suas partidas. Sentia-se um profissional. Vez ou outra respondia Maxine.
“Então ele conseguiu uma promoção?”
“Essa é a parte boa. Mamãe ficou bem animada com isso tbm.”
“E vc?”
“Vc sabe, ñ eh como se eu me importasse com meu pai.”
“Uou, alguém tem q trabalhar esse rancor.”
“Ñ eh rancor, Max. Me deixa em paz.”
“JAHDUHA vc é engraçado, Cesar. Poli disse oi.”
“Oi.”
“Caralho, vc é smp tão assim, como posso dizer, sensível?”
— Julie? Julie, mulher!
“Meu pai chegou gritando! Fdp”
“Vai ficar sozinho já q eles vão à outra festa sem você? he he”
“Até, Max!”
Cesar podia escutar a conversa deles. Parou de jogar, preparou o youtube com uma playlist de EDM para quando os pais saíssem.
— Já estou pronta.
— Cacete, você está linda! Linda demais! – Imaginou se o pai a beijaria – Não acha que cê tá mostrando muita coisa, não? – Só imaginou.
Minutos depois, Jorge estava pronto com seu paletó preto slim de microfibra, já Julieta aparentava o mais taciturna possível. Ela tinha mudado o vestido por uma camisa azul marinho de cetim e uma calça branca combinando. O salto era o mesmo que seu filho escolhera. Primeiro, Cesar pensou em fazê-la vestir a roupa anterior, mas lembrou do que a mãe lhe dissera mais cedo. Devemos aproveitar quando seu pai está assim [...] Jorge está de bom humor.
Cesar trancou a porta principal, correu para o quarto, ligou o som e deitou-se na cama. Lupin entrou no quarto acomodando-se ao seu lado, ronronando.
Navegava pela internet e lembrou do seu mais novo contato. Professor Mateus. Mordeu o lábio, sabia que era necessário. Só de pensar em o que seu pai faria a sua mãe e a ele, tudo ao seu redor ficava lúgubre. Pela sua mãe, ele faria de tudo. Ela cobrira o hematoma no rosto com a maquiagem, ele viu, não teve como esconder dele. Isto o entristeceu, mas também lhe deixou mais firme em sua decisão. Clicou no contato e escreveu a mensagem.
"Olá, professor. Digo, Mateus. Aqui é o seu aluno, Cesar."
Era 19h20.
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