Não se vá
1 Capítulo I
Notas iniciais
Claro que Cesar gostaria de acreditar em amor à primeira vista, porém isto era bastante complexo por conta do casamento de seus pais. Ambos sempre afirmaram serem apaixonados desde seus 15 anos, mas era só presenciar as discussões diárias e da convicção de Julieta sempre que mencionava a suposta traição de Jorge com uma de suas amigas. Meretrizinha, era como ela chamava. A salvação de Cesar era a escola, onde podia encontrar-se com Maxine e Poli.
Era exatamente 6h40 da manhã, o despertador estava desligado mais uma vez pois ele não dormira novamente. Fora uma noite e tanto. Cesar olhava com afinco para Lupin, a gata gorda, branca e com uma mancha preta no rosto. Seus olhos esverdeados perseguiam a pequena aranha subindo a parede do quarto perto da janela. Ela estava prestes a pular, quando Julieta abrira a porta.
— Você vai se atrasar para a escola. O ônibus passa em meia hora, Cesar. Pressa!
Cesar largou o celular na cama.
— Pressa é a inimiga da perfeição.
— Perdão?
Jogou o edredom de lado, espreguiçou-se e partiu para o banheiro. Trancou-se e avaliou suas olheiras. Alguém batia na porta. Lupin. Entrou esfregando-se nas pernas desnudas de pelo dele. Cesar deu um breve beijo em sua cabeça e entrou debaixo do chuveiro. Aqueles banhos matinais eram os melhores, sentia-se completo e brando. O dia aparentava afável, mesmo com aqueles trovões lá fora, tudo estava propício a dar certo. Era o que ele queria. Era o que ele almejava todos os dias quando acordava às 6h da manhã para se preparar para a escola.
Jorge poderia levá-lo dentro do seu Porsche Panamera, além de ganhar tempo – a escola era antes do caminho para o trabalho –, Cesar pouparia a mente do burburinho dentro do ônibus. Às 7h da manhã. Esperar um ônibus cheio de adolescentes com hormônios à flor da pele poderia ser frívolo para terceiros, entretanto, para Cesar, era o fim do mundo. Maxine e Poli nunca pegavam o ônibus, pois eram pró-meio ambiente desde muito cedo, então optavam por andar quase meia hora para escola ou ir pedalando.
Por isso sempre mantinha os fones de ouvido dentro da mochila; precaução. Saiu do chuveiro depois de uma dancinha ou duas, escovou os dentes, penteou o cabelo cacheado completamente ensopado e cantarolou até a cozinha com cheiro de ovos e café. Seu pai estava calado demais, era estranho já que normalmente eles começavam uma discussão logo cedo pelas questões mais fúteis possíveis. Ele nunca os entendeu. Principalmente depois da infância.
— Ovos mexidos, Cesar?
— Sim. – Respondeu enquanto passeava por uma mídia social qualquer. – Por favor.
— Jorge?
O jornal diário cobria a maior parte de seu rosto e tronco. Pigarreou, e por fim, respondeu-a.
— Só o café está ótimo.
Julieta o olhou por cima do ombro, revirou os olhos e continuou a preparar os ovos de Cesar. Uma mensagem surgiu em seu celular. Maxine perguntando se ele iria hoje e se havia dormido. Respondeu com uma carinha sonolenta, seguida de um sim, confirmando sua presença tão ilustre. Julieta pôs os ovos num prato, junto com um suco de laranja dentro de uma jarra e correu em direção ao banheiro. Jorge levantou uma sobrancelha e gritou.
— Onde está meu café, mulher? – Cesar voltou-se para ele.
— Por que você mesmo não pode colocar?
Jorge o fuzilou com o olhar. Por quê? Para quê? Estúpido! Cesar não sabia ficar quieto nas horas mais inapropriadas. Ele sabia que era de praxe o inútil do seu pai não fazer nada dentro da casa, até mesmo pegar o café que estava a menos de 15 centímetros dele.
— Você pode repetir? Eu não entendi, Cesar. – A veia na sua testa estava pronta para explodir. – Não, vamos. Repita o que acabou de dizer para o seu velho.
Umedeceu os lábios e começou a deleitar-se dos ovos com a cabeça abaixada. Tomou um susto quando, de supetão, seu pai batera na mesa narcisa que combinava perfeitamente com os outros móveis da cozinha. Por um instante, achou que ele viria em sua direção com o punho cerrado, pronto para socar seu estômago pela terceira vez só naquela semana, mas Jorge jogou o jornal na mesa e saiu pela porta da garagem com um cigarro na mão. Cesar engoliu a bile, tinha gosto ruim, metálico. Tinha mordido a língua e sangrava. Bebeu um pouco do suco e comeu o resto dos ovos. Quase 7h10. Voltou para o quarto, trancou a porta, ofegante, tinha medo demais do seu pai. Ajeitou a mochila, vestiu a farda e correu para a porta da frente. Ouviu sua mãe ligando para sua avó.
— Eu sei, eu sei! Por favor, mamãe, não se precipite. Não é assim, as coisas não eram assim antes, eu posso ter... Escute, por favor. Mamãe! Mamãe?
Ele a ouviu grunhir. Saiu com lágrimas descendo o rosto. Olhou para Cesar e o beijou à cabeça, parecia pena, ou tristeza, ou... Ele não soube identificar, estava atrasado. Pegou um casaco e sua chave. Poucos minutos após sua saída, o ônibus virava a esquina da sua rua e ele já podia ouvir a barulheira. Por que tanta algazarra àquela hora da manhã? O dia com certeza não seria afável. Era apenas 7h10 da manhã.
—
As nuvens carregadas ameaçavam chover, a mulher do tempo na tevê avisava uma forte tempestade por volta das 10h. Neste horário ele estaria tendo História, seria perfeito se faltasse energia por conta da tal tempestade da moça do tempo, pelo menos não receberia sua prova. Desceu do ônibus, seus olhos correndo por toda a entrada à procura de Maxine e Poli.
Cabelos vermelhos fumegantes e um loiro desbotado, respectivamente, andavam em sua direção no meio da multidão. Era 7h25.
— Ei, bonitão.
— Pare! – Maxine fazia tentativas de cócegas, algo que Cesar odiava.
— Então, mais uma noite sem dormir? O que foi dessa vez? Lupin? Os vizinhos super descolados deram uma festa na qual você, novamente não foi convidado, somente seus pais, pois ninguém sabe que eles têm um filho? Você!
— Maxine! – Poli sibilou. – Mas foi isso mesmo?
— Só não consegui dormir. É péssimo ter insônia.
Maxine passou o braço pelo seu ombro e pôs a mão dele em sua cintura. Poli sentiu as bochechas queimarem e desviou o olhar. O cabelo num rabo de cavalo balançava de um lado a outro enquanto andava meio saltitante. Ela não tinha motivos para estar triste, ora, era o melhor horário do dia!
— Olha, eu posso marcar com a minha mãe se...
— Não! – Cesar foi logo cortando-a. – Tudo menos terapia!
— Olhando por esse lado, até que não é uma solução tão ruim, Cesar. – Afirmou Poli. – É mais viável.
— Viável? – Maxine cerrou os olhos.
— Que foi? Ouvi mamãe falando essa palavra mais cedo.
— Você pelo menos sabe o significado?
Poli deu de ombros e continuou saltitante em direção ao portão de entrada. Encontrou-se com algumas garotas e deixou sua irmã e Cesar a sós. Tinha tendência a fazer isso, pois, quanto mais longe possível dele, menos chances de se apaixonar pelo seu querido amigo. Se isso fosse possível, já que há tempos estava caidinha por Cesar.
Maxine parou em frente ao bebedouro, limpou a garganta e pegou o celular, mostrando uma foto de Thor, seu Chihuahua preto. Cesar nunca conseguiu entender o nome.
— Não é pelo tamanho – dizia Maxine. –, é pela força e segurança que ele transmite.
— Maxine, ele tem menos de 20 centímetros.
— Um Chihuahua é dedicado, corajoso e vivaz! Assim como Thor.
— Eu acho que... Deixa para lá!
Já dentro da sala, o ar condicionado machucava o nariz de Cesar com tanta fugacidade que ele teve que pôr o casaco envolto do rosto. Poli surgiu rindo junto com Renata. Bom, Cesar achava que aquela garota se chamava Renata. Ela ajeitou os óculos maiores que o rosto – figurativamente – e sentou-se ao lado de Selton, o único jogador de paintball da sala. Diferente de Poli, Maxine parecia como um vulcão, não por conta dos cabelos avermelhados, mas sim por conta de sua mansidão numa hora, e, logo em seguida, uma erupção.
Às vezes, era assim que Cesar sentia-se. Como um vulcão. Infelizmente, ele nunca entrava em erupção, nem quando o pai batia na sua mãe. O pensamento lhe veio à cabeça e ele mordeu o lábio inferior. O professor de História, Mateus, entrou na sala fantasiado de sereia, estrondando a gargalhada dos alunos. Cesar adorava Mateus. O professor tinha tudo o que ele admirava: inteligência, bom humor, sabia como falar com as outras pessoas, era centrado. Dentre outros aspectos aparentes de Mateus.
— Como estão, meus pequenos frutos-do-mar?
— Bom dia, Mateus! – Responderam em uníssono. Acho que era a única coisa em que os 33 alunos do 1º A concordavam. Mateus era o melhor professor do Colégio Bernardino Trindade.
Ele começou falando da Guerra Fria, porém não tinha como levá-lo a sério vestido daquela maneira. Cesar tentava, Maxine o azucrinava com piadinhas uma vez ou outra, Poli sentava do outro lado com umas garotas que ele nem conhecia ou sequer lembrava o nome direito. Cesar sempre foi o tipo de pessoa no qual não grava muito bem nomes. E eram muitos nomes numa sala só.
Duas aulas depois, quase tomando metade do intervalo, Mateus liberou a turma, mas Cesar e Maxine ficaram dentro de sala. Tinham assuntos a tratar.
— Serei bastante sincera. – Ele olhou feio para ela – O aniversário de Poli precisa acontecer. – Ele riu um pouco alto e abafou o som com a mão depois de perceber que Mateus ainda estava ali.
Que vergonha!
— Ei, é sério! O que você achou que eu ia tratar com você?
— Ah, não sei. Você mandou aquela mensagem quase 2h da manhã, parecia tão séria. Achei que fosse brigar comigo por alguma coisa.
— Só se você tiver feito algo de errado. Você fez algo de errado, Cesar? – Maxine semicerrou os olhos com uma das sobrancelhas arqueadas. – Conte-me agora!
— Eu não fiz nada de errado. – Ele gargalhou e bateu no braço dela. – Pare com isso!
— Precisamos convidar aquelas garotas que ela fala. Renata, Laura, Yumi, Priscila e aquela Joana. Honestamente, não entendo o quê a Joana faz num grupo como aquele.
— Por quê?
— Ahn, você sabe de quem estamos falando? – Cesar balançou a cabeça. – Pelo amor de Deus, Cesar! Em que mundo você vive? Aqui.
Maxine pegou o celular e colocou numa foto na qual aparecia junto à Poli e à todas as outras garotas citadas. Ela selecionou o perfil de Joana e mostrou a vida burguesa dela. Os lugares que ela já tinha viajado estava espalhado por todo o Instagram, ela tinha uma vida de rainha, tudo servido numa bandeja de prata, só que nesse caso, de diamante.
Eles podiam passar horas vagando pelo perfil de Joana, lendo os comentários das amizades líquidas dela, os zilhões de “likes” e zilhões de seguidores. Cesar não se importava muito com essas paradas atuais, ele preferia o momento, o ali e agora, a foto mental que permanecia era sempre a melhor, em todas as hipóteses. Claro, ele usava algumas das redes sociais, como o Twitter.
— Agora você entende o que eu quis dizer?
— Sim. E não! – Maxine grunhiu. – Você está generalizando, Max. Nem todas as pessoas ricas são mesquinhas.
— Conte-me uma.
Cesar deu de ombros. O que mais ele poderia dizer? Maxine tinha um gênio forte e só mudava sua crença quando alguém provava o contrário e como ele não possuía nenhuma prova decidiu deixar de lado. Pegou o celular e passeou por alguma mídia social rapidamente, olhando por cima do celular o professor Mateus que corrigia algumas provas. Mordeu o lábio mais uma vez, ficou preocupado quanto à sua nota, precisava de pelo menos um 9 para passar e tinha certeza que se dera mal.
Mateus encontrou seu olhar rapidamente e sorriu.
— Tudo bem aí, Cesar?
Cesar tossiu. Ele não esperava uma interação além do sorriso.
— Sim, sim. São as provas? – Mateus deu uma risada baixa e ajeitou os óculos.
— O que você acha? – Cesar tinha certeza que ele não se referia às provas. – Então?
— Ahn... 9,5?
Forçou um sorriso no canto da boca.
Mateus retirou a peruca mostrando seu cabelo perfeitamente liso caindo nas laterais do rosto e voltou-se para as provas. De repente fez uma careta, preocupando Cesar. E se fosse a dele? Ou de Maxine? Ou Poli? Os três estavam bastante ferrados na matéria, não que eles fossem ruins em História ou algo do tipo, só que os Jogos das Classes do mês passado tomaram bastante tempo deles. Principalmente de Maxine que era a goleira do tipo feminino do 1º A e Poli participava do time de vôlei. Cesar só torcia mesmo, esportes não era lá a área dele.
Faltava 10 minutos para o fim do intervalo quando Maxine decide ir ao banheiro, deixando ambos a sós. Cesar engoliu o som do ar condicionado e o vácuo entre os dois, não que ele se importasse, estamos falando de um aluno e um professor, principalmente quando Cesar era hétero.
Maxine retornou com o braço entrelaçado no de Poli. Pareciam animadas com alguma coisa, mas ele decidiu não perguntar, elas contavam-no tudo praticamente.
— Se você saísse mais da sala na hora que deveria sair, você teria visto Nicolas beijando a Poli. – As bochechas de Poli começaram a ruborizar. – Ela tá toda animadinha. Garanhona!
— Para com isso, Max! – Deixou escapar uma risadinha.
— Não sabia que vocês tinham um rolo.
— E não temos, ora. Quem vocês pensam que eu sou?
Maxine levantou os braços.
— Calma, calma! Eu não quis dizer nada com isso.
Poli fechou a cara, ela simplesmente odiava quando as pessoas inventavam histórias dela. Por que acreditar se não é a própria pessoa que está contando? Ela odiava mentiras, mas vivia mentindo para si mesma quando se tratava dos calafrios que percorriam por todo o seu corpo no momento em que Cesar a olhava. Ela sentia o fogo arder em seu peito e seus olhos brilharem, parecia que se sentia mais viva, mais feliz e era impressionante, provavelmente a magia do amor.
— Eu acho que vocês dois combinam. – Cesar não tinha ideia – Ele é um cara super legal pelo que escuto falar. – Ele deveria calar a boca – Você também é super legal e os dois curtem o mesmo esporte, já é algo em comum. – Por que ele não calava a boca? – Você deveria investir, Poli. – Por fim, sorriu, destruindo todas as paredes que Poli tinha construído.
— Ainda bem que não é você quem decide com quem namoro. – Fechou a cara. Teria sido muito grossa e fria? Poxa, ele não sabia de seus sentimentos.
Cesar arqueou as sobrancelhas, obviamente ela não tinha gostado de tal comentário, pediu desculpas e disse que não iria mais se pronunciar sobre o assunto. Maxine observou aquela cena de modo bastante investigativo. O que Poli tinha na cabeça para agir tão hiperbólica com o melhor amigo delas? Foi só um comentário bobo. Ficou pensativa. Enrolou um fio de cabelo no indicador e ficou mascando seu chiclete.
O sinal tocou mais uma vez e, gradativamente, os alunos retornavam às salas. As mesmas garotas que estavam juntas mais cedo com Poli entraram quase gritando ao vê-la. Céus, elas podiam ser um pouco menos escandalosas!? A ocasião pedia por silêncio, Mateus começaria a entregar as provas a qualquer instante. As mãos de Cesar começaram a suar involuntariamente. Limpou-as duas vezes na calça. Seu coração palpitava mais rápido que o normal, mas por que ele sentia que não era por conta das provas? O professor disse algumas palavras antes de entregá-las, de como ele sentia-se um pouco desanimado e decepcionado com a maioria da sala e isso foi um gatilho para Cesar suar mais ainda, mesmo o ar condicionado estando no mínimo.
Sua mãe não gostaria nada daquela nota vermelha no boletim. Desgraça! Espera um segundo, ele não poderia prever, tinha a noção do quão duro dera por aquela prova e as noites em claro repassando datas, as pessoas importantes que revolucionaram a própria História, algumas guerras etc, etc. Mateus iniciou a entrega pelo lado de Poli, a sala inteira percebeu seu nervosismo naquele bater de unha e o rabo de cavalo mexendo de um lado a outro.
Com a prova em mesa, ela conteve o gritinho agudo limitando-se a alguns pulinhos sentada, mostrando a prova para as outras, decepcionadas. Cesar conteve a risada. Cada vez mais perto. O que fazer? Como reagir? Essas mãos deveriam parar de suar agora. Droga! Maxine olhou para baixo, direcionou seu olhar para ele e sorriu. Com a mão, identificou um 8,7, o que era mais do que ela necessitava.
— Olá, Cesar.
— Nos encontramos de novo! – O professor soltou uma risadinha.
— Sei o quanto você deve ter se esforçado. Nos vemos no final do mês, tudo bem? Não fique triste!
Cesar levou as mãos a prova. Não podia ser! Depois de tanto esforço ele só conseguiu um mero 6? Viu os olhares preocupados de Poli e Maxine e resguardou a vergonha com um sorriso amarelo.
Segundo Mateus, um total de 21 pessoas estavam na recuperação, incluindo Cesar. O que sua mãe diria? E seu pai? Porra! Por alguns instantes ele esquecera de Jorge. O hiper temperamental Jorge. O carrasco que o agredira duas vezes só aquela semana e ainda era segunda-feira. Porra!!! Ele já escutava as reclamações ribombando em seus ouvidos. Esse merdinha não faz por onde. Um caralho desse que só me faz perder o precioso dinheiro que suo para ganhar. Resto de aborto inútil. A última sempre machucava mais, não era como se ele tivesse pedido para ter vindo ao mundo e ser seu filho.
Engoliu a saliva que parecia pedra. O gosto metálico novamente, mas dessa vez ele tinha mordido a língua por vontade própria, ele sabia que a consequência cairia no dia do recebimento do boletim e não tinha, de forma alguma, como evitar o que o esperava dentre 4 dias. Era apenas 10h14 para tamanha decepção.
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