Não posso ser ela
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu me recordo dela sempre estar comigo. Claro, obviamente nascemos juntas, crescemos juntas. Mas não apenas isso. Isadora sempre foi parte de mim. Sentíamos a vida juntas. Porém sempre nos expressamos de forma completamente diferentes, ainda que igualmente intensas.
Isadora era desbravadora. Desenhava tudo ao seu redor. Sabia deixar em cada quadro um pouco do seu interior confuso e intenso. Por outro lado, eu internalizava tudo. Cada nota que saia dos instrumentos que eu tocava gritava a minha intensidade interna. Ambas não éramos boas com palavras, Em Isadora era os gestos que falavam. Em mim, a solidão.
Desde muito novas demonstramos sensibilidade artística e nossos pais nos incentivaram muito a prosseguir neste caminho. Nossa avó, Elizabeth, havia sido artista também e era nossa grande inspiração. Ambas sofremos muito quando ela partiu. Isso mudou o nosso ser, nos tornou ainda mais intensas, com apenas 10 anos de idade.
— Bella! – Ouço uma voz distante me chamando – Bella!
Morta. Isadora está morta!
— Dora! – Eu exclamo fraca, despertando numa das macas da enfermaria.
— Bella! Que susto amiga! – Angela diz ao meu lado. Eu olho ao redor e encontro a aluna nova e seu pai me observando.
Nosso olhar se encontra, mas não consigo decifrar nada nele.
— Você me disse que minha irmã está morta. – Eu digo lentamente e ele assente. A menina em seu lado funga discretamente. – E que ela era casada com você.
— Sim. – Ele diz – Isadora e eu nos casamos muito novos. Tivemos a Elizabeth e faz quase três anos que ela morreu. – Ele diz de forma firme.
— Meu Deus! – Eu exclamo.
— Eu acho que vocês tem muito para conversar, mas não aqui e não agora. – Angela diz – Vocês duas precisam descansar. – Ela diz apontando de mim para minha aluna. Eu me endireito e me levanto devagar.
— Estou bem, Ang. Posso terminar as aulas perfeitamente. – Eu digo. Dora não me abalaria mais. – mas acredito que seja melhor o senhor levar sua filha para casa.
— Certamente. – Ele diz ainda olhando diretamente para mim. – Vamos Liz – Ele ajuda a menina a descer da maca e me olha mais uma vez. – Precisaremos conversar depois, Isabella.
Ele sai e eu solto todo o ar de meus pulmões. Angela vem me abraçar.
— Ang, ela teve uma filha! Ela está morta! Com eu vou contar isso para ele? – Eu digo para minha amiga e não seguro mais as lágrimas. – Ele vai enlouquecer!
— Calma Bella, seu pai é um homem forte. Vai aguentar! – Angela diz e eu tento me acalmar.
Meu pai, Charlie Swan mora ainda em Santa Mônica. Fica a cerca de 1h30 de carro daqui de San Francisco. Uma cidade pequena e praiana onde eu e minha irmã nascemos e crescemos. Eu sempre amei aquele lugar, mas Dora detestava. Dizia que era lugar de gente pequena, não pessoas grandes como ela. Por isso ela foi embora assim que pode.
Oito anos se passaram desde que a vi pela última vez. Um dia que marcou o rompimento da nossa família ao meio. Os Swan quebraram naquele dia e até hoje juntamos os cacos.
Quando entro no meu apartamento e largo meu material no aparador ao lado da porta, vejo meu telefone piscando sem parar. Retiro meu scarpin e o blazer do meu uniforme e aperto o botão para ouvir os recados enquanto rumo para a cozinha para preparar algo para o jantar.
“Bella, minha filha, — A voz grave de Charlie faz meu coração se apertar e eu estaco com a porta da geladeira aberta — Temos dois violinos precisando de cordas novas, um cello está com uma tarracha emperrada e precisamos revisar o piano de minha mãe, segundo a Leah. – Ele diz e suspiro— Tem como você vir na sexta feira para vermos o que podemos fazer? É sempre tão corrido no sábado. Te amo filha, me ligue, sim?”
Eu volto a minha atenção para a montagem do meu sanduiche.
“Bells, seu pai tá doidinho aqui porque tem dois violinos com corda partida, já queria correr para chamar o Black. – A voz icônica de minha amiga da vida toda preenche a minha casa— Como se você não soubesse trocar as cordas de um instrumento. – Leah bufa do outro lado da linha e eu rio— Mas é fato que precisaremos dele para revisar o piano de vovô Eliza, mas é só revisão mesmo, está tudo bem. Até sábado amiga!”
Com o sanduiche pronto e uma soda nas mãos, eu rumo para minha pequena sala acreditando ter acabado os recados. Até que uma voz grave, fria e potente ecoa pela minha casa.
“Isabella, aqui é Edward Cullen. – Um arrepio atinge todo o meu corpo e eu largo tudo na bancada da cozinha, me aproximando do telefone.— Precisamos conversar o mais breve possível. Pode ser amanhã? Quando eu for buscar Liz amanhã, poderia vir conosco?”
E só.
Levo uns segundos para assimilar tudo.
Dora está morta!
Eu encosto a cabeça na bancada fria da minha cozinha e me permito voltar no tempo...
— Dora, não faz isso! – Minha voz ecoa na minha cabeça. Eu seguro sua mão que não está segurando a mochila
— Somos iguais por fora, Bella, mas eu não sou você. Eu não sei ser pequena assim. – Minha gêmea diz e olha ao redor da sala de nossa casa. – Eu quero mais que isso. Eu mereço mais que isso aqui.
— Se você sair, não volte nunca mais. – Meu pai diz do outro lado da sala. Seu rosto demonstra dor, está impassível.
— Nada mais me prende aqui. – ela diz olhando friamente para o homem que nos criou. Ela se solta de mim, alisa o vestido preto que veste perfeitamente o seu corpo – Adeus!
— Dora! – Meu grito desesperado de oito anos atrás retorna a minha garganta. Eu abraço o meu corpo, outrora também vestido de preto e agora moldado numa blusa de cetim branco e uma saia evasê azul Royal.
Soluço, lágrimas, dor. Tudo de novo!
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Eu estou um caco, concluo ao me olhar no espelho depois do banho matinal.
Simplesmente a minha noite foi regada a sonhos turbulentos com Dora. Nossa infância com vovó e as brigas com nossos pais. Tudo se misturava e eu acordava chorando. Eu balanço a cabeça para espantar tudo isso. Não podia dar esse poder a Dora novamente.
Quando eu estaciono meu carro na vaga de professora e me ajeito ali para começar mais um dia, uma cena entre pai e filha me faz parar. Edward Cullen e a pequena Elizabeth estão se despedindo na porta do colégio. Ele ajeita algo no uniforme da menina e afaga seu rosto com carinho. Ela sorri e lhe dá um beijo carinhoso. Ele abraça o corpo pequeno e lhe diz algo que parece sério, pois a menina presta bastante atenção. No final, ambos sorriem, porém o dele não chega aos olhos como o da menina, se abraçam mais uma vez e ele entrega a mochila para ela. Eu engulo em seco contendo a emoção. Aquela menina é minha sobrinha, filha de Dora.
Saio do carro e me encaminho para a entrada da escola. A menina já havia entrado, acompanhando as dezenas de crianças por ali. Eu sigo meu rumo quando sou obrigada a parar com um toque em meu braço. Ele.
— Srta Swan. – Sua voz é fria, diferente do tom meigo de agora a pouco. – Ela está empolgada. Vá com calma ao falar de Isadora. Ela não a conheceu muito. – Nosso olhar se encontra. Ele é frio, arredio, distante ao falar de minha irmã. Assim como eu, ela também pisou no coração dele, está claro para mim.
— No fim, nenhum de nós a conheceu de fato. Nem mesmo eu que nasci com ela. – Eu digo me soltando de seu toque. Seu olhar muda para uma fagulha de entendimento. – Dora tinha esse dom para magoar. Você não foi o único.
— Mas espero ser o último. Elizabeth não precisa sofrer por ela. – Ele diz sério.
— Certo, não se preocupe. – Eu digo ainda sustentando seu olhar. – Eu não sei até onde Dora falou sobre a família
— Nada. – Ele me corta. Dor. Minha e dele. Ele foi enganado pela própria esposa. – Ela disse que era órfã, que tinha saído do orfanato para Julliard. – Eu sinto meus olhos lacrimejarem.
— Orfã? – Eu sussurro. Ficava cada vez pior. Ao meu redor vejo alguns pais por ali e minha reação chama atenção. Engulo seco e corrijo a postura. – Vamos continuar essa conversa depois, Sr Cullen. Eu aceito o seu convite. – Eu digo me referindo ao recado do dia anterior.
— Certo. Até breve! – Ele diz sem emoção e vai embora.
Solto um suspiro longo e percebo que mais uma vez estava segurando a respiração na presença dele. Por que ele me afeta assim?
Dora, é claro.
A manhã passa tranquila. Logo que o sinal da quarta aula soa, sinto minhas mãos suarem.
— Srta Swan? – A voz doce da nova aluna atravessa o ambiente e eu me viro para a porta.
— Céus! Vem cá, Elizabeth! – Eu digo tomada de emoção e a puxo para um abraço aproveitando a sala vazia.
— Tia Isabella! – Ela diz tímida.
— Bella, me chame de tia Bella. – Eu digo e fito seu rosto. – Eu sei que ta tudo muito confuso para você, para todos nós, mas estou muito feliz em conhecer você!
— Eu também tia! – Ela diz empolgada – E você também é da música! – O sorriso dela me contagia.
— Sim, somos, pelo visto. – Eu digo me endireitando. – Violino e piano, certo? – A menina fica corada.
— Sim. – Ela diz encabulada. Nesta hora, os outros alunos da turma começam a chegar.
— Vá se sentar. – eu digo baixo e vou para o centro do semi-círculo. – Bom dia queridos! Deixei no quadro um novo exercício para trabalharmos os acidentes hoje. Mas antes, vamos dar as boas vindas a nossa nova coleguinha, Elizabeth Cullen. – Eu aponto para minha sobrinha, que envergonhada se levanta e todos acenam boas vindas para ela. – Certo. Agora peguem um pentagrama, copiem a sequencia do quadro e vamos trabalhar com 3 tons diferentes. Escolham um instrumento e desenvolvam isso até o final da aula. – Eu digo e todos começam a copiar.
Eu fico admirada com a habilidade musical de minha sobrinha. Ela realmente herdou o dom de nossa família. Ao observá-la fico lembrando de mim mesma na sua idade. Como Dora reagiria a isso, quando visse que sua filha seria da música e não da pintura, como ela?
No intervalo do almoço, eu resolvo ligar para o meu pai. Levei um tempo decidindo se falaria com meu pai sobre Dora e Liz, como minha sobrinha gosta de ser chamada. Decidi esperar conversar com Edward primeiro, saber os detalhes da vida de Dora depois que ela foi embora. Melhor conversar com ele com tudo que ele vai querer saber já na ponta da língua.
— Oi pai! – eu digo
— Oi Bella, como você está? Recebeu meu recado?
— Sim pai, eu devo ir na sexta logo que sair do colégio, está bem? Devo chegar na hora do jantar. – Eu digo remexendo na minha salada.
— Certo, filha. As crianças sentiram sua falta no sábado, mas entenderam que a apresentação era importante. – ele diz. Eu sorrio.
— Logo serão eles papai, estou lutando por isso. O mundo conhecerá nossos pequenos. – Eu digo e ouço o riso de meu pai.
— Eu sei, minha filha, faremos isso! – Ele responde confiante. Assim como eu, meu pai ama o trabalho que fazemos.
— Está bem. Levarei as cordas novas para os violinos e acho que lá tem óleo para a tarracha do cello. Quanto ao piano, peça a Jake para passar por lá depois das aulas da manhã. Um beijo, pai.
— Bella, está tudo bem? – Meu pai fala antes de desligar. Claro que ele perceberia meu nervosismo.
— Sim, pai. Tem uma aluna me chamando, tenho que desligar. Até sexta!
— Até filha, venha com cuidado. – E assim, desligamos.
A tarde passa como um borrão e quando dou por mim, já estou arrumando meu material para ir embora. Ao sair, encontro Liz e seu pai à minha espera na entrada principal da escola.
— Tia Bella, meu pai disse que você virá conosco! – Ela diz empolgada e eu assinto alisando seu cabelo ruivo. Apesar da cor diferente, a textura dele é igual a do meu. – Que legal!
— Vamos? – Ele pergunta e eu me permito encará-lo.
— Vou segui-lo no meu carro. – Eu digo e ele segura meu braço. Eu o encaro diretamente nos olhos.
— Você vem conosco! – Ele diz sério. Eu o encaro incrédula. Como ele ousa falar assim comigo?
— Venha tia Bella, papai te leva para casa depois. – A menina diz alheia a tensão entre nós.
— Não, minha querida. Prefiro dirigir. – Eu digo e me solto de seu braço. Meu movimento chama a atenção de Liz e Edward fica visivelmente irritado. – Assim eu aprendo o caminho para quando precisar te visitar. – Eu me viro para ela e lhe dou um sorriso.
— Vamos Liz! – Ele diz e conduz a menina para dentro do carro.
Eu suspiro quando entro no meu carro. Edward me abala, mas não vou deixar ele pensar que sou como ela.
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