Não pare a Música
36 Capítulo 36 - Suporte
Quem abriu a porta foi Hashirama, com uma expressão preocupada e uma curiosidade palpável ao ver Neji ali. Sabia que, por mais que tivesse limpado o rosto e esperado alguns minutos antes de tocar a campainha, Hashirama via as provas do choro e se sentiu extremamente aliviado por ele não lhe perguntar nada e apenas lhe dar passagem.
Mito estava na sala, e o barulho de talheres e utensílios indicava que Madara na cozinha.
— Boa noite — falou, e Madara se apoiou no pequeno balcão que dividia a cozinha da sala de jantar para encará-lo.
— Você me ligou apavorado e me pediu para ir com urgência buscar o Sasuke. Eu devo ou não me preocupar com isso? — Madara perguntou, direto, e Neji sabia que pelo tom de voz ele devia ter discutido com Sasuke no caminho pra casa.
O que responderia? Era óbvio que Madara precisava saber, mas não era ele quem tinha que contar, não era seu direito. Além disso, não sabia o que Madara seria capaz de fazer ao saber daquilo… sua mente apontava diversas hipóteses, nenhuma delas com um resultado muito bom… Madara era uma bomba destrutiva, cujo detonador era e sempre seria o sofrimento de Sasuke. A discussão dele com Orochimaru após assistir uma única aula ainda estava gravada em sua mente, Madara tinha gritado com o professor, defendido Sasuke por achar que a companhia cobrava muito além dos limites de um aluno. Sua família nunca tinha feito isso, aliás, sua família concordava que uma disciplina rígida e uma rotina pesada eram a receita para ser um bailarino de sucesso. Nunca que eles enfrentariam um professor como Madara havia feito por Sasuke. Contar o que Orochimaru havia feito a Sasuke seria puxar o detonador da granada sem saber quão grande seria seu raio de destruição nem quem seria atingido.
— Não — mentiu, firme, mas o suspiro de Mito ao se levantar e então tocar o seu ombro deixava claro que os três sabiam que ele estava mentindo.
— Ele está no quarto. Sinta-se em casa, querido.
— Vou preparar um suco para vocês — Hashirama disse e entrou na cozinha. — Laranja sem açúcar e gelo?
— Obrigado — respondeu e não conseguiu sustentar o olhar de Madara. Aquela era sua família também, sentia-se mal por mentir sobre algo tão importante, e era grato por Mito e Hashirama tentarem ajudá-lo. — Não se preocupe agora — falou ao desistir de ir até o quarto de Sasuke e parar no meio do caminho. Se não podia falar tudo, pelo menos acalmaria um pouco Madara — Foi um mal entendido…
— Com o pianista? — Madara estreitou o olhar.
— Sim… — assentiu e não estava mentindo, Sasuke acreditar que Naruto estava no mesmo barco que Orochimaru era um mal entendido que Neji tentaria esclarecer. — Eu vou resolver isso… não se preocupe.
Madara soltou o ar e massageou as têmporas.
— Ele está de péssimo humor — Madara avisou, e Mito riu atrás.
— Olha quem fala…
— Eu estou de mal humor porque aquele pirralho me deixou de mal humor — Madara se defendeu. — Tava tudo bem até ele entrar no carro e começar a discutir comigo não sei até agora o motivo. Eu só perguntei o que tinha acontecido, e ele surtou, não entendi uma palavra do que ele falou! E ainda bateu a porta do quarto! Aquele pirralho bateu a porta do quarto, Mito! Na minha cara!
Neji sorriu de leve com a risada de Mito enquanto Hashimara abraçava Madara. Seguiu pelo corredor até a porta do quarto de Sasuke e respirou fundo. Por um momento, percebeu que sua mente estava em branco, que não conseguia dizer ao certo o que pensava ou sentia, mas que, ainda assim, sua mão tremia ao tocar a maçaneta. Odiou-se por isso, por deixar visível o quanto estava abalado quando não tinha também esse direito, não quando Sasuke estava do outro lado da porta, quando era o amigo que precisava de suporte, o mesmo suporte que ele não tinha conseguido lhe dar por ter sido cego demais naqueles anos todos.
O que diria a Sasuke? Como entraria naquele quarto com a culpa tão estampada no rosto, com o remorso fazendo suas mãos tremerem? Racionalmente, sabia que não tinha culpa alguma, uma pequena parte de seu cérebro ainda tentava lhe gritar que ele não tinha como saber, mas agora que todas as peças haviam se encaixado a única coisa que ele conseguia gritar de volta era: como? Como ele não tinha visto? Como não havia suspeitado? Como nunca perguntou? Como nunca estranhou o isolamento de Sasuke? As farpas com Orochimaru? A perseguição? O nojo? Tudo!!
Tinha desconfiado que Orochimaru estivesse ameaçando Sasuke… depois de ouvir Tsunade e o professor conversando sobre Sasuke e Tobirama, ao ver a forma possessiva como Orochimaru havia se referido a Sasuke, suspeitara que havia algo a mais. Tinha perguntado a Sakura até! E o modo como a amiga o olhou em pânico, pálida, como se tocasse em um assunto proibido o havia feito acreditar que estava certo.
E isso levava a um ponto que não queria pensar naquele momento… Sakura sabia? Ela… sabia durante aquele tempo todo? Ou ela apenas tinha chegado à mesma conclusão errada que ele? Não a perdoaria se ela soubesse, era rancoroso demais para isso, não conseguiria perdoar Sakura se ela estivesse ciente de algo daquela importância e não tivesse feito nada, absolutamente nada, para corrigir a situação.
Fechou os olhos e engoliu em seco, girou a maçaneta sem pressa, talvez dando tempo para que Sasuke o expulsasse, talvez dando tempo para que a coragem de repente reaparecesse. Mas nem Sasuke o impediu de abrir a porta nem a coragem surgiu, e os primeiros passos que deu para dentro daquele quarto foram na inércia da culpa e da dor.
Seus ouvidos pareceram sangrar ao identificar Tchaikovsky, o som do piano sendo reproduzido alto pelas caixas de som preenchiam todo o ambiente, de forma que o ar não tivesse mais espaço. Sasuke estava sentado na cama, as costas contra a cabeceira, a perna esquerda dobrada enquanto a outra mantinha-se estendida, as mesmas roupas molhadas com que havia deixado a companhia. Sasuke não o olhou, permaneceu com os olhos fechados, e Neji via o caminho que as lágrimas faziam ao escorrerem pelo rosto. Havia sangue também, um pequeno filete que vinha do lábio que ele mordia com força para não fazer barulho ao chorar. As mãos seguravam alguma coisa, e Neji demorou a reconhecer a tesoura e então notar as sapatilhas cortadas espalhadas pela cama.
Aquilo doeu. Veio como a última gota que faltava para que desabasse, o último golpe em um moribundo. Suas pernas fraquejaram, e ele não conseguiu andar até a cama de Sasuke, caiu antes, sentado próximo, e apenas se arrastou até a cama. Estava em frangalhos, sentia-se tão pequeno que não tinha mais certeza se havia feito certo ao ir consolar Sasuke quando ele próprio estava prestes a implorar ajuda a quem quer que fosse.
Sentado no chão frio, encostou-se na lateral da cama e deixou a cabeça tombar contra a coxa de Sasuke enquanto a mão se agarrava ao lençol para impedir-se de chorar, mas era tarde, e os soluços quase se atropelaram ao sair um atrás do outro. A mão de Sasuke tocou seu cabelo, e Neji a segurou, como se não quisesse que Sasuke se afastasse nunca mais de si, como se tivesse falhado em protegê-lo e quisesse garantir que isso nunca mais acontecesse.
Sasuke era como um irmão, tinham crescido juntos, estavam na mesma rotina, conheciam-se tão bem que doía demais perceber que isso era mentira que vinha se contando há anos! Que não o conhecia! Que não havia conseguido protegê-lo! Que tinha assistido ano após ano uma das únicas pessoas com quem se importava sofrer em silêncio! Havia prometido a Ino que sempre estaria ali por eles, que nunca os deixaria cair, havia desde sempre imposto a si essa obrigação porque os amava, porque queria protegê-los, porque não admitia que eles sofressem e…
Soluçou mais alto quando Sasuke acariciou seu cabelo. Aquele filho da puta estava tentando consolá-lo quando era quem mais estava ferido! Segurou a mão dele, puxando-o, e Sasuke se deixou ir, o corpo deslizando da cama ao chão como se já pretendesse fazer isso. E Neji esperou, aguardou que Sasuke se sentasse ao seu lado e o olhasse, precisava vê-lo, precisava achar nos olhos dele as respostas para todas as suas dúvidas, mas em especial uma: Sasuke o odiava? Não sabia o que sentiria no lugar dele, mas com certeza raiva, muita raiva, de todos aqueles que não vissem o quão sujo Orochimaru era enquanto era obrigado a sofrer calado.
Mordeu o lábio, a raiva era tanta que a vontade era de destruir tudo, desde as caixas de som que não paravam de tocar o maldito piano, às sapatilhas, tudo! Não queria fazer parte daquilo, não queria ter aquela sujeira em suas mãos. Não queria que Sasuke o odiasse por não ter conseguido enxergar a verdade, por não tê-lo defendido, por não ter interrompido a aula como Sasuke havia tido a coragem de fazer naquele dia… E foram tantas vezes… tantas vezes durante a adolescência que havia chego logo depois das aulas extras de Sasuke, tantas vezes que tinha achado o amigo estranho depois do treino…
Sentiu a mão de Sasuke em seu rosto e engasgou com o próprio choro.
— Pare… — Sasuke pediu em um sussurro, a voz baixa e passiva como Neji nunca pensou ouvir.
— Me perdoe… me desculpa… — pediu, olhando Sasuke nos olhos e enxergando nada além da sombra da dor e da raiva.
Não conseguiu soltar a mão dele, não conseguiu evitar de puxá-lo para si, embora não soubesse como agir. Via que Sasuke estava tentando se esconder de novo, via a tentativa dele em parecer forte, sob controle, mas não queria isso! Já muito tinha sido escondido, muita coisa velada, não podia aguentar mais! Puxou-o, o abraço veio como precisava ser, morno, urgente, protetor, Sasuke não o afastou nem mesmo ofereceu resistência. E foi quando Neji se calou ao prender Sasuke em seus braços, quando Sasuke enfim chorou e permitiu que o outro o visse sem que tivesse mais nada a esconder, que Neji percebeu que tinha sido um tolo fazer aquela promessa a Ino… Sasuke já havia caído, e ele não tinha estado lá para segurá-lo, agora o máximo que podia fazer era ajudá-lo a levantar, e nem mesmo isso sabia se era capaz de fazer…
* * *
— Seu tio está te ligando de novo — Sasuke comentou, deitado no chão e olhando o teto.
— Deixa — Neji respondeu ao deitar de forma oposta a de Sasuke, podendo apoiar sua cabeça no ombro dele e trazer a dele para o seu. — Você quer falar?
— Não tem o que falar.
— Estou com raiva — confessou.
— Eu sei.
— E eu sinto muito, Sasuke.
— Eu sei. E pare. Sabe que não tenho motivos para te culpar por nada.
— Tem, você tem… eu estava lá, todos os anos, desde que você entrou, e eu não vi nada, Sasuke… eu nem desconfiei, eu devia ter desconfiado.
— Neji, você não carrega o mundo nas costas, e ninguém aqui precisa de um herói. Você era um adolescente de merda que nem eu, não tinha motivo algum para você se dar conta do que tava acontecendo.
— E você não me contou…
— E o que você faria? Com quinze anos, o que você faria além de jogar sua carreira fora? — Sasuke perdeu a paciência e respirou fundo em seguida. — Eu não contei porque não podia e depois não contei porque já não era necessário. Aconteceu, ponto, não preciso falar disso, não preciso de pena, não preciso ser protegido, eu cresci e sei me defender. E… eu achei que havia sido… o último… achei que ele tinha parado depois de mim...
— O que disse à garota?
— Falei para ela contar aos pais. E insisti para eles a levarem num psicólogo.
— Contou o motivo?
— Não, mas estou certo de que ela vai contar, eu a convenci disso… — Engoliu em seco. — Ela precisa contar…
— Queria ter percebido… queria ter estado ao seu lado e te apoiado… eu mandaria minha carreira à merda por você se eu soubesse, Sasuke, faria meus tios caçarem Orochimaru até o inferno...
— Eu sei que sim… mas eu não arrisquei a minha carreira, não arriscaria a sua.
— Agora eu entendo…
— O quê?
— Você não me deixava te abraçar quando éramos adolescentes... e odiava que te tocassem.
Sasuke não respondeu, e Neji riu amargo.
— Você tentou contar para Tobirama? — enfim perguntou.
— Sim… Ele me odiava. Achava que eu dormia com Orochimaru porque já havia percebido como ele tinha prazer em me perseguir e ao mesmo tempo achar uma forma de me escalar em apresentações ou me manter na primeira barra. Quando teve o episódio da garota que se matou, eu entrei em pânico porque Tsunade não fez nada. Nada! Ela não se importou! E Tobirama discutiu comigo naquele dia, como sempre, mas eu não tava bem, acabei falando mais do que devia e, diferente do que eu imaginava, ele ouviu… ele acreditou… e ele foi demitido por isso. Tsunade não quis ouvir uma palavra dele, ignorou tudo, como se ele fosse louco a dar ouvidos a um aluno “problemático”. Ela não se importa… ela está nesse mesmo barco que só afunda cada vez mais, recusando-se a dar a ordem para abandoná-lo. Eles estão todos nessa mesma lama, não adianta pra que lado você corra, eles estão todos nessa sujeira...
— Você sabe, não é, Sasuke? Que Naruto não tem nada a ver com isso…
— Não fale dele.
— Eu vi, Sasuke, e posso te dar certeza de que ele não tem nada a ver com Orochimaru. Ele entrou e pânico quando entendeu o que tinha acontecido. Ele, de verdade, não sabia.
— Ele deixou aquela garota com Orochimaru por meses…
— Eu te deixei com Orochimaru por anos…
— Não é a mesma coisa, você não tinha como saber.
— Ele também não, Sasuke. Naruto é um idiota, você o conhece melhor que eu e sabe, no fundo sabe, que não tem como ele estar envolvido nisso.
— Eu quero acreditar… e isso é diferente de ser ou não verdade.
— Acredito nele, acredito que ele ame você e que ele nunca faria algo assim para te machucar.
— Eu… — Sasuke suspirou e fechou os olhos, sentia a mão de Neji em seu cabelo e ouvia ao fundo a melancolia do piano. Estava cansado, demais, e o anel ainda em sua mão era um lembrete de que aquele assunto não havia acabado, o que o fazia engolir em seco e cobrir o rosto com o braço para esconder os olhos úmidos. — Não quero pensar nisso… não quero pensar mais em nada… não hoje.
* * *
Minato pediu pela quinta vez que Naruto se sentasse, em vão. A cirurgia de Kushina estava demorando, mais do que Hinata tinha lhe dito que demoraria, e ele não sabia o que pensar sobre isso. Sentados na sala de espera tudo o que podiam fazer era literalmente esperar, e isso era tão agonizante que sentia o coração bater na boca, as mãos geladas, a pressão baixa.
Nenhum dos dois havia saído do hospital. Respiravam a mesma incerteza e aflição, e, quando Hinata enfim apareceu, ela nem mesmo soube quem a abordou primeiro.
— A cirurgia já terminou, ela está estável — ela garantiu, calma, séria. E as poucas palavras fizeram o trabalho de tranquilizar Naruto e Minato para que ela pudesse comunicar o restante. — Ela teve uma área de infarto, pequeno, e somado ao problema da válvula, complicou a operação. Mas agora ela está bem. Vai precisar ficar aqui por alguns dias sob observação e terá que tomar alguns antibióticos.
— Quando vamos poder vê-la? — Minato perguntou, preocupado, ao segurar as mãos dela.
Hinata suspirou e sorriu, doce.
— Em breve. Agora, eu acho que tanto ela quanto vocês precisam descansar. Vão para casa hoje, durmam, já está muito tarde. O plantão hoje é meu, ficarei aqui a noite toda com ela e aviso vocês se qualquer coisa acontecer — ela prometeu e apertou as mãos de Minato. — Ela não vai ficar sozinha, eu garanto.
Minato olhou reticente para o corredor atrás de Hinata e assentiu.
— Obrigado, de verdade, obrigado.
— Não precisa me agradecer.
— Não vamos começar isso de novo. — Ele riu, cansado, e se afastou. — Você vem, Naruto?
— Pode ir. Preciso falar com Hinata antes — respondeu, e o pai tocou seu ombro antes de deixá-los a sós. — Ela está fora de perigo, Hina?
— Sabe que não posso dizer coisas assim, Naruto — ela lamentou. — A cirurgia correu bem. Ela está estável agora. Vamos começar os antibióticos, e o prognóstico é bom. Mas é tudo o que posso dizer no momento. Desculpe.
Ele negou com a cabeça e suspirou, ciente de que ela não tinha todas as respostas e grato por não mentir.
— Venha, vamos tomar um café. Preciso comer e sentar um pouco depois dessas horas de pé… — Ela massageou o pescoço, cansada.
Ele esperou que ela trocasse de roupa antes de saírem do hospital para a lanchonete no andar inferior do prédio. Sentou-se primeiro, vendo Hinata fazer os pedidos no balcão antes de se aproximar e deitar a cabeça sobre a mesa. O relógio marcava quase quatro da manhã, mas Naruto sabia que a exaustão com que seu corpo sofria era mais ligada aos acontecimentos do dia que cansaço propriamente dito.
— Você está muito quieto — Hinata sussurrou, de olhos fechados, e Naruto sorriu melancólico ao brincar com os fios soltos do cabelo dela. — Está pensando em Kushina?
— Também — ele respondeu. — Hina…
— Sim?
— Preciso dos seus conselhos…
— Nunca te recusei alguns conselhos. — Ela sorriu antes de cruzar os braços na mesa e apoiar o rosto nele para encarar Naruto. — O que aconteceu? Parece sério…
— Orochimaru… — conseguiu falar, e Hinata franziu o cenho, tentando se lembrar do nome.
— O professor de ballet que fica te causando problemas? — ela questionou, e Naruto riu amargo, frustrado, com uma raiva que a fez ajeitar a postura e analisá-lo ao segurar-lhe a mão. — O que ele fez? É sobre a orquestra? Achei que você já tivesse sido aprovado…
— Não é isso…. — Naruto respirou fundo e desviou o olhar. — Hina, o que você faria se descobrisse que alguém… — Engoliu em seco. — Que na agência da Hanabi algum dos fotógrafos está molestando, assediando as modelos?
Hinata ficou tensa, respirou fundo ao desviar o olhar e então pensar.
— Se acontecesse qualquer coisa com Hanabi ali, ainda mais desse tipo, eu faria o impossível para a pessoa pagar pelo resto da vida dela. Se alguém encostasse um dedo na minha irmã ou a fizesse sofrer de alguma forma, pode ter certeza que eu nunca esqueceria nem perdoaria isso.
— Orochimaru abusa dos alunos — Naruto falou depressa, antes que a coragem ou o aperto de Hinata em sua mão fosse embora. — Eu não sei a que nível, não sei desde quando, mas… Sasuke… — Soltou de uma vez o ar e baixou a cabeça. — Tinha uma aluna hoje, e Sasuke quase derrubou aquela porta para tirá-la de lá… você não o viu, Hinata, ele… o modo como ele ficou… Eu não entendi no começo, não até o outro bailarino me fazer ligar os pontos… e… — Ele ergueu o rosto, os olhos úmidos enquanto respirava fundo. — Hina, faz tanto, tanto, sentido… a hesitação, o medo dele, o modo como ele agia comigo, tudo… E eu não-... Meu Deus, eu sou um idiota, Hina, achei que era porque ele era virgem ou sei lá, eu nunca que ia pensar que-
Hinata concordou com a cabeça, sem ser preciso responder, mas mostrando que entendia, que estava ali.
— O que eu faço? — ele perguntou, tão perdido que ela fechou os olhos ao acariciar-lhe o rosto.
— Primeiro, você não tinha como saber se ele não te contou, Naruto.
— Ele me acusou. — Riu em desespero. — Ele acha que eu ajudo a proteger aquele… — Grunhiu. — Eu não deixei que ele socasse Orochimaru, achei que ele tinha perdido a cabeça, não sabia disso tudo! E ele me acusou… Hinata, ele me olhou com tanto ódio, com tanto… nojo… eu não sei o que fazer…
— Tempo — ela respondeu. — Você precisa de um tempo para entender tudo. E ele também… Depois desses meses todos juntos, se ele realmente sente algo por você, se te conhece, Naruto, ele vai perceber que te acusar é um absurdo… Se ele também foi uma vítima dessa violência, é mais do que compreensível que ele tenha reagido assim ao ver outra pessoa passando pela mesma coisa… Dê um tempo para ele, e para você também. É muita coisa para absorver ao mesmo tempo.
— Me sinto inútil… me sinto… impotente. Eu amo Sasuke, Hinata, amo de verdade, amo tanto que eu não sei o que teria feito se encontrasse Orochimaru depois disso… e não estou exagerando… Ele machucou o Sasuke de uma forma que não foi só o abuso, foi tortura, ano após ano, nas aulas, nos ensaios, nas provocações, no silêncio! Como ele pôde fazer isso?
— Vai denunciá-lo? — Hinata perguntou, e Naruto jogou a cabeça para trás.
— É óbvio que sim. Mas não sei se vai ser o bastante… Pelo que entendi, Tsunade sabe já. Eu não sei… Não quero acreditar que ela apoia isso, que ela está acobertando algo assim… Ela disse que Tobirama foi demitido por culpa de Sasuke… E ele me disse que eu me meteria em problemas se continuasse com ele, lembra? Não tenho medo do que vai me acontecer por denunciar Orochimaru, Hina, tenho medo de esse filho da puta sair impune e com isso fazer Sasuke sofrer mais.
— Nós não temos controle sobre o que os outros farão, Naruto — Hinata falou e tocou o rosto dele para que a olhasse. — A nossa parte a gente faz, e faz bem feita. A gente se cerca de todos os lados e garante que tudo saia como queremos. Você precisa denunciar esse professor e faça isso de forma que não haja como Tsunade ou qualquer um tentar protegê-lo. Você disse que Sasuke ajudou a garota, não é? Ela vai denunciar? Os pais dela foram informados?
— Não sei… eu não vi… Sasuke estava com ela, não sei o que ele disse. Neji me pediu tempo, falou que precisávamos pensar em como lidar com isso.
— Neji é o bailarino?
— Sim, amigo de Sasuke, ele estava com a gente na hora.
— Então ele também não vai deixar isso pra lá — ela assegurou. — Eu sei que é difícil, mas vá para casa, descanse e espere um pouco. Quando verá Orochimaru de novo?
— Pedirei folga amanhã por causa da minha mãe… preciso ficar com ela. Então, talvez depois de amanhã? Não sei… E não sei o que vou fazer quando vê-lo… mas não vou conseguir ficar lá, sentado, tocando enquanto ele dá aula… eu não tenho esse sangue frio, Hina.
Ela respirou fundo e assentiu. Conhecia Naruto o suficiente para entender que Orochimaru agora não precisava fazer muita coisa para detonar o pavio que era o autocontrole de Naruto, e, tendo em vista o que tinha acontecido, ela não sabia o que dizer para contê-lo. Por isso, encarou Naruto, tocou o rosto dele mais uma vez e optou pelo que talvez se aproximasse mais do que Naruto desejava:
— Mas você precisa — falou firme. — Se quer ver Orochimaru pagando pelo que fez, você precisa esperar o momento certo. Caso contrário, vai colocar tudo a perder, e ele escapa... e, querendo ou não, aí sim com a sua ajuda.
* * *
Ino arrumou o cabelo em frente ao espelho sem fazer muito barulho, a não ser pelo toque do salto contra o piso escuro do quarto de Gaara. Teria que ir até a agência naquela tarde, começar os ensaios para o desfile, as provas de roupa. Pain os tinha avisado que a Chunin faria um evento beneficente menor antes do desfile, para verificar os modelos, as agências contratadas, nada poderia sair errado no dia do grande desfile. Por isso, Gaara tinha ido até o cursinho buscá-la naquele dia. Ele morava perto da agência, e ela podia ficar lá estudando antes de terem que sair.
Gaara a abraçou pelas costas enquanto ela terminava de ajeitar o cabelo para saírem, beijou o ombro dela exposto pelo vestido de alça e sorriu quando ela girou com leveza sobre o salto e passou os braços ao redor de seu pescoço.
— Pronta?
— Sempre — ela gracejou. — Vai estar com a gente no ensaio?
— Não perderia por nada você em uma passarela. Na verdade, estou curioso e ansioso por isso.
— Ansioso? — Ela arqueou a sobrancelha. — Por quê?
— E por que não? Particularmente, eu gosto de fotografar desfiles, vou gostar ainda mais se a modelo for você.
Ela sorriu, e Gaara sentiu o frescor do perfume floral de Ino em sua camiseta enquanto admirava a maquiagem leve que ela havia feito em pouquíssimos minutos. Enxergava que havia algo errado por trás do sorriso quente que recebia, Ino era forte, mas, ao mesmo tempo, transparente, o tipo de pessoa que permanece de pé, mas não consegue esconder as feridas, os machucados que tinham por objetivo derrubá-la.
— Quando vai me contar o que está te incomodando? — perguntou com calma, e Ino fez um leve bico antes de soltá-lo e pegar a bolsa.
— Depois do desfile, pode ser? Dá azar contar os planos antes de colocá-los em prática — justificou-se, e Gaara não teve outra opção a não ser concordar.
Ino conferiu o celular mais uma vez antes de subir na moto com Gaara para a agência. Neji tinha lhe mandado uma mensagem avisando que nem ele nem Sasuke iriam à aula naquele dia, mas não tinha conseguido nenhuma resposta do motivo para isso. Sakura também não sabia de nada. Tinha passado algumas horas conversando por mensagem com a amiga, e elas sabiam que alguma coisa tinha acontecido. Tsunade estava com um péssimo humor, tentando achar dois professores substitutos para as próximas semanas já que Orochimaru e uma das professoras de música tinham subitamente pedido licença. Sakura comentou sobre isso no grupo, e Ino sabia que a falta de resposta de Sasuke e Neji àquela informação era mais que suficiente para que ela notasse que eles não estavam bem.
Desceu da moto assim que chegaram ao estacionamento, ignorou as fotos que sabia que algum desocupado estava tirando de sua chegada com Gaara e lhe devolveu o capacete, usando o retrovisor para arrumar os fios de cabelo que tinham sido bagunçados.
Entraram na agência conversando, mas a atenção de Ino não estava de fato em Gaara. Os olhos azuis corriam pelo lugar de forma analítica, sabia o que tinha que fazer e felizmente não teria como ser adiado, afinal, cruzaria com Hanabi naquele dia por causa do ensaio.
— Preciso ir e preparar, ok? — Gaara falou. — Konan vai coordenar a distribuição da coleção, é ela quem decide o que cada modelo vai vestir, seguindo as orientações da Chunin, é claro.
— Certo.
— Boa sorte — ele desejou, e Ino espiou rapidamente se havia alguém os olhando para então beijá-lo breve e se afastar.
Não foi difícil achar os modelos, Konohamaru parecia ser o responsável por os achar e guiar até um dos sets amplos arrumado especialmente para o ensaio. Alguns puffs estavam espalhados, os modelos pareciam entretidos ou conversando ou nos celulares, todos esperando Konan aparecer no horário marcado. Ela não lhes deu atenção, seu olhar recaiu sobre Hanabi e a viu se levantar em seguida, saindo do ambiente numa tentativa falha em ser discreta.
— Eu vou — ela avisou ao segurar Konohamaru. — Não deixe ninguém nos seguir. Por favor — reforçou.
Ele concordou, mesmo sem entender, e Ino evitou os olhares curiosos ao seguir Hanabi. Sabia o que eles estavam pensando, imaginavam que era sobre Gaara ou qualquer coisa estúpida sobre uma rivalidade entre as duas que não existia, e era melhor deixar assim. Sabia que pelo bem da carreira de Hanabi, era melhor pensarem isso que saberem a verdade. Por isso, não podia deixar que as seguissem, não queria que ouvissem a conversa, não daria mais carne aos urubus.
Seguiu Hanabi até a sacada, os olhos perolados dela estavam sérios, decididos, a postura defensiva, e Ino percebeu que, naquele momento, Hanabi a via como uma ameaça, como alguém que tinha nas mãos tudo para destruí-la. Era como Neji tinha dito… se no ballet já existia aquela pressão e aquela competitividade, aquele desejo insano de ser o melhor mesmo que isso os obrigasse a comer uns aos outros, não podia imaginar como era para Hanabi, que vivia naquele meio desde muito nova, que tinha alcançado o sucesso desde cedo. Chegava à conclusão de que o sucesso era uma armadilha; uma vez alcançado, as pessoas se esquecem do esforço que você fez para merecê-lo e começam a desvalorizá-lo simplesmente pelo prazer de assistir à sua ruína.
Ela não era assim, mas como Hanabi saberia, não é? Como confiaria? Que razão ela tinha para isso?
Suspirou, desarmada, e na ausência de palavras para expressar o quanto se solidarizava com Hanabi, o quanto queria apenas ajudá-la, preferiu destruir o espaço entre elas e abraçá-la com toda força, carinho e empatia que sentia por aquela outra mulher.
— Tá tudo bem — falou firme e não soltou Hanabi até que a surpresa a permitisse lhe abraçar de volta e esconder o rosto num choro silencioso. — Você é linda, garota. Você é forte, Hanabi. Você é incrível e — pausou, separando-se para segurar o rosto de Hanabi entre suas mãos e olhá-la fundo nos olhos perolados. — Você não está sozinha.
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