Não pare a Música

27 Capítulo 27 - Forjada em veneno


Naruto percebeu que havia algo estranho com Sasuke, mas não insistiu depois que ele negou duas vezes. Os machucados ainda estavam bem evidentes, e tinha uma sombra sobre os olhos de Sasuke que não conseguiu eliminar por completo ao deixá-lo na faculdade. Aproximou-se para beijá-lo antes que ele saísse do carro e sentiu a diferença quando foi Sasuke que pareceu iniciar e controlar o beijo. A mão em sua nuca era firme, a pressão em seus lábios dizia o quanto o outro parecia precisar dele naquele momento, e a forma tempestuosa com que o beijava dava-lhe uma pequena noção do caos interno que os olhos tanto deixavam à mostra.

Segurou-o, o rosto contra o seu enquanto respirava fundo em busca do fôlego roubado. Sorriu travesso e beijou a ponta do nariz de Sasuke, só para vê-lo ser afastar com uma expressão marrenta no rosto.

— Mas que merda...?

— Vai ficar tudo bem — garantiu, e Sasuke piscou confuso tentando entendê-lo. — Não pense muito nos problemas, vai ficar velho desse jeito. Cara emburrada você já tem, Teme.

— Escuta aqui, Dobe, vo-

A fala foi interrompida por outro beijo, e Sasuke conseguia sentir o sorriso de Naruto contra seus lábios à medida que o invadia e o fazia corresponder. Suspirou, entregue, a mão de Naruto, espalmada em suas costas, trazia conforto, a língua quente o seduzia, era tudo tão bom e tão acolhedor que percebeu que poderia deixar-se estar nos braços de Naruto por um bom tempo sem reclamar. Era como a música… o envolvia, trazia-lhe paz de certa forma, afastava os pensamentos e fazia seu coração acelerar de um jeito que já estava se habituando ao novo ritmo que Naruto lhe impunha.

— Você tem que ir — Naruto sussurrou contra sua boca, os olhos azuis fechados enquanto a língua passeava entre seus lábios.

— Tenho — respondeu.

E as palavras mostraram que não tinham força alguma porque, embora ditas, nenhum dos dois se moveu. Sasuke permitiu-se ficar, a proximidade de Naruto o acalmava, era como uma boia salva vidas no meio do oceano violento no qual acordado naquele dia. O corpo dele era quente, gostava disso, como um cobertor perfeito nos dias de chuva durante o inverno. Sentia o coração dele bater contra sua mão, e já havia notado que o ritmo nunca era igual, como se risse dele ao mostrar que nunca poderia decorá-lo. O perfume era… cítrico. Naquele dia, Naruto escolhera um cítrico, agradável, e pegou-se se perguntando se havia algum motivo especial para isso, mas se repreendeu e enfim se afastou ao dar-se conta de que já estava se habituando demais a Naruto para ter pensamentos desse tipo.

— Quer ficar lá em casa hoje? — Ouviu-o perguntar enquanto pegava a mochila para sair do carro.

— Não vai passar o dia com a sua mãe?

— Não. Meu pai disse que precisa conversar com ela sobre o que aconteceu. — Fez uma careta de desagrado. — E vamos almoçar amanhã para acertar os detalhes da cirurgia.

— Hm…

— Isso é um sim ou um vou pensar? — Naruto provocou, e Sasuke revirou os olhos ao sorrir de leve.

— É um talvez, Dobe. Eu mando mensagem mais tarde.

— Ok, então, vou esperar! — Ele sorriu animado, e Sasuke balançou a cabeça de forma incrédula ao sair do carro.

As pessoas notavam os machucados. Ignorou todas. Entrou na sala de aula com a cabeça erguida como sempre e os fones no ouvido embora não ouvisse música alguma. Percebeu o olhar curioso e analítico de Shikamaru e apenas balançou o celular sobre a mesa antes de digitar um pequeno, miserável até, resumo do que havia acontecido.

Esperou o professor entrar na sala, a mente longe, a cabeça muito mais leve do que quando tinha saído de casa. A prova foi entregue, e ele a encarou sobre a mesa por alguns segundos em silêncio. Depois de alguns minutos, três exatos e contados no relógio, riu baixo. O perfume de Naruto havia ficado impregnado em seu moletom e era estranho, inexplicável e um pouco assustador como se sentia bem ao levar a manga ao rosto e inspirar o aroma…

* * *

— Mãe! — Naruto tentou pela terceira vez, mas Kushina estava decidida a ignorá-lo enquanto saía do carro. — Não foi minha culpa… você estava internada!

— E você nem ao menos me disse que ele estava lá! — ela rebateu, geniosa, e entrou em casa pisando duro com Naruto em seu encalço. — Não acredito que você não me apresentou ele! O seu pai conhece?

— O quê? — Naruto perguntou sem entender.

— Você apresentou ele pro seu pai?

— Não, mãe, ele também não conhece o Sasuke.

— Mas a Hinata sim!

— Ela foi a médica dele, mãe! — defendeu-se, exasperado, mas Kushina cruzou os braços ao se sentar no sofá, irredutível. — Mãe…

— Você vai convidá-lo para um almoço.

— O quê?!

— Sim! Para nos apresentar!

— Mãe, vamos com calma. — Naruto riu, nervoso.

Ele coçou a nuca sem jeito enquanto tentava achar um jeito de explicar que, bem, não havia como apresentar Sasuke por não saber exatamente o que tinham. Tal pensamento arrancou um suspiro pesado de si, e ele se sentou ao lado da mãe. A mudança de expressão foi percebida, Kushina desfez a postura rígida e entrelaçou os dedos aos do filho enquanto deitava a cabeça no ombro dele.

— Algum problema, querido? — perguntou, mais calma, e Naruto dividiu-se entre sorrir feliz por ter algo com Sasuke ou lamentar não saber como chamar o relacionamento que possuíam.

— Nós estamos juntos, mas… é complicado.

— Complicado por quê?

— Ainda não estamos na fase de apresentar para os pais, sabe? — Riu sem graça.

— Você já conhece os tios dele. — Ela arqueou a sobrancelha.

— Conheço, como Naruto, o pianista da companhia em que ele estuda — explicou, e Kushina deixou um som de compreensão escapar.

— Pensei que estivessem namorando, querido.

— Estamos? — Naruto devolveu a pergunta antes de jogar a cabeça para trás e pegar uma das almofadas do sofá para pressionar contra o rosto enquanto grunhia frustrado fazendo a mãe rir.

— Larga de drama, Naruto.

Ele riu e jogou a almofada longe. Kushina sentou-se de lado para poder observá-lo, e Naruto riu ainda mais da expressão curiosa da mãe.

— Ele é bonito? — ela perguntou, e Naruto corou descrente ao ter que pegar o celular para mostrar uma das fotos que havia tirado com Sasuke. — Oh, ele é bem bonito. Você não o pediu em namoro?

— Mãe, eu tenho vinte e oito anos, eu nem sei mais pedir alguém em namoro!

Ela revirou os olhos e o ignorou.

— Estão juntos há quanto tempo?

— Hum… juntos juntos ou…

— Filho, não me enrola, você sabe o que eu quero saber — Kushina o cortou impaciente.

— Conheci ele no começo do ano, é um dos alunos da praga do Orochimaru. Comecei a dar em cima dele um pouquinho depois disso… — completou em voz baixa ao desviar o olhar para um ponto qualquer.

— Naruto! — Kushina o repreendeu abismada.

— Que é? Ele é bonito! Você mesma disse — defendeu-se. — E dança muito bem. Não foi bem de propósito no começo, eu tava ensaiando numa sala, ele precisava da sala, eu não me importei em dividir o espaço e ajudei ele e não dava para parar de olhar ele dançando… E ele também estava provocando, então não foi só minha culpa.

— Ai meu Deus, filho… tá, então vocês estão nessa há alguns meses já?

— Sim.

— E já estão saindo de alguma forma?

— Sim — respondeu sorrindo.

— E você já está apaixonado por ele?

Naruto riu, o rosto quente enquanto fugia do olhar da mãe. Gostava da intimidade que tinha com ela, de poder falar o que pensava e sentia como faria a uma amiga, mas isso não o impedia de se sentir constrangido, até porque… seria a primeira vez que falaria em voz alta aquilo de que já havia se dado conta:

— Que nem um idiota…

Kushina sorriu, meiga, e acariciou de leve o cabelo de Naruto. Já sabia a resposta mesmo antes de ele lhe responder, estava claro no brilho a mais nos olhos que ela tão bem conhecia, na forma como ele respondia certas mensagens no celular e como havia ficado inquieto ao seu lado no hospital enquanto Sasuke estava lá. Era bom vê-lo amando outra pessoa, era bonita a forma como ele sorria diferente por isso, e ela não se importava nem um pouco de ter ido parar no hospital por defender que ele tivesse essa chance. A família de Minato era conservado, ela sempre soube, mas achou que isso nunca os afetaria… Quando falaram de Naruto, na sua frente, como se ele fosse a vergonha da família, como se ele fosse o desgarrado, a ovelha negra da sua geração, não havia tido como ficar quieta. Já tinha alertado Minato, ele havia falado com o pai, mas de nada adiantara… então, daquela vez, seria ela a dizer algumas verdades. Ninguém julgaria Naruto por ser pianista, como ela o havia ensinado, ninguém apontaria o dedo para ele por amar, simplesmente por amar, como ela e Minato lhe tinham dito a vida toda para fazer.

— Mãe? — Naruto chamou pela segunda vez, e Kushina saiu de seus pensamentos.

— Desculpe, eu me distraí um pouco.

— Está se sentindo bem?

— Não começa! Pode parar com isso e continue me contando. Se você está apaixonado por ele e está tudo bem entre vocês, por que ainda não o pediu em namoro?

Naruto suspirou e mordeu o lábio.

— Porque parece que tudo com Sasuke nunca é tão simples…

— Como assim? — Kushina franziu o cenho.

— Tsunade o chamou de “aluno problemático” e sugeriu, mais mandou, que eu mantivesse distância.

— O que você não fez.

— Não, já era um pouquinho tarde quando ela falou. — Riu, divertido. — Mas… não sei. Só não parece a hora ainda. É como se Sasuke estivesse o tempo todo numa corda bamba, mantendo um equilíbrio sabe-se lá porquê. Não quero ser o vento a derrubá-lo de vez, entende? Acho melhor só… esperar um pouco mais, até ele achar um lugar seguro para aterrissar.

Kushina segurou o rosto de Naruto e o puxou para si, beijou-lhe a testa e acariciou o rosto dele com carinho e um sorriso confiante.

— Você está certo, espere então, dê tempo a ele, mas, quando estiver seguro, não hesite em contar, viu? Não deixe as oportunidades da vida passar.

Naruto assentiu e ouviu a porta da casa se abrir quando seu pai entrou.

— Bem na hora, preciso ir, mãe. — Beijou-a no rosto de forma exagerada fazendo-a rir. — Amanhã o almoço está de pé?

— Sim, está — Kushina respondeu.

— Ótimo. — Ele se levantou e pegou as chaves do carro antes de parar ao lado do pai. — Estou de folga no período da tarde nessa semana, então, se precisarem de algo, me liguem.

— Não se preocupe. Peguei uma licença no trabalho para esses dias — Minato explicou com calma, e Naruto deixou para questionar depois a falsa tranquilidade com que o pai lhe sorria. Problemas… Mas perguntaria no almoço, se eles queriam tempo para lhe contar, daria isso a eles.

— Já vou então.

Saiu de casa um pouco mais leve. Já era quase meio dia, aproveitaria para entrar em contato com o regente musical da companhia para saber o cronograma dos ensaios e havia uma reunião com Tsunade e os outros pianistas por chamada de vídeo para rearranjarem as aulas. Tentaria fazer tudo até umas cinco horas, tinha uma pequena esperança de que Sasuke fosse aceitar o convite. Poderia cozinhar daquela vez! Mas, infelizmente, teria que achar alguma coisa que não fosse lamén…

* * *

O sorriso de Ino era falso, e a única parte boa era que Gaara não teria que a fotografar assim. Ela dançava, as luzes baixas, os cabelos soltos com uma trança servindo de tiara. A melodia era doce, triste, e Ino não parecia ter que se esforçar para transmitir aquela melancolia em seus passos. O silêncio dos espectadores era algo que Gaara considerava incrível, não era por respeito ou educação, era porque ele via que todos estavam admirados demais para que conseguissem se pronunciar.

Ela estava linda, a delicadeza dos movimentos escondiam dos olhos o esforço que ela tinha que fazer, e isso era uma das coisas que ele mais admirava ao assisti-la. As câmeras estavam bem posicionadas, gravavam-na assim como tinham feito anteriormente com os modelos representando os demais esportes.

Diferente dos outros que a assistiam, ele sabia que a tristeza dela era verdadeira, e não uma simples interpretação. Ela havia lhe ligado quando o resultado das audições saiu, não contou o que havia acontecido, mas ele estranhou quando o convite para sair surgiu às três horas da tarde. Haviam corrido com a moto por mais de uma hora, a pedido dela, sem direção ou destino certos. Os braços dela ao redor do seu corpo eram firmes, um abraço necessitado enquanto sentia o rosto dela escondido em suas costas. Sentia os soluços, não ouvia o choro pelo barulho do vento graças à velocidade, mas sentia o corpo dela tremer enquanto as mãos fechavam-se com força em sua jaqueta.

Conhecia bem a cidade, aproveitara o momento para dirigir até um de seus lugares preferidos, que pouco visita por ser distante. Com sorte, não teria mudado muito. Ajudara Ino a descer da moto quando enfim chegaram ao lugar. Era uma praça simples e que talvez só tivesse mesmo importância para ele, mas não custava tentar. Havia morado com os pais perto dali, a mãe gostava da vista pela praça ser num lugar mais alto que o restante, permitindo que pudessem observar à frente as luzes dos prédios se acenderem gradualmente conforme o sol se despedia do céu.

Ino havia se apoiado na grade de proteção ao fim da praça, havia um pequeno declive adiante, os olhos azuis brilhavam pelo resquício das lágrimas, e ele se aproximara para colocar a jaqueta envolta dos ombros dela antes de abraçá-la.

— Obrigada — ela tinha sussurrado, e ele deixara um beijo carinhoso no rosto dela. — Onde estamos?

— Numa lembrança.

— Uma lembrança? — ela havia perguntado confusa.

— Vinha aqui quando era menor — a explicação parecia boba, mas Ino prestava atenção com a mesma curiosidade simples que demonstrava para tudo que ele lhe contava. — Gosto de ver o anoitecer daqui. É bonito. Tenho mais fotos daqui do que de qualquer outro lugar no mundo.

Ela sorrira, meiga, de uma forma simples e bonita, como se ele tivesse acabado de dizer algo extremamente encantador.

— O que foi?

— Me trouxe ao seu lugar favorito? — Ela sorria, e Gaara sentia o rosto levemente quente ao assentir e então olhar para o céu. — Obrigada.

— Não é muito.

— Não, é sim — ela rebatera, convicta, e Gaara a tinha olhado confuso pelo tom. — Não só por hoje… Obrigada, mesmo.

Gaara não sabia ao certo porque, mas, em alguns momentos, seu corpo agia antes que raciocinasse ao estar perto de Ino. Suas mão já acariciavam o rosto dela e o viravam com delicadeza para si quando tinha se dado conta, os lábios a beijavam com carinho, mas com pressão o suficiente para que ela entendesse que ele não fazia aquilo por qualquer outro motivo senão… senão? Ah… ele não precisava dizer, não é? Só estar consciente do que sentia já explicava tanta coisa… principalmente o motivo de ficar tão feliz e satisfeito por ver Ino sorrir com o rosto corado antes de contemplar o pôr do sol consigo.

O som dos aplausos quando as câmeras foram desligadas trouxe Gaara de volta para o estúdio. Ino respirava ofegante, apoiada na parede enquanto virava a garrafa de água contra os lábios.

— Ora… — Gaara ouviu ao seu lado e então virou-se para ver Sasori batendo palmas como os demais. — E não é que ela sabe mesmo dançar?

Não respondeu, era melhor ignorar Sasori, Konan estava presente e não daria a ela mais um motivo de preocupação. Colocou as mãos no bolso, para se certificar de que não as usaria se perdesse a cabeça. Sasori o fazia se lembrar da adolescência, quando usava muito mais os punhos que a boca para resolver seus problemas, ele conseguia mesmo minar toda sua paciência e fazê-lo voltar a se sentir uma pessoa explosiva.

— Nem acreditei quando disseram que o cliente tinha gostado das fotos. Ah, nada contra o seu trabalho, é claro. — Sasori sorriu, aquele sorriso mínimo, pequeno e falso, como se esculpido em um boneco. — Suas fotos são boas, mas é difícil fazer um bom trabalho quando os modelos não ajudam, não concorda?

Ino os olhava com curiosidade, ela possuía uma expressão confusa e então um olhar analítico sobre Sasori que só desapareceu porque Hanabi surgiu para abraçá-la.

— Elas se conhecem? — Sasori perguntou, o tom de voz neutro, mas a curiosidade era palpável. — Foi assim que Pain a contratou? Isso ex-

— Não — cortou-o, irritado. — Elas se conheceram aqui. Vão fazer a próxima campanha juntas.

— Ah, eu sei, estou na equipe.

— Como é? — Gaara perguntou, frio, e finalmente o encarou de fato.

— Você não sabia? Pain me deu uma “última chance” — explicou com tédio. — Para provar que mereço ficar aqui e que sei trabalhar com os modelos sem “desrespeitá-los” ou algo assim.

— Só pode ser piada. — Gaara balançou a cabeça, incrédulo e buscou com os olhos Konan entre as pessoas.

— Também não entendi, mas, depois da sua foto com a plus size, ficou claro porque Pain te tirou da equipe e me colocou no lugar. Eu posso ter falado uma coisa ou outra sobre Hanabi, mas você tá transando com uma das modelos. Acho que seu erro pesou mais que o meu quando colocaram na balança.

Gaara respirou fundo e apertou os punhos enquanto decidia se afastar de Sasori a fim de não piorar sua situação. Caminhou a passos duros, respirando de forma mecânica para se acalmar antes de bater na porta de Pain. Entrou após ser autorizado, os olhos de Pain fixaram-se nele por alguns segundos, e Gaara soube que ele já sabia do que queria falar quando soltou o ar de forma pesada, largou os papéis sobre a mesa e se recostou na cadeira.

— Por favor, feche a porta e sente-se, Gaara.

* * *

Ino secava a boca enquanto Hanabi terminava de escovar os dentes ao seu lado no banheiro da agência. Percebia a expressão irritada de Hanabi, ela ficava séria, com um pequeno vinco na testa e um leve bico nos lábios que lhe dava uma aparência adorável. Contudo, entendia sim a raiva. Ele havia lhe contado sobre Sasori já, o contrato era claro que Sasori não poderia mais fotografá-la, entretanto, isso só valia para ensaios individuais, não para campanhas em grupo. Quando lhes falaram que Sasori seria um dos fotógrafos para a campanha da nova coleção, acharam que era um engano, mas não, lá estava Konan explicando a campanha para cada um dos cinco modelos e apresentando os fotógrafos envolvidos.

Uma grande merda! Tudo do que precisava era um fotógrafo idiota com padrões de beleza enraizados num cérebro mofado! Ah, não, não tinha mesmo paciência para aquilo… Já estava de saco cheio de pessoas assim! Como se não bastasse o ballet para fazê-la infeliz e lembrá-la todo santo dia de que seu peso seria um problema… Ah, mas ela não ia baixar a cabeça para aquele imbecil, não mesmo! E também não o deixaria abalar tanto Hanabi! Onde já se viu? A menina já era tão magra que Ino sabia que ela só usava aqueles moletons pesados para esconder o corpo. Via como ela olhava para a comida no almoço, como se controlava para não pegar demais e, mesmo assim, ainda suspirava culpada após uma ou outra refeição quando colocava mais comida no prato. Aquele idiota não chegaria nem perto de Hanabi, e, se fizesse, Ino daria um jeito de ele nunca mais conseguir segurar uma câmera na vida!

— Eu ainda vou usar o banheiro, Ino, pode ir na frente — Hanabi falou enquanto secava o rosto e guardava a escova na pequena bolsinha de higiene.

— Tudo bem, vou aproveitar para ligar para um amigo. — Ino sorriu e terminou de arrumar o cabelo na frente do espelho. — Manda mensagem depois para eu saber onde tá.

— Ok.

Ino deixou o banheiro com o celular já em mãos. Ainda não havia falado direito com Sasuke… Soubera do hospital por Neji e tinha aparecido na casa de Sasuke para visitá-lo e ver como ele estava, mas não conseguiu tocar no assunto das audições. Ele, com certeza, estava mal, não tanto quanto ela, mas, mesmo assim, não tinha direito de diminuir a dor dele. Era só que… ele teria outra chance, Sakura também, eles podiam sempre fazer as audições sabendo que estavam mesmo concorrendo ao papel. Não era como ela… ela entrava no palco com a certeza de que, não importava sua nota, teria arrancado da pontuação total um ponto por cada quilo a mais que possuía.

Colocá-la como substituta… Era uma jogada de mestre. Mas tudo bem, não torceria para que algo ruim acontecesse com a prima bailarina, longe disso, não precisava contar com o fracasso alheio para alcançar o seu próprio sucesso. Mas, se a vida insistia em lhe fechar uma porta, então ela mesma iria destruir as paredes ao redor para criar novas.

Sorriu para Konohamaru ao sentar-se ao lado dele em um dos pufes. Gostava do garoto, ele tinha mais ou menos sua idade, era animado demais, o que tornava fácil interagir com ele e dar umas boas risadas. Ah! Claro, sem contar que ele não disfarçava nada nada o quanto gostava de Hanabi. Chegava a ser fofo. Tinha passado já boa parte do dia ouvindo-o falar de como havia sido jogar a madrugada inteira com Hanabi antes da irmã mais velha dela invadir o quarto e ameaçar desligar a internet. Os olhos dele brilhavam, tão apaixonado que ela se perguntava mesmo se Hanabi não tinha percebido ainda.

— Você não estava com a Hanabi? — ele perguntou, e ela riu e forçou uma expressão ofendida.

— Oi para você também. Eu estou bem, meu dia tá meio chato e espero que melhore, mas, sim, estou bem, obrigada por perguntar.

Konohamaru riu um pouco sem graça e murmurou um “desculpe” fazendo Ino rir.

— Nós almoçamos juntas sim, daqui a pouco ela aparece — explicou, e o sorriso de Konohamaru diminuiu ao final da frase. — O que foi? Aconteceu alguma coisa?

— Onde ela está?

— Ela disse que já vinha, acabei de deixar ela no banheiro da ala B. Por quê?

Konohamaru se levantou, deixou a câmera e o notebook sobre o puff e sorriu nervoso para Ino.

— Pode cuidar para mim? — perguntou, mas não esperou uma resposta antes de começar a se afastar. — Já volto, não tira o olho das minhas coisas.

Ino concordou sem entender, ajeitou a câmera e o notebook no puff para que não caíssem e então discou o número de Sasuke. Pelo horário, ele já deveria ter saído da faculdade, mas não atendeu a ligação. Conferiu as mensagens e quis se bater por não o ter feito antes quando achou a mensagem de Neji: “Madara quer tirar Sasuke da Companhia. Chances altas.”

— Puta merda… atende, Sasuke, atende…

— Não é muito educado uma modelo ficar falando palavrão no ambiente de trabalho, não acha?

Ino arqueou a sobrancelha. Um homem de estatura mediana se sentava no puff ao lado, os cabelos ruivos lembravam o de Gaara, mas tinham menos vida e eram um pouco mais curtos, a voz era monótona, como se ele tivesse preguiça de falar o que queria e, ainda assim, quisesse dizer. Sasori. Se fosse nas semanas anteriores, quando ela estava mal pelos boatos, pelo deboche, pelos comentários maldosos sobre si, ela apenas se levantaria e evitaria o fotógrafo. Ele era tóxico, dava para perceber só pelo sorriso frio e pequeno que ostentava ao falar. Contudo, além de ter que vigiar os pertences de Konohamaru, ela já não tinha paciência para tolerar ou ignorar certas provocações.

— Que pena, não é? — respondeu de volta e concentrou-se no celular enquanto digitava uma mensagem para Sasuke cobrando-lhe notícias.

— Ansiosa para a nova campanha?

— Claro. Por que não estaria?

— Não sei, algumas modelos se acostumam demais à rotina e então os novos trabalhos perdem um pouco do entusiasmo.

— Não é o meu caso por enquanto.

— Ah, sim, entendo. Deve estar sendo bom poder participar das campanhas com modelos mais antigas e famosas, não é?

Ino desviou o olhar do telefone por um momento e encarou Sasori tentando descobrir onde ele queria chegar com aquela conversa.

— Sim, não esperava trabalhar com Hanabi e tanta gente talentosa logo no começo — falou simplória, e o sorriso de Sasori cresceu, como se esperasse exatamente por aquela resposta.

— Como não? Não foi por isso que se tornou amiga dela ou se aproximou tanto de Gaara? Eles são os queridinhos da companhia… Vai me dizer que foi coincidência você se tornar tão íntima justo dos dois?

Ino sorriu, e Sasori arqueou a sobrancelha curioso pelo motivo pelo qual Ino parecia se divertir com o que ele falava. Ela descruzou as pernas no puff e se inclinou para frente na direção dele, o cabelo preso em um rabo de cavalo alto caía pelo ombro direito, os olhos azuis claros brilhavam em um tom de aviso e diversão, e a voz saiu debochada o suficiente para que Sasori ajeitasse a postura ao ouvi-la:

— Esse é o comentário da vez? Estão perdendo a criatividade já. Querem falar sobre com quem eu fodo ou como consegui chegar aqui? À vontade. O ballet já me treinou muito bem para lidar com gente que vai morrer envenenada com o veneno da própria inveja. Agora, se já acabou, eu estou ocupada e a última coisa que quero é desperdiçar meu tempo com gente escrota que nem você.

Ele riu e insinuou rebater o que ela havia dito, mas Ino o viu parar abruptamente. Seguiu o olhar dele e reparou que Konan os observava com visível atenção.

— Vou parar de te atrapalhar então. — Ele se levantou. — Estou ansioso para os ensaios. Vai ser fácil ver nele o que de fato te colocou numa campanha com modelos tão mais… adequadas.

Ino revirou os olhos e voltou a se apoiar no puff. O celular vibrou, chamando-lhe atenção. Shikamaru perguntava se o estudo ainda estava de pé, e ela suspirou ao confirmar. Ainda tinha o vestibular com que se preocupar… Aquele ano, definitivamente, estaria longe de ser o seu preferido. Mas ela daria a volta por cima, não se deixaria abater, não mais.

Notas finais
Gostaram? Espero que sim ♥ Já aviso que no próximo capítulo teremos um piano com participação... especial hohoho