Não pare a Música

24 Capítulo 24 - Montanha russa


Shikamaru conferiu o relógio pela quinta vez. Se bem conhecia Sasuke, ele chegaria com uma hora de antecedência dependendo do que o havia desestabilizado. Se chegasse no horário, não era tão grave; se chegasse atrasado, provavelmente já havia encontrado um meio de solucionar o problema e, ainda assim, queria sua opinião, mas, se chegasse antes, no meio daquela chuva, Shikamaru ficaria preocupado de fato.

Ainda eram três e meia, conferiu os vinhos que possuía e as taças, Sasuke com certeza beberia, e isso lhe lembrou de checar o quarto de hóspedes. Seria melhor já deixar tudo pronto, pela falta de resposta às mensagens que enviara depois ao amigo, estava com péssimos pressentimentos. O que se comprovou quando a campainha tocou assim que fechou a porta do quarto recém arrumado.

15h48min. Aquilo era preocupante.

Caminhou à porta já se preparando no caminho, mas talvez tenha se preparado de menos porque a imagem de Sasuke ensopado e sem reação lhe tomou bons dois minutos antes de reagir.

— Tsc.. problemático... — Puxou-o para dentro e franziu o cenho ao notar zero resistência.

— Não tinha onde estacionar e eu esqueci o guarda-chuva — ele explicou, indiferente.

— Tá, vem, você precisa trocar essas roupas.

Sasuke não respondeu, jogou as chaves e o celular sobre o sofá de Shikamaru e não o seguiu. Parado no meio da sala, ficou a observar o outro correr ao quarto e voltar com duas toalhas.

— Aqui. Vou deixar umas roupas minhas que sirvam em você no quarto. Se aqueça primeiro e então conversamos.

A falta de resposta era alarmante. Shikamaru tirou o maço de cigarros do bolso e acendeu um com pressa após deixar Sasuke no banheiro e ouvi-lo trancar a porta. Sentou-se na poltrona próxima à janela e fumou em silêncio enquanto tentava buscar na mente alguma vez que já havia visto Sasuke em tal inércia. O som da música clássica o fez encarar o celular no outro sofá, e ele se levantou para pegá-lo. Não atenderia, tinha um senso de privacidade muito parecido com o de Sasuke e sabia que o outro odiaria que o fizesse; mas, considerando o estado do outro, não se culpou nada por verificar o nome de quem enviava as mensagens na tela bloqueada.

Era o pianista, mas isso não lhe dizia muita coisa. Deixou o celular no mesmo lugar e voltou a tragar o cigarro enquanto andava pelo cômodo. Ignorou o som da porta do banheiro sendo aberta e esperou pacientemente até que Sasuke entrasse no quarto para se vestir. Seria melhor guardar o vinho ou Sasuke se embebedaria mais que o normal. Chegou a segurar a garrafa para retirá-la da mesa de centro, mas parou, estático ao ver Sasuke.

Ele estava no corredor, bem na entrada da sala, o ombro e a cabeça apoiados na parede numa postura de desistência, mas não era isso que chamava sua atenção a ponto de quase derrubar a garrafa… Sasuke estava com os olhos sem foco, baixos, o rosto pálido, nas mãos ele segurava a camiseta de manga comprida que lhe havia separado, deixando o tronco à mostra. O corpo estava repleto de marcas, pescoço, tórax, ombros, e Shikamaru não duvidava que as costas devessem possuir mais dos roxos e vermelhos que lhe coloriam a pele como tinta em uma tela em branco.

A camiseta caiu no chão, Sasuke engoliu em seco, o olhar ainda perdido num ponto qualquer enquanto erguia as mãos aos ombros e ao pescoço. Shikamaru viu o corpo dele escorregar pela parede até o chão, os braços abraçarem o corpo de forma protetora, apagou o cigarro no cinzeiro da mesa de centro antes de ir até ele, abaixando-se com cuidado. Hesitou em tocá-lo. Aquela não era uma cena comum, em nenhum sentido. Sasuke nunca tinha aparecido tão abalado e havia as marcas, marcas que ele, em todo o tempo que tinha namorado Sasuke, nunca conseguira fazer, marcas que Sasuke abominava e não permitia…

Sentou-se de frente para ele, mas ao lado, e pousou uma mão sobre a de Sasuke enquanto a outra ia ao cabelo dele em um carinho leve. Estava com medo...

— Sasuke — chamou e optou por ser direto ao perguntar o que mais lhe angustiava ao ver as marcas e o modo como Sasuke abraçava o próprio corpo. — ele te forçou?

Sasuke ergueu os olhos, e, por um momento, Shikamaru notou o brilho de sempre voltar a eles, como se Sasuke tentasse afastar aquela inércia para lhe responder. E foi somente quando Sasuke negou com a cabeça e com uma expressão confusa, que Shikamaru soltou o ar que não tinha percebido que prendia.

— Eu deixei — ele sussurrou, tão baixo que Shikamaru só teve certeza que ouviu quando ele completou. — Eu quis…

Shikamaru assentiu, aliviado, mas ainda sem entender. As marcas não eram mesmo agressivas, não havia um sinal claro de violência, mas Sasuke estava paralisado, os dedos contornando inconscientemente as marcas mais escuras na pele.

— Vem, vamos sair desse chão, está frio — chamou.

Ergueu-se e ofereceu a mão para Sasuke, que não recusou. Pegou a blusa no chão e encarou confuso as marcas nas costas de Sasuke. Se fosse outra pessoa, riria, faria piadas, perguntaria como tinha sido a noite, mas era Sasuke, e Sasuke repudiava sexo. Talvez… fosse isso que ele tinha querido dizer com “intenso” ao se referir a Naruto… talvez o pianista o estivesse fazendo querer experimentar aquele prazer e, se conhecia bem Sasuke, como de fato conhecia, ele deveria estar perdido por isso.

Sasuke odiava mudanças. Acordava sempre no mesmo horário, fazendo as mesmas coisas, seguindo a mesma rotina, interagindo com as pessoas sob as mesmas regras. Se Naruto o estava mesmo tirando da mesmice, Sasuke deveria estar entrando em pânico, como se o mundo lhe escapasse das mãos.

Sentou-se no sofá ao lado dele, sem se surpreender quando ele deitou a cabeça em seu colo e encarou o teto indiferente. Abriu a garrafa de vinho e ignorou as taças, bebeu um longo gole e ofereceu a garrafa a Sasuke, vendo-o fazer o mesmo antes de devolver-lhe a bebida.

— O que aconteceu, Sasuke?

— Dez minutos… me dá dez minutos? — ele perguntou, mas não soou como um pedido, era mais como se Sasuke fizesse um apelo que ele sabia que não seria questionado.

— Se me contar depois o que aconteceu, sim — Shikamaru suspirou, e acendeu um segundo cigarro sem Sasuke parecer se importar.

— Feito…

Ele se deitou de lado, com o rosto contra seu abdômen e os braços o envolvendo, e Shikamaru deixou-se estar naquele abraço torto, soltando a fumaça devagar enquanto conseguia sentir as mãos de Sasuke tremerem e os ombros chacoalharem. Acabou levando a mão ao cabelo dele, acariciando as mechas escuras e ficando em silêncio enquanto sabia que ele escondia o choro mudo contra sua blusa. Teimoso e orgulhoso, mas tudo bem, já era muito que ele estivesse ali para pedir ajuda seja lá o que tinha acontecido.

Foram mais que dez minutos, e Sasuke agradeceu por Shikamaru sempre parecer lhe entender e não o apressar. Com os olhos fechados e o rosto escondido, tentou segurar novamente as rédeas da própria mente, mas era como uma carruagem desgovernada que já tinha saído da rota há muito tempo.

O dia com Naruto havia sido maravilhoso, tinham chegado à cidade vizinha em menos tempo que o esperado, comido tanta coisa que era difícil medir e lembrar os nomes, tinha se divertido com algo tão simples que não conseguia recordar a última vez que se sentira tão bem. Só que tudo isso fora embora de repente, como se o sangue fluísse para fora do seu corpo de uma vez quando escureceu. Já estava tarde e iriam pegar a estrada, Naruto girava a chave de Sasuke entre os dedos e ria de uma piada qualquer, aproveitando-se da altura para deixar a chave no alto e ver Sasuke se esforçar para recuperá-la. Em uma dessas tentativas, Naruto o tinha segurado pela cintura, prensando-o contra o carro e roubando-lhe um beijo, e fora nessa hora que Sasuke tinha paralisado. A lembrança do que tinham feito na manhã daquele dia o abatera com força, e os músculos travaram em defesa, as pernas quiseram o levar para longe, e havia sido como engolir gelo, sentindo-o se espalhar por todo o estômago e o fazendo se afastar pálido e engolindo a súbita vontade de vomitar.

Naruto arregalara os olhos e o amparara, tinha aberto o carro e o deixara sentado no banco da frente antes de correr para lhe comprar água. Havia aproveitado o tempo que ele estava longe para respirar, colocar a mente no lugar certo e acalmar o corpo. As lembranças o dividiam, deixavam-no feliz ao mesmo tempo que nauseado, e tivera de disfarçar e colocar a culpa na comida quando Naruto havia se abaixado à sua frente com a água.

Os olhos dele brilhavam pela iluminação da rua, Naruto era do tipo de pessoa que se podia ler fácil pelos olhos. O azul transmitia preocupação, e tinha se sentido ainda pior por ouvir Naruto resmungar sobre a comida, como se ela fosse a culpada por estragar o dia e não ele. Pedira para ir para casa, vira a decepção no olhar do outro, mas Naruto logo sorrira compreensivo, acariciando seu rosto e beijando-lhe o topo da cabeça para então concordar.

— Eu dirijo, prometo não arranhar seu carro — ele tinha dito com entusiasmo.

— É do meu tio, vai ter que se acertar com ele se bater — respondera com um sorriso de canto, na tentativa de amenizar o clima.

— Dobro de cuidado então. Imagina só, chegar na sua casa com você mal e o carro batido! Qual dos seus tios me mataria primeiro?

Sasuke ria.

— Mito. Com certeza, Mito. Madara seria quem ficaria mais puto, mas ele gosta de torturar antes, sabe? Então Mito seria mais provável de te matar num primeiro momento.

Naruto havia rido, e Sasuke, reparado pela milésima vez no dia como ele ficava bonito quando o fazia. Ao chegaram na sua casa, engolira em seco quando Madara abriu a porta, a expressão séria e irritada enquanto analisava a ele e a Naruto logo atrás. Lembrara-se de cara do celular, o mesmo celular que não tinha checado desde a noite anterior…

— Entra — Madara havia ditado, e Sasuke quisera rir enquanto Naruto apertava sua cintura de forma protetora.

— Oi, tio — tinha respondido com um suspiro. — Naruto, esse é Madara.

— É, eu supus que fosse… Ele bate bem com a sua descrição — Naruto comentara e estendera a mão para Madara. — Naruto Uzumaki.

— Me desculpe a falta de educação, Naruto — Madara dizia, o tom frio enquanto ainda olhava para Sasuke e apertava a mão de Naruto. — Mas alguém aqui se esqueceu de que ainda precisa avisar quando não for voltar para casa ou, no mínimo, atender o telefone depois quando estivermos a ponto de chamar a polícia. Agora, façam o favor de entrar, vão ficar parados na porta até quando?

Sasuke tinha entrado e sinalizado com a cabeça para que Naruto fizesse o mesmo enquanto esperavam o táxi. Naruto deixava a chave do carro sobre a mesa de centro enquanto via Madara cruzar os braços ao atender o celular.

— Sim, ele já está aqui, Mito. Agradeça Neji pela ajuda. Sim, eu vou falar com ele.

— Eu sumi por um dia, não por uma semana. — Sasuke revirava os olhos.

— Você sempre avisa para onde vai ou quando não volta para casa — Madara rebatera. — Você foi para a faculdade ontem de manhã, não voltou para casa nem nos atendeu e hoje seu celular só dava fora de área. E são onze horas, Sasuke! Você tinha um compromisso hoje com Hashirama, esqueceu? Você tem noção do pânico em que ele ficou quando você não apareceu naquela maldita biblioteca? — Madara bufara, e Sasuke tinha fechado os olhos ao massagear as têmporas. A biblioteca… para pegar os livros da sua prova… é claro que estava se esquecendo de algo ao aceitar sair com Naruto. — Eu não fico no seu pé, você sabe disso, mas o mínimo que peço é que me avise porque, ainda que eu saiba que você pode se virar, Hashirama não vai parar de me perguntar se você mandou notícias e Mito não vai dormir até que eu diga que sim! Ainda mais quando nem Ino, nem Neji, nem Shikamaru sabiam onde você estava.

— Eu me esqueci de ver o celular ontem e hoje não tinha sinal na feira em que fomos — Sasuke justificava e via Madara estreitar o olhar irritado. — Não vai acontecer de novo.

— É bom mesmo, moleque.

Sasuke havia bagunçado o cabelo enquanto Madara saía da sala, e Naruto soltara o ar audivelmente ao seu lado.

— Uau… ele é uma versão mais assustadora sua quando irritado, Teme.

Sasuke tinha sorrido e conferido o celular. O táxi de Naruto estava chegando e por isso se levantara para acompanhá-lo até a porta.

— Toma algo pro estômago, ok? E tenta descansar, sem treinos amanhã às cinco horas pelo amor de Deus.

— Vou tentar. — Sorrira de leve, e Naruto tinha lhe segurado o rosto com cuidado antes de beijá-lo.

— Até terça nas aulas — ele sussurrara contra sua boca.

— Até terça — tinha respondido e se sentira ainda pior por deixar o outro ir embora daquele jeito.

Havia respirado fundo e fechado a porta, virara-se e encontrara Madara encostado na parede, de braços cruzados e impaciente.

— Você está com a cara de alguém que vai vomitar o estômago todo. Bebeu muito?

— Comi demais.

— Aham… — Madara concordava, descrente. — Tem remédio no armário e café quente na cafeteira. Melhor se recuperar antes do sermão de Mito e de Hashirama.

— Valeu…

— Ah, e, Sasuke… — Vira o tio sorrir de canto ao pegar a chave do carro na mesa. — Nada de carro na próxima semana. Veja se seu amigo bonito não te dá uma carona, pelo jeito que te olhou na porta, aposto que ele não se importaria. — Ouvira-o rir debochado e revirara os olhos enquanto ele se afastava.

Depois, a insônia voltara, e era melhor ficar acordado do que dormir e permitir que a mente viajasse livre entre as memórias. Às três e meia, já tinha iniciado os treinos, sem se importar com o joelho ou qualquer outra coisa. Havia evitado tirar a camisa, não precisava que ninguém o lembrasse das marcas, já sabia tamanho, cor, lugar, tudo de cor, e queria esquecê-las, queria que pudessem desaparecer na mesma velocidade com que tinham sido feitas. Tinha diminuído a música, sem vontade de encontrar com nenhum dos tios pela manhã ou ter que ouvir de novo sobre sua saúde, sobre o dia anterior, sobre nada. Queria ficar só, abafar os pensamentos, vomitar de vez o bolo entalado em sua garganta que surgia cada vez que se recordava de como Naruto tinha o tocado. E, tinha sido no meio desse caos de pensamentos, que correra até Shikamaru.

— Sasuke — ele chamou, a mão ainda em seu cabelo e o cheiro do cigarro forte no cômodo. — Você quer falar?

Não, não queria, a única coisa que desejava era segurança, era poder desabar na frente de alguém que não lhe faria perguntas e que apenas garantiria que tudo ficaria bem. Ino tinha problemas demais, Neji poderia sim servir, mas não… tinha um detalhe que tirava Neji das opções, o mesmo detalhe que tirava Naruto: eles não ficariam quietos, eram do tipo de pessoas que não conseguiriam ouvir uma verdade e conviver em silêncio com ela, desejariam agir, fazer algo a respeito, e não… definitivamente, não queria isso.

— Sabe… — Shikamaru falou, o tom intrigado. — eu sei que você vai mentir, é um padrão com que já me acostumei… Você precisa de ajuda, chega a gritar por socorro e então parece com medo de aceitar quando ela aparece. Aí você mente e recua de novo. E eu sei que você disse que tem coisas que prefere não me contar, mas viver com medo não é viver, Sasuke… Não sei o que aconteceu, e você pode escolher não me contar de novo, mas, se sozinho você já viu que não dá conta, por que não tentar aceitar pelo menos um pouco da minha ajuda dessa vez?

— Porque seria problemático — respondeu, usando a palavra que tanto o outro usava para classificar as situações difíceis.

— Quanto?

— Muito…

Shikamaru soltou a fumaça e pareceu pensar.

— Então, em vez de me contar tudo, pode me dizer pelo menos o que aconteceu com Naruto?

— Você está vendo parte do que aconteceu.

— E, por “parte”, devo supor que você deixou que as coisas fossem um pouco além disso?

Sasuke engoliu em seco e apenas concordou com a cabeça.

— Muito ou pouco além?

— Pouco.

— Se foi a velocidade com que as coisas avançaram que te assustou, você pode conversar com ele para irem mais devagar — sugeriu, usando a lógica, e ouviu a risada sarcástica de Sasuke.

— Você não en-

— Ou você que na hora não quer ele pare? — Shikamaru o interrompeu, e Sasuke se calou, mas o silêncio foi o suficiente para que Shikamaru compreendesse a resposta para aquela questão. — Você se sente mal dessa forma depois? Ou na hora, como acontecia comigo?

Sasuke se sentou, e Shikamaru o viu enterrar a cabeça nas mãos.

— Sasuke.

— Não quero falar disso.

— Se você realmente não quisesse, não teria vindo aqui. Você veio aqui porque sabe que posso te ajudar, mostrou as marcas porque sabe que entendo que significam algo, e ainda está aqui comigo porque precisa colocar isso tudo para fora de alguma forma.

— Você devia ser psicólogo — Sasuke debochou, e Shikamaru sorriu de canto.

— Não que eu não tenha cogitado, mas prefiro servir de psicólogo só para as pessoas com quem me importo.

— Lembra quando disse que era “intenso”?

— Lembro. É por isso que na hora não quer que pare — comentou, e Sasuke assentiu sem o olhar de volta. — O que você sente?

— Na hora?

— Sim.

— Como se estivesse no topo de uma montanha russa, não querendo que ela desça de jeito nenhum e sem ter como sair do carrinho, mas querendo saber como é o fim dos trilhos. E, a cada trecho que ela avança, todos esses sentimentos ficam mais fortes, e eu já não tenho cabeça ou disposição para conseguir lidar com isso. E eu só quero que isso pare, que tudo pare, que tudo desapareça, que isso tudo suma de vez, todos os pensamentos, tudo! Mas é impossível… e eu…

— E você não aguenta mais estar nessa montanha russa — Shikamaru completou, e o suspiro aliviado de Sasuke foi tão grande que Shikamaru lhe ofereceu de bom grado a garrafa de vinho mais uma vez. — Mas, Sasuke, por que você está nessa montanha russa para começar?

— O quê? — Sasuke virou-se, confuso, ao lhe devolver a garrafa.

— Como entrou nessa montanha russa?

— Não sei. Eu só sinto…

— Medo?

— Não exatamente…

— Ansiedade?

— Não, é... complicado. Já chega — pediu, e Shikamaru acendeu outro cigarro, estendendo o braço em silêncio para que Sasuke voltasse a se deitar. — Não, eu preciso voltar pra casa.

— Vem logo e larga esse orgulho. Já te vi chorando e acabado depois do banho, não pode piorar. Depois você finge que isso não aconteceu e que seu orgulho está intacto. Relaxa, só por hoje. Vai precisar estar bem para terça, não?

Sasuke bebeu mais do vinho e deixou Shikamaru puxá-lo para se deitar de novo e não reclamou da mão de volta ao seu cabelo.

— Terça saem os resultados também.

— Das audições?

— Sim.

— Vai conseguir estudar para a prova?

— Não tenho muita escolha. — Deu de ombros.

— Espero que consiga o papel. Os ensaios começam logo em seguida?

— Sim, e aí o inferno começa…

Shikamaru olhou através da janela, tragou o cigarro e jogou a cabeça para trás ao soltar a fumaça. Espiou Sasuke pelo canto de olho e balançou a cabeça em negação ao vê-lo com os olhos fechados, não ficando nem um pouco surpreso quando o percebeu adormecer. Pressionou a raiz do nariz e voltou a fumar em silêncio enquanto observava o celular de Sasuke ao longe. Tinha achado que Naruto podia ser algo bom para o outro por tirá-lo da zona de conforto, mas agora a imagem de Sasuke ao sair do banho, com o olhar perdido enquanto tocava as marcas e abraçava o próprio corpo, fazia-o de certa forma começar a duvidar disso…

* * *

Naruto acordou tarde naquele domingo, sem se importar com despertador ou com a academia que perderia por meio-dia ser o último horário disponível. Tinha dormido com a roupa do corpo mesmo, o sono o fazendo apenas fechar os olhos e nem ao menos brigar quando Kurama subiu em sua cama como se ele não a pudesse ver sobre o edredom.

O sono tinha sido pesado, e ele só acordara mesmo porque Hinata havia telefonado insistentemente. Atendeu enquanto se sentava na cama e tentava segurar Kurama que vinha lhe lamber o rosto e latir e não precisou de mais do que um minuto no telefone para que desligasse e não se importasse nem em trocar a roupa antes de sair correndo de casa.

Sua mãe havia passado mal pela manhã, resultado de uma discussão exaltada com a família que a tinha visitado no começo do fim de semana. Que ironia… havia comentado com Sasuke justamente sobre isso no sábado, e agora estava ali, na recepção do hospital, identificando-se com o cabelo despenteado e as roupas amassadas.

Havia falhado em convencer a mãe a fazer os exames, mas não… não tinha mais como… O coração estava tão amedrontado que ele falava com a recepcionista enquanto olhava ao redor buscando pelo pai ou por Hinata, derrubando os documentos no balcão e quase deixando o celular cair ao atendê-lo.

— Hinata! To aqui, já cheguei — respondeu de imediato e pegou os documentos que lhe eram devolvidos. — Onde? Que andar?

Vem pro décimo. Eu te explico quando chegar aqui, ela está de repouso.

Naruto concordou com pressa e entrou no primeiro elevador que viu disponível. Pressionou as mãos contra o rosto e respirou fundo, ansioso, mas tentando se acalmar por saber que isso deixaria a mãe ainda mais nervosa. Correu pelo corredor assim que o elevador voltou a abrir as portas e acelerou quando identificou Hinata entre outros médicos e enfermeiros.

— Hinata! Hinata!

Ela o olhou e sinalizou para os demais, vestia um jaleco branco com o nome e o símbolo do hospital bordados, o estetoscópio guardado em um dos bolsos e o cabelo devidamente preso no alto da cabeça. Os óculos de grau estavam no rosto porque ela odiava usar as lentes ali pelo risco de contaminação, e Naruto conseguia ver claramente que ela estava sem dormir.

— Por aqui — ela pediu, o tom de voz amável como sempre enquanto a mão o tocava nas costas. — Ela está bem, mas aconteceu algo que eu já tinha prevista e já a tinha avisado. Venha, sente-se.

Naruto a olhou suplicante, e ela sabia sim que ele desejava correr para encontrar logo a mãe, mas Naruto a obedeceu resignado quando Hinata insistiu.

— Sem rodeios, por favor — ele pediu, sério, e Hinata concordou, destravou o celular e mostrou a ele a imagem de um exame.

— Kushina sofreu um infarto.

— Ela o quê? — Naruto arregalou os olhos, e Hinata o segurou pelo ombro com rapidez para que ele não se levantasse. — Hina…

— Ela sofreu um infarto e veio para o hospital a tempo, me ouça — enfatizou. — Tá vendo aqui esse exame? Essas são as enzimas que dão alteradas quando você sofre um infarto. E elas deram positivas no teste que fizemos. Agora, ela está bem e já sem dor e medicada, mas a chance de ela ter outro em vinte e quatro horas é muito alta, a maioria dos pacientes que reinfartam logo em seguida não sobrevivem, Naruto. A recomendação é que fiquem pelo menos essas horas no hospital, onde vamos monitorar e, se preciso, socorrê-los a tempo caso aconteça.

— Ela vai ficar — ele foi enfático. — Não importa o que ela disse, Hinata, ela vai ficar, não se preocupe.

— Preciso que a convença… Ela quase saiu daqui para não te preocupar.

— Ela vai ficar. Mas o que isso quer dizer? Ela infartou, mas e agora? Ela tá bem?

— Ela vai precisar fazer um teste de esforço em breve, para sabermos quando do coração foi afetado. Depois de avaliarmos, posso dar o novo prognóstico, voltar a sugerir a cirurgia.

Naruto concordou, e Hinata segurou a mão dele entre as suas em silêncio. Ele tentava disfarçar os olhos úmidos, tentava fingir que estava tudo sob controle e a ouvindo atentamente, mas ela tinha experiência, era médica há alguns anos e sabia que teria que repetir tudo o que havia dito depois que o coração de Naruto se acalmasse.

Compartilhava do medo dele, Kushina havia sido uma bênção na sua vida, uma pessoa maravilhosa nos anos de relacionamento com Naruto. Havia sido a mãe dele que a ajudara com Hanabi quando precisava ficar no plantão do hospital, tinha sido Kushina a ajudá-la com a escola da irmã mais nova, ajudando-a a orientar Hanabi corretamente sobre vestibular, a importância de ela não focar somente na carreira de modelo. Kushina tinha sido uma mãe para elas, sempre disponível, sempre amorosa, sempre com seus conselhos e broncas, e Hinata a amava, de todo coração.

Quando Kushina deu entrada na emergência, estava terminando uma cirurgia, e só ficara sabendo porque uma enfermeira que a conhecia reconheceu o sobrenome Uzumaki no prontuário de entrada e foi lhe comentar. Saíra da sala de descanso às pressas, colocando o jaleco enquanto corria. Kushina já estava medicada, e o residente estava rodando o eletrocardiograma quando tinha chegado. Havia sido rude com o garoto, mas o susto a fez perder um pouco da doçura. Assumira o exame e cobrara dele que lhe passasse o caso, por completo e detalhado. Pobre garoto… tinha que se desculpar mais tarde.

Minato estava ali, esperando, e Hinata conferira duas vezes as medicações de Kushina e como ela estava antes de ir conversar com ele. Naruto não gostaria nada de saber o motivo da mãe estar ali, e ela tinha medo de que ele explodisse no hospital mesmo, podendo agravar o estado de Kushina. Ainda mais, porque os motivos estavam ali… apenas o aguardando…

Levou-o ao quarto onde Kushina estava, na esperança de que sua presença como médica repelisse os parentes de Naruto. Ignorou os olhares, e Naruto não precisou fazer o mesmo, sua atenção estava tão somente na mãe que ele passou pelos demais como se não existissem. Hinata abriu a porta para que ele entrasse e a fechou em seguida, virando-se para os demais do lado de fora.

— Ela precisa de descanso e não sairá daqui até amanhã provavelmente. Creio que o mais sensato a se fazer agora é voltar para casa — falou, gentil, mas em um tom que transmitia seriedade.

Ouviu o riso debochado e viu Sarutobi, o avô de Naruto, levantar-se cercado pelos irmãos de Minato.

— Parece que não somos bem-vindos aqui afinal. Pensei que só podia um por vez no quarto, doutora.

— Como filho, ele tem prioridade para as visitas. Um quarto lotado pode ser estressante durante a recuperação de um paciente.

— É claro que sim — ele disse com ironia.

Hinata manteve a postura em frente à porta enquanto os via ir embora. Se pudesse, não deixaria que nenhum deles voltasse a se aproximar de Naruto nem atormentar Kushina, mas não cabia a ela decidir isso. Por hora, pelo menos naquele dia, tinha conseguido afastar aquela corja de Naruto. Uma coisa a menos para ele se preocupar naquele dia, já que a conversa com Kushina não seria fácil.

E, de fato, não estava sendo… Se tinha uma coisa que Kushina e Naruto tinham em comum, era a teimosia. Minato tentava amenizar a discussão, mas era difícil ter voz quando Naruto encarava Kushina quase que com mais determinação que ela própria. Contudo, ele já sabia o resultado daquela discussão, Kushina podia ser teimosa, mas com toda certeza ela também tinha visto o pânico nos olhos do filho ao entrar no quarto e sentido o desespero com que ele mais afirmava do que pedia que ela permanecesse no hospital e fizesse os exames.

No fim, ela apenas cruzou os braços resignada e concordou em ficar. Minato deixou-a com o filho e avisou que voltaria em algumas horas. Agradeceu Hinata na saída do hospital com o sorriso gentil de sempre e entrou no carro já sem ele. Tinha certos problemas familiares a resolver.

Notas finais
Eu estou amando as teorias de vocês ahahahaha Espero que estejam gostando ;) Reviews? Recomendações? Mais teorias? Beijoss