Não me deixe ir

11 Capítulo 11 - Me deixe ir


Notas iniciais
TCHARAM! Vamos continuar com capítulos tensos? Vamos sim! Porque a tia Yume é má, mas no final ela melhora ;) Espero q curtam a leitura assim como eu adorei escrever esse capítulo =D Kissus!!! OBS: A foto ao final do capítulo veio a pedido de leitores que queria saber como eram os personagens q eu inventei pra fic! E tb como eu imagino que seja a aparência dos personagens de supernatural nessa história ;)

Não me deixe ir

11 – Me deixe ir

Castiel arquejou ainda que estivesse sem oxigênio. A garra afiada da entidade atravessou o meio do peito, indo acima do diafragma até a parte de trás dos músculos das costas, quase perfurando o outro lado.

Aquela não era a oferenda escolhida, e a criatura chiou enraivecida por ter sido enganada. Tânia assumiu um semblante sério de ódio gritando frente a sua frustração. Rick fez o mesmo, praguejando e se culpando por não ter prestado atenção nos movimentos de Cas. Louis era o único membro da sinistra família chorando, querendo correr até o ex-anjo e o ajudar de alguma forma, porém se o fizesse acabaria morrendo nas mãos da besta da colheita; da Grandiosa, como sua mãe a chamava.

Sam parou no mesmo instante de cortar as cordas, chamando pelo amigo em vão, vendo Castiel ainda de pé, erguido apenas pela força sobre-humana da entidade. Seus pés quase saíam do chão, flutuando num espaço de poucos centímetros. O moreno levou as duas mãos à altura do pulso da criatura a segurando firme no lugar, procurando por sustento, uma maneira de permanecer desperto.

AHSashhhhhhh!!

O som fora indecifrável, mas ela continuou o proferindo, removendo o fino dedo da ferida de Castiel começando a debater a cabeça desorientada.

– CAS!

Dean gritou amparando sua queda ao segurar seus ombros. Os dois foram ao chão, o moreno ficando pálido sobre o colo do outro e o caçador tentava num visível desespero impedir que mais sangue escapasse do buraco no peito de Castiel.

– Dean...

Balbuciou, como que tentando o chamar à realidade, pois o loiro ficou estático, sem saber o que fazer.

– Cala a boca, seu idiota! — retrucou pressionando a ferida.

– Estúpidos! — Tânia berrou pondo as mãos na cabeça copiando os mesmos movimentos da entidade — Vocês dois! Malditos!

Rick apontou a espingarda na direção de Dean engatilhando a bala:

– Você vai pagar por isso seu caçador de merda!

– NÂO RICK! O ritual!

Sua esposa o avocava do transe. De nada adiantaria matarem eles. Antes precisavam concluir a oferenda. Rick sabia disso, e foi capaz de retrair os dedos antes de puxar o gatilho:

– Estamos sem tempo! – exclamou a Tânia – Vai ter que ser ele!

Apontava para Castiel, mais precisamente ao buraco aberto em seu peito – a marca da entidade. Rick aquiesceu, afinal já passava das onze da noite. Com a madrugada e o fim do dia sem uma oferenda, teriam desperdiçado o ritual inteiro.

Segurando a adaga firmemente Tânia parou de pé na frente de Dean. A mulher apertava a palma da mão esquerda no meio da testa enquanto o cabo da arma chacoalhava na outra. Começou a controlar sua voz a deixando no mesmo tom calmo de antes, quando dominava a entidade:

– Eu sei que prometi ao meu filho... – disse por entre os dentes – Mas agora que ele se interpôs no caminho da oferenda...

– Se tocar nele eu arranco seu braço à dentadas. – Dean cortou sua fala trazendo o corpo de Castiel num aperto, o envolvendo num casulo protetor.

O moreno reclamou do desconforto, mas manteve os dedos enroscados na blusa azul de Dean a manchando de vermelho.

– Não tenho culpa, foi ele quem decidiu bancar o herói. Agora deve arcar com as consequências.

Dean não o soltaria, Tânia sabia disso. Teria de mata-lo primeiro, e o trabalho extra a fez bufar enraivecida.

– Rick...

Chamou-o e o homem preparou o tiro na direção da cabeça de Dean.

O disparo veio.

E ao invés de atingir seu alvo, a bala estilhaçou no teto, pois o senhor fora empurrado por Louis – no seu último acesso de coragem. Socando o filho, Rick tentou se erguer para cumprir as ordens de Tânia, de sua querida esposa. Chutou as costelas de Louis o fazendo se afastar dele, e o garoto engatinhou na direção oposta das agressões de seu pai. Rastejando, ele entrou numa posição fetal ao cuspir um bocado de sangue pela boca torta – o maxilar estava quebrado, fato.

Num jubilo musical, Tânia chamou a criatura de volta à realidade. No ato, ela parou de se debater caminhando num passo fantasmagórico até Castiel.

Dean ainda tentou prendê-lo entre seus braços, porém o poder telecinético da entidade arrastava o corpo do moreno para fora de seu aperto ao mesmo tempo em que o constringia com uma força invisível.

Urrando de raiva, Dean assistiu Castiel ser erguido pelos pulsos por uma das garras da besta, que mal precisavam se fechar ao redor dos braços do moreno devido ao tamanho de cada falange. Ela quebrava o pescoço para o lado parecendo sentir o cheiro do sangue fluindo pela ferida. Num rápido movimento, Tânia empunhou a adaga na lateral esquerda de Cas talhando o símbolo que o marcava como oferenda em seu peito.

Mesmo fraco, ele gritou rouco com a dor da carne sendo esculpida vagarosamente. A testa enrugou, os olhos apertaram-se em meio ao desconforto. Filetes vermelhos escorriam do novo corte, da faca deslizando sobre a epiderme rasgando-a facilmente, e o desespero de Dean triplicou:

– PARE! Solta ele! Sua filha da mãe!

Tânia apenas riu continuando a talhar seu desenho na pele de Castiel, e os urros se misturavam numa melodia disforme e macabra; a entidade sibilava regozijando frente a sua oferenda, água na boca para provar o coração de Cas. Entre a sua voz distorcida, Tânia murmurava uma canção lenta e contínua, como que para apaziguar a vontade arrasadora da besta de devorar os órgãos do moreno. Ainda, no meio desses sons ritmados, Dean gritava, xingando Tânia, querendo livrar Castiel daquela constrição, querendo o salvar! Seus pulsos estavam presos um contra o outro pela pressão invisível, e Dean odiava sua incapacidade de ir ao auxílio de Cas; vacilando a voz numa mistura de raiva e histeria.

– Pronto, aqui está Grandiosa, todo seu. – concluiu Tânia.

A marca estava feita. Castiel respirava descompassado, sentindo a ardência alastrando-se pelas costelas cada vez que sugava o ar e o ferimento incendiava, enchendo um dos pulmões com sangue a cada minuto.

No entanto, o pior ainda estava por vir.

E Dean arregalou os globos, arranhando a garganta tamanha fora a altura de seu berro:

– PARE!

A ponta fina da garra recostou-se acima do buraco no peito de Castiel tal como uma agulha. Pausadamente, numa espécie de precisão cirúrgica, a entidade começou a subir o afiado dedo, devagar, tendo um cuidado quase sagrado ao dilacerar a cútis de Cas, alargando o vácuo do ferimento.

Pele, gordura, músculos, tendões e nervos cortavam-se, separando os ligamentos de cada camada do peito de Castiel, parecendo a linha de costura duma roupa feita de carne se rompendo fio por fio; os movimentos do pulsante coração começando a serem vistos pela pequena fresta. O líquido rubro jorrava mais intenso, escorrendo à cintura do moreno e empapando o tecido da calça jeans.

Castiel esturrava, franzindo o cenho numa expressão letífera, quase perdendo os sentidos, e Dean atormentou-se diante da agonia de Cas. Forçou os joelhos contra o piso de madeira, os arrastando e esfolando a pele debaixo do tecido, criando machucados de pele branca e pus, numa tentativa frustrada de alcançar o amigo, de tirá-lo de perto da entidade; de protegê-lo!

A rápida interferência de Sam foi o ponto de virada daquela noite.

Ele soltou a corda o mais depressa possível, lançando a cadeira ainda presa no outro braço contra as costas de Rick, o nocauteando. A madeira do assento se espatifou em milhões de pedaços afiados de farpas e grossos tocos, quicando pela sala. Sam sentiu o antebraço queimar devido ao golpe, contudo tinha pouco tempo para agir.

Tânia parou de cantar ao ver seu marido caído. Rangeu os dentes voltando-se a Sam. Não podia parar o ritual, não podia impedir a criatura de consumir a oferenda, mas se quisesse o obstar precisava colocar a atenção da entidade sobre ele. Desistindo de prender Dean por mais tempo, ela entoou um novo refrão obrigando a presença sobrenatural da criatura a atacar Sam. Seu ombro rebateu na parede no ato, ao passo em que Dean viu-se liberto da pressão em seus braços.

Tantas ações acontecendo ao mesmo tempo deixaram a entidade desnorteada. Ela não aprofundou o corte de Castiel, começando a tremeluzir na sua confusão. A oscilação das vontades da Grandiosa fez Tânia retorcer o torso tal como a criatura fazia, quase quebrando sua espinha. Ela ficou parada no mesmo lugar girando o corpo duma maneira inumana, atrelada à sua ligação sobrenatural com a entidade.

Só faltava uma única coisa, um pequeno detalhe que veio à mente de Louis: ele podia acabar com o contrato, encerrar a tradição de sua família de uma vez.

Ainda imerso num mar de dores o garoto engatinhou até o altar. Dos vários objetos pontiagudos dispostos sobre ele, apanhou uma agulha. Seus dedos vacilavam, tremendo, quase sem força alguma para se fechar sobre o objeto cortante.

– Não... Se... Atreva Louis!

Sua mãe sibilou na costumeira voz autoritária, e Louis engoliu o choro, pela primeira vez em toda a sua vida afrontando a vontade dela:

– Adeus.

A primeira gota vermelha caiu sobre o santo, a figura católica da entidade, perfeitamente arrumada dentro do círculo ocultista. No mesmo instante, a besta largou Castiel, e seu corpo bateu num baque surdo no piso de madeira.

Do outro lado da sala, Rick levantou-se sacudindo a cabeça. Ao deparar-se com a paralisia de Tânia – devido ao seu pacto com a criatura – ele gritou, voltando-se a Louis:

– Não! Seu ingrato! Pare!

– Ei, bitch.

Dean chamou-o ao mesmo tempo em que arrebentava uma tora de madeira no rosto dele. Rick caiu inerte de volta ao piso, sem previsões para se recuperar dessa vez. Com o ambiente seguro, Dean só conseguiu pensar em Castiel, indo até o moreno o retirando de perto da entidade, usando seu casaco para tampar o corte no peito dele.

A besta, por sua vez contorcia o grande corpo turvo, a cabeça rodopiando mudando entre as três faces sem pausa. A temperatura do cômodo subiu drasticamente os fazendo suar por toda parte.

Faltava pouco, muito pouco, e estariam livres. Mas ainda restavam as palavras, a quebra do contrato. Que droga! Louis viu Cas escrevendo mais cedo! Precisava falar! Precisava se lembrar! Um cântico era uma canção em latim antigo, a mesma língua que sua mãe usava para falar com a criatura. Tão poucas palavras, tinha de se lembrar, precisava!

– Dean...

Num grunhido dolorido Cas sussurrou fazendo o loiro voltar o rosto na sua direção. Ele estava com os olhos semiabertos, perdido entre o desmaio e a vontade de ficar acordado. Dean tentou o fazer calar a boca e descansar, mas foi então que viu o papel amassado sujo de sangue por entre seus dedos. O pegou vendo a sentença escrita em sua letra:

– Louis!

Clamou pelo garoto, e ele encarou Dean avistando o papel enrugado na mão dele, escutando com cuidado as palavras ditadas e as repetindo imediatamente da melhor maneira possível, ignorando o maxilar quebrado.

– CHEGA! Louis pare! PARE!

Tânia bradava com os ombros rodopiando a cada nova palavra proferida por Louis, imitando a mesma circulação dilacerando a entidade. A criatura multiface chiava dolorida, recebendo as sílabas de Louis feito estacas na sua carcaça, a perfurando, enfraquecendo, acabando com seu domínio.

Grunhindo, Sam ergueu-se com o braço molenga ao lado de sua cintura. Provavelmente havia o quebrado na pancada, mas isso não vinha ao caso. Tinha de golpear com um ataque final a criatura, que abria o peito contra sua vontade para receber o fim merecido, obrigada a se submeter a voz mágica de Louis.

O encantamento do garoto seguiu-se, com a entidade e Tânia ambos presos pelo feitiço do garoto. Sam foi o mais depressa possível para frente da besta, que ainda tentava o repelir usando o restante das forças telecinéticas. Com muito esforço, Sam esticou o braço ainda bom para o alto. Entre os dedos apertava sua pequena faca – a qual depois dessa noite levaria consigo sempre – e dessa forma, num único e certeiro solavanco, desceu a lâmina contra o centro do torso da entidade. A faca enterrou-se nela, da onde faíscas claras saíam em borrões de luz.

A gritaria elevou-se em um alto timbre.

Tânia urrava, a entidade berrava, e ambas sentiam a estocada no peito, ardendo, queimando, as fazendo rachar se quebrar em pedacinhos farelentos de barro, caindo sobre a sala feito areia, explodindo num curto e rápido clarão que cegou a todos por breves segundos.

Dean protegia o corpo de Castiel, enquanto Louis e Sam foram apagados devido à proximidade do impacto. O irmão e o garoto jaziam desacordados, mas bem. Rick também ficou imóvel no chão, e só saberia muito depois o que havia acontecido com sua queria esposa.

A calmaria veio, e quando Dean podia respirar novamente ele não o fez. Porque Cas estava em seus braços, ensanguentado; pálido, o peito aberto, e seus olhos fechados, parecendo... Morto.

– Cas?! – chamou-o tocando seu ombro, o ajeitando sobre seu colo – Ei Cas! Já acabou!

Num sussurro, Castiel abriu os globos enevoados, quase sem brilho algum devido a sua fraqueza:

– Dean...

– Cara, aguenta firme! Você vai ficar bem, vai ficar...

Ele repetia, porém ao pairar os orbes verdes sobre o peito fendido de Castiel, enxergando a carne aberta fora do lugar, a quantidade do líquido carmesim em sua blusa... Ele já não tinha mais certeza. Mordendo o interior da boca frente a sua frustração, Dean tentou manter a calma – como sempre devia fazer, sendo o irmão sensato, sendo forte:

– Temos que te levar ‘pro hospital!

Disse, por fim, começando a levantá-lo, mas o grunhido de insatisfação de Castiel o fez parar.

– Dean... Dean... – balbuciava seu nome em dificuldade, segurando firmemente a blusa de botões do maior, sujando o tecido na altura de seu cotovelo ainda mais de vermelho.

– Cas, poupe as energias, nós...

– Me deixe ir...

Estático, tremeluzindo os olhos em incredulidade, Dean parou de se mover analisando o semblante calmo de Castiel, de alguém que estava em paz. As palavras dele pairaram no ar tal como um sopro de descrença para o loiro, e ele só pode menear negativamente a cabeça várias vezes – os olhos começando a marear:

– Não... Cas... Para de falar merda!

– Sem contratos... – falou num sorriso torto tossindo em seguida, mais sangue fluindo para fora – Nem com demônios ou anjos... – arquejou sem ar — Sem acordos... Só... Me deixe ir...

– Não deixo! – esbravejou — Você não pode... Não agora... – os fios quentes e salgados desceram pelas bochechas de Dean, irrefreáveis – Cas, por favor... Aguente!

– Ei... Dean...

A rouquidão de sua voz tornou-se um murmúrio mortífero, e Dean precisou chegar seu rosto perto dele, deixando a ponta da orelha resvalar nos lábios do moreno a fim de escutá-lo:

– Por você... Por você eu...

Foram as últimas, as derradeiras últimas palavras dele. O aperto de sua mão no braço de Dean cedeu deixando apenas a marca carmesim sobre a blusa no formato de seus dedos espalmados. Os olhos de Castiel caíram devagar em meio aos seus pensamentos finais, de que havia feito o certo, havia protegido Dean da melhor maneira possível. Porque ele simplesmente tinha de fazê-lo. Deixou-se levar pela frieza subindo das suas pernas ao peito até por fim alcançar todo seu ser, cessando sua respiração.

O caçador ainda tentou escutar mais alguma coisa, quis sentir o bafo de ar vindo das narinas de Cas. E ao perceber a falta dele, girou o rosto na direção do moreno — os narizes quase colados — e Dean não via os globos azuis, aquela linda imensidão de oceano índigo, porque suas pálpebras estavam fechadas.

Dean segurou o rosto do moreno com uma das mãos. A garganta se fechou com um soluço engasgado no fundo dela:

– Cas?! CAS!

Chamou-o, sacudindo seu ombro, afundando os dedos sobre a face fria de Cas, repetindo e repetindo seu nome. Mas nada... Não havia nenhum sinal de vida nele, e Castiel começou a se tornar apenas uma lembrança.

– Cas... Seu idiota... Porque agora?!...

Porque só agora que Dean havia percebido, enfim, o quanto Cas lhe era importante?! Só agora quando ele sabia querer mais do que uma simples amizade com Castiel?! Porque só agora Dean sentia de verdade, com todas as suas forças entrando em convulsão a falta que Cas fazia?! Não podia ser verdade! Era impossível! Cas... Ele sempre volta! Ele estaria sempre, sempre ao lado de Dean!

– Por favor, não morra, por favor, por favor... – arquejou num choro em soluços, fechando os olhos fortemente — Eu preciso de você...

Disse entre os dentes, com o peso daquelas palavras pairando sobre o recinto funesto. Precisava tanto de Castiel que sua boca tremeluzia com o choro; uma necessidade absurda do ex-anjo, a ponto de ser incapaz de parar as lágrimas, de fingir-se forte como devia ser; de tentar fingir que não se importava.

Dean não conseguia naquele instante de aflição ignorar a tristeza, o ardor de ódio em seu peito queimando os pulmões. Havia perdido Cas e nem ao menos teve coragem de dizer a ele o que sentia. Havia o perdido...

– Eu preciso de você Cas...

Dean ecoou num lamurio, colando sua testa na do moreno – as lágrimas caindo em pequenas gotas salgadas sobre as bochechas gélidas do corpo perfeitamente ajeitado sobre seu colo. O loiro balançava seu torso junto do de Castiel, o embalando num carinhoso movimento acalentador, imaginando ser um sonho, torcendo para que fosse mais um dos seus pesadelos, rezando por um milagre...

Num estalo, ele respirou fundo – o pouco de oxigênio capaz de juntar em meio à ânsia o corroendo — e, voltando o rosto para o alto encarou o teto despedaçado da casa, engolindo seco, conforme a oração se formava:

– Se tiver alguém aí... Qualquer um, por favor... Venham aqui... Venham depressa... Por favor, por favor...

Ele iterou e repetiu, sibilando cada sentença, feito uma brisa de esperança, sua última cartada. No entanto nada acontecia, nem um farfalhar de asas ou a entrada triunfal demoníaca; e o pesar da verdade – de que Castiel havia sim ido embora – acometeu Dean. Seu coração devia ter parado, porque o loiro não conseguia aceitar aquilo. De que depois de tudo, depois do que descobriu sentir por ele, havia o perdido.

Um grunhido de raiva e lamentação escapou dos lábios entreabertos de Dean. O corpo de Castiel inerte em seu colo tornava a realidade palpável demais, e ele só queria esquecer-se de tudo, desaparecer e voltar ao tempo em que ele, Sam e Castiel estavam na estrada, naqueles dias em que ficava sozinho junto do ex-anjo e os dois apenas aproveitavam a presença um do outro.

Dean queria, ansiava, num desejo astronômico ter essa ínfima proximidade novamente, só isso e mais nada, ter Cas de volta.

Uma larga sombra pairou sobre Dean o obrigando a erguer-se derrotado sobre Castiel. Era Sam, de pé o mirando de cima, mas os olhos dele... Aqueles não eram os olhos de Sam.

– Orar pelos anjos é suicídio, Dean.

– Ezekiel...

Deixou a fala sair entrecortada pelos dentes. Encarava a expressão calma daquele anjo possuindo momentaneamente Sam esquecendo-se que o invólucro de carne era seu irmão e, realmente foi capaz de odiá-lo:

– Eu o alertei sobre isso, Winchester. Castiel atrai problemas...

– Você estava aí dentro o tempo todo, seu filho da mãe! Poderia ter feito alguma coisa! – esbravejou quase cuspindo nele.

– Poderia. Mas é melhor desse jeito. Castiel é um estorvo.

– Não! – contestou — Ele já salvou a mim e a Sam mais vezes do que posso me lembrar!

– Isso quando ele era um anjo. Agora, na forma humana, é um problema.

– Ele não é...

– Deixe-o ir, Winchester.

– Nunca...

– Deixe que se vá em paz.

– Cure-o. – replicou cingindo Castiel num abraço acolhedor.

– Mesmo que o faça, o que disse antes continua-

– Vamos ficar bem! – interveio, cortando sua fala — Sempre ficamos! Então agora, por favor, por favor! Cure-o!

Sua respiração tornou-se branda entre o choro. Ele só queria Castiel de volta:

– Eu te imploro... – gaguejou numa fala rouca e acanhada.

Ezekiel arqueou uma das sobrancelhas encantado com a cena.

Ofegante, o loiro manteve o olhar decidido e firme perante Ezekiel, apesar das lágrimas que grudavam secas no rosto. Já não importava mais o que o anjo poderia pensar dele, não agora. Se Dean Winchester estava implorando? Em nome de um ex-anjo, um rebelde, que já o salvou e mentiu a ele inúmeras vezes? Daquele que o agarrou firme e o retirou do inferno? Que desistiu de sua graça pelo caçador? Dean implorou, e o faria novamente se fosse preciso:

– Isso é novo. Dean Winchester implorando. – comentou Ezekiel num quase sorriso.

O loiro engoliu seco evitando lacrimejar outra vez. Abriu a boca, procurando por sua voz:

– Por ele... Sim.

Afirmou convicto. Por Castiel ele se humilharia; para que o moreno retribuísse aquele abraço, o tendo de volta em sua vida, Dean faria de um tudo possível – e inimaginável. Precisa tanto de Cas que doía!

Os olhos de Ezequiel enxergavam Dean e o ex-anjo através de Sam, ponderando a situação. Ainda estava fraco, carecia recuperar boa parte de sua graça antes de abandonar aquele receptáculo. Caso o caçula dos Winchesters descobrisse sobre a presença do anjo no seu corpo, seria expulso imediatamente, e Ezekiel temeu que Dean contasse ao irmão se se negasse a curar Castiel, pois percebia na expressão dura e frágil do caçador que ele estaria disposto a tomar medidas drásticas.

Talvez não a arriscar a vida de seu irmão – longe disso — mas sim arrumar outra maneira de curá-lo, extraindo a presença oculta de Ezekiel no ato. E isso seria um agravo ainda maior do que Castiel:

– Pois bem.

Disse, agachando o enorme corpo de Sam ao lado de Cas. Estendeu sua mão a poucos centímetros de distância do peito do moreno, e de sua palma uma intensa luz calmante emanou. Primeiro, a marca escarnificada por Tânia desapareceu, junto com os filetes de sangue, e instantes depois o profundo corte cauterizava, fechando as duas metades de carne aberta as colando no lugar feito uma folha de papel remendando-se. O líquido rubro já seco continuou colado às roupas do moreno, todavia o sinal de qualquer tipo de ferimento se dissipou como se nunca tivesse existido.

Conforme Ezekiel prosseguia com a cura, Dean acariciava o maxilar de Castiel mirando seu tranquilo semblante numa expressão consternada de contentamento, prestando atenção em sua face e esperando ansioso que ele acordasse.

– Castiel está num estado extremamente debilitado. – comentou Ezekiel ao finalizar o processo – Mas viverá.

Meneando a cabeça em concordância, Dean nem fez questão de se voltar ao anjo. Só queria saber de Cas e mais nada, o sustentando entre seus braços, deixando os dedos tocarem sua pele que agora voltava a se aquecer.

– Preste atenção Dean Winchester.

E foi somente à menção ao seu nome num tom ríspido que o loiro virou o pescoço na direção dele:

– Este será meu último aviso: Castiel é um imã que só atrai complicações. Tanto você quanto seu irmão tornaram-se alvos de anjos, demônios e outras criaturas. Afaste-se de uma vez dele.

– Já ouvi essa historinha antes. Não colou.

– Pois bem. – falou estalando a língua – Não mais o ajudarei caso seja preciso, Winchester. E tenho dito.

Cerrando os olhos, Ezekiel respirou fundo permitindo a consciência de Sam dar lugar a sua. Claro, seus poderes ainda estavam debilitados, e ao sair de cena o corpo do caçula desabou no chão num grunhido cansado. Dean tocou de leve o joelho de Sammy e ele reclamou como se fosse uma criança sonolenta, aliviando a tensão do mais velho.

Dean tornou a observar Castiel, envolvendo a mãos ao redor dos seus ombros num apertado aconchego, o trazendo a um abraço mais forte. A cabeça do moreno repousou sobre seu peito, ajeitando-se ali com o toque suave dos dedos de Dean em seu rosto. Foi por pouco dessa vez, ele quase... Quase perdera o amigo, por apenas um mísero minuto, Cas havia morrido.

E a sensação dilacerante que se apossou de Dean foi o bastante. O caçador havia sofrido por uma eternidade inteira. Jamais aguentaria viver sem o ex-anjo. Não dava; impossível! Havia se conformado, enfim, do quanto ele lhe era essencial, da necessidade absurda que tinha de Cas. Em todos os sentidos, com todas as implicações desta verdade.

Por meia hora, Dean ficou ali na mesma posição, aninhando Castiel em seu colo com a testa colada na dele, seus olhos semiabertos, os dedos gentis acariciando o rosto por cima da barba mal feita, apenas ouvindo o som da respiração de Cas atravessando sua face tão próxima da dele, atestando que o moreno estava vivo. E o que Dean mais desejava em repetidas frases na sua cabeça, era que ele acordasse, falando com sua voz rouca tão característica, chamando por Dean, o encarando com o belo par de esferas azul índigo:

– Acorde logo, seu nerd filho da mãe.

Disse, com os dedos roçando a ponta da orelha de Castiel.

Continua

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Notas finais
AHÁ! No pr[ox. capítulo teremos o tão aguardado momento love love desses dois ;) Espero que estejam curtindo a fic pessoinhas! E desculpem por ter feito o coração de vocês parar esses dias xD Kissus e até o próximo!