Não há outro amor para mim.
5 Uma praia, uma lua e nós duas.
Notas iniciais
Dezembro chegou no meu calendário acompanhado de frio, decoração de natal pelas ruas e Emma ocupando minhas noites.
Vínhamos nos encontrando em seu apartamento apenas três dias na semana por ela ter de se apresentar de quarta a domingo no espetáculo e chegar exausta em casa. Por mais que insistisse para que saíssemos depois do trabalho, não queria deixá-la mais cansada.
Saudade acumulada acrescentava um ingrediente extra a nossa relação. Mesmo que nos falássemos por telefone todos os dias assim que terminava seus ensaios, nunca era o bastante. Então, toda vez que a encontrava, era maravilhoso.
Minha namorada era o tipo de pessoa que não gostava de ficar parada por muito tempo. Aproveitei para mostra-lhe alguns cantos diferentes na cidade, entre bares, cinemas, e bons restaurantes. Seu lugar favorito ainda era a boate onde dançamos naquela noite depois de sua estreia, o único lugar que ia por conta própria antes de namorarmos, certamente pela boa música que fazia seu estilo.
Nossas noites nunca terminavam apenas nos amassos que dávamos no sofá. Sempre acabariam lá pelas tantas da madrugada debaixo dos lençóis dela, mesmo que eu precisasse acordar horas depois para ir trabalhar.
Em casa, minha irmã (que estava sempre me vigiando), contou aos meus pais a novidade não tão nova assim. Já suspeitavam que eu tivesse algo a mais com Emma desde a nossa primeira noite. Portanto, quando fui anunciar meu namoro, não houve surpresa da parte de ninguém, mas os três vibraram comentando sobre minha mudança de comportamento. De fato eu andava mesmo mais calma e bem humorada – o que o amor não faz, não é?
Certo dia, decidi fazer uma surpresa para Emma indo ao teatro para buscá-la. Era um final de tarde, quando estacionei minha Mercedes no anexo da casa de espetáculos e a esperei de braços cruzados fora do veículo. Emma saiu uns vinte minutos depois, abatida, caminhando lenta até que me viu do outro lado da rua. Ao me reconhecer, abriu aquele sorriso que me fazia sentir os pés fora do chão. Correu até mim, abraçou-me, tocou-me... Parecia que não me via há quase um século.
Senti sua respiração pesar num suspiro e tomei seu rosto nas mãos percebendo o tamanho exacerbado das olheiras que rondavam seus dois faróis verdes.
— Hey... — disse-lhe, colocando uma mecha de cabelo loiro para trás de sua orelha direita. — Você está bem?
— Melhor agora e você? — ela perguntou com a voz baixa e hálito quente. Colocou a cabeça sobre meu ombro e me apertou. Pelo jeito, não era apenas seu hálito que estava quente, seu corpo inteiro estava febril. — Ai, como é bom te ver, meu amor! — selou-me a boca, seus lábios estavam secos.
— Emma, o que foi? — eu a obriguei a me olhar novamente. Toquei sua testa, seu pescoço.
Ela reclamou.
— Não, não toca aí, tá doendo...
— Que que isso? Você está com febre? — perguntei me preocupando um bocado.
— Não é nada demais. Pode me levar para casa? — sofreu para dizer aquilo, ela estava com dor.
— Eu não vou te levar para casa, você vai para o hospital!
E foi o que eu fiz. Levei Emma para a o hospital mais próximo. Notei que ela piorou e quase adormeceu no meu colo enquanto esperávamos atendimento. Aquilo me deixou assustada a princípio, Emma parecia sempre tão forte que jamais pensei em vê-la tão fragil.
Felizmente, não demorou demais para que fossemos chamadas; Emma tinha arranjado uma inflamação na garganta por conta da mudança repentina de temperatura. Resultado: febre, moleza e muita manha. Se há uma coisa que ela faz toda vez que fica doente é manha, e eu já passaria pela experiência logo no começo do namoro.
Depois de medicada, eu a levei para casa finalmente, prometendo ficar até que melhorasse.
Emma acabara de entrar no recesso de final de ano da turnê, portanto, não precisaria ir trabalhar por algum tempo. Acabou me usando de enfermeira, cozinheira, arrumadeira e cobertor na hora de dormir, especialmente quando sua febre voltou a subir, e de tão alta que chegou, a fez delirar. Naquela noite eu quase a levei outra vez ao hospital; Emma acordou no meio da noite tendo pesadelos, murmurando, chamando por mim e batendo o queixo. Eu a mediquei como pedido na receita médica, mas nenhum dos antitérmicos fez efeito, o remédio era outro: Carinho.
Abracei seu corpo, afaguei seus cabelos, rosto, boca, tudo muito suavemente. Até que a vi adormecer e o mais bonito foi ouvi-la pronunciar meu nome enquanto estava sonhando. Certamente aquele não era um sonho ruim. A febre cedeu.
Para compensar o tempo que fiquei cuidando dela, dois dias depois de melhorar, Emma foi me buscar no jornal no dia da semana que eu podia sair mais cedo. Diferente de como eu havia feito, ela me esperava do outro lado da rua, apoiada no banco de uma motocicleta Indian – eu realmente não sabia que a minha loira andava de moto, sequer que tivesse uma. Mas ela tinha e parecia muito íntima do veículo de duas rodas, estava até mesmo vestida como uma motoqueira com uma daquelas jaquetas de couro escuras, por baixo uma camisa de banda de rock, calça apertada e botas, além do cabelo preso num alto rabo de cavalo.
Dei-lhe um beijo, logo apontando e falando:
— Emma, o que é isso?
Ela percebeu que eu falava da moto.
— O quê? A moto? Ah, era a última coisa que faltava chegar da minha mudança. Era do meu pai, mas ele está velho demais para se arriscar nessas coisas, então me mandou.
Algo me dizia que Emma não gostava de dirigir carros, depois de um tempo confirmei essa hipótese. De qualquer forma, imaginá-la andando naquilo era divertido.
— Você não me contou que sabia pilotar. — eu disse, olhando-a com curiosidade.
— É porque queria fazer uma surpresa. — ela sorriu.
— E fez. Onde vai me levar? Posso saber?
Emma pegou um capacete que estava preso à garupa da moto e me entregou.
— Essa é outra surpresa. — falou de um jeito misterioso.
Pela sua cara, eu sabia que planejava algo, então subi na moto com sua ajuda, agarrando-a por trás depois dela subir também.
O motor roncou assim que foi ligado. Suas duas mãos se posicionaram no guidão e, me olhando por cima do ombro, colocou o seu capacete, dizendo:
— Segura firme. Tá pronta?
Assenti, puxando o outro capacete em cima da minha cabeça.
E lá fomos nós. Com destino a qualquer lugar.
. . .
Fomos pelas 80 milhas até a tarde cair, o tímido sol de inverno começar a se pôr e dar lugar a um lindo crepúsculo.
Recuamos na beira da estrada, chegando entre algumas árvores que escondiam o Oceano Pacífico por trás de suas sombras — uma praia deserta na costa do Oregon.
O mar sempre foi uma das coisas que mais amava olhar e naquele dia estava especialmente belo, de um azul esverdeado radiante, manso como se nos esperasse. Não era como uma praia qualquer: Tinha uma formação rochosa enorme quase igual a uma ilha bem no meio do mar, elas ficavam juntas criando um desenho que me lembravam cristais. Dava para perceber uma alegria escondida nas feições de Emma ao olhar o cenário, estava tão encantada quanto eu.
Emma, por falar nisso, sabia que eu amava lugares como aquele por me ouvir contar da casa que meu pai tinha em Rockaway Beach, onde passei muitas férias de verão na adolescência. Além disso, comecei a pensar que fui levada ali por outra razão.
O céu, antes rosado do fim de tarde, foi ficando escuro, minha namorada me distraiu por um momento...
— Que tal? — ela me perguntou.
Virei meu rosto para ela.
— É lindo! — disse num tom de encanto, talvez meus olhos estivessem marejados.
Emma tirou seu celular do bolso. Pensei que ela fosse bater uma foto das rochas, então percebi que seria uma foto de nós duas com as rochas de fundo – nossos rostos colados e sorridentes, os olhos de ambas brilhando de felicidade. (Mantive esse retrato por muito tempo em cima da mesa do meu escritório.) Depois que enfurnou o telefone de volta no bolso, me convidou para caminharmos pela areia molhada, abraçada a mim de lado. Ela quis me contar como foi seu dia e me dizer o quanto estava bem graças a mim.
Na curiosidade, perguntei:
— Como descobriu este lugar?
Emma colocou uma de suas mãos no bolso da jaqueta e me contou.
— Andei pesquisando no guia dos mochileiros, edição especial praias do pacífico. — Emma disse em tom brincalhão.
— Não, vamos, fale sério! — paramos e toquei em seus ombros. — Vai, me fala. Já esteve aqui antes?
— Nunca. Foi um dos meus amigos do teatro que me contou desse lugar. Ele é daqui e eu perguntei se conhecia algum lugar bonito onde eu pudesse levar alguém especial.
— Alguém especial? Hum...
— Sim, alguém muito especial, que tem sido a melhor parte dos meus dias. — de repente ela ficou séria, olhava nos meus olhos, aproximando o rosto. — Eu precisava recompensar o tempo que perdeu cuidando de mim. Você deixou de fazer muita coisa por minha culpa nos últimos dias.
— Emma... Eu nunca estou perdendo tempo quando estou com você. — segurei sua face com as duas mãos. — E se eu não estivesse lá para cuidar de você, quem estaria? Eu queria te ver bem, eu queria que sarasse logo, mas ao mesmo tempo era tão bom fazer tudo pra você, te abraçar e proteger, quando no fundo, quem gosta de fazer isso é você. — pude perceber um sorriso sem jeito da parte dela. A brisa de maresia chegou com força, fazendo algumas mechas de cabelo soltas balançarem perto dos seus olhos. Ela estava linda, mesmo sob pouca luz.
— Nos conhecemos há tão pouco tempo, mas eu tenho a impressão de estar vivendo isso há muitos anos.
— Eu também. E é estranho, não é? Ao mesmo tempo é tão bom.
— Regina... Eu amo você. — ela me disse com aquele olhar sofrido, então me beijou. Foi calmo e intenso ao mesmo tempo.
No que demoramos trocando carinho no beijo, não percebemos o presente que a noite nos dava naquele instante.
No inverno, especialmente na costa, era comum vermos noites de lua cheia. Naquela ocasião o luar foi crescendo sobre a ilha de rochas e o mar. Nós a vimos e, como se quisesse aproveitar a beleza de tudo ao nosso redor, Emma me faria mais uma surpresa... Tirou de um outro bolso de sua jaqueta, por dentro, uma chave, colocando na minha mão esquerda e a fechando.
— O que é isso? — perguntei.
— Essa é uma cópia da chave do meu apartamento. Eu quero que vá morar comigo.
Eu a olhei, boquiaberta.
— Emma... Mas...
— Aceita, Regina. Vem viver comigo.
Sorri meio tímida.
— Mas é tão cedo para pensarmos nisso.
— Pode ser cedo pra você, pra mim é a hora certa.
Novamente ela me olhava daquele jeito sofrido. Eu me perguntava se aquilo estava mesmo acontecendo. Além da vontade de estar perto, bateu o medo de dizer não e perder a oportunidade de vê-la acordando ou sendo acordada por seus beijos.
Respirei fundo, fechei os olhos e decidi. Meu coração pedia por aquilo, já estava fora do meu controle.
— É. Acho que quero morar com você sim.
Ela sorriu. Eu fiz o mesmo. Roçou seu nariz no meu, tocou minhas mãos, me fazendo sentar com ela na areia.
— Me perdoa se eu estiver te assustando com tudo isso, Regina. É que eu não sei me controlar.
Virei um pouco para fitá-la, praticamente deitando em seu colo.
— Hey... — peguei a mão dela e a coloquei sobre meu seio esquerdo. — Tá sentindo?
Ela fez uma cara de dúvida.
— Sim. Bate forte. — depois coloquei sua mão em seu próprio seio esquerdo.
— E esse? Está sentindo? Também forte, não é?
— Uhum. — ela gemeu a resposta.
— Percebeu que eles batem no mesmo ritmo?
— Sim.
— Isso quer dizer que eu estou me sentindo da mesma forma. É assustador me sentir desse jeito, mas eu não posso controlar também... E nem quero.
Emma me tirou de seu colo para me deitar na areia e ficar sobre mim. Antes que nos beijássemos, o que inevitavelmente aconteceria, ela roçou um dedo em minhas bochechas, procurando as palavras certas para me dizer.
— Eu não quero estar errada sobre você. Porque quando te vi pela primeira vez, mesmo de longe, algo me disse que valeria a pena.
Fui abraçada, tocada, envolvida por ela.
Ela me protegia com um braço enquanto o outro investigava meus pontos fracos.
Sentia sua mão livre correr por minha cintura, entrando pelo restante da minha roupa para se ocupar lá embaixo. Gemi com aquele movimento brusco, me sentindo excitada.
Lembro-me de ter durado algum tempo e mais de uma vez. Parecia um sonho muito maluco, mas eu acabara de fazer amor com Emma ali, na areia, debaixo do luar.
Com os olhos, Emma me fez entender que aquilo só aconteceu porque era com ela. Era para ser com ela. A única pessoa para quem eu me entregaria a céu aberto, tendo apenas o mar e lua de testemunhas.
E de tão bom pareceu pouco. Pedi por mais. Acho que aconteceu até que eu não tivesse mais forças, e nisso fomos até o amanhecer.
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