Não há outro amor para mim.
27 Uma declaração de amor inédita na TV.
Notas iniciais
Acho que não irá adiantar muito esperar que as notícias sobre mim e Emma tomem um novo rumo. Eu digo que os paparazzi e os fofoqueiros estão tentando me tirar do sério. Ontem, dois caras armados de duas enormes câmeras fotográficas de marca me cercaram na saída do prédio da emissora onde trabalho, e as perguntas eram de praxe: “Você vai se separar de Emma?” ou “Os rumores sobre vocês duas são verdadeiros?” Olha, não sei dizer quantas vezes eles fizeram essas mesmas perguntas, mas eu estive ao ponto de soca-los, por isso estou pensando seriamente em entrar para algumas aulas de karatê.
Com os boatos só piorando, minha única alternativa deve ser mesmo apelar para a ideia da declaração de amor ao vivo. Minha mulher jamais desconfia que eu tenha um plano para calar a boca desses inconvenientes que andam nos atormentando, e com ela voltando a trabalhar, a última coisa que quero é que a aborreçam a ponto de fazê-la se desconcentrar.
A propósito, Emma ficou muito bem com a nova cor de cabelo. Óbvio que de cara estranhei porque a vida toda a vi loira e de repente tive de me acostumar com ela morena. O mais engraçado aconteceu anteontem quando ela chegou em casa; Eu estava limpando as alfaces que comeríamos no jantar, colocando-as em um pote quando me virei rápido demais na direção da mesa e dei de cara com um vulto moreno atrás de mim.
Plaft!
Dei um pulo com o susto que levei e acabei derrubando o pote com as alfaces. Emma na minha frente começou a rir, e eu finalmente a reconheci pois havia ficado tão diferente que achei ter visto outra pessoa.
— Emma!
— Eu. — ela disse, me olhando com as sobrancelhas bem feitas erguidas. — Estou tão feia assim? — perguntou porque com certeza eu estava a olhando de um jeito bem curioso e surpreso.
— Não... é que... Ahm... Está ótima, é que eu não tinha reconhecido você, pensei que alguém tinha entrado aqui. — eu disse, vendo a nova cor de cabelo dela. Abaixei rapidamente para pegar o pote do chão, que para variar caíra de cabeça para baixo. Não teríamos mais alface para o jantar.
Swan deu outra risada e ficou parada para que eu continuasse a olhando. Toquei nos cabelos dela, tirando eles do caminho de suas bochechas e pude ver melhor seu rosto. Não ficou ruim, ficou bonito para ela quando jogado para trás de seu rosto. Mesmo morena ainda era a minha Emma, minha esposa. Agora eu tinha de me acostumar a não chama-la de minha loira.
— Então você gostou?
— Sim. Acho que sim, caiu bem pra você. Parece outra pessoa, mas você ficou bonita com essa cor. Quero dizer... Ainda mais bonita. — expliquei, toda desconcertada.
— Hum, acho que você ainda está um pouco desconfiada de que seja eu mesma. Mas eu posso te provar que não sou uma impostora debaixo dessas mechas castanhas. — ela falou com tom bastante sugestivo.
Estreitei os olhos para ela e perguntei:
— E como pretende me provar isso, senhorita Swan?
— Assim...
Emma envolveu um braço sobre a minha cintura, puxando meu corpo para caçar minha boca com a dela. Aceitei o beijo que durou um bocado de tempo pois estava muito bom.
Passei as mãos por cima de seu busto e ombros enquanto ia parando e disse lambendo os beiços:
— É... Acho que é você sim. Mas para que eu tenha certeza de verdade preciso de mais uma prova.
— Não seja por isso. — ela respondeu.
Nos beijamos de novo e conseguiu ser ainda melhor que da primeira vez. Com certeza absoluta aquela era minha mulher, morena agora, mas era.
Estávamos nos dando muito bem desde a última conversa franca que tivemos sobre o casamento e a rotina. No fundo, aquela pequena discussão funcionou e agora Emma parece até mais calma. Daqui a dois dias ela começará a gravar a série de TV em que será protagonista e estou conseguindo ver o quanto ela está ansiosa.
Emma me mostrou os primeiros textos que ela havia recebido para decorar e uma das primeiras cenas era uma interação com o garotinho que seria seu filho no seriado.
Lendo com calma, imaginei minha mulher interpretando a personagem que parecia ser uma pessoa muito doce. Tive de comentar com ela sobre isso, então deixei o papel com a fala sobre a cama e prestei a atenção nela concentrada nas outras falas. Estávamos na cama, no final da noite e eu estava tentando fazer o que há muito tempo não parava para fazer com ela, ajudá-la a decorar falas.
— Vai ser uma personagem muito calma e doce. — comentei.
— Sim, e com razão. Ela é uma pediatra, precisa ser menos enérgica. — dizia ela, marcando seus pontos no texto com uma caneta. — O que achou das primeiras cenas? — perguntou.
— Meigas. Eu já vi que vou ficar babando você toda vez que aparecer.
— Então nem vou contar o que vai acontecer com ela no final da temporada.
— O que vai acontecer? Ela não vai morrer, vai?
Emma riu.
— Não, ela não vai morrer. Mas vai passar por vários problemas.
— Mas por quê? Ela aparenta ser uma pessoa tão boa. — acrescentei.
— E ela é, mas, às vezes nas histórias, os personagens precisam de alguns problemas para mudarem um pouco o foco do enredo e com ela não vai ser diferente.
— Bem, tem razão. — refleti brevemente.
Emma juntou todos os textos, deixando-os de lado para se cobrir melhor e desligar a luz do abajur. Eu esperava ela, no meu lado da cama e a recebi nos braços, pronta para descansar. Voltamos a dormir daquele jeito e parecia que aquilo andava nos fazendo bem. Achei que não fossemos conversar muito, porém ainda conseguia sentir ela acordada depois de um tempo.
— Está sentindo alguma coisa, meu amor? — fiz a pergunta enquanto passava as mãos pelas costas dela por cima da regata folgada que ela gostava de vestir para dormir. Emma havia colocado uma das mãos sobre um dos meus seios, sem malícia, também fazia carinho em mim de um jeito inquieto, o que não deixei de observar, por isso questionei.
— Nada. Só estou um pouco sem sono.
— Tem certeza?
Vi ela levantar o rosto para mim.
— Por quê? Não acredita em mim?
— Estou achando você inquieta. Quer me contar alguma coisa?
Acho que acertei quando questionei Emma, pois ela desviou rápido os olhos dos meus, como quem escondia algo.
— Acho que não daria para esconder de você e eu não devia esconder.
— O que foi?
— É algo sobre a personagem. Há algo que não contei.
— Como o quê? — a olhava um pouco ansiosa.
Minha loira... ops! Minha morena, se sentou, ligou novamente a luz do abajur do lado da cama e colocou os cabelos atrás das orelhas. Respirou fundo, acho que estava procurando uma forma de me contar sobre o que queria.
— Se lembra na semana passada quando disse estar um pouco insegura sobre a personagem ser mãe? — ela me olhava bem nos olhos e eu assenti. Swan estava tomando cuidado ao falar, senti que vinha uma bomba, mas não era bem isso. — Eu decidi que precisava fazer uma pesquisa e pedi aos diretores para ir a um orfanato. — quando disse isso, ela encolheu os ombros feito uma criança que acabara de levar bronca.
Meu rosto ferveu, não de raiva, longe disso, mas de vergonha por ver como era difícil para Emma me contar coisas como essa. Eu me sentei e fiquei bem de frente para ela, olhando-a com grande seriedade. Peguei em sua mão, a apertando.
— Você... Quer dizer que foi ver crianças abandonadas?
— Sim. Eu precisava ter um contato com crianças que não tinham família, pois a personagem vai adotar um menino, então eu precisava entender como isso funcionava. — era latente como Swan não parecia confortável me contando isso.
Não a repreendi, de maneira alguma, alisei seus dedos e sorri da forma mais sincera possível.
— Por que achou que não devia me contar o que você fez?
— Eu não sabia se você ia gostar de saber.
— Meu amor — aproximei meu rosto do dela. — Nós prometemos uma para a outra que diríamos tudo o que estamos sentindo, não foi? Se você precisava disso fez a melhor coisa. Quando você foi ao orfanato?
— Na sexta-feira passada, depois de acertar tudo com os produtores. Sabe, Regina, eu não esperava que aquelas crianças fossem tão solitárias.
— Na sexta. Claro. Foi por isso que você chegou um pouco mais tarde. — lembrei. Engoli em seco. — Sozinhas, carentes. — parei para pensar junto dela.
— Tão carentes que quando comecei a brincar com elas não conseguia sair mais. Por isso demorei. — Swan se sentiu mais à vontade para contar. Eu deixei ela falar de cada uma das crianças que viu, e do jeito como ela ficou emocionada, acabei de ouvi-la sentindo meus olhos marejados da mesma forma, foi inevitável. — Hey, você não ficou chateada comigo, ficou? — Emma me perguntou e fiz que não.
— Claro que não, meu amor. — toquei em seu rosto, selando-a de levinho e depois a abracei. Era minha forma de dizer que estava tudo bem, que eu a entendia. Na verdade eu não sei bem o que pensar de Emma ter ido ao orfanato, eu juro que não sei definir o que achei, mas ela ter me contado significa que estamos cumprindo a promessa que fizemos.
Hoje acordei com o telefone tocando logo cedo. Era uma revista querendo uma declaração minha sobre os boatos de que eu e Emma vamos nos separar. Por sorte, Emma estava no banho quando o telefone tocou. Por pouco não fiz a besteira de contar o que eu faria para a repórter que estava me ligando, mas mandei que ela assistisse a TV quando fosse uma da tarde para ela saber se eu ia ou não me separar de minha esposa. Se era o que tanto queriam saber, estava na hora de falar.
Fui para o trabalho decidida a usar do meu poder como apresentadora para dar a bela notícia ao país todo. Liguei para Killian e pedi que ele avisasse o pessoal do L.A. Diário e as revistas que ligassem a TV na hora U.S.A News pois eu deixaria a notícia mais importante para o fim.
Terminei de retocar a maquiagem e editei as notícias do dia para entrar no ar munida de confiança. Ajeitei meu blazer cor de vinho que escolhi a dedo para entrar no ar hoje. Era o blazer mais bonito que eu tinha. Andei a passos pesados pelos corredores dos estúdios, praticamente marchando para minha missão do dia. Óbvio que as pessoas me olhavam, algumas queriam me perguntar sobre o que andava acontecendo na minha vida com Emma, eu percebia os olhares. E eu daria a resposta a elas sim, elas veriam como.
Avisei Archie para focar bem em mim no último minuto do jornal, eu faria sinal a ele quando entrássemos no intervalo. Confesso que no início achei a ideia um pouco absurda, até porque falar da vida pessoal num jornal da emissora poderia me custar o emprego, mas se aquilo acontecesse, pelo menos eu teria resolvido meu problema com a imprensa. Seria um preço a se pagar pela fama e eu acabei arcando com as consequências quando decidi que o U.S.A News era a saída.
O jornal começou como em todos os dias. Dei boa tarde ao público e comecei contando sobre a bolsa de valores e o caos nos aeroportos do país. Entre uma ou duas notícias eu dava o visto no papel imprimido sobre a mesa, me aproximando das notícias finais e do último intervalo.
— A seguir, a previsão do tempo nas principais capitais do país. O U.S.A News volta em dois minutos. — anunciei antes do último intervalo. Vi o cronometro que ficava ao lado da placa de no e fora do ar começar a rodar novamente, então fiz o sinal a Archie que me mostrou o polegar. Estava tudo pronto. Voltamos do intervalo. — E agora vamos saber como andam as condições climáticas pelo país nessa segunda-feira com os nossos correspondentes... — felizmente, hoje não havia ocorrido qualquer tornado, desastre aéreo, matança ou alguma coisa muito incomum que tomasse demais o tempo do jornal, acabaria pontualmente uma e quarenta e cinco da tarde, e eu devia aproveitar os sagrados segundos finais que normalmente serviam para dizer o “boa tarde” de sempre. — Muito obrigada pelas informações, Catherine. — agradeci a última correspondente e fechei todas as notícias, era minha deixa. Ergui os olhos do papel para a câmera um que Archie operava, então sorri displicentemente, propositalmente e disse: — E uma última notícia... Eu, a apresentadora do U.S.A News, Regina Mills, continuo casada com a atriz vencedora do Oscar, Emma Swan. Infelizmente, para as más línguas, o meu relacionamento com minha esposa vai muito bem, obrigada, não há previsão alguma de separação. — voltei a sorrir maleficamente, tão igual a uma vilã conseguindo o que quer. — E Emma, meu amor... Eu amo você, mais do que todas essas pessoas possam imaginar. — concentrei o tom suave nas últimas palavras e pus um ponto final na transmissão. — Tenham todos uma boa segunda-feira, até amanhã.
Quando a vinheta soou pelo estúdio, Archie afastou o close de mim aos poucos, enquanto eu organizava os papéis e sentia meu coração vir na boca de tão nervosa. O sinal de fora do ar ficou vermelho e pude relaxar na cadeira, passar a mão sobre meus cabelos e notar que o estúdio inteiro me olhava abismado. Os contrarregras, os cameramen e todo o restante da produção. O diretor dentro da sala de edição estava me olhando de um jeito que não consegui decifrar.
Me levantei da cadeira devagar, recolhi os papéis e caneta e sai de cabeça erguida dali sem olhar para os lados. Me tranquei no meu camarim, e sorri ainda nervosa mas extremamente satisfeita.
Alguns minutos depois, enquanto eu via meu celular pipocando de mensagens e ligações, sem poder atender nenhuma, ouvi baterem na porta do camarim. Era o diretor que havia saído da cabine de edição e veio falar comigo. Eu esperava levar uma bronca dele, comecei a pensar que estava tudo perdido, que havia perdido o emprego. Mas eu estava forte, eu aguentaria qualquer baque que viesse, e felizmente não era o que eu estava pensando.
— Eu fico muito feliz por você e sua mulher não se separarem, mas fico mais feliz ainda por imaginar a audiência que vamos ter a partir de amanhã. É de apresentadoras como você que precisamos, Regina. — disse ele, segurando a maçaneta da porta e fechando em seguida com um sorriso muito aliviado. Agora quem estava boquiaberta era eu.
Eu estava arrumando minhas coisas para ir embora, meu telefone estava em polvorosa quando ouvi novamente a porta, mas quem era não esperou que eu abrisse. Ela entrou feito um tornado no camarim. Eu juro que não sei como chegou tão rápido na emissora. Tinha corrido, estava esbaforida e corada, foi logo me pegando pelos ombros.
— Eu estava a cinco quadras daqui, buscando nossas roupas na lavanderia e assisti a tudo. — Emma mal conseguia falar. — Essa foi a melhor declaração de amor que eu já pude receber na vida. Quer saber o que eu acho também? Que ninguém pode imaginar o quanto eu amo você. Obrigada por isso. — ela me agarrou, comovida, contente e me apertou tão forte que não pude responde-la. No desespero segurei no rosto dela, aproximei nossas testas e sorri de olhos fechados, deixando aquele momento ser nosso.
Agora ninguém ia nos importunar, pelo menos estávamos livres dos boatos da separação. Eu sabia que valeria a pena fazer aquilo e valeu. Só por ver a alegria de Emma comigo ali, valeu tudo o que eu disse, e eu ainda achava pouco a se fazer por minha esposa.
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