Não há outro amor para mim.

24 Quatro anos e duzentos e vinte e quatro dias.


Notas iniciais
Olá, pessoal. Como prometido estou de volta com mais um capítulo dessa fanfic, e aqui vocês sabem que missão dada é missão cumprida. Então no capítulo de hoje vamos começar a ver a situação delas nos dias atuais. O que mudou para Regina estar tão nostálgica? Parte disso vocês vão saber. Espero que apreciem. Me desculpem qualquer erro. Façam uma boa leitura.


Custei exatos quatro anos e duzentos e vinte e quatro dias para me dar conta de que meu único e primeiro casamento estava andando em cima de uma corda bamba. Lembro-me perfeitamente da noite de ontem. Deitada na cama com Emma ao meu lado, metade dos nossos corpos cobertos pelo lençol de cento e cinquenta fios. Detalhe para a parte de cima das nossas roupas de dormir, intactas. Sem nenhum amasso ou gota de suor. Vinha acontecendo desde o ano passado quando completamos seis anos de casadas, exatamente um mês após nosso aniversário que nem comemorar nós comemoramos porque estávamos trabalhando demais e não tínhamos tempo de parar só para jantarmos juntas. Como se nada fosse mais importante que o jornal para mim e o cinema para Emma.

Naquele instante estávamos olhando para o teto, tanto ela quanto eu, na espera de uma tomar a atitude de ficar por cima. Sim, eu estou falando de sexo. Transar está se tornando cada dia menos frequente, e eu começo a suspeitar que Emma só o faz comigo para não perder o costume. Sinceramente, só estamos fazendo amor ainda se eu a procuro na cama e ela acaba se sentindo obrigada a tal. Às vezes sinto medo de procurar Emma para isso, ela anda muito estressada, como nunca foi antes. Podem ser os filmes, os poucos trabalhos que ela teve esse ano ou até mesmo eu. Espero que esteja errada. Durante esses quatro anos temi muito que nosso relacionamento fosse virar rotina, no entanto estamos tentando superar a terceira vez que tudo se torna mesmice até na cama.

E não muito diferente do que esperava, Emma quis tomar as rédeas dessa vez. De súbito senti seu corpo se encaixar no meu ali embaixo do lençol, ela me olhar nos olhos, conseguindo fazer apenas porque a luz do abajur na cômoda ao meu lado estava ligada, e enfiar um braço na direção das minhas coxas. Swan fitava meus olhos de uma forma embaraçadamente formal, como se pedisse licença para colocar seus dedos dentro de mim. Eu acompanhava sem piscar, sentindo ela afastar meu short e calcinha e me invadir.

Não foi rápido, muito menos demorado. Não sei explicar quanto tempo levou, mas Emma pegou pesado e isso foi muito gostoso.

Precisei fechar os olhos, querendo apenas sentir a onda de prazer dominar meu corpo. Eu não queria gemer, mas ao invés disso gritei quando Emma curvou os dedos dentro de mim. Quis beijar minha mulher depois de gozar, mas quando procurei seu rosto para puxar até meus lábios, ele já estava descendo pelo meu ventre se enfunando entre minhas coxas que ela afastava bruscamente para os lados. Continuei a gemer, dessa vez mais baixo, quase inaudível como arfar. De repente minha loira terminou de se satisfazer com meu sabor e saiu do outro lado da cama se levantando, lambendo os dedos. Ela foi até o banheiro que tínhamos no quarto, lavou as mãos, escovou seus dentes novamente e voltou para se deitar ao meu lado. Numa tentativa de ser carinhosa, me abraçou por trás, só que não ficou comigo nessa posição nem por meia hora.

Havia algo nos constrangendo, uma sensação que não sabíamos ao certo o que era, mas nos impedia de ter as costumeiras conversas que gostávamos tanto de ter naquela altura da noite. De repente não havia mais assunto, nem que tentássemos começar um. No final já estávamos discutindo. Às vezes brigávamos porque uma havia comprado demais no cartão de crédito, o que sempre fazíamos e conseguíamos controlar bem, nunca foi um problema comprar demais. Agora Emma alfinetava até sobre meus penteados usados no jornal que eu apresentava. Antigamente ela elogiava qualquer tipo diferente que fizessem no meu cabelo. E quem me dera que fosse apenas isso. Minha esposa já não tem mais a mesma paciência para conversar comigo, talvez por essa razão que ontem não dissemos nada, nem demos boa noite uma para a outra.

Hoje de manhã, vendo Emma dormir pesadamente, porém de um jeito lindo, comecei a pensar se não seria interessante fazer outro corte de cabelo, seria o quinto. Acho que me esqueci de mencionar que meus cortes variam de acordo com minha fase, vou tentar explicar. Se você quer que eu resuma os meus quatro anos seguintes até o dia de hoje, posso tentar ser delicada; uma promoção de apresentadora de jornal local para apresentadora em cadeia nacional, quatro novos cortes de cabelo, uma nova Mercedes na garagem e um vício em chá de maracujá na parte da noite. Onde Emma está incluída nisso? No chá de maracujá que foi ideia dela. Mas sem piadas agora, Swan está empenhada em um grande projeto, uma série de TV sobre medicina, algo tipo Grey’s Anatomy. Os produtores a querem como protagonista. É claro que eu apoio muito tudo o que ela faz e torço para que com esse trabalho ela se acalme um pouco. Swan andou trabalhando muito no último ano e nesse decidiu se dar umas férias, elas não fizeram bem pelo o que está parecendo.



Antes que desse minha hora de ir trabalhar (agora um pouco mais tarde por ser um noticiário em cadeia nacional exibido na hora do almoço), desci para fazer o café da manhã de Emma. Deixei pronto na mesa, torradas com geleia, panquecas de mel, e suco de laranja, do jeito que ela gostava. Emma desceu às nove e meia, com a roupa de dormir toda ao contrário. Daquela forma quem visse pensaria que havíamos arrasado no sexo na noite anterior, o que não foi verdade por um lado.

— Bom dia, querida. — eu disse, terminando de fazer uma panqueca para mim, de costas para ela.

— Bom dia. Dormiu bem? — perguntava ela em meio a um bocejo, quase não entendi o que ela dizia.

— Dormi sim, melhor do que esperava. — menti só para agradá-la. Ela me deu um sorriso simples e se sentou à mesa, esperando educadamente por mim para começar a tomar café.

— Hum, que bom.

Coloquei minha panqueca em um prato e me sentei finalmente, de frente para ela. Eu tinha trocado de roupa, colocado uma calça jeans e camiseta. Perdi o costume de me arrumar para o trabalho antes de tomar café pois ultimamente eu andava desastrada demais e corria o risco de derramar suco ou geleia nos meus tão amados blazers de repórter.

— Então, o que fará hoje? Você tem reunião com o estúdio? — perguntei, observando Emma pegar garfo e faca para começar a devorar as panquecas dela.

— Só amanhã. Hoje eu vou levar o Pongo no veterinário, ele está com um incomodo naquela orelha, pode ter entrado um bicho de jardim.

Falando em Pongo, ele tinha acabado de entrar, depois que enchi seu pote de comida antes de ir preparar nossa refeição. Era um cão velho que estava ficando cada ano mais velho, haviam se passado quatro e agora ele tinha dez anos, mastigava devagar. Ele se parece com Emma nesse aspecto, quer comer tudo mas acaba demorando quando o prato está cheio.

— Ótimo. Aproveite e veja se a carteira de vacinação dele está em dia. Não me lembro se a última vacina que ele tomou foi ainda esse ano. — eu disse após mastigar o que tinha no prato.

Emma me olhou de súbito com seus olhos verdes cheios de seriedade. Senti minha espinha se arrepiar como se ela fosse dizer alguma coisa grave. Para minha sorte ou azar isso aconteceria mais tarde.

— Aham. Chamei o casal dos contos de fadas para vir aqui em casa hoje, tem algum problema? — ela me perguntou ao invés de dizer o que eu estava esperando. Senti um alívio imediato.

— Ruby e o Kill? Claro que não tem problema. A que horas eles chegam?

— Combinei com a Ruby de vir umas oito. — Emma falou limpando a boca em um guardanapo antes disso.

— Ok, eu trago uma sobremesa para nós. — falei, dando um espaço para terminar meu café da manhã e Emma também. Terminamos juntas e nos levantamos ao mesmo tempo. Swan ficaria encarregada de lavar a louça, mas antes que eu fosse subir para me arrumar a puxei pelo braço e roubei dela um abraço apertado. — Eu te amo. — sussurrei, fechando os olhos, sentindo minha garganta arder em um nó.

— Eu sei. — ela afastou meu rosto pouca coisa do dela para conseguir me olhar e fez carinho nele, nos meus lábios e bochechas. Eu sei que ela queria me dizer mais coisa, acho que não conseguiu, ela podia estar sentindo vergonha. — Se você ficar aqui mais tempo vai se atrasar.

Assenti, disfarçando minha vontade de chorar e me soltei dela para correr dali e me arrumar. O que diabos estava acontecendo? É isso que estou me perguntando há meses e não consigo ter uma resposta. Na verdade eu sei qual é a resposta, só não quero assumi-la, pois assumir a culpa nessa história é me deparar no quão pouco fiz por Emma em nosso casamento.

Fui trabalhar com aquele pensamento na cabeça. Quando tirei meu Mercedes da garagem para sair, percebi pela primeira vez em sete anos a moto Indian de Emma estacionada ao fundo, coberta por um pano velho e empoeirado. Só então me lembrei que aquela moto estava ali desde que nos mudamos. Havia um defeito no motor que Swan deixou para resolver quando tivesse tempo. Ao que parecia ela havia se esquecido disso. E pensar que com aquela moto fomos juntas parar em uma praia no litoral do Oregon, onde ela me pediu para morar com ela. Acho que essa foi a única grande coisa que fiz por Emma no nosso relacionamento. Céus! Eu sinto tanto ódio de mim ao me lembrar desses detalhes.



— O U.S.A News volta amanhã. Tenham todos uma boa tarde e uma excelente quarta-feira. — dizia eu olhando para a câmera com um sorriso simpático nos lábios, esperando a vinheta do programa soar pelo estúdio.

Era algo diário, dar um visto nas notícias do dia que eu havia lido para o público, desejar boa tarde e sorrir até a vinheta começar para então retirar o microfone da roupa e ver o sinal de fora do ar ficar vermelho no topo do estúdio. Eu havia me acostumado com isso, desde quando comecei a trabalhar para a emissora local. A experiência me rendeu o U.S.A News, depois do produtor executivo do jornal se apaixonar por mim. Eu digo se apaixonar brincando porque o homem vivia assistindo diretamente do estúdio os jornais que eu apresentava e após me descobrir me ofereceu um contrato irrecusável com a nova emissora. Ele sabia que poderia dar certo no jornal dele e deu. Agora eu era conhecida no país inteiro. Não era mais a moça do jornal da manhã e sim a moça do jornal da hora do almoço. Nesse quesito, acabei competindo com Emma sem querer a fama. As pessoas nos paravam nas ruas, tiravam fotos conosco e pediam autógrafos. Claro que comigo era menos, mas até o público enjoar e se acostumar com minha cara na TV, levou um tempinho. Isso por outro lado nos rendeu dinheiro. Os produtos que anunciávamos passaram a vender pelo país todo e nós lucramos à beça.

Passado mais um dia de trabalho, saí do estúdio de gravações e troquei de roupa no camarim que acabou virando meu escritório na nova emissora, já que eu tinha uma nova função além de apresentadora, eu também editava algumas matérias. Lá estava minha foto com Emma na praia e a de minha mãe comigo no colo bem ao lado. Estava na hora de colocar uma foto nova nossa com Pongo no meio. Quando pensei nisso, o olhar de Emma na hora do café da manhã de hoje me veio em mente. Aquele mesmo calafrio subiu minha espinha.

Voltei para casa com uma torta de nozes no banco do carona. Eu havia passado em uma confeitaria que gostava muito perto do estúdio, sabia que nosso casal de amigos era fã das tortas de lá também, então não pensei duas vezes. Quando cheguei em casa, vi o Chevrolet de Killian estacionado ao lado da calçada, eles já haviam chegado pouco tempo antes.

Entrei em casa e ouvi a risada de Emma. Ela parecia estar contando uma piada muito engraçada porque Ruby e Killian também riam alto. No que eu passei pelo portal da sala de jantar os vi sentados, eles acenaram para mim, Emma ergueu um copo com o vinho que Kill havia comprado para bebermos no jantar.

— Vocês já jantaram? — perguntei, deixando a torta sobre a mesa.

— Estávamos esperando por você. — Ruby disse se levantando para ajudar Emma que tinha saído para buscar a comida depois de me cumprimentar.

Fiquei a sós por dois minutos com meu amigo. Me sentei a sua frente na mesa e ele ergueu suas sobrancelhas em cima dos olhos azuis que tinha. Eu sabia o que ele ia me perguntar.

— Melhor?

Fiz que não, em silêncio. Killian sabia das minhas crises com Emma. Ele e Ruby sempre acompanharam tudo de perto.

— Você já pensou no que fazer? — perguntou ele, de novo, mas as duas voltaram da cozinha e tivemos de desviar do assunto.

O jantar foi descontraído, nos divertimos conversando. Ruby e Killian finalmente haviam se casado depois de muitos altos e baixos do meu amigo no L.A Diário. Agora estável em sua posição no jornal, ele conseguira oficializar o casamento com Ruby que havia acabado de arranjar um novo emprego em outra série de TV Teen. E agora eles falavam de como havia sido a viagem de lua de mel que tinham feito recentemente.

— Mas bem, e vocês duas, o que andam fazendo? — Ruby perguntou com a maior inocência.

Emma e eu trocamos olhares. Deixei que ela respondesse:

— O de sempre. — disse ela terminando de beber o que havia em sua taça com vinho.

— É isso... O de sempre. — eu falei, entre um riso sem jeito.

— Pelo menos tentando. — Emma continuou. — É o que se faz quando as coisas não vão bem das pernas.

— Como é? — perguntei, virando o rosto para minha mulher. Não entendi o que ela havia dito.

— Tentando, não é, Regina? Estamos tentando. É isso que estamos fazendo nos últimos seis meses. — Emma me olhou de lado. Se levantou da mesa e recolheu os pratos do jantar e de sobremesa.

Nossos amigos ficaram tão sem jeito que decidiram ir embora com a desculpa de que já estava tarde e precisavam acordar cedo no dia seguinte.

Nos despedimos deles na porta e quando finalmente foram, fechei a porta, ficando de costas para a sala por alguns segundos antes de procurar Emma.

Ela estava sentada no sofá da sala segurando a cabeça com ambas as mãos, pensativa. Tomei toda a coragem do mundo e me aproximei sem dar uma palavra antes que ela dissesse algo.

— O que está dando errado conosco, Regina? — ela perguntou.

— Meu amor, a culpa é minha, estou muito ausente, e...

— A razão não é essa, você sabe que não é. Já passamos por crises por falta de tempo, então não diga que é porque anda ausente. Nós sempre dêmos um jeito.

Eu engoli em seco. Tomei ar com a boca. Meu olhar ficou perdido pela sala, procurando as palavras que devia dizer.

— Rotina. Talvez seja isso.

— Pela terceira vez. — Emma falou de forma cansada, coçou a cabeça.

— Você devia me dizer, Emma. Devia abrir o jogo comigo, mas você está calada, você não reclama, e quando faz isso acaba aceitando, dizendo que vai ficar tudo bem, que não devia ter reclamado. Você vive se contradizendo. Isso também e rotina, sabia? — eu disse, gesticulando, por fim cruzando os braços. Parei de frente para ela que me levantou um olhar tenso.

— E você aceita todas as vezes, não é? Você acha bom porque convém a você que eu assuma nossos problemas. Há três anos tudo parece a mesma coisa todos os dias. Há dois anos não terminamos uma conversa de forma decente. Há um ano não consigo mais sentir vontade de transar com você. — esbravejou, logo se levantou. — Eu tô de saco cheio. — Emma me encarava olho no olho.

Cerrei meus punhos, tentando controlar a vontade que tive de quebrar o primeiro objeto que eu visse pela frente.

Então disse:

— É isso que você acha? Que eu me esquivo dos problemas? Que eu aceito quando você assume a culpa? Eu também me sinto culpada.

— Não. Até agora você não fez nada para melhorar nada. É como se só existisse a mim nesse casamento. — Emma estava vermelha dos pés a cabeça. Por um momento achei que iria enlouquecer. Pela primeira vez ela disse o que pensava de mim no relacionamento. Algo me disse que não foi o vinho que a impulsionou àquilo. — Eu estou cansada, estou muito cansada. — virou a cara e saiu andando pela sala com as mãos enfiadas no bolso da calça.

— Me perdoa, Emma. Me perdoa, meu amor. Eu vou consertar, eu sempre quis consertar. — andei até ela e a peguei pelos ombros. — Eu sempre quis melhorar nossa situação, nossos entendimentos, nossa vontade. Mas é como se isso estivesse se perdendo, eu não sei como isso começou. Não sei de onde veio isso.

— Eu não vi você fazer nada até hoje. — Emma me olhou com uma expressão vazia. — Meu café da manhã não é a única coisa que você pode fazer por mim.

Swan me fez larga-la devagar e ficou me olhando por algum tempo.

Suas palavras pela primeira vez me fizeram ter medo, um medo absurdamente grande. Sempre que tínhamos aquela conversa ela não chegava na metade e assumia a culpa, me pedindo desculpas por ter esbravejado. Só que dessa vez algo havia mudado nela e pode ter sido justamente ela estar de saco cheio.

Ela subiu, me deixando sozinha na sala.

Estou de pé há duas horas, estática, correndo desesperadamente dentro da minha cabeça atrás de uma solução. Preciso fazer alguma coisa.

Notas finais
Bom, acho que Emma é a voz da nossa indignação nos capítulos anteriores. Se demorou esse tempo todo para Regina sentir como as coisas iam mal, será que é tarde para ela tomar alguma atitude? Até o ano novo tem mais capítulo. Aguardo vocês até lá. Um grande abraço e boas festas a todos.