Não há outro amor para mim.
16 Meu desastre em Beverly Hills.
Notas iniciais
Em Los Angeles a vida era muito diferente de Portland. Enquanto na minha cidade eu demorava apenas alguns minutos para ir da mansão ao trabalho, em L.A. eu demorava horas presa em engarrafamentos se me atrasasse um pouco para sair de casa. Felizmente com o tempo aprendi a lição, até porque nossa casa ficava distante de onde eu e Emma trabalhávamos.
L.A. era uma cidade bastante turística, bem mais agitada que as do Oregon, então dá para se imaginar o quanto de trabalho se tinha no jornal, até para uma simples revisora como eu. Como aquele era um cargo temporário, nos três meses seguintes Gold me colocou na minha área favorita novamente: a edição. A partir de então, passei a chegar um pouco mais tarde em casa, mas quase nunca encontrava minha esposa me esperando.
Emma havia aceitado o convite para protagonizar uma comédia romântica, logo depois do sucesso de seu primeiro longa, Sent to Hell. Era uma aposta grande coloca-la como protagonista de um filme em início de carreira. Porém, minha esposa provaria que o investimento nela valeria a pena.
Mesmo encarando a pesada rotina de gravações e só poder me ver de vez em quando nos dias normais de semana, Emma nunca perdia seu romantismo. Certa noite eu mexia no meu notebook, sentada no sofá da sala quando ela chegou em casa sorrateira com um presente para mim que escondia para trás com uma mão. Engraçadinha como ela sempre foi, entrou no cômodo tentando não fazer barulho, mas eu a percebi de canto de olho.
— Meu amor — eu disse tirando os óculos que tinha na cara. — Achei que fosse dormir sem te ver, você estava demorando tanto.
— Hoje gravei umas cenas em Palm Springs, por isso demorei. Você está legal? — perguntou ela vindo na minha direção.
Percebi também que ela tomava cuidado ao descarregar a mochila das costas.
— Eu estou bem. Ah, é? E como foi? — perguntei a observando.
— Foi muito bom! — Emma começou a andar na minha frente. Larguei o notebook no sofá e a olhei curiosa. Ela fazia uma carinha muito meiga. — A locação que arranjaram é bem bonita.
— Hum, entendi.
— E você? O que fez o dia todo? — ela parou finalmente, colocando outra mão para trás do corpo.
— Trabalhei, ora. Cheguei ainda agora, tomei um banho e vim terminar de ler umas notícias. Emma, o que é que você tem aí atrás, hein? — chegou uma hora que não aguentei.
— Aqui o quê? — ela fez cara de boba.
— Aí atrás, o que você tem aí? O que está escondendo? — eu esticava a cabeça tentando enxergar o que ela tinha para mim.
— Aqui nas minhas costas? Nada. — fez um bico para baixo.
— Emma, me mostra, vai! — me levantei indo até ela, tentando pegar em seus braços ou olhar para suas mãos. Ela não deixava. Apelei para cócegas na barriga dela (ela sempre foi sensível nessa parte do corpo). Fui a empurrando até encurralá-la na parede e ela então revelou. Era uma linda caixa em formato de coração cheia de bombons de chocolate dentro. Minha esposa andava chateada de não ter mais tanto tempo para namorarmos como fazíamos antes. Por isso, sentia-se na obrigação de sempre chegar em casa com algum agrado para mim naquela época. Perdi as contas de quantas caixas de bombons ganhei, algum outro doce, joias, bichinhos de pelúcia, cartões ou até mesmo flores, e eu como toda romântica achava aquilo lindo.
Numa outra vez quando arranjei folga de dia por ter virado a madrugada na edição do jornal, Emma deu uma fugida nos intervalos das gravações. Quando chegou em casa me encontrou dormindo e quis se aproveitar da situação. Acordei com os beijos dela em meu pescoço e suas mãos intrusas me apalpando.
— Chegou mais cedo? — perguntei me virando para ela que já se acomodava em cima de mim.
— Fugi um pouquinho, queria te ver. — ela respondeu me enchendo de beijos no rosto enquanto eu tentava me espreguiçar. — Conseguiu dormir um pouco? Naquela hora em que você chegou eu nem tive tempo pra te dar um beijo assim — ela me roubou um selinho demorado. — Eu tive de correr para não pegar transito.
— Praticamente me enfurnei aqui depois de um banho quente. — falei esfregando o rosto em seguida. Eu devia estar com a cara toda amassada. — Planejei da gente jantar juntas ontem, desculpa ter te deixado esperando, meu amor.
Emma rolou de cima de mim e se levantou, começando a tirar a roupa ao lado da cama.
— A gente muda os planos. Vamos jantar hoje.
Me ajeitei me sentando e a olhando ficar completamente nua na minha frente, com cara de boba.
— O que você está fazendo?
— Vamos aproveitar o que não aproveitamos ontem começando por agora. — ela falou terminando de tirar sua calça e sapatos. De repente se atirou na cama me dando um baita susto mas eu nem tive tempo para falar. Ela me agarrou pela cintura, me deitando outra vez, tirando meu baby doll do corpo com certa pressa e nisso embarcamos no festival de beijos e carícias que ficamos até o anoitecer.
Antes de sairmos para jantar, Emma foi tomar seu banho enquanto eu me maquiava no mesmo banheiro. Estávamos conversando sobre uma possível mudança no meu cargo no jornal quando Emma decidiu falar sobre o assunto que eu achava que já havia esquecido.
— Você já perguntou para sua mãe o que ela acha sobre adotarmos?
— Adotarmos o que, querida? — murmurei.
— Uma criança — ela disse desligando a ducha e me olhando do vidro do box.
— Ah, não na verdade. Mal tive tempo de ligar para ela. — eu falei terminando de passar o batom. — Mas... você não me disse como foi gravar em Palm Springs. — mudei de assunto rapidamente.
— Claro que disse, você não se lembra? Foi muito bom, é muito bonito. Eu gostaria de te levar lá qualquer dia desses. Quando você tiver uma folga quero que vá a uma das gravações... A praia de lá é incrível, sabe? Numa das cenas o diretor pediu para repetirmos umas dez vezes... — Emma ficou tagarelando ao sair do box e molhar todo o banheiro naquele péssimo habito dela de sair sem toalha. Fiquei a olhando com cara de reprovação, mas meu pensamento era outro. Swan tentava falar sobre adoção toda vez que tinha a oportunidade. As desculpas para desviar do assunto já estavam se esgotando. Eu tinha medo de dizer não a ela por enquanto. Para mim era cem mil vezes melhor ouvir sobre o trabalhar do que tocar no assunto da adoção. Eu não estava preparada de maneira alguma para isso.
Fomos jantar em um restaurante em Beverly Hills, um lugar muito frequentado por celebridades e gente muito rica de Los Angeles. Mesmo que eu e Emma não estivéssemos ligando nem um pouco para esse detalhe foi inevitável não cruzarmos com alguém famoso. Estávamos esperando nossa comida quando avistei na mesa logo adiante de nós uma pessoa que julguei familiar. Claro, como a maioria das pessoas famosas de L.A. era uma atriz também, eu a olhando fixamente por um tempo e reconheci, era ela, Ariel Sheets. Ela fez um filme de suspense com o Nicholas Cage que gostei muito e havia assistido antes de conhecer Emma. Foi minha primeira quedinha cinematrográfica, e nossa... era bonita vista assim de perto, muito mais do que na tela do cinema. Fiquei olhando para ela quase babando, corada por tê-la reconhecido. Emma percebeu e passou a mão no ar na minha cara me tirando do transe em que eu me encontrava.
— Regina? O que foi?
— Oi? Nada! A comida já chegou? — disse desconcertada, disfarçando meu interesse na ruiva da mesa atrás de Emma.
— Não a comida não chegou. No que estava pensando?
— Em nada. Eu só achei que tinha visto alguém por aí.
— Alguém? Quem? — Emma começou a olhar para os lados.
— Ninguém, meu amor. Foi apenas impressão. — toquei suas mãos em cima da mesa. — Então, me conte como foi gravar em Palm Springs. — vacilei em perguntar pela terceira vez a mesma coisa para Emma, mas eu estava um pouco distraída com Ariel tão cintilante lá do outro lado que nem me dei conta.
— Meu bem — disse Emma entre um riso. — Você já me perguntou isso duas vezes.
— Já? — dei uma de sonsa.
— Já. O que está acontecendo? — ela pareceu preocupada.
— Nada, querida. Me desculpa, deve ter sido esse horário maluco em que o jornal me colocou ontem. — disse apertando seus dedos, só que apertei tanto que Emma chiou.
— Au! — reclamou ela tirando as mãos debaixo das minhas. — Regina, que mão pesada!
— Ah, me desculpe, meu amor. — tentei consertar pegando seus dedos para beijar e na pressa para puxar as mãos de Swan novamente acabei derrubando a taça de vinho dela, melecando toda a roupa que ela vestia. — Oh, meu Deus!
— Poxa, mas que droga! — disse minha mulher se levantando no mesmo instante. — Eu vou ter de ir limpar isso. — ela falava olhando para sua blusa de seda branca que já nem era mais tão branca com a quantidade de vinho que derrubei.
— Eu vou com você... — eu já tinha me levantado também.
— Não fica aqui para o caso da comida chegar, eu não demoro. — e Emma me pôs sentada outra vez, depois saiu abanando sua blusa como se aquilo fosse ajudar a tirar a mancha do tecido.
O que diabos estava acontecendo? Eu estava tão besta por ter visto minha ídola na mesa da frente que até desastrada eu fiquei. Pior ainda foi perceber que o restaurante inteiro estava me olhando inclusive ela, Ariel. Eu quis me enfiar embaixo da mesa, correr, fugir, tudo. A ruiva me olhava de sua mesa como todo mundo dentro do restaurante e havia parado de comer seu jantar para ver o que estava acontecendo. Meu Deus, que vergonha.
Assim que Emma voltou do banheiro pedi para irmos embora, mas antes que ela resmungasse levantei e saí com ela a força do restaurante mesmo sem termos jantado. Sei que minha esposa não entendeu nada. No mínimo deve ter achado que eu estava me sentindo mal.
Passadas duas semanas da minha ridícula reação após ver minha atriz favorita no restaurante, fui convocada para uma reunião no jornal com Gold. Meu chefe me ofereceu uma vaga como repórter na coluna de personalidades da gazeta. Fiquei um pouco relutante em relação a voltar as reportagens, porém, como comecei dessa forma em Portland poderia ser uma boa experiência para quando eu voltasse à bancada das edições, então aceitei e logo de cara fui enviada à Beverly Hills para entrevistar adivinhem quem... Pois é, Ariel Sheets.
Se eu soubesse que entrevista-la me daria uma tremenda dor de cabeça com Emma, eu jamais teria aceitado ser repórter. Graças a isso, me lembro da primeira briga que tive com minha mulher. Não é muito bom recordar da primeira e única vez em que Emma desconfiou de mim.
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