Não há outro amor para mim.
50 Lily leva uma surra.
Notas iniciais
Então minha loira havia decidido ficar. Estávamos novamente livres e desimpedidas de termos nosso filho ou busca-lo, como eu acabara de lembra-la. Contudo, sabíamos que a decisão de adotar não bastava, havia todo um processo até conseguirmos a guarda de uma daquelas crianças, e o principal nós nem tínhamos feito ainda, escolher a criança. Não escolhemos em partes, pois para Emma eu já sabia qual criança iríamos adotar. Henry. Eu me senti envergonhada por ter esquecido dele momentaneamente, mas, de fato, de todas as crianças que eu havia conhecido, a primeira a despertar meu instinto maternal — que eu jurava não existir — foi esse menino.
Quando Emma comentou sobre Henry comigo, senti que poderia sim ser ele a criança que tanto queríamos. Engraçado como as coisas mudam. Antes quem queria ser mãe era Emma, agora, sinto vontade de experimentar formar uma família. Me lembro do dia em que sonhei que era mãe de um garoto agitado que me jogou na piscina, e isso me deixou apavorada, mas com certeza agora, eu acharia bem engraçado e muito comum. Estou fazendo as pazes comigo em relação ao meu egoísmo de antes em pensar não dividir Emma ou abrir mão da nossa liberdade como casal. Sempre teremos momentos como o que estamos vivendo hoje nessa cama, onde estou a olhando nos olhos, deitada a sua frente, mesmo sendo mães. Eu não devia me preocupar tanto mais, já era madura o suficiente para ter esse tipo de pensamento.
Para não sermos injustas com as outras crianças, Emma me contou sobre cada menino e menina que vivia no orfanato que frequentávamos (ela conhecia todos sem exceção). Todas as histórias eram tristes. Seus pais haviam morrido ou haviam as deixado para adoção, isso quando não eram filhos de mulheres solteiras abandonadas pelos namorados. Eu via como minha mulher se emocionava ao falar deles, de certa forma acabava me emocionando também. Diante de tantas histórias, tive vontade de adotar todas as crianças que Emma citou, mas só uma poderia ser nosso filho.
Para começar, tive de acalmar os ânimos de Swan. Ela podia ter escolhido ficar para começarmos nossa família em breve, porém não havia comunicado ao diretor do filme, então era quase a mesma coisa que dizer ao homem que a proposta ainda estava de pé. Então lembrei ela que estava abandonando um milhão de dólares e não sei se ela ficou feliz por isso.
— Às vezes é preciso escolher o que é certo. Dinheiro é muito bom, é maravilhoso, mas nem sempre o que precisamos fazer para tê-lo é vantajoso. Eu jamais iria para Vancouver trabalhar em uma grande produção se minha mulher e filho precisassem de mim. — ela comentou, enquanto eu colocava um pouco de suco de uva em dois copos para nós duas na pia da cozinha. Depois do final de tarde quente que tivemos, a fome bateu fortemente nos nossos estômagos como quase sempre acontecia, então era hora de repor as energias com um lanche. Vestimos os roupões e fomos comer alguma coisa.
— Fala como se já tivesse um filho. — brinquei.
Ela sorriu de um jeito engraçado, quase bobo.
— Foi a conversa que nós tivemos. A sensação que eu tenho é que uma criança vai vir correndo daquele corredor pedindo para assistirmos o filme do Rei Leão com ela.
Dei risada.
— Ou Madagascar. — vim em direção a mesa e me sentei em seu colo, colocando os copos sobre a mesa. Emma já beliscava o sanduiche de pasta de atum que tanto gostava e eu ganhava alguns pedaços dele na boca. — Nós vamos precisar nos acostumar com um monte de coisas. Por falar nisso, vamos também precisar arrumar aquele quarto desocupado lá em cima.
Emma encostou o queixo em meu ombro.
— Primeiro precisamos saber se é um garoto ou garota que vem para cá. Mas eu sei que você quer um menino.
— Não tenho certeza, Emma. Aquela hora você falou sobre Henry, mas e se ele não quiser vir?
— Você duvida que ela queira? Ele adora você, Regina. Devia saber disso.
— Eu sei, mas...
— Ouça, por que não pergunta para ele? — ela sugeriu, me olhando como se acabasse de ter uma grande ideia.
...
— Então vocês duas querem adotar, finalmente. — perguntou a senhorita Blue, com satisfação no rosto.
— Depois do que tentamos não ter dado certo, pensamos que esse seria o melhor jeito. — respondeu Emma.
— Eu sinto muito que não tenha conseguido engravidar, Emma, porém, você sabe que muitas mulheres que não conseguiram ter filhos de forma tradicional adotam e não se arrependem.
Eu estava parada perto da janela da sala, de braços cruzados, vendo alguns meninos brincarem no pátio. A senhorita Blue começou a falar sobre as medidas que devíamos tomar para adotar uma criança daquele lugar, mas perdi o foco na fala da freira quando vi Henry aparecer com uma bola de futebol americano e se juntar aos outros meninos.
— Eu volto já, continuem conversando. — eu disse, saindo da sala com pressa, andando no corredor do convento apressada para chegar logo ao pátio.
Apareci numa das portas e um dos garotos me viu. Todos vieram dar um “oi” muito gentil, o que me fez sorrir espontaneamente. Talvez fosse a primeira vez que eu abria um sorriso daqueles para crianças. Quando as crianças terminaram e voltaram à brincadeira, Henry me olhava um pouco de longe, abrindo seu sorriso banguela. Não sei se um cisco caiu no meu olho ou se eu estava sensível demais, só sei que senti meus olhos ardendo, lacrimejantes quando ele veio na minha direção. Eu abaixei e o peguei nos braços. Ele ria enquanto eu o rodava no ar.
— Você voltou! Há quanto tempo. — ele disse, assim que o coloquei no chão.
— Voltei. Me desculpe ter passado alguns dias sem vir aqui, mas aconteceram algumas coisas. — tentei explicar, o olhando a sua altura.
— Não tem problema. Você pode demorar, mas eu sei que você um dia volta. Você sempre volta. — ele disse, novamente me mostrando seu sorriso aberto. — Venha, eu fiz uns desenhos muito legais que você vai adorar. Onde está Emma?
Fui puxada por ele, enquanto ele me perguntava uma porção de coisas. Eu respondi primeiro sobre Emma.
— Ela está na sala da senhorita Blue, elas estão conversando algo importante.
Henry me levou até a sala onde tinham aulas de arte e me deixou esperando numa carteira de escola baixa onde ele se sentava mais ao fundo. Trouxe da prateleira uma caixa com seu nome escrito de forma torta (ele mesmo havia feito), para que eu visse seus trabalhos.
— Você está melhorando nos desenhos. Quem são esses aqui perto da árvore? — perguntei apontando para o desenho.
— Ah, é fácil saber. Essa da direta é Ana, esse aqui é o Dylan, essa a Bianca e esse é o Sam. — ele disse, tirando a caixa para o lado, já que eu havia visto tudo. Me lembrei das histórias de cada criança que Emma havia me contado quando Henry disse seus nomes e ele notou que fiquei quieta. — O que foi?
— Não foi nada. Só me lembrei de umas coisas. — falei, voltando a fita-lo.
— Você não pode me contar? — ele parecia interessado, mas não por curiosidade.
— Poder eu posso, é que eu vou acabar chorando.
— Por favor, não chore. — ele pediu, tirando a caixa de trabalhos do meio do caminho para me ver melhor. — E o bebê que você e Emma iam ter? Ainda não me disse nada sobre ele.
— Ah, Henry... infelizmente Emma não conseguiu engravidar.
Henry ficou claramente desapontado.
— Poxa, que pena.
— É, uma pena mesmo. E nós na verdade viemos aqui hoje para escolhermos uma criança. Queremos adotar ao invés de ter um bebê.
— Você fala sério?
— Uhum. — respondi. De repente Henry sorriu. Se virou antes, achando que eu não havia notado. — O que acha da ideia?
— Bem, eu não sei. Se não podem ter um bebê, adotar deve ser a escolha certa. Vocês querem ser mães, não querem? — dizia ele.
— Queremos muito. E é engraçado porque antes eu não me dava bem com crianças. Não tinha jeito, na verdade. Sabe quem me ensinou a gostar delas? — questionei, esperando que ele soubesse que falava dele.
— Ah, eu não sei. — ele deu uma risadinha.
— Aposto que sabe.
— Talvez eu possa imaginar quem seja. É um garoto com cabelos castanhos e bochechas grandes?
— Esse mesmo.
Nesse momento Henry se sentiu importante. Estava acanhado, mas eu sabia que havia adorado ouvir o que eu falei.
— Quer dizer que você gosta muito desse menino? — voltou a me olhar, um pouco corado.
— Eu o adoro. E adoraria que ele fosse meu filho um dia.
Seus olhos brilharam.
Ele demorou, mas respondeu:
— Pois tenha a certeza de que ele adoraria ter uma mãe como você.
Esperava surpreendê-lo mas ele me surpreendeu com o que falou. Então era mesmo verdade, ele queria que eu fosse sua mãe. Isso era algo mais do que claro pelas vezes em que fui até lá e conversamos, desde o primeiro momento com Henry quando o abracei e o consolei. Acho que o garoto tinha uma confiança em mim. Era ele, meu coração estava dizendo o mesmo que Emma havia me dito ontem.
Tomei ar para falar mais alguma coisa para ele, mas Emma chegou na sala e nos interrompeu.
— Oi. — ela falou, vindo da porta.
— Oi, Emma. — Henry disse primeiro. — Você está bem?
— Estou sim, obrigada. E você? Ainda dando trabalho para a madre superiora? — ela perguntou, se sentando em uma carteira a lado da dele.
— Bastante. Você nem adivinha o que eu fiz na semana passada. — ele arregalou os olhos para contar sua artimanha à Emma, e conforme falava com ela, mexia as mãos tentando reproduzir as cenas. — Daí, a caixa caiu na cabeça dela, mas eu juro a você que a ideia não foi minha. — ele coçou a cabeça e se lembrou de outra história para contar. — Sabe o banheiro do corredor norte? Aquele perto da sala de música? Então, ontem demos um susto na senhorita Blue.
— Verdade? — Emma mostrava interesse.
— Sim. Fizemos um boneco muito feio com uma vassoura velha que esqueceram atrás da porta. Ela tomou um susto tão grande quando foi lá dentro que tropeçou e caiu. — Henry contou, animado.
— Ah, então é por isso que ela está mancando?
— Sim. Mas não vamos fazer de novo. A senhorita Blue pode ser chata de vez em quando, mas nós gostamos dela.
Eu via e ouvia os dois conversando, apoiando o queixo sobre uma das mãos. Do jeito que falavam pareciam se conhecer há muito tempo. Eu ria de uma ou outra coisa que Henry contava, imaginando como seria viver com ele futuramente; Acho que Pongo iria adorar conhecê-lo e com certeza seria seu parceiro nas peripécias. E Emma então? Ela entraria nas brincadeiras e ideias de criança como foi no sonho que tive há algum tempo. Sinceramente, não estava mais me preocupando com a bagunça que eu teria de encarar todos os dias após chegar do trabalho quando esse menino fosse morar lá em casa. Eu só queria que dessa vez minha mulher pudesse realizar seu sonho de ter um filho, porque eu comecei a curtir muito a ideia também.
Enquanto voltávamos para casa naquela noite, Emma me explicou como funcionava as adoções e que no caso de uma criança do orfanato, dependia apenas de alguns dias para acatarem nosso pedido. Até então parecia fácil e nos sentíamos muito bem por termos tomado a decisão certa.
Contei à Emma sobre a conversa que tive com Henry antes dela aparecer na sala de aula, e o que ela me alertara na noite anterior só se confirmou.
— Eu não falei? — disse, sentada no banco do carona do carro ao meu lado.
— Para falar a verdade, meu amor, acho que ele nos escolheu. — eu disse.
— Me lembro da primeira vez que vimos ele.
— Tão tímido. — também me lembrava, especialmente de seu jeito triste. — Triste e isolado. Ele mudou muito, passou por tanta coisa. É difícil acreditar que viu os pais morrerem e ter se recuperado.
— Muito disso ele deve a você. — Emma me via de lado. — Desde a primeira vez, quando você o abraçou.
— Sabe o que eu disse a ele naquele dia? Que enquanto pensasse nos pais, eles sempre estariam vivos na memória dele. Foi a mesma coisa que você me falava quando eu me lembrava da minha mãe.
Emma puxou minha mão para alisar, e acabou levantando a manga da minha blusa, encontrando o bracelete que havia me dado.
— De todas as crianças, ele é a que mais se parece com você. Por isso se dão tão bem. E eu já o amo por fazer você se sentir assim tão feliz.
A olhei de relance, emocionada, eu acho. Em pouco tempo aquele menino viveria conosco, e eu espero que nada me impeça de provar a mim mesma que mudei. Está mais do que claro que estou rendida.
O fim de semana chegou, e eu estava convidada para uma grande festa em comemoração a mais um ano da MBC, emissora para qual eu trabalhava há quatro anos basicamente. Eu estaria contente se fosse apenas um convite simples para ir à comemoração, beber um pouco, ouvir a baboseira e as homenagens e voltar para casa, mas eu havia recebido um convite para me sentar na mesa da chefona da emissora. Maleficent havia se tornado uma boa amiga, porém, havia acabado de me colocar em uma saia justa. Eu não estaria tão preocupada se não fossem os boatos que andavam rondando os corredores da emissora. Pelo menos Emma estaria comigo essa noite e não deixaria que ninguém me olhasse atravessado (isso, porém, se eu explicasse exatamente o que estava acontecendo à ela.)
— Regina, está pronta? — perguntou Swan do andar de baixo.
Espirrei meu perfume favorito nos pulsos e esfreguei.
— Já estou descendo, meu amor. — falei, voltando para o quarto procurando minha bolsa de mão.
Está certo que não era uma festa de gala, contudo, eu queria não fazer feio. Enquanto minha mulher se arrumou bem com um vestido branco que escolhi para ela no nosso closet e colocou os cabeços para o alto em um penteado clássico, fiquei com minha preferência descolada. Camisa de seda marfim, saia alta de renda vermelha e os sapatos escuros que milagrosamente não eram loubotin.
— O que acha da maquiagem? — vim descendo as escadas, perguntando a Emma, mas minha mulher ficou subitamente muda. — Acha que exagerei no batom?
— Ahm...
— Emma, não seja boba. — bati em seus ombros. Ela me trouxe ao chão com as mãos em minha cintura, observando como eu estava vestida.
— Tem como não ficar boba tendo uma mulher bonita como você? Olha, se quer saber, para mim está ótima. Invertemos os papéis hoje.
— Sim. Demorei um pouco, pelo o que estou vendo agradei.
— Agradou. Só tenho medo de uma coisa.
— O quê?
— Os espertinhos da imprensa que estarão lá te olhando. — ela fez uma careta, meneando a cabeça.
— Então você vai finalmente experimentar como é ter uma esposa que trabalha na TV, vai passar pelo o que eu venho passando todos esses anos quando vou às suas premieres ou festas.
— Doce vingança — Ela não quis esperar, enroscou os braços em volta de mim e o beijo foi inevitável. Uma cena que se repetia toda vez que saíamos juntas. Emma ou eu esperando no pé da escada, para acabarmos em um beijo e aquele encanto que sempre parecia a primeira vez. Subi minhas unhas pelas costas dela, alcançando sua nuca, e no animo quase desfiz seu penteado preso. — Hum... não, você não exagerou no batom. — falou, limpando o canto dos lábios dos resquícios de batom que ficaram por ali.
— Então acho melhor nós irmos, porque hoje a imprensa vai me preferir e você sabe como eu adoro pousar para os meus amigos da imprensa. — falei ironicamente.
Emma sorriu, enquanto ajeitava o cabelo.
Enfim prontas podíamos ir para a festa da MBC. Chegamos no teatro da emissora às oito, algum tempo depois da festa começar, até mesmo porque demoramos meia hora só para entrar na emissora. Haviam outdoors por todos os lados do estacionamento com o elenco da emissora parabenizando o canal por mais um ano no ar, e o meu, sentada na bancada do U.S.A News estava numa das paredes, bem de frente para o lugar onde Swan estacionou comigo.
— Você não me contou que havia um outdoor com uma foto sua. — Emma saiu do carro olhando para minha foto gigante.
— Nem eu sabia que viraria uma foto gigante, Emma. Mas até que ficou bom. — tive de admitir que fiquei bem mesmo. Eu sempre fui fotogênica, porém, não dava bola para isso. Passaria a prestar mais atenção daqui pra frente.
Havia uma grande aglomeração na entrada do teatro e quando aparecemos, o alvoroço se voltou todo para nós duas. Como em todo grande evento de Hollywood havia um tapete vermelho, caminhamos nele acenando para os fotógrafos que gritavam meu nome. É, dessa vez eu era a celebridade, mas isso era porque trabalhava naquele canal. Óbvio que queriam falar com Emma também, contudo, minha mulher só tinha permissão para dar entrevistas por poucos minutos, pois era atriz de outro canal. A vantagem nisso foi que nenhum dos meus colegas perguntou à ela sobre inseminação, bebê ou filho adotivo, o que circulava nas revistas.
O teatro estava lindo com o espaço adaptado para a festa, com mesas espalhadas por todos os lados, cada uma com as cores e enfeites com o logo da MBC. No palco havia um telão exibindo os melhores momentos dor programas da linha de show e eu apareci nele, bem na hora que cruzamos o hall de entrada. Mostraram minha declaração de amor para Emma que fiz no jornal, e nos olhamos de relance, lembrando daquele momento.
A mesa que Maleficent havia reservado para se sentar, ficava no centro do salão. Ela não estava lá quando cheguei. Era a maior mesa da festa, e para chegar nela tive de andar o salão inteiro, cumprimentando meus colegas de trabalho. Archie trouxe sua esposa de quem tanto falava para mim. Ele ficou elegante de terno e sua esposa era uma graça de pessoa, não foi novidade saber que ela também era fã de Emma. No meio do caminho, alguém cutucou meu ombro. Era Killian, meu amigo querido que também foi convidado, mas ficara distante de nós por estar na ala de mesas de outras imprensas. Dei-lhe um abraço forte. Não nos víamos há algumas semanas.
— Como vai, minha amiga? Como vai, Emma? Vocês estão lindas hoje, hein? — ele nos perguntou.
— Bem, muito bem, melhor do que antes. E você? — respondi e o questionei, ansiosa para saber dele.
— Bem, melhor do que antes também. — ele respondeu arqueando suas sobrancelhas. — Fico feliz de vê-las tão bem de novo. Soube que vai se sentar na mesa da chefona.
— Pois é, acho que estou trabalhando tão bem naquele noticiário, que ando ganhando vantagens. — eu disse. — Mas como soube?
— Ouvi alguém comentando entre os nossos e o pessoal da Gazeta de Los Angeles. Sabe como são esses nossos amigos da Gazeta, eles adoram esse tipo de notícia.
— Eles adoram causar uma boa confusão. — Emma replicou.
— Sim, verdade. — Kill concordou. — Não quero atrapalhar vocês, vão se sentar logo antes que comece. Qualquer coisa estou por aqui, só para saberem.
— Obrigada, Kill. Apesar do que houve com Ruby, não suma. — Emma falou aquilo com coragem porque não sabia como nosso amigo iria reagir quando ouvisse o nome de Ruby de novo.
Killian sorriu de um jeito triste, assentiu e voltou para o grupo com o qual conversava antes. Nos sentamos na mesa indicada, no centro, e lá estavam os diretores, os empresários que investiam na emissora, os sócios e mais algumas pessoas que eu não reconhecia, mas que com certeza eram tão importantes na MBC quanto Maleficent. Notei que apenas eu era jornalista no meio daquelas pessoas da mesa, e eu não podia me sentir intimidada de jeito nenhum, embora estivesse com a mão que Emma segurava suada.
Felizmente, todo mundo me recebeu muito bem, os diretores especialmente porque assistiam fielmente todos os dias ao noticiário. Tudo estava bem com Emma ao meu lado, conversando com os diretores e quem estivesse pela mesa, até que meu olhar cruzou com o de uma moça, ou diria mulher, exatamente a minha frente. Como não consegui percebê-la? O que ela estava fazendo sentada conosco? Lily. Aquela mesma de alguns dias atrás. Eu juro que senti náuseas ao dar de cara com ela que já me observava há algum tempo e eu nem me dera conta.
Era uma mulher bem provocante, não no sentido atraente da palavra, mas no sentido de nariz empinado, se é que me entende. Parecia bonita, apesar de sua cara de quem comeu e não gostou. Usava um traje social como os que Maleficent usualmente vestia para ir trabalhar, terno feminino. E a maquiagem, bem, isso a ajudou um pouco.
Emma ouvia a conversa de um dos senhores sentado perto de nós, ele perguntava sobre seus filmes, enquanto minha voz parecia ter desaparecido da minha garganta. O que era pior, Lily não tirou seus olhos de mim, e isso estava me deixando nervosa de um jeito que eu não conseguia disfarsar.
— Você está se sentindo bem? — sussurrou Swan no meu ouvido. Ela notou algo diferente em mim.
— Estou. Eu estou ótima. — falei, forçando um sorriso. E lá estava Lily para me atrapalhar, ainda sem tirar os olhos de mim.
Cerrei meus punhos por baixo da mesa, tomando coragem para encará-la, e o fiz, abrindo bem os olhos, a fim de intimidá-la. E quando eu ia lhe dizer algo, uma salva de palmas ocorreu por todo o teatro. Era Maleficent subindo o palco para dizer algumas palavras em agradecimento aos que estavam presentes na festa. Falando em Maleficent, ela veio novamente elegante, em um vestido cor de prata e cabelos presos. Ouvi os burburinhos perto de mim. Os empresários deviam disputar para ver quem seria seu próximo marido, pois era muito bonita e uma das mulheres mais importantes do país, se assim posso dizer.
Discurso feito, Maleficent desceu o palco, deixando uma dupla de apresentadores comandar o restante da festa no palco. Ela veio até nossa mesa, falou com quem estava mais perto e me viu.
— Regina! Emma!
— Que bela festa, Maleficent. — comentei, recebendo um abraço dela. Emma fez o mesmo.
— Obrigada. Se você está gostando é porque ficou bom tudo o que preparei. Pelo o que estou observando vocês duas já se enturmaram com os meus sócios. Fico contente em ver.
— São todos muito simpáticos. — tive vontade de dizer que nem todos eram tão simpáticos, a começar por Lily. — Mas estão impacientes esperando por você.
— Eu sei. Vou me sentar. — ela disse, sorridente. Se sentou ao nosso lado, exatamente ao meu lado para a alegria de Lily que chegou a ficar boqueaberta, imaginando uma porção de coisas naquela cabeça poluída.
— Regina, você está gelada. Tem certeza de que está bem? — Swan sussurrou de novo para mim.
— Não se preocupa, vai passar. — Me sentei em seguida, tentando relaxar.
Não sei bem por quê eu me sentia tão preocupada com Lily fazendo suposições toda vez que Maleficent puxava assunto comigo e Emma, mas eu me sentia extremamente desconfortável naquela situação.
Lily cochichou algo no ouvido de um dos diretores, e ele a beijou no rosto, era seu marido. Agora eu entendia porque ela estava sentada na mesa de centro da festa. Depois disso, Maleficent mandou que nos servissem vinho tinto e, enquanto eu bebericava minha taça, fez um comentário sobre meu trabalho para todos na mesa.
— Eu sei que já estão carecas de saber da minha admiração por Regina. Emma, com todo o respeito, gostaria que sua esposa trabalhasse para mim por cem anos.
— Se eu viver isso tudo, acho que podemos negociar, Maleficent. — eu disse.
Todos riram, em exceção de Lily que ficou parada com meia taça de vinho na mão. Ela sorriu depois e não perdeu a oportunidade:
— Oh, Emma, cuidado para não perder sua esposa para o trabalho.
Emma a fitou.
— Felizmente eu não corro esse risco. — replicou.
— É apenas uma brincadeira. Eu sei que Regina precisa estar em casa antes das seis da tarde. — Maleficent continuou.
— Ah, mas isso quando não faz hora extra. — Lily falou, pousando sua taça na mesa.
— Não, Lily. Eu não preciso fazer hora extra no meu trabalho. Eu trabalho muito bem, eu adoro o que eu faço, do contrário de certas pessoas que preferem espalhar boatos pelos corredores da emissora. — eu disse, convicta, furiosa por dentro. Meus olhos deviam parecer duas brasas e eu estava prestes a soltá-las.
Emma se deu conta do que eu havia acabado de dizer e para quem eu havia direcionado aquela resposta.
Pegou em meu braço e falou:
— Não caia na pilha dela.
— Eu não estou caindo na pilha de ninguém, Emma, preciso me defender.
Swan ficou de olho em Lily. Creio que isso tenha a intimidado.
Peguei minha bolsa de festa e me levantei da mesa.
— Preciso ir ao banheiro, não vou demorar.
— Vou com você. — Emma quase se levantou junto.
— Não, meu amor, não é preciso.
— Fique à vontade, Regina. O toalete fica por ali. — Maleficent assentiu.
A verdade é que eu queria vomitar. Quando cheguei no toalete e me olhei no espelho, eu estava pálida. Toda vez que me aborrecia demais era assim. Lily quase estragou minha noite. Ou ainda o faria e eu não sabia.
Peguei o batom de dentro da bolsa que eu carregava e retoquei. O banheiro ficou vazio depois que duas mulheres saíram. Me debrucei na pia e esperei o mal estar passar, disposta a enfrentar qualquer coisa que Lily tentasse dizer e supor para me deixar mal perto de Emma e Maleficent.
Suspirei e fui andando para a saída arrumando minha bolsa quando levantei o rosto e dei de cara com ela de novo.
— O que é que você quer? Vai me dizer que veio pedir um autografo? — me assustei com Lily parada perto da porta, tomando conta da saída.
— Autografo não porque não gosto de você. Só vim dizer que não adianta você me difamar para Maleficent na frente de todo mundo, tentando contar vantagem. Eu sei o que se passa entre você e ela.
Me enchi de raiva.
— Isso só existe na sua cabeça, queridinha. — eu disse, ríspida.
— Ah, me engana que eu gosto, Regina. Você e ela vivem de conversa pelos cantos, ela te trouxe presentes da Itália, vocês saem juntas para conversar fora da emissora... — Lily pôs as mãos na cintura.
— E o que há de mais em ser amiga da dona da emissora? Por que não posso ser simplesmente amiga dela? Por que na sua cabeça somos amantes?
— Só não enxerga quem não quer.
Eu não era obrigada a continuar ouvindo as provocações de Lily.
— Me deixe passar,
— Vamos, não negue, Regina. Todo mundo na MBC, como diz a própria Maleficent, está careca de saber.
— Eu jamais teria um caso com Maleficent, jamais. — esbravejei.
Larguei minha bolsa de mão e fui para cima de Lily. Ela me segurou pelos ombros e virou meu corpo contra a parede de forma brusca. Fiquei tonta com o baque nas costas.
— Pois se você não sabe, eu já saquei há muito tempo o jeito como ela te olha. Quer saber, Regina? Emma ficaria péssima quando você pedisse o divórcio. Já pensou nas manchetes se descobrissem o caso de vocês? Você tem bom gosto, as loiras te adoram. — ela zombava.
Tentei dar um tapa em seu rosto, mas foi pouco, ela segurou minhas mãos. Era forte. Eu sentia dor, tentava gritar, mas a voz não saía.
Quando Lily me empurrou outra vez bruscamente para a parede para se livrar de mim, bati com a cabeça, ficando ainda mais tonta.
Eu queria gritar, só que antes escutei outra voz:
— Isso tudo é inveja?!
Punch! Escutei, junto de um barulho pesado, como osso e chão.
Abri os olhos e Lily estava caída no chão, resmungando de dor.
Emma estava de pé sobre ela e a pegou, pondo ela de pé.
— Levanta!
Outro soco e Lily foi parar na parede de espelho do outro lado do toalete, quebrando o vidro em quatro pedaços com o peso de seu corpo.
— Emma! — gritei.
Mas Swan não parou. Minha mulher empurrou Lily na direção da pia quando ela tentou lhe dar um soco, mas o soco atingiu o ar e Emma a virou enfurecida.
— Nunca mais toque um dedo na minha mulher — Emma disse entre dentes. Pegando a gola do terno de Lily.
O rosto dela estava vermelho, saia sangue de seu nariz, além de estar completamente tonta. Tentou dizer algo como um Hum hã ah que não compreendi o que era, e Emma só não deu mais uma bordoada nela porque Killian chegou para apartá-la.
— Emma, pare já com isso! — ele a puxou para trás.
Emma largou Lily, que escorregou para o chão, segurando o próprio rosto cheio de sangue. Começou a chorar copiosamente. Killian a socorreu e a levantou.
Swan ainda tinha os punhos fechados, tremia ofegava, olhando para a mulher no chão e me viu no canto. Eu estava apavorada e nem tinha me dado conta de que minha blusa tinha ficado rasgada num dos empurrões que Lily me deu. Emma veio até mim. Toquei em seu rosto, mas tudo o que ela queria saber era seu estava bem.
— Ela não fez nada a você, fez?
— Não. — falei baixo. — Só me empurrou.
— Fica calma, tá tudo bem. — ela me abraçou, me protegendo.
Demoramos algum tempo para sair do banheiro porque a confusão já havia corrido os ouvidos da festa inteira. Killian voltou para saber se estávamos bem e trouxe gelo para a mão de Emma.
— Toma, Regina, vista isso. — Ele emprestou-me a parte de cima de seu terno para cobrir minha blusa rasgada.
— Obrigada. O que está acontecendo lá fora? Quero ir embora, não quero nunca mais ver essa desgraçada na minha frente.
— Você acha que ela vai querer provocá-la depois do que eu fiz com a cara dela? — Emma disse, colocando a pedra de gelo em seu punho, andando de um lado para o outro, tensa.
— Estão querendo entrar aqui, metade dessa festa é a imprensa fofoqueira, depois que alguém viu o que estava acontecendo foi como pólvora.
— Ah, meu Deus, como vamos sair?
— Fica calma, meu amor. — Emma parou na minha frente. — Kill, arranje um jeito. Diga algo aos seus colegas e eu vou sair com Regina pelos fundos.
— Tudo bem. Vou dar um jeito. Mas o que eu digo à Maleficent? — ela olhava para Emma, atrás de uma resposta.
— Diga que Regina foi para casa, que não foi nada do que estão falando lá fora. — Emma completou.
Kill fez um sinal, assentiu e saiu.
— Emma. — chamei. — Obrigada.
Ela sorriu, corada. Tocou meu rosto com seus dedos machucados, parecendo nem se importar com a dor. Acabamos rindo da situação. Contudo, isso não foi nem um pouco engraçado.
Fale com o autor