Não há outro amor para mim.
8 Cora nos surpreende.
Notas iniciais
Esperava qualquer coisa, menos ver minha mãe parada na porta do apartamento de minha namorada.
Ela me olhou e mal pude acreditar. Fiquei um pouco distante, apertando ainda mais o laço do roupão que eu vestia, desejando que não imaginasse que estávamos tomando banho juntas, algo que com toda certeza pensou quando viu nossos cabelos bem encharcados.
— O que é que você está fazendo aqui? — perguntei estupefata.
— Primeiro, feliz ano novo, querida. — mamãe disse e não pareceu deboche. Ela voltou a olhar Emma e perguntou: — Não me convida para entrar, senhorita Swan?
Minha namorada engoliu em seco. Não fazia uma cara muito amistosa, nem demostrou medo dela. Tomou bastante ar como se procurasse uma paciência que não tinha.
— A senhora me desculpe. — e deixou que Cora adentrasse.
Mamãe passou pelo portal com a pose austera que sempre possuía, sem deixar de observar a sala do apartamento. Vi que olhava para cada detalhe sem ser discreta e aquilo me deixou bastante envergonhada.
— O que que você quer, Cora? — perguntei, chamando-a pelo nome de propósito. Ela me dirigiu um olhar severo.
— Você não vai me dar nem um bom dia, Regina? Eu não eduquei você assim. — em suas mãos segurava os óculos escuros que estava acostumada a usar. Dei uma boa olhada e vi sua roupa: um terninho preto que a deixava parecendo uma viúva negra da cabeça aos pés, e nem me estranhava tanto porque preto era sua cor favorita.
Acabei tendo a mesma atitude de Emma, respirei fundo para falar com ela:
— Bom dia, mamãe.
— Agora sim. — ela deu um meio sorriso. — Me perdoem se interrompi vocês. Quando eu for embora vocês podem continuar, eu só queria ver minha filha um pouco.
É, estava bem na cara o que estávamos fazendo antes dela chegar.
O que ela disse me soava como uma desculpa esfarrapada para olhar o apartamento de Emma. Andei até a minha loira que fechou a porta, fazendo questão de puxar seus braços em torno de mim como se ela fosse meu escudo. Emma por trás permaneceu calada.
— Você não podia ter vindo sem avisar.
— Ah, eu bem que tentei, minha querida, mas você não atendeu qualquer ligação minha. Você até falou com seu pai como se quisesse me evitar. — ela falando sempre parecia uma ameaça. Sem que percebêssemos, estávamos andando para trás até a hora em que Emma encostou na porta e me apertou nos braços.
— Eu não queria falar com você. Acho que você sabe muito bem o porquê. — meu tom de voz era irritado.
— Posso imaginar.
— Não seja cínica. Você foi muito grossa com Emma no natal.
— Sim, digamos que passei um pouco dos limites. Mas minha filha, entenda uma coisa... Você viveu comigo a vida inteira, estou acostumada a vê-la em casa jantado conosco todos os dias e de repente você não está mais lá. Preferiu morar com alguém que conheceu ontem. Não conversamos mais, não posso mais saber como foi o seu dia. Você não fazia isso quando namorava o Daniel, você nunca dormiu na casa dele ume vez sequer. É de fato muito estranho ver isso acontecendo. Foi como ver minha filha sendo arrancada de mim.
Se eu entendi bem o que Cora Mills disse, eu estava sendo uma péssima filha que abandonou o lar doce lar para viver uma aventura qualquer com uma desconhecida. Aquilo era puro teatro. Se Emma não estivesse me segurando, eu partiria para cima daquela mulher sem dó.
— Meu Deus, Cora, quantos anos você acha que eu tenho? 12?! Não sou mais seu bibelô tem muitos anos. O que deu em você? Eu não te reconheço mais. E eu conheço Emma o suficiente para querer viver com ela.
— Eu estou preocupada com você, com seu bem-estar. Se não posso mais conviver com você, quero saber se está bem e como está vivendo. Há algum problema em ter vindo conhecer o apartamento da sua namorada? A propósito, um apartamento muito organizado. — mamãe fez aquele elogio entre os dentes, porém, como a boa decoradora que era, os pequenos detalhes do lugar não passariam despercebidos.
Emma coçou a própria nuca assim que desvencilhei-me de seus braços.
— Você não foi convidada a fazer isso. Como encontrou o lugar? Eu não deixei o endereço com ninguém.
Minha mãe deu um leve riso.
— Isso foi muito fácil, querida, eu apenas segui você de carro numa das vezes em veio para cá.
Só então me dei conta do quanto minha mãe era obcecada em mim. No fundo, eu sabia que mamãe também estava enciumada e queria chamar a atenção. Um dia ela iria superar minha partida de casa, o problema ainda era o exagero da noite de natal, nós não tínhamos esquecido.
— Pois então? Está satisfeita agora que conhece o apartamento da Emma e me viu dentro dele? Vai tentar provocá-la outra vez? Vai dizer mais alguma coisa? Tem coragem?
Percebi que Emma ficara inquieta atrás de mim.
— Calma, Regina. — disse a loira.
— Entendo que esteja chateada comigo, talvez eu possa consertar. — mamãe se aproximou de mim. — Não vim aqui para enfrentar, nem provocar você ou ela, Regina. Muito pelo contrário, eu vim me desculpar além de ver você. — e então dirigiu o olhar a Emma. — Moça, eu não costumo me enganar com as pessoas, mas devo estar ao seu respeito. Eu não gostei quando minha filha começou a namorá-la, confesso. E como não a conhecia e nunca ouvi falar sobre sua pessoa, isso me levou a crer que estaria se aproveitando dela.
A loira finalmente teve coragem de falar:
— Eu jamais me aproveitaria de alguém, muito menos da sua filha, senhora. — empinou o nariz. — E pode ver que essa jamais foi minha intenção já que fui eu quem a convidou para morar comigo.
Nesse momento eu assenti. Era uma boa resposta para minha mãe.
— Se minha filha aceitou, é porque provavelmente gosta muito de você, dá para ver no jeito que te defende. — Cora me olhou de relance. — Eu sei que fui injusta com você, Emma. Falei aquelas coisas de propósito para testá-la e me arrependo disso. Espero que você entenda minha preocupação de mãe e perdoe meu julgamento errôneo. Minhas sinceras desculpas.
Ainda desconfiada, Emma cruzou os braços e fez um leve sinal com a cabeça.
— Tudo bem. — minha loira disse baixo.
Eu estava tremendo, talvez de frio, talvez de medo e sem sentido porque as coisas pareceram se acertar.
— Sei que é difícil acreditar em mim, mas eu gostaria de consertar isso de uma vez por todas. Quero convidar você para jantar em minha casa novamente. Um jantar decente, como deveríamos ter feito no natal.
Swan e eu nos entreolhamos.
— Mamãe, não acho que seja uma boa ideia... — tentei dizer.
— Por favor, aceitem. Vamos fazer de conta que aquele jantar da semana passada nunca aconteceu. — ela fez alguns trejeitos com a mão.
Consultei minha namorada com o olhar mais uma vez e ela mesmo relutante concordou.
— O.k., hã, quando a senhora quiser. — a loira respondeu.
— Não precisa me chamar de senhora. Eu me sentiria mais à vontade se me chamasse pelo nome.
— Certo então... Cora.
Não sei dizer como me senti ao ver um momento raro como aquele acontecer. Minha mãe estava pedindo desculpas. Cora nunca foi o tipo de pessoa que dava o braço a torcer. Aquilo às vezes irritava meu pai e minha irmã também, por isso aconteciam brigas de fazer minha família ficar sem se falar por dias. Foi bom vê-la reconhecendo e almejando apagar seu erro.
Ela então ficou ali mais um tempo conversando conosco, perguntando se precisávamos de algo. Dava para perceber que ainda existia um ligeiro receio de me faltar algo estando com Emma, porém, minha namorada assegurou que vivia bem mesmo tendo um salário modesto e até contou que teve momentos difíceis quando decidiu pela carreira e foi viver sozinha. Disse que sua vida mudara após virar protagonista nas peças e ficar famosa. Mamãe pareceu engolir aquilo, até um pouco admirada pela postura de Emma. E na verdade, a vida de Cora fora bem mais difícil quando tinha a idade de Swan, acho que ela se lembrou disso e se identificou, dando graças aos céus de eu não estar sujeita ao que ela passou. (Certa vez me contou que quando o primeiro marido morreu, pai de Zelena, teve de trabalhar muito duro para sustentar minha irmã e ela, até que conheceu Henry Mills.)
Mais certa de que eu estava feliz com a loira, mamãe finalmente se tocou e nos disse para irmos jantar na quarta-feira daquela semana na mansão. Nós concordamos novamente, e ficara marcado o novo jantar assim.
Propus que Emma fizesse uma sobremesa para levarmos. Ela preparou um cheesecake com calda de morango, que de tão bonito e cheiroso que ficou, quase roubei um pedaço antes de chegarmos à minha casa.
Do contrário da outra vez, quem nos recebeu na porta foi minha mãe, dando uma boa olhada em ambas logo de cara. Elogiou os trajes de inverno de Swan, que vestia um jeans, blusa de lã vermelha e botas de cano longo.
— O vermelho é uma cor que combina com você, Emma. — disse ela, mostrando um sorriso no canto dos lábios.
Gostei daquela recepção. Mamãe estava disposta a ser gentil. Acho que Emma também se sentiu mais à vontade. Mas eu ficaria de olho na senhora Mills se ela tentasse aprontar de novo. Eu saberia se era fingimento só para me agradar.
Meu pai e Zelena já haviam chegado do escritório e nos esperavam. Os dois pareceram bem felizes em nos ver. Batemos um pouco de papo até o jantar ficar pronto e a governanta nos chamar.
Tudo dera certo, daquela vez. Minha irmã fez várias perguntas sobre teatro para Emma, meu pai quis saber mais da família Swan e minha mãe disse que gostaria de assistir My sweetheart Mary assim que voltasse do recesso. Isso tudo enquanto comíamos souflé.
Na hora da sobremesa todos repetiram a dose de cheesecake mais de duas vezes. Outra vez Emma recebeu um elogio de Cora que até pediu a receita.
Pronto! Acho que estava tudo certo de novo. Minha mãe não implicaria mais, eu continuaria vivendo no apartamento de Emma e seria a mulher mais feliz do mundo (e eu fui, com alguns percalços no caminho, mas fui).
Depois, levei minha garota para um tour pela mansão Mills, mostrando-lhe cada parte do casarão e por último meu quarto. O.k. Não era um quarto comum. Tinha mais ou menos o tamanho da sala e cozinha juntas do apartamento de Emma. Nós rimos por conta disso e eu lhe disse que muitas vezes me sentia sozinha ali por causa daquele tamanho todo.
Mostrei-lhe alguns CDs dos meus cantores e bandas favoritas, meus diários da época da escola, algumas fotos e a velha coleção de chaveiros que eu fazia, mas Emma subitamente pareceu absorta enquanto olhava uma fotografia recente de mim com minha família.
— Que foi? — perguntei baixinho, me preocupando.
Swan puxou ar para os pulmões e suspirou em seguida.
— Nada demais. Eu só estou sentindo falta dos meus pais. — disse ela, desanimada, deixando o porta retrato em cima da penteadeira.
— Acho que sei o quanto é difícil estar distante deles.
— É difícil. É a primeira vez que me afasto tanto. Pelo menos quando comecei a viver sozinha, nós estávamos na mesma cidade. — deixei que ela desabafasse. — Sempre fui apegada a eles. Eu não te contei, mas nesses últimos dias senti mais falta do que o comum.
Eu me levantei da cadeira onde estava sentada e a olhei bem de perto.
— Você precisa se acostumar, meu amor. Eles estão do outro lado do país. E você pode falar com eles por telefone toda semana, não é mesmo?
— É. Posso. — Emma fez uma pausa, me fitando. — Quando começamos a namorar a primeira a saber foi minha mãe.
— Jura? — perguntei surpresa.
— Uhum. — Emma fez que sim. — Ela sempre é a primeira a saber quando acontecem coisas boas na minha vida.
Não deixei de sorrir ao saber daquilo. Toquei seu busto num carinho calmo com as palmas das mãos e subi as mesmas por seus ombros.
— Eu gostaria muito de conhecê-la.
— Ela iria gostar de você.
— Será?
— Quem não gosta de você, Regina? Consegue encantar todo mundo.
— Fala isso porque está apaixonada por mim.
De repente, estávamos mudando o curso dos assuntos.
— Como pode ter tanta certeza disso? — vi ela franzir o cenho.
— Eu sinto isso. Senti muitas vezes, no seu carinho, nas suas palavras, nas suas atitudes. Queria que você soubesse que não estou muito longe em relação a você. E sobre seus pais... Sei que sente falta deles e de Nova York, mas aqui em Portland, você tem a mim. Você não está sozinha.
Eu era muito egoísta para achar que Emma conseguiria esquecer dos pais às vezes. Nesse sentido, eu achava que a falta que ela estava sentindo seria suprida por mim. Decerto que ela me amava, e era muita pretensão minha querer ser a única coisa importante em sua vida, mas ela era uma mulher caseira, carente, apegada. Eu precisava deixar de querer tudo só para mim, inclusive todo o amor que existia dentro dela. Isso era um claro sinal de que estava ficando mal acostumada.
Minha loira me puxou para um beijo na boca... Um beijo calmo com gosto de calda de morango. Não me importei. Ficamos naquilo um bom tempo, ali, no quarto, perto da sacada aberta que dava visão para a piscina.
Perdemos a noção do tempo. Meu corpo era arqueado para trás enquanto eu colocava os dedos nas madeixas loiras de Emma e tentava acompanha-la conforme aquilo foi ficando intenso. Gemi para que ela entendesse que eu estava gostando.
Nós devíamos correr para o apartamento logo, se não acabaríamos “fazendo aquilo” no meu quarto, na minha antiga casa. Me arrependi de não ter feito de uma vez, porém um dia entendi porque não devia: Segundo minha mãe, houve um momento, naquela noite, em que subiu para saber onde estávamos, e acabou descobrindo vendo o nosso apaixonado beijo pela porta. Ela também me disse que nunca tinha visto um casal se beijar daquela forma, que deu água na boca. E saber disso dela foi extremamente estranho, mas creio que um bom sinal.
Fale com o autor