"Não foi dessa vez, April. Quem sabe na próxima?"
1 Não Foi dessa vez... Mas a noite se aproxima
Notas iniciais
Então… É novamente 3:41 da madrugada. Sei disso porque contei cada segundo que demorou pra se passar desde às 3:20, quando fechei os olhos achando que poderia dormir. Estou sozinha no meu quarto quase escuro. Digo “quase” porque certa luminosidade, mesmo que fraca e noturna, esteja me agredindo, insistindo em passar por sobre as claras cortinas escolhidas para o meu quarto, “o quarto da menininha da casa”. Abro os olhos, que estavam cerrados, enquanto uma música continua a tocar em meus fones de ouvido. Uma música que arrebenta violentamente meus tímpanos numa batida pesada, escandalosa e repetitiva, mas que de longe me seria enjoativa. A luz que penetra meu pequeno espaço continua a machucar meus olhos, ainda pequenos e inchados, talvez pela insônia ou pelas lágrimas antes derramadas, é o que eu penso.
Apoio meu antebraço esquerdo sobre meus olhos, para protegê-los daquela infortuna luz que insistia em continuar entrando, mesmo não sendo bem-vinda. Meu… braço? Sinto meus músculos pouco a pouco. Meu ombro, meu braço, meu antebraço… Minha mão, huh? Ergui meu braço totalmente esticado à minha frente, de um modo em que, mesmo deitada, conseguia ver claramente minha mão, abusando da claridade que eu acabara de amaldiçoar.
“Mão de quem, mesmo?” “sua mão”. “Ah sim… mas… Quem sou eu?” “ninguém.”: foram as respostas que consegui com a voz em minha cabeça: “Você não é ninguém. Você… não é nada!”. E… quer saber? Ela tinha razão. Sabe, aquela voz. Sou simplesmente um acidente, algo não previsto, não programado. Uma ignóbil brincando de ser gente. Brincando de sorrir… brincando de ser feliz. Tsc. “Menininha da casa? Não me faça rir. Sou só a fêmea que nasceu na matilha e que você não consegue lidar. Me peguei sorrindo, de um modo tão forçado e doloroso que também me fez chorar.
Levantei vagarosamente da minha cama. Meus cabelos castanhos e ondulados levemente úmidos, assim como meu travesseiro, pareciam estar se desprendendo lenta e gradualmente da cama, assim como meus fones, que escapavam de meus ouvidos, enquanto eu me sentava à beira do colchão. Me livrei das cobertas pesadas que continuaram no meu colo, afinal, era um dia frio. Um vapor de hálito quente que saíra da minha boca junto com um longo suspiro se misturava ao ar gélido do meu cômodo quarto, enquanto meus olhos sem brilho fitavam um grande quadro de memórias pendurado em minha parede. Mas os olhos viam sem ver. Mesmo que enxergassem aquele pedaço de metal com fotos, eu não conseguia sentir nada, NADA além de raiva desse mundo injusto cheio de pessoas vazias e coisas falsas. Não, eu olhava pra isso, mas eu enxergava muito além.
“Então eu não sou nada, huh? Sou simplesmente uma inútil de baixo escalão que está unicamente existindo, ocupando espaço e escasseando comida sem ajudar em MERDA NENHUMA?! Exatamente.”. Conversava comigo mesma.
Levantei-me totalmente agora. Fui até minha porta, antiga e pesada, no intuito de destrancá-la, já que eu a tranco todas as noites antes de me deitar. Torci mentalmente para que ela não fizesse aquele maldito grunhido, mas foi em vão. Ela estalou e rangeu, e só aí então ela abriu, liberando aquele vento gelado do corredor e mostrando um caminho quase xadrez, o escuro da noite mesclado com a luz provida das janelas ao lado direito mostrando as árvores floridas perdendo sua beleza do lado de fora. Caminhei até a cozinha em passos lentos, meus pés descalços em contato com o assoalho de madeira frio me arrepiava. Minha camisola roçava em meus joelhos, enquanto as mangas compridas passavam gentilmente pelo meu pulso, e eu sentia meu cabelo molhado sobre os ombros, também.
Abri a segunda gaveta de cima pra baixo do armário da pia da cozinha, afinal, eu conhecia aquele cômodo melhor do que ninguém. Filtrei toda a gaveta, revirando fundos e mundos para encontrar o que eu queria, até que meus dedos tocaram algo mais gelado do que todo o resto. “Finalmente a encontrei”, pensei. A faca de cozinha favorita da minha mãe, toda em inox. O cabo, a lâmina… tudo era de metal. Tão fria quanto a dona, ou até, quanto a mim mesma. Depois de tirá-la cuidadosamente do fundo da gaveta, comecei a fitá-la como se fosse a coisa mais importante da minha vida. E talvez fosse, não é mesmo?
Passei os dedos na lâmina, a fim de sentir mais daquela sensação gratificante que estava me tomando cada vez mais. Estava doendo, doendo muito. Meu sangue carmesim caindo em meu pé e na barra da minha adorável camisola branca. Doía tanto, lágrimas escorriam dos meus olhos, mas ainda assim eu sorria, como era boa essa sensação. Eu estava num estado quase insano, sorrindo descontroladamente enquanto perdia gradativamente minha sanidade, quando vi meu irmão menor se levantar da cama me perguntando o que estava havendo. Parei sem reação. Era como se eu tivesse me esquecido que o quarto dos meninos ficasse em frente à cozinha. Fui voltando a raciocinar aos poucos. Escondi minhas mãos incriminadoras nas costas e sorri fracamente ao garotinho sonolento “nada não. Só durma de novo, agora vai ficar tudo bem” eu disse, tentando parecer normal, mesmo que minha voz trêmula me incapacitasse 50% disso. Ele me olhou desconfiado, mas mesmo assim me deu um saudoso “Boa Noite, maninha” e voltou a se deitar.
Depois desse pequeno susto, acabei me jogando de joelhos no chão para me recuperar de tudo isso. Como pude me esquecer de que não estou sozinha? Oras. Depois de respirar fundo, me apoiei no armário à minha frente. Fechei a gaveta da cozinha silenciosamente e fui me apoiando nas paredes até meu quarto, com a faca ainda em minha mão direita, no fim do meu braço estendido ao chão. Chegando ao meu amado cantinho, fechei minha porta sem me importar mais com que barulho faria, e caí desolada em minha cama. Sentada, encarava minha preciosa faca que eu já estava a empunhar. Então me lembrei de algo. Peguei uma caneta e um pedaço de papel e escrevi um pequeno bilhete, que deixei sobre minha cama. Então voltei ao meu pequeno mundo sem regras ou sem qualquer tipo de medidas, de precaução, de necessidade ou... de sanidade. Meu sorriso maluco voltou e o brilho nos meus olhos desapareceu novamente. Meus membros com completo entusiasmo, eu não tinha completo controle do meu corpo que não parava de tremer. Mesmo assim, levantei a mão direita o suficiente para que chegasse à altura da minha perna, onde meu pulso esquerdo descansava. Então, fiz um pequeno arranhão em meu antebraço e as lágrimas voltaram a rolar enquanto o cheiro de ferrugem do meu sangue adocicado ia tomando conta do meu olfato, assim como de todo o cômodo. Então, fiz um corte em meu pulso esquerdo que chegava de uma extremidade à outra, Deus, como doía, mas era ainda mais, muito mais satisfatório. Então, com a mão cortada, antes que eu pudesse perder completamente o movimento, o que não demoraria a acontecer, cortei sem misericórdia o pulso direito. Um leve grunhido tentou escapar da minha boca, mas eu mordi os lábios para bloqueá-lo, mordi tão forte, com tanta objetividade, que minha tão doce e delineada boca também começara a soltar respingos da amada cor carmesim. E então, esperei. Eu via meu sangue esvaindo para fora do meu corpo e minha visão se embaçando a cada segundo que passava. Acho que fiquei consciente por mais dois ou três minutos. E então, não lembro de nada.
O que posso supor é que minha mãe tivesse encontrado o bilhete em minha cama no dia seguinte, provavelmente em seu horário de almoço, assim que tivesse chego para brigar comigo sobre a louça ainda estar na pia. E exatamente por isso, naquele bilhete, estaria escrito “Desculpe, mas acho que agora não vou mais poder lhe ser útil lavando pratos. Desculpe por não ter sido capaz de fazer nada melhor por você. E por favor, cuide bem do meu hamster até a morte da criaturinha”. E então ela cairia em prantos e passaria o resto da vida se culpando, pensando no que ela poderia ter feito de melhor entre nós duas. Mas já seria tarde demais. E todos que, tsc, se houver alguém, que realmente tivesse se importado comigo, fariam o mesmo. Mas mesmo assim continuariam suas vidas. E algum dia todos me esqueceriam. E aí sim eu morreria. Sem legado, sem história. Sendo esquecida. Tendo a pior morte que os humanos podem proporcionar. Esse é o meu fim.
E aí? Aí eu acordei. Com uma folha quadriculada da matéria de Matemática colada no rosto por um fio de baba que escorria do meu queixo. Uma amiga sacudindo meus ombros loucamente para que eu acordasse “Já é hora de ir. O sinal da saída já tocou há sete minutos! E a professora Harris está extremamente chateada por você ter dormido na aula dela de novo… francamente… April, quando você vai mudar?”. Respondi com um sorriso delicado e um “já estou indo”. Ela me disse que esperaria na porta e eu concordei.
Oras, então foi apenas um sonho… de novo. Então peguei aquela mesma folha babada e nojenta e escrevi as palavras “Não foi dessa vez, April. Quem sabe na próxima? :)” e joguei no bolso interno da mochila, onde já tinham, provavelmente, se não perdi a conta, 83 daqueles papéis, acompanhados das mesmas palavras. Soquei todo meu material dentro da mochila e corri pra junto da minha amiga, que me acompanhava até em casa todos os dias. Sorrimos, cantamos e brincamos até a frente da minha adorável casa com minha adorável família. Mas é, a noite já estava próxima… Quem sabe dessa vez? :)
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