Não foi amor à primeira vista
1 Capítulo Único
Não, não foi amor à primeira vista.
Sua primeira impressão de Iida Tenya envolveu uma situação “indisciplinada” na cantina da Academia e ele, Iida, agindo como alguém do comitê de disciplina do colégio. E antes que pergunte, não, esse comitê não existe. Mas se existisse, Shouto não duvida que o moreno seria o presidente. Não é muito atraente quando se pensa em Tenya sendo o cara esquisito que fica falando para as pessoas “ficarem na linha” enquanto pagam por suas refeições, por falar nisso...
Não, não foi amor à segunda vista.
Sua segunda impressão de Iida Tenya teve uma mudança de sessenta graus, uma mão levantada e uma voz muito séria questionando o sistema de classificação de pontos exatos do professor. Ele, Shouto, se pergunta se essa vez conta, porque ele só podia ver as costas de Iida naquele momento, postura reta, inflexível mesmo ouvindo outros estudantes cochicharem
pelas suas costas.
Shouto provavelmente fez uma careta na hora diante de todo aquele “certissmo”, mas ele não se recorda muito bem.
Não, não foi amor à terceira vista.
Foi na terceira vez, que ele finalmente conheceu Tenya formalmente. Quando ele fez amizade com Midoriya Izuku, ele não esperava ser aceito tão rapidamente na “rodinha”, mas eles aceitaram-no de qualquer forma. O brilho de animação dos sorrisos de Uraraka e Midoriya quase o deixou cego e quando deu um passo para trás – apenas um pouco, quase imperceptivelmente – Iida estava bem ali com seu próprio sorriso, não menos brilhante que o dos outros dois, porém de alguma forma, um pouco mais gentil. Foi estranho para Todoroki a maneira amigável com a qual eles o rodeavam, mas ele gostou mesmo assim.
Não foi amor à quarta, nem à quinta, nem à sexta vista.
Esses não foram momentos felizes. Envolve um assassino em série, mirando como alvo oficiais da lei e, trabalhando nesse ramo, consequentemente o irmão mais velho de Iida. Quando o irmão do moreno foi atacado, Shouto percebeu uma preocupante familiaridade assustadora na expressão dele. A fusão de ódio e dor, a sede de vingança – Shouto conhece esses sentimentos e ele receava que por trás do sorriso cansado de Iida, eles estejam presentes dentro daqueles olhos vermelho rubi.
Fazer justiça com as próprias mãos nunca é uma boa ideia. Shouto também sabe disso. Ele deveria ter dito algo, deveria ter feito algo ao invés de simplesmente ter se mantido em silêncio. Ele esperava então que não fosse muito tarde para agir, enquanto corria até o local descrito na mensagem de Midoriya.
Não foi amor à sétima, oitava, ou à nona.
Ele não estava atrasado.
Porém também não estava na hora certa.
Se envolver em uma briga com um assassino em série maluco não é exatamente algo que
Shouto alguma vez pensou que faria. E ainda sim, foi exatamente o que ele acabou fazendo para ajudar Tenya e Izuku.
Uma parte dele realmente não ficou surpresa, ele sabia onde Iida planeja ir. Ele apenas tinha esperança que essa busca pelo assassino não desse em nada. Uma puta subestimação da parte dele, realmente.
Enfim, eles conseguiram sair vivos graças ao heterocromático que se lembrou de chamar a policia no caminho até o beco. Vivos, porém muito machucados, os três passaram grande parte da semana seguinte internados no hospital com uma onda de sermões dos detetives e de suas próprias famílias.
Uma vez que eles estavam sozinhos no quarto, Iida puxou-os, Todoroki e Izuku, para agradece-los, uma expressão pesada de culpa por algo a mais que ele não deixou claro em voz alta. Tão consciente quanto ele das preocupações de Iida, Midoriya deu um tapinha amigável no ombro do moreno e sorriu abertamente, dizendo — É pra isso que servem os amigos, certo?
As linhas em seu rosto suavizaram.
—Claro. –Tenya disse enquanto Midoriya acenava para os dois em despedida, indo ao encontro de sua mãe que esperava do lado de fora do quarto de hospital que eles estiveram compartilhando.
É silencioso quando estão apenas eles dois. Tenya não se mexeu de onde estava, apenas
encarando ambos seus braços quebrados. O clima não estava pesado, mas o peito do
heterocromático...
—Eu sinto muito. – Shouto disse, em um sussurro fraco, mas foi o suficiente para surpreender o
mais alto.
Iida piscou como se estivesse ajustando sua visão. – Pelo o quê, Todoroki-kun?
—Isso. – ele disse, cautelosamente passando seus dedos pelo gesso esquerdo de Iida. Era o braço que sofreu dano no nervo, uma consequência da faca que era endereçada a Shouto, mas que fora bloqueada pelo moreno.
Tenya olhou para seu braço antes de se voltar para Todoroki. – Valeu a pela. – ele disse com um pequeno sorriso que fez o coração do heterocromático saltar.
Décima, décima primeira, décima segunda, décima terceira...
Aqueles momentos passados ao lado de Iida cresceram tanto que ele havia perdido a conta de quantos já haviam passado.
Após se recuperarem, Shouto e Izuku voltaram às aulas, mas com os braços completamente engessados, Iida tinha que ficar em observação por mais um tempo.
Ainda sim isso não o impediu e ele insistiu em ir à escola. “Educação é importante.” Foi o argumento dele. “Eu posso ao menos ouvir às aulas.”
Somente quando o médico ordenou que ele ficasse em casa repousando que Tenya
concordou, mas ele parecia descontente o bastante para Todoroki se oferecer para lhe levar as tarefas em casa.
E foi por visitar Tenya seis vezes por semana que ele pegou o habito de sempre pegar uma lata de suco de laranja da maquina de vendas, após a escola.
Trigésima primeira, trigésima segunda, trigésima terceira...
Quando Iida finalmente pôde sair dos dormitórios, sua mão esquerda ainda estava enfaixada e fora de uso. Mesmo não sendo impossível realizar tarefas comuns, também não era fácil.
Apesar disso, ele estava ansioso para frequentar as aulas novamente e acabou virando um reflexo para Shouto tentar ajuda-lo com seja lá o que ele estivesse fazendo no momento.
Iida foi amável o tempo todo e sorria para o heterocromático de um jeito – agradecido e levemente tímido – que fazia seu coração pular de repente. O moreno nunca pareceu notar e seguia agindo normalmente.
Centésima? Milésima? Milionésima?
Virou um hábito para os dois saírem juntos agora que o incidente do assassino em série havia chegado a um fim junto com o tempo de recuperação submetido aos três. Shouto se pegava pensando se Tenya precisava de algo, mesmo quando seu braço esquerdo estava completamente curado, ele não conseguia evitar.
E ele nem percebeu que algo havia mudado até Bakugo apontar, “melosos do cacete.” durante um dos raros momentos em que ele participava do grupo por insistência de Midoriya. Ouve uma calmaria na conversa do grupo antes de outros concordarem, na brincadeira.
—É bonitinho. – Uraraka disse, lhe dando um olhar que dizia que ela sabia de algo que ele não. Diferente dos outros, ela não parecia estar zoando completamente...
Então o assunto passou para frente e os outros não estavam mais interessados nele ou em seu jeito “meloso” com Iida. Porém, isso grudou insistentemente em sua mente pelos próximos dias.
Uma incontável infinitiva?
Uma vez que Shouto percebeu como ele enxergava Tenya, a ficha caiu – uma conscientização que continuava exigindo sua atenção.
Era como um pequeno beliscão quando o moreno estava por perto e quando ele não estava, havia um zumbido de memorias envolvendo-o, assolando sua mente. Um estranho e interessante sentimento incômodo com o qual Shouto não estava acostumado.
Para saciar esse sentimento ele se permitiu começar a tocar Iida mais do que eles estavam habituados. Felizmente, Iida não parecia notar nada fora do comum.
E assim se seguiu, até que olhares secretos e toques furtivos já não eram o bastante.
O ponto de ruptura veio enquanto estudavam sozinhos na biblioteca, já que Izuku e Uraraka tinham ido embora primeiro, para seus respectivos trabalhos de meio período. A biblioteca estava quase deserta, apenas um ou outro estudante aqui e ali. A mesa deles era a mais afastada no canto, parcialmente escondida por estantes de livros.
Shouto observou Tenya rabiscar em seu caderno, atenção dividida entre escrever e passar os dedos sobre o parágrafo do livro ao qual ele estava copiando ou fazer qualquer anotação que ele julgasse importante. E se perguntou...
—Iida. – ele falou calmamente, a caneta batendo ritmicamente contra a mesa. O moreno desviou os olhos do livro e olhou para si.
—O que foi, Todoroki-kun?
Sem questionar muito sua própria decisão, ele disse. – O que você faria se eu dissesse que eu gosto de você?
Iida piscou, sobrancelhas se franzindo um pouco antes de responder cautelosamente. – Eu suponho que eu diria que eu também gosto de você? – o final da frase se confundiu, transformando-a em uma meia-pergunta, uma confusão provocada pelo repentino tópico.
—Eu gosto de você. – o heterocromático disse então, sem muita certeza do porque ele não deixou esse assunto simplesmente pra lá, desde que Iida não havia percebido sua intenção.
Iida se surpreendeu um pouco, mas sendo sincero ele respondeu. – Eu também gosto de você.
O coração de Shoto perdeu o compasso e ele respirou fundo sabendo que mesmo que as
palavras fossem tecnicamente as certas, o sentido não era.
—Eu gosto de você. – ele repetiu com mais convicção.
As sobrancelhas de Iida se franziram, mas ele repetiu sua resposta anterior. O coração de Todoroki pulou outra batida.
Quando Shouto repetiu isso pela terceira vez, a confusão do moreno se transformou em preocupação e ele virou para encara-lo de frente.
—Todoroki-kun, você está bem?
—Não foi isso que você disse que faria. – Shouto se exaltou. Ele tentou manter a calma, mas não conseguiu.
—O que? – a confusão voltou e se estabeleceu junto à preocupação evidente no rosto de Tenya.
—Quando eu disse que gosto de você. – fechou os olhos e suspirou. Isso não era exatamente o que ele esperava que fosse acontecer aquele dia. Não era o que ele esperava se quer acontecer algum dia. – Não foi isso que você disse que faria.
Um barulho vindo da direção de Iida o fez abrir os olhos e ele viu o moreno se aproximando de si.
—Iida...
Sua voz travou quando uma mão quente foi pressionada em sua testa.
—Todoroki-kun, você está se sentindo mal? Você está agindo estranho. – Tenya olhou para ele, uma ruguinha profunda entre suas sobrancelhas.
—Eu estou bem. – Shouto disse, mas ele não se afastou, pois gostou da sensação da mão de Tenya em sua pele. Quando ele não pareceu convencido, Shouto repetiu.
O moreno pareceu relaxar por alguns segundos, então mordeu o lábio inferior.
—Bem... – Shouto tencionou o corpo, impedindo de se inclinar em busca do calor perdido quando Iida colocou ambas as mãos no próprio colo. Não se lembrava de quando havia começado a observar a linguagem corporal dele, mas Shouto poderia dizer que Tenya estava nervoso e essa era uma das raras ocasiões em que ele parecia não saber o que falar. – Se você não está doente, algo aconteceu? Você normalmente não é tão...
O moreno olhou para baixo por um momento, provavelmente procurando as palavras certas, antes de continuar. — Expressivo com as palavras.
Shouto quase riu. Quase. Ele não poderia, entretanto. Ele estava cogitando ir embora, voltar para seu dormitório e, bem, dormir. Ele cogitou em continuar onde estava, com Iida. E pensou que, talvez, aquele estivesse sendo o dia mais cagado de sua vida.
Mas no fim, ele apenas acabou murmurando.
—Eu estou falando sério.
Tenya, não seguindo o raciocínio de Shouto, respondeu com um confuso: — O que?
Ele é adorável, disse uma voz dentro da cabeça de Shouto. Ele a ignorou porque ele já sabia disso, obrigado. Ele não precisava de mais isso para atormentá-lo naquele momento em específico.
—Eu estou falando sério. – disse lentamente, mais claramente impossível. – Eu gosto de você.
Apesar de toda sua lerdeza, Tenya ainda entendia certas coisas sobre Shouto. E ele soube que com certeza aquela não era uma declaração casual de afeto entre amigos.
O heterocromático nunca imaginou que alguém poderia ficar tão vermelho tão rápido. O contato visual entre eles durou pouco até o momento em que Iida desviou o olhar para
qualquer ponto longe do outro, colocando uma mão sobre a boca.
—Iida.
—Eu não entendo o que você está querendo dizer, Todoroki-kun. – sua voz saiu como a de um robô em mal funcionamento, travada e baixa, ainda evitando contato visual.
Shouto não pode segurar um pequeno sorriso ao ver que Tenya estava corado até as orelhas. Mesmo se fosse rejeitado, ao menos ele poderia ter aquela imagem guardada em seu coração.
Mas querer voltar a terra firme quando se está em queda livre de um penhasco, é pura tolice.
Ele se aproximou lentamente para não alarmar mais o moreno, e delicadamente afastou a mão que cobria seu rosto e segurou seu queixo, fazendo-o olhá-lo nos olhos.
—Eu quero dizer, que eu gosto de você.
—T-Todoroki-kun...! – uma tosse incontrolável interrompeu sua frase, e Iida cobriu seu rosto com ambas as mãos.
Preocupado, Shouto deu umas batidinhas em suas costas, tentando ajudar.
—Iida, tudo bem? – perguntou quando finalmente a tosse parou e os ombros do moreno pararam de tremer.
—Eu estou bem. – ele disse, ou pelo menos foi isso que Todoroki pensou ter escutado ele murmurar abafado por sua mão.
—Desculpe. – o heterocromático murmurou, descansando uma mão entre as omoplatas de Iida. Ele se perguntou se estava destruindo a relação importante que eles haviam construindo ao longo do tempo. Seu peitou doeu. Relacionamentos são tão frágeis, ele pensou. — Se você é
contra isso, é só fingir que eu nunca disse nada. – disse, tentando não deixar transparecer.
Ele não entendeu a resposta de Tenya e pediu para que ele repetisse, chegando mais perto.
Tenya olhou para ele entre os dedos, e Shouto pode ver que ele ainda estava completamente vermelho até as orelhas.
Ele não sabe o que Tenya viu em seu rosto, mas isso faz com que ele parasse de tentar se esconder, arrumando a postura, mãos colocadas sobre seu próprio colo.
—Eu não... – pigarreou, arrumando os óculos que deslizavam pelo nariz. — Eu não tenho nada contra.
—Não? – sua voz soou mais surpresa do que ele imaginou.Iida balançou a cabeça. — Eu fiquei surpreso. Eu nunca imaginei... você, e eu, nós. E somos ambos homens... isto é, eu não sou contra, é que... entende?
—Entendo. – Shouto respondeu. Tudo ainda era novo, afinal até alguns meses eles eram amigos e agora ele gostava do moreno mais do que como um amigo, então é claro que entendia mais do que qualquer um. — Mas você não é contra isso, não é?
—Não. – a voz de Tenya era baixa, mas mais segura do que anteriormente.
Houve uma pausa, onde o que ambos ouviam era apenas o som de seus próprios corações batendo, olhares compartilhados.
—Eu gosto de você. – Shouto disse, sentindo como se seu coração fosse sair pela garganta, mas ele já havia chegado até aqui, não tinha porque se segurar.
Tenya não disse nada imediatamente e cada segundo em silêncio que se passou parecia uma rejeição silênciosa.
—Eu também gosto de você.
Ele quase não acreditou nas palavras que escutará, mas seu coração sabia que não era uma ilusão. Tenya não fez nada além de esperar por sua reação, ainda quase tão corado quando mais cedo.
—Mais uma vez. – Shouto conseguiu sussurrar, sentindo suas mãos tremerem.
—Eu gosto de você. – Tenya disse, e desta vez, as palavras estavam certas.
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