Notas iniciais
Caso algum erro gramatical tiver me escapado peço desculpas.

Ele estava com uma camisa do nirvana tremendo de frio em cima de uma mala vermelha na estação de metrô. Eu só queria voltar pra casa. Meu casaco cinza era desconfortável, minha mãe comprou um menor que o meu número, mas resolvi usa-lo. Nunca fui de sentir muito frio mesmo.

Ver aquele cara com o cabelo grande parecendo algum cantor de rock de anos atrás me fez perder o senso do comum.

Coloquei o casaco sobre seus ombros.

—Obrigado.—disse ele ainda tremendo.

—Ok—respondi rapidamente, pois o trem que eu ia pegar chegou e eu fui embora.

O rosto dele se fixou em minha mente. Imaginei que estava indo pra longe, pela mala.

Quando minha mãe sentiu falta do casaco falei que tinha perdido. Ela nem ligou.

Só vi aquele cara de novo mais ou menos uma semana depois. Uns amigos me arrastaram para um barzinho qualquer no fim de semana. Eu me negava a beber e eles a me deixar ir para casa quando uma banda começou a se apresentar, e ele era o guitarrista. O som estava estranho, a bateria mais alta que o vocal, mas eu não conseguia desgrudar os olhos dele. Legião, Engenheiros, Beatles e outras mais... Foi bem rápido. Quando dei por mim já tinha acabado.

Eles sentaram-se a uma mesa e eu me voltei à conversa que tínhamos sobre os freios ABS e airbags.

Saímos já bem tarde. Andávamos em direção ao carro, cujo único além de mim que não bebeu iria dirigir quando reconheci a voz dele me chamando.

— Ei!—Senti sua mão de leve em minhas costas e me virei.

—Ah,boa noite. Tocaram muito bem.

— Ah, muito obrigado.— ele procurava algo na mochila—E por isso também.—Disse me entregando o casaco cinza.

Ele devolveu e disse sorrindo:

—Agora eu consegui comprar um.—só então notei que ele usava um casaco vermelho.

—Isso é ótimo. Pelo visto você gosta de vermelho.

—Poxa, tão obvio?

— só pensei por causa da mala.

Fiquei olhando seus olhos castanhos e analisando seu rosto e ele o meu alguns segundos. Só depois percebemos como era constrangedor e desviamos o olhar ao mesmo tempo.

—Vambora tartaruga!—gritou Valter.

—Então a gente se vê. —disse voltando pro bar.

—é... Se vê.

Quando minha mãe notou o casaco de volta eu disse que um amigo tinha encontrado e me devolvido.

No dia seguinte, sábado, iam dedetizar minha casa, minha mãe me expulso e me mandou ficar o dia todo fora. Passei o dia andando de skate no parque, jogando e fazendo nada, mas a noite só pensei em um lugar que eu queria ir: Aquele barzinho. Talvez eles tocassem de novo...Mas encontrei quem procurava antes mesmo de chegar lá, encostado à parede, com as mãos nos bolsos do casaco vermelho e o olhar focado no vazio. Sua boca sangrava.

—Você está bem?—Ele me olhou meio assustado e pude ver que seu olho direito estava inchado.

—Ah, isso...não é nada grave.

— A banda brigou?

Ele fechou os olhos e sorriu tristemente.

—Você é bom em dedução.

Encostei-me à parede também.

— Quando vi aquela mala achei que iria para longe.

—Você errou nessa.— ele voltou seus olhos ao céu.—Só sai de casa tentando ser livre.— ele esticou seu braço para o cima—Não sei se vou conseguir.

Eu o olhava. Seus olhos brilhavam e refletiam algo mais...

—Espero que chegue o mais perto disso que puder.

—Você é realista. Isso é...

—Ruim?

—Talvez um pouco. —Ele virou-se pra mim.

Seus olhos sorriam, não sei explicar, mas tudo que eu queria era ficar olhando aqueles olhos castanhos...

Meu celular tocou. Mensagem mandando voltar para casa.

—Tenho que ir.

—Até algum dia.

—Até...

A imagem dele olhando as estrelas não me saia da memória, Sonho, esperança, liberdade...Nunca fui muito disso, mas depois de vê-lo parei para pensar sobre o assunto. Ele era parte do que faltava em mim, e me completava. Estava confuso...Eu...Não sabia o que pensar mais. Ele era um garoto assim como eu, mas...mesmo assim...Em meio a essa confusão eu caí no sono.

Esperava que fosse demorar mais tempo para revê-lo, mas no fim da tarde de domingo o Valter me ligou pedindo para pegar um presente pro casamento da irmã dele num bairro que eu nem conhecia só fui porque ele disse que era emergência. Acabei me perdendo. Fui parar no bairro errado, longe pra caramba de minha casa. Já era noite, o Valter deu um jeito, mas eu fiquei lá, perdido.

De repente senti uma mão em minhas costas.

— Ei!—reconheci na hora aquela voz.— o que faz por aqui?

—Na verdade estou perdido.

—Como isso aconteceu?

—Longa história...Sabe me informar sobre o metrô?

—O ultimo que vai pra algum lugar saiu há 10 minutos e as pistas de ônibus estão interditadas.

Suspirei. O que eu ia fazer? Taxi em dia de domingo em minha cidade era lenda urbana, sem falar que mesmo se tivesse eu não ia ter como pagar.

—Se quiser pode passar a noite em meu apartamento.

—Não quero incomodar.

— Não irá. Vem comigo depois você manda uma mensagem pra sua mãe.

Ele era muito calmo, acabei indo por não ter escolha. Andamos duas ruas em silêncio, na curva um prédio cinza chamava atenção. O apartamento era pequeno e simples e ele dormia na sala.

— Pode ficar com o sofá. —Ele disse me entregando um cobertor.

Enviei uma mensagem a minha mãe dizendo que tinha me perdido e eia dormir na casa de um amigo ela respondeu “ok.”.

— Vai dormir agora? — ele perguntou.

Eu queria dormir e ignora-lo, mas ao mesmo tempo queria ficar acordado e perguntar sobre ele e por que ele chamou um estranho pro próprio apartamento.

—Não.—acabei respondendo.

Ele sentou do meu lado no sofá e ligou a tv.

Não prestei atenção no que ele assistia, mas parecia muito interessado.

Olhei pro chão com interesse anormal. Não queria olha-lo mais. Fiquei encarando a cerâmica.

Depois de um tempo tomei coragem de olhar pra ele e ele dormia.

Eu devia acorda-lo?

É...eu devia acordá-lo. Do jeito que ele estava provavelmente ia ficar com um torcicolo.

Cutuquei seu braço. Ele levantou a cabeça lentamente.

—Vai ficar com torcicolo se dormir assim.— Alertei.

Ele me olhou sonolento. Mesmo assim seus olhos eram incríveis.

—acabei dormindo, foi mal. — Ele desligou a TV. — A cerâmica daqui nem é tão interessante sabe...—Ele disse meio travesso.

Um diabinho travesso de olhos castanhos. Diverti-me com essa ideia.

—Na verdade tem um monte de defeitos, uma mais alta que a outra, e umas rachaduras nada que prejudique o resultado final.

Ele deslizou até onde eu estava, segurou minha mão e inclinou seu rosto sobre o meu.

Meu coração batia mais rápido, mas eu não me afastei. Ele encostou seus lábios nos meus.

—Boa noite.— Ele deitou em seu colchonete no chão e dormiu.

Dormi também.

—Você não tem aula hoje?— Me perguntou de manhã. Olhei o relógio.

—É tarde demais pra isso.

—Se quiser ficar mais um pouco eu não me importo.

Ao mesmo tempo em que eu queria ficar eu queria fugir.

—Ou se quiser, a gente pode sair...—sugeriu.

— Sair. Parece interessante. — sorri.

Ouvimos músicas, fomos a um parque, sinceramente aquele dia passou muito rápido. No fim da tarde nós voltamos pro meu bairro, o lugar mais perto que o metrô parava era perto daquele barzinho, a rua que o vi olhando as estrelas...Eu abracei e ele me beijou, nada mais importava...nem se era dia, noite, nem se achariam estranho nos ver assim nem se o mundo explodisse...

Ele estava com uma camisa preta com umas frases aleatórias em inglês e tremendo de frio, segurando sua guitarra e esperando o metrô. E eu também. Ele se esqueceu de pôr o casaco que eu cuidadosamente coloquei sobre seus ombros.

—obrigado.

—Ok, o metrô está vindo vamos nos apressar.

—Acho que a banda pode esperar para me ver.

— é, mas eu não.

Ele riu, e seus olhos encontraram os meus.

Tudo que eu queria era olhar aqueles olhos castanhos para sempre.

Notas finais
Eu queria escrever algo meio misterioso sem muita descrição e sem dar nome aos personagens e saiu essa história.
Começou com um rascunho no caderno que na verdade resolvi digitar só pra me livrar das folhas e, bom, já que estava no pc, por que não postar?
Sobre a capa: Juro que tentei fazer o lado vermelho parecer um menino, mas meus esforços foram em vão. Espero que tenham gostado... e se quiser comentar,sinta-se a vontade.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!