Não Toque na Minha Maçã
2 À Primeira Vista — Parte Um
Notas iniciais
À PRIMEIRA VISTA
PARTE UM
Minha mãe me levou ao aeroporto com as janelas do carro abertas para me deixar com os cabelos eriçados e o rosto ardendo pelas chicotadas do vento fustigante. Eu tinha vontade de pedir para levantar os vidros, mas nosso velho amigo ronda não tinha ar-condicionado, então era uma simples questão de escolha entre parecer que tinha enfrentado um furacão no Alabama ou a claustrofobia num calor de trinta graus fedendo a couro velho e colônia feminina barata.
Além disso, era engraçado observar minha mãe, que parecia estar incorporando uma cena de algum clipe da Madonna; usava uma de suas faixas multicoloridas na cabeça e óculos de sol gigantes que tapavam um terço de seu rosto, desafiando a gravidade com seu nariz de Mary Poppins. O cabelo loiro e fino parecia muito bem que poderia ser deixado para trás com a força da ventania na janela enquanto nos dirigíamos a noventa quilômetros por hora na rodovia.
Em compensação, eu estava bem mais modesta, quase uma musa do NSYNC. Usava minha blusa preferida, com detalhes em renda vermelho-cereja e um decote em V que valorizava minha pele e a cor saudável pelos quilos de protetor solar que eu era obrigada a usar todos os dias em Phoenix, junto de uma saia godê preta e branca um pouco acima dos joelhos que Mariah, minha melhor amiga, havia me dado como um presente de despedida enquanto molhava de lágrimas o meu ombro na noite anterior, enquanto nos despedíamos após meu último dia de aula na Phoenix High School.
Provavelmente, aquela era a minha última chance de exibir as pernas antes que eu chegasse ao meu inefável destino. Na península Olimpic, no noroeste do estado de Washington, há uma cidadezinha — com ênfase no diminutivo – chamada Forks, quase constantemente coberta por um lençol de nuvens pesadas, cinzentas e que pareciam chorar por estar ali quase tanto quanto seus moradores. Minha mãe costuma dizer que somente os fracassados escolhem morar lá, mas é claro que parou de falar sobre isso quando eu me mostrei uma fracassada e...bem, estou prestes a entrar em um avião.
Chove mais nesse fim de mundo a que me refiro, que em qualquer outro lugar dos Estados Unidos, o que quer dizer muito. Foi desse lugar deprimente e melancólico que minha mãe fugiu comigo quando eu tinha apenas alguns meses de idade. Acho que o tédio foi tanto, que ela fugiu só para ter o que fazer já que lavar louças não estava mais funcionando.
Desde então, sou obrigada a passar um mês de cada verão em Forks com o meu pai, Charlie Swan. Quer dizer, mais ou menos; quando fiz 14 anos, dei as costas aos critérios de guarda compartilhada e bati o pé, negando-me a perder o bronzeado naquelas terras úmidas. Assim, uma vez no ano, meu pai vem me visitar em Phoenix ou vamos para a Califórnia, onde ele fica em um hotel e tenta não olhar para minha mãe como se ela tivesse posto refrigerante no carburador de seu carro toda vez que se esbarram, embora para fins de empatia para com Charlie, ela tenha mesmo feito isso antes de abandoná-lo.
Chamando a cidade de fim de mundo e a maldizendo para cada amigo meu na escola em cada mísera oportunidade, deve ser confuso imaginar os motivos pelos quais estou há algumas horas de me exilar lá sem data predeterminada para retornar. Para mim, também era difícil imaginar uma realidade utópica e alternativa na qual eu fizesse isso.
Sempre fui uma garota com alma ensolarada de cidade grande. Após terminar o ensino médio, meus planos sempre envolveram me mudar para Miami e cursar as disciplinas necessárias do college em uma Universidade antes de encontrar uma boa escola para lecionar.
Bom, isso foi antes de minha mãe se casar com Philippe Dwyer e, mesmo a ideia de morar com meu pai solteirão e caladão, parecer mil vezes mais agradável que ficar num lugar com um homem ligeiramente estranho em uma casa cujas paredes são impossivelmente finas.
Não que eu não gostasse de Phil. Ele era uma ótima pessoa, muito responsável e jogava em um time de beisebol de segunda divisão que, muito provavelmente, não iria arcar com os custos dos luxos fictícios da minha mãe, mas pelo menos irá ajudar a realizar a viagem ao Marrocos que ela sempre quis fazer. Durante o período de namoro, durante aqueles sete meses em que eu digeri a ideia de que minha mãe estava apaixonada, foi até mesmo interessante; Phil comprava pizzas para nós quando nos visitava e sempre me deixava ficar com a sua porção de fritas quando íamos lanchar no shopping.
Ainda assim, as coisas mudam um pouco quando você começa a viver sob o mesmo teto que a pessoa. De repente, Phil passou de “a pessoa que vejo ocasionalmente nos fins de semana” para “a pessoa que usa o nosso banheiro e deixa a tampa da privada levantada”. Além disso, como um esportista, ele começou a querer impor a todos os seus hábitos nutricionais. Minha mãe concordou, algo a ver com o colágeno, mas eu não tinha nem de longe tanta vontade assim de viver amargamente pelo resto da vida.
Então, para escapar de tudo isso, eu estava indo me exilar em Forks. A cidade no meio do nada. A Gotham City sem a parte interessante dos crimes nem o Batman. O local esquecido por Deus. Aquela que não habita no mapa. O fim do mundo contemporâneo. O refúgio dos encarcerados. Tive muito tempo para pensar em como chamar aquela cidade enquanto molhava meu travesseiro com lágrimas.
Eu adorava Phoenix. Adorava o sol e o calor intenso, e as trilhas, e o Grand Canion, e a vista vigorosa e esparramada que dizia muito sobre a energia do lugar. Amava que houvesse um clube com piscina em cada esquina e amava invejar constantemente o bronzeado dos meus amigos. Em Forks, não haveria nada para cobiçar. Lá, onde o sol não bate, todos seriam naturalmente pálidos como a morte, assim como eu venho me esforçando durante todos esses anos infrutíferos para não ser.
— Bella — Despertei de meus pensamentos desanimadores com minha mãe chamando meu nome pela centésima vez, antes de entrar no avião que me levaria rumo ao lar dos desabrigados. —, você não precisa fazer isso.
Minha mãe é parecida comigo, se você desconsiderar o cabelo curto, louro, e sem volume e as rugas de expressão e os olhos e todo resto. Pensando bem, não tenho quase nada fisicamente dela a não ser a pele muito clara que se ofende com facilidade ao menor indicio de sol. Senti um assomo de tristeza ao encarar seus olhos arregalados e cheios de um temor infantil. Como eu poderia deixar minha mãe espevitada, ingênua e descuidada se virar sozinha? É claro que agora ela tinha Phil e seu senso desordenado de alimentação segura, então as contas seriam pagas na data certa, haveria comida — mesmo que ruim — na geladeira, gasolina no carro e alguém para chamar quando ela se perdesse em algum corredor do supermercado, mas mesmo assim...
— Não me deixa ir, mãe. Eu não quero ir. Mas, por favor, me entenda, também não consigo escutar barulhos de sexo de madrugada, nem comer ovos e legumes dia e noite, muito menos correr dois quilômetros de manhã.
Isso foi o que pensei em dizer, mas o que eu falei foi:
— Eu quero ir — Uma mentira descarada, mas ultimamente ando contando essa mentira com tanta frequência que agora parecia verdade até para mim.
Minha mãe alisou meu cabelo e apertou meu nariz. A vontade de chorar ficou presa na minha garganta. Estávamos na sala de embarque. Depois que eu passasse pela roleta de aço e pelo detector de metais, seríamos apenas meu arrependimento e eu.
— Diga a Charlie que mandei lembranças e um chute na virilha, querida. Sentirei muito a sua falta.
— Direi. Também vou sentir sua falta, mamãe.
— Verei você em breve — Ela insistiu enquanto eu tentava fazer ela parar de bagunçar meu cabelo. — Pode vir para casa quando quiser. Eu volto da Flórida assim que você precisar de mim.
Obrigada, mas não. Eu podia ver o esforço hercúleo que ela fazia para prometer aquilo. A coitada parecia engasgada. Minha mãe é uma aventureira nata que havia cessado suas atividades aos dezoito anos, quando ficou grávida de mim. Eu seria eternamente grata a ela por todo o tempo que dedicara a minha criação, mas agora que era uma mulher casada, era chegada a hora de compartilhar suas loucuras com outra pessoa que não era eu.
— Não se preocupe comigo, mãe — falei, balançando a cabeça. Pelos autofalantes, anunciaram o meu voo. — Vai ser ótimo passar um tempo de qualidade com o Charlie. Você sabe como eu morro de medo dele contrair leptospirose do jeito horrível com que ele se mantém naquela casa.
Minha mãe riu e me abraçou com força até me deixar sem ar e com vontade de voltar para casa. Beijou todo o meu rosto e apertou minhas bochechas. Depois, entrei no avião e ela, gloriosamente assim como o sol, se foi.
Quando me acomodei na poltrona, fui preenchida por uma vontade vergonhosa de pedir a aeromoça que chamasse a minha mãe, mas vesti a calcinha de menina grande e coloquei o celular em modo avião para não atrapalhar a decolagem, colocando na playlist quando sentir saudades de casa que Mariah havia criado para mim.
De Phoenix a Seattle são quatro horas de voo sem escala, outra hora em um pequeno avião para condenados até Port Angeles, depois uma hora de carro até o covil Onde Judas Perdeu as Botas e As Roupas de Baixo. Voar nunca me incomodou. Na verdade, eu apreciava o sentimento de tranquilidade e liberdade; a hora com Charlie, porém era meio preocupante.
Puxei algumas das habilidades de linguística da minha mãe, mas quando se tratava de Charlie Swan, nem mesmo minhas parcas habilidades bastavam. Meu pai era a própria definição da introspecção por opção, um pouco debochado em seus melhores dias. No entanto, eu não podia reclamar, pois ele fora realmente gentil com tudo aquilo.
Como eu havia dito antes, as coisas mudam quando você começa a morar com uma pessoa estranha e Charlie e eu não sabíamos o que era conviver por muito tempo juntos há mais ou menos dezessete anos. Eu o considerava um bravo guerreiro por aceitar conviver com uma adolescente e, para o seu crédito, ele parecia realmente satisfeito que eu tivesse saído das barras das saias da minha mãe para morar com ele por um período mais longo. Ele já tinha até me matriculado na escola e iria me ajudar a escolher um carro com o dinheiro que eu estivera economizando pelo que me parecia uma vida ao longo dos anos.
Mas, sem dúvidas, seria estranho ficar uma hora com ele no carro e a voz de Johnny Cash ao fundo. Às vezes, meu pai incorpora aqueles filmes do faroeste e vai longe demais. Com seus gostos musicais, é exatamente assim.
Entretanto, se estava confuso com a minha decisão, ele não demonstrou. Não que houvesse como saber, de todo jeito, pois Charlie não é o que se pode chamar de transparência em pessoa. Eu supunha que ele tinha ficado no mínimo alarmado, porque tal como Renée, eu não costumava ser muito sutil quando o assunto era expor minha falta de afeição por Forks. Detestava aquele lugar e isso era o ponto final de qualquer assunto.
Quando pousamos em Port Angeles, estava chovendo. Tentei não enxergar aquilo como um mau presságio. Era apenas o clima daquele lugar se apresentando de cara feia para mim. Em meu favor, eu já tinha me despedido do sol há tempos. Tivera duas semanas após a minha decisão para lamentar secretamente em Phoenix.
Minha amada Phoenix. Eu mal havia posto um fim em nosso relacionamento e já queria reatar.
Charlie me aguardava na radiopatrulha quando arrastei minha mala para fora do aeroporto ridiculamente pequeno. Eu não queria, mas era inevitável não ficar comparando. Minha bolsa de mão parecia uma âncora no antebraço. O mais triste era que eu esperava por isso — a radiopatrulha, não a âncora, quero dizer.
Quando era menor e vinha passar meus verões com Charlie, lembro de amar andar naquela coisa. Às vezes, até pedia para ele ligar as sirenes e as luzes e fingirmos que estávamos em uma perseguição policial, embora sua velocidade não passasse nunca de quarenta quilômetros por hora. Era uma mescla dos sentimentos de vergonha e excitação. Agora, anos depois, só a vergonha prevalecera.
Ninguém quer chegar a uma nova cidade sendo o centro das atenções, a menos que tenha assistido muito Casablanca na puberdade. Eu tinha a esperança iridescente de parecer imperceptível como um móvel num antiquário; aquele que sempre esteve ali, mas que nunca é reparado e, de repente alguém tira uma pilha de trapos de cima, nota e fala “como eu não vi isso aí antes?”
Era como se Forks despertasse uma nova versão em mim. A garota que queria paz, calmaria e nada de problemas. Não que eu fosse uma garota problemática no Arizona, mas Forks me deixava melancólica como um hamster que descobre que pode sair da roda. Sair da roda e, aparentemente, cair diretamente nos braços do papaizinho de meia-idade.
Charlie me segurou em um abraço desengonçado de um braço só quando me aproximei. As luzes da cidade começavam a surgir na paisagem que escurecia, o crepúsculo não era nada bonito sem o sol para pintar o horizonte. No Arizona, as bordas do céu se manchavam de laranja, amarelo e azul, como se o mundo todo estivesse preso na cidade, consumindo lentamente o azul de um dia de sol espetacular; em Forks, o dia todo era escuro pelas nuvens de chuva, no entardecer, só ficava mais escuro ainda.
Escutei uma fungada perto do meu pescoço e torci para Charlie estar detestando o meu cheiro de rata de avião, porque se ele estivesse chorando, eu não saberia lidar.
— Oi, pai — Eu disse, sem jeito, distribuindo tapinhas aleatórios nas costas dele.
Por sorte, quando nos afastamos, seus olhos estavam bem secos.
— É bom ver você, Bells — disse ele, sorrindo enquanto automaticamente me segurava e me firmava com suas mãos calosas de homem do interior. Fiquei me perguntando se eu tinha uma aparência anêmica de quem não conseguia sustentar nem a si mesma. — Você não mudou muito, garota. Como está a sua mãe?
Não mudei muito?
Olhei bem para a cara cheia de pelo desgrenhado de Charlie — que ele gostava de chamar de bigode —, um discurso todo preparado na minha mente. Desde que tínhamos nos visto pela última vez, eu tinha cortado meus cabelos ondulados pouco acima dos ombros em um corte afiado na frente que deixava o meu rosto parecido com o de uma atriz, eu tinha um par de óculos de leitura no meu rosto que não estavam lá quando ele surgiu na Califórnia e tinha crescido dois centímetros. Como diabos aquilo se enquadrava em “você não mudou muito”?
Bufei. Homens...
— A mamãe está bem, te mandou lembranças e um chute na virilha. Disse que vai arrancar a sua medula pela boca se não cuidar bem de mim — respondi simplesmente. Eu estava disposta a escolher as batalhas que iria enfrentar com meu pai e sua falta de sensibilidade visual não parecia tão importante quanto a sementinha de desespero que estava sendo regada no meu âmago. — É bom ver você também, pai.
Infelizmente, eu não tinha permissão expressa para chamá-lo de Charlie em sua frente. Acho que meu pai tinha medo de que parar de chamá-lo assim, de alguma maneira fosse afrouxar ainda mais os laços que tínhamos construído tão parcamente em todos esses anos.
Uma vez, no verão passado, quando ele foi me deixar em casa após voltarmos da Califórnia, escutei Renée e ele discutindo na sala sobre Phil enquanto ia colocar minhas bagagens no quarto.
Charlie foi grosso e disse muitas coisas para minha mãe aquele dia, principalmente quando descobriu que ela iria se casar e Phil iria se mudar para nossa casa, mas eu entendi. Entendi mesmo. Ele estava apavorado com a possibilidade de um dia aparecer para me buscar e escutar sua filha dizer: adeus, mãe e adeus, pai para Renée e o cara que estava do lado de dentro da casa.
Naquele dia, pendurei-me no braço dele quando estávamos nos despedindo e falei baixinho:
— Eu já tenho dezesseis anos, pai. Não vou chamar Phil de nada além de, ocasionalmente, verdura ambulante ou babuíno desnutrido, se ele me irritar.
Desde então, eu tenho evitado o chamar de Charlie quando ele pode escutar. Dependendo do meu humor, ou se quero que ele coloque minha bagagem no porta-malas do carro como agora, eu posso até forçar e proferir um “papai”.
Eu só tinha uma mala de grandes dimensões e uma bolsa com roupas, pois a maior parte das minhas roupas do Arizona era leve demais para o frio do inferno congelado denominado Forks. Eu tinha gastado quase todo o meu último salário do meu emprego de verão na lanchonete dos Smith comprando roupas para o inverno, mas ainda assim, era um número bastante reduzido, porque roupas de inverno eram inesperadamente caras. Eu pretendia complementar meu guarda-roupa em Port Angeles na primeira oportunidade que tivesse.
Meu pai chiou quando ergueu a mala para colocá-la no carro e fingi não ouvir. Corremos sob a fina chuva para nos embrenharmos no calor aconchegante do veículo, cujo aquecedor estava ligado no máximo. Ele logo ligou o rádio, enquanto colocava seu cinto de segurança e me olhava de esguelha, esperando que eu colocasse o meu.
Cintos colocados, motor ligado e aquecedor fazendo seu trabalho, pegamos a estrada.
— Como foi a viagem?
Interrompi minha série de impropérios mentais à música country e respondi, em voz bem baixa e desanimada, exatamente como eu me sentia:
— Boa. Tinha um cara do meu lado que mastigava cheetos igual a um cavalo e a poltrona era horrível, não deitava por nada, mas tirando isso, foi agradável.
— Que droga — Quem era Abraham Lincoln perto da eloquência do meu pai? — Mas, acho que tenho uma notícia que irá te deixar mais feliz. Adivinha.
Ele me olhou com o ar de animação de um labrador retriever. Esperei.
— É para você adivinhar, Isabella.
Fiz uma careta nada condescendente.
— Achei que estivesse só dando um efeito na sua frase. Se eu gostasse de adivinhar coisas, faria honorários como vidente, pai — chiei.
Ele ativou os limpadores de para-brisa, pois a chuva estava aumentando consideravelmente enquanto ele nos colocava na rodovia intermunicipal. Por um momento, não deixei de pensar em como as gotas de chuva deslizando pelo vidro pareciam com lágrimas. Seria poético se não fosse tão triste.
— Vamos lá, Bells. Faça um esforço.
Suspirei para o vidro embaçado de minha janela, então me movimentei no banco, apoiando e dobrando uma perna sobre ele para direcionar o corpo de modo a observar o meu pai.
— Você irá tirar esse rato morto que descansa em cima da sua boca? — sugeri com um sorriso largo.
Charlie soltou um som similar a um bufo desacreditado.
— Isso é um bigode, Isabella — frisou. — Um bigode. Você não entende dessas coisas.
— Entendo que está feio — declarei, dando de ombros. — Você está passando uma baita de uma vergonha com isso aí, pai. Quando você fala, fico esperando que esse rato no seu rosto crie vida e saia correndo.
Ele me fulminou com o olhar, mas eu indiquei a estrada com o queixo, silenciosamente dizendo para que focasse no caminho. Charlie emitiu aquele som novamente.
— Tente ser menos chata, Isabella.
— Okay... — pensei por um segundo, então apontei um dedo em riste na direção dele, a expressão de quem dizia a rá. — Você arranjou um casamento para mim com um fazendeiro? Se for isso, já adianto que não quero, mas se ele for rico, podemos começar a pensar. Não quero ter que trabalhar enquanto eles dormem para sobreviver, prefiro ser uma esposa troféu.
Charlie comprimiu os lábios.
— Você é absurda, Bella.
— Então me fale logo o que é — sondei com um tom desconfiado. — Você não vai querer saber a próxima alternativa que tenho.
— Tudo bem, vou contar — Ele batucou os dedos no volante ao som de Johnny Cash. Eca. — Achei um bom carro para você, baratinho.
— Baratinho? — questionei com a voz estridente, desconfiada do modo como ele disse “um bom carro para você” em vez de simplesmente “um bom carro”. Ai, que medo. — Isso quer dizer que ele tem rodas, certo?
Meu pai revirou os olhos.
— Claro que ele tem rodas, Bella.
— E um motor? E bancos traseiros? E cintos de segurança? E aquecedor?
— Ele tem tudo isso... — Ele fez uma cara envergonhada e eu arqueei a sobrancelha, indignada. — Quer dizer, menos o aquecedor e os bancos traseiros e os cintos...
— Que tipo de carro não tem tudo isso e ainda pode ser chamado de carro?
— Na verdade, é uma picape, um Chevy — balbuciou. — Por isso a falta de bancos traseiros.
Eu entendia o suficiente de carros para saber que deveria ser uma lata velha pronta para passar dessa para a pior, mas me fiz de burra para Charlie não notar meu desespero.
— E todo o resto?
— Ele anda — Charlie disse como se isso fosse motivo o suficiente para eu ficar feliz.
— Onde o achou?
No ferro velho?, quase acrescentei.
— Lembra do Billy Black, de La Push?
Franzi as sobrancelhas.
— Aquele cara que parecia um gigolô irlandês?
— Não. Esse é o Peter Dunny.
Torci os lábios, pensando.
— Já sei! É aquele homem que gritava que a esposa tinha o traído sempre às sete da manhã? Ele também não falava para todo mundo que ia cozinhar um galo que o acordava, sendo que não tinha galo nenhum na vizinhança?
Charlie balançou a cabeça.
— Também não. Esse é o Oscar.
— Oscar de quê? — inqueri.
— Só Oscar. Ele não diz o sobrenome para ninguém.
— E o senhor nunca pensou em investigar isso? Ele pode ser um foragido da justiça se escondendo em Forks.
Charlie deu de ombros, fazendo uma curva fechada e um carro buzinou atrás de nós antes de nos ultrapassar. A vontade de me inclinar pela janela como teria feito em Phoenix e gritar “passa por cima!”, foi grande, mas a velocidade da chuva que despencava do céu era maior. Preferi ficar bem quietinha dentro do carro. Corria o risco de provocar um dilúvio naquela barca se abaixasse o vidro.
— Eu não. Se ele não tocar fogo na minha casa, por mim ele poderia se chamar até Voldemort.
— Que belo policial, pai — sibilei. — A cidade deveria ter orgulho de você.
Ganhei um olhar estreito.
— Não sei se gosto do seu tom, mocinha.
— Você ainda não me disse quem é Bull Jack — relembrei, fugindo do assunto.
— É Billy Black — Charlie corrigiu e eu estreitei os olhos também. — Ele costumava pescar com a gente no verão.
Isso explicava porque eu não lembrava desse homem. Eu era bastante competente em bloquear da minha memória coisas dolorosas e/ou desnecessárias.
— Ele agora está em uma cadeira de rodas. Na verdade, já tem alguns anos, mas eu disse agora porque...
— Eu entendi, pai, eu entendi — falei, dando um tapinha amigável em seu ombro. O coitado tinha sérios problemas de comunicação.
— Então, bem, ele — continuou Charlie quando eu esqueci o que ele estava dizendo e passei a admirar a paisagem que passava na minha janela através do aguaceiro. — ...não pode mais dirigir, e ofereceu a picape por um preço baixo.
Resmunguei em resposta.
— Eu vou querer saber de que ano é?
Eu podia ver, pela mudança de sua expressão geralmente ilegível, que essa era uma pergunta que ele não esperava que eu fizesse.
— Provavelmente, não.
Continuei o encarando. Ele se moveu, desconfortável, em seu assento.
— Bom, o Billy trabalhou muito bem o motor...Na realidade, só tem alguns anos. Nada demais.
— Alguns anos de acordo com os meros mortais ou alguns anos comparado à existência da terra? — zombei, mas por dentro cheia de um medo justificável. — Quanto mais suspense, mais eu fico preocupada. Quando foi que o Bull Track comprou?
— Billy Black — exasperou-se. — Comprou em 1984, eu acho.
— Ele a comprou nova, não é?
— Bom, não.
Ah, pronto. Lascou-se.
Charlie deve ter visto a minha expressão de decadência, pois, rapidamente, tratou de acrescentar:
— Acho que era nova no início dos anos 60...Ou final dos anos 50, no máximo. Nada com que se preocupar — admitiu ele timidamente.
— Isso deveria me tranquilizar? — indaguei, mortificada. — O que você foi me arrumar, pai?
Charlie parecia que tinha sido sacudido.
— Na verdade, Bella, o troço funciona muito bem! Não se fazem mais carros assim.
— Esse é o tipo de coisa que uma idosa do século vinte diria sobre o seu filtro de barro. O senhor quer que eu acredite que um veículo cuja designação é “troço” funciona bem?
Tive a nítida impressão de ver Charlie revirando os olhos.
— Olha, eu não tinha muito dinheiro, você não tem dinheiro e eu tive que tirar aquela sucata do quintal de Billy antes que ele infartasse por vê-la e não poder dirigir. Você deveria ficar agradecida, Bella.
Pressionei os lábios juntos e fiz um barulho irritante antes de fazer a pergunta de um milhão de dólares:
— Foi barata, barata mesmo?
Ele me olhou de cara feia. Ergui as mãos ao justificar:
— Só estou querendo saber mais detalhes do meu troço, se ele vai efetivamente me pertencer.
Meu pai me ofereceu um sorriso sem mostrar os dentes.
— O valor corresponde ao que você merece, querida.
Tomei meu tempo processando aquela informação e tentando decidir se ficar ofendida era uma boa pedida. Por fim, calei a minha boca. Não era como se eu realmente tivesse dinheiro para muito mais que um Mustang. Se eu morresse naquela lata velha enferrujada, passaria o resto da minha vida no além satisfeitíssima em saber que Charlie se sentiria minimamente culpado por não garantir a segurança de sua única filha.
Abri um sorriso forçado.
— Isso foi muito gentil da sua parte, pai. Eu agradeço muito. Só agradeceria mais se fosse uma BMW.
Ele deu de ombros, inflexível.
— Não foi nada.
Não foi nada mesmo, quase acrescentei.
Reclamei do clima e do bigode de Charlie mais duas vezes, mas a partir disso, a conversa não rendeu muito. Um cavalo perdido na estrada por pouco não deu um coice na minha janela e quase atropelamos um bode e minha dignidade perdida, mas tirando isso, seguimos tranquilamente na direção da Caixa de Pandora.
Quando passamos pela placa “Bem-vindo a Fucks” — alguém ali tinha ainda um pouco de senso de humor e havia riscado o nome da cidade —, empertiguei-me no assento. Era uma paisagem linda, é claro, isso eu não podia negar. Tudo era verde: as árvores, os troncos cobertos de musgos, os galhos que pendiam das copas, a terra coberta de samambaias verdejantes. Até o ar filtrava o verde das folhas.
Era verde demais — na melhor das hipóteses, um planeta alienígena, na pior, o interior de um pulmão cheio de muco.
Quando eu achei que teria que puxar conversa com Charlie sobre o tempo, por fim, chegamos em sua casa. Para seu demérito, ele ainda morava na casinha de dois andares que comprara com a minha mãe nos primeiros tempos em que eles ainda suportavam olhar na cara um do outro. Na verdade, aqueles foram os únicos tempos que o casamento teve. Minha mãe não era nada paciente e meu pai costumava se fazer de surdo para as reclamações dela. A combinação em dois jovens recém-saídos do ensino médio não deu muito mais certo do que enxofre e água benta.
Quando desci do carro, quase escorregando na entrada molhada e me firmando por pouco na porta do carona, desviei o olhar para o lado e foi quando eu a vi. Eu podia jurar que em algum lugar na minha mente tocava Love Is In The Air.
Eu estava certa. A picape era quase um lixo sobre quatro rodas e muito provavelmente deveria ter seu poder de circulação recusado e ser enviada para um desmanche, mas algo nela — talvez o seu tamanho semelhante ao de um trator enferrujado — me encantou. Claro que eu trocaria por um sedan sem pensar duas vezes, mas quem não tem dentes, mastiga com a gengiva, certo? Eu é que não me faria de tímida, ainda mais sendo de graça.
— Caramba, pai! — exclamei, pulando até o veículo que parecia uma carroceria de morte e me apoiando na janela fechada, com o nariz encostado no vidro enquanto tentava enxergar o interior. — Tirando a cor horrorosa, a lataria, os pneus e os bancos e as rodas, eu adorei! Obrigada!
Charlie meneou a cabeça como resposta, vi pelo reflexo. Coitado, estava muito emocionado. A julgar pela sua expressão na viatura, eu podia imaginar que ele pensava que eu viajaria diretamente para o aeroporto a fim de voltar para casa ao ver o que ele me comprara.
Agora, porém, meu dia melancólico estava consideravelmente melhor. Eu conseguia imaginar quantos adolescentes espinhentos eu poderia apavorar com aquela coisa. Sem falar que ninguém pensaria em roubar o meu troço. Eu ainda corria o risco de capotar na estrada com aquilo, mas pelo menos, eu não seria assaltada. Era uma vantagem.
Outra vantagem, foi que uma viagem bastou para levar as minhas coisas para cima. Charlie jogou minha bolsa de viagem no ombro e ergueu a minha mala. Foi somente quando alcançamos os pequenos degraus que levavam à porta da frente, que ele começou a sentir falta de ar.
— Por Deus, o que você está levando nessa mala, garota?
— Um cadáver — respondi, categórica.
Ele me lançou um olhar tão feio que aposto que teria me deserdado se tivesse algum bem para deixar a gerações futuras.
— Eu ainda não sei porque me dou o trabalho de te perguntar as coisas.
Eu, moça carente e desapropriada de bens que sou, ainda pretendia ter acesso à poupança da faculdade, então abri rapidamente um sorriso lisonjeiro.
— São só livros, pai, caso esteja preocupado com a idoneidade da sua única parente direta viva.
Charlie bufou.
— Que tipo de pessoa paga a mais para despachar uma mala com livros?
— Eu diria que essa pessoa sou eu, mas quem pagou pela passagem foi a mamãe.
— Você e Renée são loucas.
— Já nos acusaram disso antes.
Eu não disse para ele que, na verdade, isso não era muito raro acontecer. Minha mãe era maluca e eu me fingia de uma por osmose. Fazia dezessete anos que nosso esquema estava funcionando e não tínhamos sido presas ainda.
— Por que não deixou sua mãe enviar os livros depois, garota?
— E ela vai. Você sabe que tenho muitos outros em Phoenix, pai. Os que trouxe são só os meus livros preferidos, os quais não consigo passar muito tempo longe.
— Ótimo. Eu espero que eles sejam realmente bons, ao menos, porque temos um orfanato em Port Angeles e você ainda é menor de idade — Ele resmungou, mas parecia estar sorrindo sob todo aquele pelo indefinido colado em sua face. Assim como eu, meu pai era um leitor assíduo. Durante anos, nosso maior e mais profundo contato haviam sido as cartas que trocávamos a cada quinzena com dicas e livros que achávamos que o outro iria gostar. Isso significava que, apesar de toda a reclamação, meu pai era o responsável em maior parte pelo orgulhoso acervo literário que ocupava as quatro paredes do meu quarto no Arizona.
Sentindo-me particularmente solidária com os homens taciturnos de meia-idade, acabei ajudando-o a carregar a mala para dentro e pelas escadas, pois uma das rodinhas estava faltando quando a peguei na esteira de bagagem do aeroporto.
Fiquei com o meu quarto de sempre, pois a casa só tinha dois quartos: o do lado oeste que dava para o jardim sem graça da frente. Ele tinha piso de madeira, as paredes azul-claro, o teto pontiagudo que lembrava uma torre-prisão, as cortinas de renda amarelas na janela — tudo isso fazia parte da minha infância e era uma decoração que eu não tinha feito questão de mudar já que nunca passava mais de um mês ao ano naquele lugar durante a adolescência. Agora, no entanto, minha estadia era permanente e eu não sabia se ria ou chorava com a ideia de ter que mudar muita coisa naquele espaço. Talvez ligasse para Mariah mais tarde e pedisse algumas ideias suas. Minha melhor amiga era expert em saber fazer muito com pouco espaço e, no caso do meu quarto, o espaço era mínimo.
A única mudança que Charlie fizera fora trocar o berço por uma cama em que provavelmente minha avó tinha dormido na minha idade e acrescentar uma escrivaninha com um computador pré-histórico ao lado da cadeira de balanço que minha mãe usava para me amamentar. Eu tinha minhas sérias desconfianças de que a cadeira se reduziria à pó ao menor indício de alguém se acomodar nela.
Colocamos minhas coisas no chão e fui lavar as mãos da viagem. Charlie desceu as escadas para evitar uma conversa constrangedora sobre as regras da casa e fazer sabe-se lá o quê. Enquanto me dirigia ao fim do corredor, a percepção de que só havia um banheiro pequeno no segundo andar me tomou, seguida do pânico de que teria que o dividir com o homem que estava no térreo e dizia ser meu progenitor.
Corri escada abaixo assim que percebi esse pequeno detalhe e falei com a voz aguda para meu pai, que estava na sala, do topo dos degraus:
— Essa casa ainda tem só um banheiro?
Ele estava assistindo a um jogo no sofá, de costas para mim, e tomou um gole de sua cerveja despreocupadamente.
— Bom, se ela não quis fazer uma mudança no estilo desde que eu fui te buscar no aeroporto, sim.
Eu coloquei as mãos no quadril, despreparada para o peso daquela informação.
— Sabe o quão pouco higiênico é duas pessoas dividirem o mesmo banheiro, pai? — questionei.
Charlie comemorou um home run e nem me encarou ao dizer:
— Tem o quintal da parte de trás e uma moita com bastante privacidade nele. Folhas macias demais. Sinta-se à vontade, querida.
— Como o senhor sabe que as folhas...Quer saber? Deixa para lá! Mas o senhor que fique sabendo que sempre levo uma revista de palavras cruzadas para banheiro comigo.
Voltei, arrastando os pés para o meu quarto sem escutar outra frase desrespeitosa para com a minha pessoa e fechei a porta, caindo na cama de barriga para cima e encarando o teto da minha torre.
Tentei pensar nos ruídos sexuais nojentos e em minha mãe feliz e contente ao planejar sua mudança para Flórida para me sentir consolada por minha escolha, mas foi só quando lembrei de Phil falando no quanto minhas expectativas de vida se tornavam ainda mais reduzidas a cada vez que eu tomava um refrigerante, que me convenci de que me isolar em Forks fora a melhor opção.
A melhor das qualidades de Charlie é que ele não fica rondando a gente. Eu guardei as minhas roupas na cômoda de pinho que cheirava a mofo com tranquilidade, sabendo que se deixasse para o dia seguinte, provavelmente ainda estaria com as roupas na bolsa quando chegasse a hora de ir para a faculdade e xinguei palavrões que fariam minha língua cair sem ter ninguém para me rondar. Depois, arrumei minha mochila com os materiais que possivelmente usaria nas aulas do dia seguinte e deitei em posição fetal na cama, com minha necessárie em mãos, mas sem forças para me arrastar até o banheiro.
A Forks High School tinha um total assustador de 357 — agora 358 — alunos; em Phoenix, havia mais de setecentas pessoas só do meu ano. Todas as crianças daqui cresceram juntas: comendo lama e beijando os próprios primos ou seja lá o que crianças do interior fazem no tempo livre. A probabilidade de todos ali serem parentes em algum grau não me seria estranha, embora certamente nojenta. Eu seria a garota nova da cidade grande, uma curiosidade, uma aberração com o cabelo lindo e nenhuma paciência.
Talvez, se eu fosse uma verdadeira garota de Phoenix, poderia tirar proveito disso. Mas, já afirmei que não me pareço em quase nada com Renée, então sobram poucas opções além de Charlie a que minha genética pôde recorrer. Eu poderia ser bronzeada, atlética, loura — uma jogadora de vôlei, embora eu me aventurasse na torcida pelos créditos extras —, mas nunca fui muito adepta aos esportes. Mesmo nos que eu me esforçava, era sempre um pouco mais lenta, um pouco mais mole, um pouco mais tensa que as outras pessoas que tinham isso em seu sangue.
Então, em vez de todas essas características, apesar do sol constante de Phoenix, o máximo a que posso chegar é uma cor saudável sem parecer um camarão que tostou no sol. Sempre fui magra, com algumas poucas curvas que eu agradecia unicamente ao balé por terem se formado quando Renée estava tentando explorar minhas habilidades para descobrir se alguma delas poderia nos beneficiar; meu cabelo é de um estranho tom que herdei de minha avó Swan, ruivo demais para ser considerado castanho e castanho o suficiente para parecer pretensiosa e levemente arrogante se me autointitulasse ruiva.
Sempre fui aquela garota que se dá bem em clubes de literatura, xadrez ou debate, embora debate possa ser questionável pois sempre choro quando colocada sob muita pressão. A essa altura da minha vida, já me acostumei a ser aquela a quem as pessoas costumam recorrer para solucionar problemas, mas sempre me dei melhor com pessoas mais velhas e, mesmo essas, nunca pareciam estar em completa sintonia comigo.
Às vezes, eu me perguntava se via as mesmas coisas que o resto do mundo. Talvez, houvesse um problema no meu cérebro. Talvez, eu fosse mentalmente incompetente.
Entretanto, não importava a causa. Só o que importava era que eu estava prestes a ser enclausurada em uma escola com 357 pessoas, cujo presidente do grêmio devia ser a mesma pessoa que molhava a roupa ao beber água no bebedouro. Isso reduzia a minha chance de achar alguém que prestasse para perder minha virgindade em níveis estratosféricos.
Tarde demais para me deletar daqui, Planeta?
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